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Erotização, adultização e patriarcado 
Controle Remoto
23 nov 2020 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br)

O elenco de Stranger Things

O excesso de informações e de exposição nas redes sociais afetam de forma intensa os jovens usuários, ainda em fase de desenvolvimento subjetivo e biológico. Para entender de que forma os consumidores infantis são afetados, é necessário compreender as pressões estéticas e a erotização sofrida pelos próprios atores infantis, também vítimas da  massiva indústria cultural. 

A série Stranger Things estreou em 2016 e ficou em evidência no Brasil, conquistando muitos de seus fãs em pouco tempo após a sua adição na plataforma de streaming. No entanto, os seis protagonistas da série correspondem a atores mirins.

O elenco da série já foi alvo de diversos ataques e expectativas. Parte do público se esquece que os atores são jovens menores de idade. O ator Finn Wolfhard, que interpreta o personagem Mike, já foi abordado de forma inapropriada pela modelo Ali Michael. Ela comentou no Instagram do ator, e o aconselhou a entrar em contato com ela daqui quatro anos, tempo que demoraria para Finn completar 18 anos.

A atriz Millie Bobby Brown, um dos destaques de Stranger Things e que ganhou notoriedade recentemente pelo filme Enola Holmes, repercute com certa frequência na mídia sobre essa questão. Ainda no primeiro ano da série, a atriz foi inserida na lista das mulheres mais sexy, quando Millie tinha ainda 13 anos de idade. Recentemente, no seu aniversário de 16 anos, a atriz fez uma postagem e um vídeo em seu Instagram comentando um pouco sobre esse assunto que permeia a sua imagem desde que despontou: 

Millie fala sobre comentários que recebeu ao longo da carreira em postagem do Instagram no dia de seu aniversário. [Imagem: Reprodução /Instagram]

Millie fala sobre comentários que recebeu ao longo da carreira em postagem do Instagram no dia de seu aniversário. [Imagem: Reprodução /Instagram]

“Eu sinto que mudanças precisam acontecer não apenas nessa geração, mas na próxima. Nosso mundo precisa de bondade e apoio para que nossas crianças possam crescer e ter sucesso. Os últimos anos não têm sido fáceis, eu vou admitir. Têm momentos em que eu fico frustrada com a falta de exatidão, comentários inapropriados, sexualização e insultos desnecessários que recentemente têm resultado em dor e insegurança pra mim, mas eu nunca serei derrotada. Eu continuarei fazendo o que amo e espalhando a mensagem para provocar mudanças.

 

As imagens impostas e o “natural”

Embora relacionados, um processo de adultização pode não representar uma erotização. A adultização corresponde a uma criança desempenha um comportamento adulto, enquanto a erotização é quando essa criança está sendo exposta a um estímulo de sensualização adulta, não necessariamente à prática sexual.

A docente do Departamento de Psicologia da Educação, coordenadora do programa de pós-graduação em Educação Sexual da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara Andreza Marques de Castro Leão comenta que os veículos midiáticos se aproveitam disso para reforçar os valores estéticos ditos ideais.

Esses produtos culturais e empresas lucram com a venda desses padrões, além de prometerem aprimorar a plástica corporal e manter e promover a beleza, e assim posterga o aspecto de jovialidade.

O mercado reconhece as crianças e os adolescentes como potenciais consumidores desses valores. Por isso há um investimento considerável nas mídias. Andreza destaca a existência de linhas de maquiagem, cosméticos, roupas, entre outros inúmeros artefatos que acabam adultizando este público. Isso afeta a maneira deste público se comportar, e instiga uma erotização precoce.

A psicóloga Arlete Girello Gavranic, especialista em terapia sexual e em educação sexual da Sbrash, Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, fala mais sobre a criação de expectativas em torno de uma “performance” feminina e os sofrimentos e dilemas em torno da questão. Para ela, atualmente, as meninas deixam de experimentar aquilo que vai contra sua imagem “polida” de uma autenticidade: “É interessante perceber a perda de oportunidades na infância feminina por causa dessa sensualização. E quando ela se propõe a desempenhar esse papel, é vital que ela ganhe. Apenas participar, integrar e competir não é suficiente, espera-se que ela seja a vencedora. As mulheres estão incorporando um peso que antes pertencia ao masculino”.

Gera-se uma ansiedade imensa e cria-se a uma ideia de desempenho muito grande nesse público. Arlete comenta que esse pensamento reside em “eles não poderem viver por viver, ou brincar por brincar. Não podem praticar uma atividade ou um esporte pelo prazer de viver aquele esporte. Precisam ser sempre a estrela”. 

Concurso Miss Infantil no programa do Silvio Santos. [Imagem: Reprodução/Arquivo SBT]

Concurso Miss Infantil no programa do Silvio Santos. [Imagem: Reprodução/Arquivo SBT]

Quando nos referimos à cultura, torna-se difícil utilizar a palavra natural. A mestre e atual doutoranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais Talita Aquino fala que pensar sobre naturalidade e essência é algo complicado nesse cenário, mas ressalta que há uma descoberta na sexualidade, no desejo por outros corpos. A comunicadora fala que esse processo de reconhecimento pode ser incentivado ou negado socialmente. E a partir disso entra o efeito das imagens culturais como uma ferramenta de incentivo da sexualidade normativa, a partir das situações de erotização e adultização. 

Talita comenta que “não há uma fronteira específica entre a imposição e a descoberta da sexualidade”. Há uma construção conjunta, e por mais natural que esse processo de descoberta pareça ser, estará impactada por mecanismos culturais. Ela salienta que se deve dissociar a sexualidade da prática sexual – beijar, casar, namorar. 

 

“Por que estamos demonizando apenas o funk?”

A fala acima, da mestra em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo e pesquisadora da indústria da música Rafaela Belo, retrata um pouco da forma como o funk é excessivamente responsabilizado por uma característica constituinte de nossa sociedade. Não se deve perder de vista que o funk constitui uma manifestação popular. Ela comenta que a causa da perseguição do gênero é justamente a sua origem nas classes mais baixas.

Rafaela comenta que a criança e o adolescente produzem aquilo que está no seu cotidiano. Bonés, correntes, óculos e danças fazem parte do esforço dessa faixa etária de pertencer a um grupo. Segundo a especialista em funk ostentação, os desejos e imagens presentes na música indicam um modelo de vida, um vislumbre do que significa o sucesso material.

O funk não é o primeiro gênero a ser demonizado pela sua origem popular. Um processo similar aconteceu com o jazz, atualmente considerado cult. Rafaela Belo diz que tal demonização ocorre até que a grande mídia e as classes mais altas mudem de opinião e passem a considerar essa expressão popular como uma manifestação cultural válida.

A objetificação dos corpos encontra-se estruturalmente na cultura da sociedade ocidental, especialmente o corpo feminino. Rafaela comenta que não devemos deixar de vista o aspecto patriarcal, machista e racista da cultura brasileira. 

Uma criança dançando funk provavelmente não possui o entendimento simbólico total daquela expressão. “Uma criança dançando e brincando junto com a família dela está reproduzindo a sua cultura. E se tem um homem olhando para aquela criança com um olhar sexual, o problema está nele e não na criança”, afirma Rafaela.

 

A performance esperada

Para falar sobre a forma como os corpos infantis são adultizados e erotizados, não se deve perder de vista seu ordenamento dentro da sociedade patriarcal. Dentro dessa consideração, o patriarcado não trata apenas dos corpos femininos, há também exigências das masculinidades, além de uma diminuição da valoração das pluralidades de corpos LGBTQI+. 

No ordenamento dos corpos femininos, fica bem claro o objetivo do casamento e, dentro desse contexto, da reprodução. Talita Aquino fala que o destino reprodutivo e de subserviência aos homens se desdobra em diversas camadas. Uma delas é a camada racial, uma vez que a objetificação dos corpos das mulheres negras ocorre em maior intensidade quando comparada àquela sofrida por mulheres brancas. “Há tanto uma forma diferente de controlar esses corpos, quanto uma diferença em sua classificação”, comenta Talita. Ela cita especificamente a criação de uma imagem hipersexualizada das mulheres negras com pele mais clara, às vezes consideradas pelo termo pejorativo “mulatas”. O caso da imagem da “Globeleza” foi um exemplo famoso de publicidade que explorou essa sexualização do corpo da mulher negra.

“Globelezas” dos anos 1994, 2005, 2011, 2014 e 2015, a última em que vimos essa exposição excessiva dos corpos. [Imagem: Reprodução/Arquivo Globo]

“Globelezas” dos anos 1994, 2005, 2011, 2014 e 2015, a última em que vimos essa exposição excessiva dos corpos. [Imagem: Reprodução/Arquivo Globo]

A questão etária configura-se como mais uma dessas categorias utilizadas na classificação de corpos, a partir do momento em que se nega a sexualidade das mulheres mais velhas e valoriza-se a figura jovem. Talita reitera que para as mulheres há uma cobrança constante de satisfazer essa figura padrão esperada, de uma mulher voltada ao espaço privado, focada na família. Essas feminilidades são buscadas nas atitudes cotidianas, e geralmente não ocorrem de forma consciente, já que as mulheres estão inseridas nesse universo simbólico desde seu nascimento. 

As meninas recebem na infância brinquedos que vão de acordo com esse destino esperado, como bonecas e acessórios que simulam atividades domésticas. Já os brinquedos dos meninos geralmente dão a ideia de ação – transmitem um sentido de prática de atividades – e valorizam a ideia do ambiente externo. Talita afirma que a performance de gênero na cultura se faz constantemente, não é algo dado e consolidado: “Os destinos femininos são enredados pelo patriarcado, mas nós o reforçamos através de nossas ações”. 

As crianças, principalmente em sua fase inicial de vida, buscam reproduzir comportamentos. Nesse esforço de reproduzir vivências vistas como positivas e belas, expõem-se os problemas decorrentes da falta de representatividade de corpos possíveis. A comunicadora social comenta sobre a dificuldade encontrada por crianças negras em se reconhecerem nessas mídias e como crianças bonitas e felizes, uma vez que não enxergam as imagens veiculadas como um futuro possível. Esse distanciamento da imagem considerada ideal reforça um imaginário de que aquela que não cumpre determinados requisitos torna-se menos mulher.

O reforço em criar conexões afetivas nas crianças – a partir de frases inocentes como, por exemplo, “olha como eles são bonitinhos juntos, parecem namorados” – já constitui uma adultização, mas que não é necessariamente erotizada. No entanto, para Talita, a partir desse esforço de criar uma conexão afetivo-sexual entre crianças, não apenas se reforça o “destino esperado” do patriarcado, mas também impede-se que aquela criança construa seus próprios processos de aproximação e distanciamento sexual, o que intensifica uma construção heteronormativa.

 

Educação sexual

Andreza destaca que é necessário diferenciar a educação sexual em nível formal e informal. A segunda faz referência àquela recebida pela criança desde seu nascimento, a partir da família, mídias e que vai até outras instâncias sociais, como as igrejas. Já a primeira se refere à educação sexual tratada nas escolas, ou que ao menos deveria ser.

Sobre a educação sexual formal, a docente da Unesp destaca que essa modalidade “apresenta  conteúdo, tem planejamento, e objetivos precisos. Não é o seu foco transmitir valores e, sim, informar, transmitir informações sobre sexualidade e seus distintos assuntos”. Andreza ressalta também a importância do papel do professor nesse cenário e que não lhe cabe impor valores, mas sim propor reflexões para que os alunos se informem sobre a sexualidade e assuntos relacionados a ela.

Quanto ao âmbito da educação sexual informal, Arlete adverte sobre os perigos de uma educação sexual extremamente permissiva: “A falta de limites não é benéfica, talvez ela traumatize mais do que pode se colocar limites, mas deve-se colocar limites da maneira correta. E colocar limites na maneira correta é conversar e explicar”.

A psicóloga alerta para a estrutura do ambiente intrafamiliar como um espaço muito comum na ocorrência de abusos sexuais. Ela fala sobre a importância de se explicar limites de aproximação e de exposição do próprio corpo.

O investimento na educação sexual ajuda a compreender a construção das performances de gênero. O conhecimento das estruturas culturais nos auxilia a entender a forma como se produzem as imagens infantis.

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