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Santa ou demoníaca: o paradoxo da figura feminina

Como as mulheres são retratadas pelo olhar masculino e a subversão de arquétipos em prol de uma formação individual

Moldura
11 ago 2021 | Por Ana Júlia Rocha Maciel (ajr.maciel@usp.br)

Freud, o pai da psicanálise, passou todo o século 19 estudando o comportamento do subconsciente humano e o ligou, necessariamente, à nossa sexualidade. No decorrer de seus estudos, o médico percebeu um padrão na leitura masculina sobre as mulheres, em que elas eram vistas apenas de duas maneiras: ou tomavam forma de mãe, que impõe medo e merece respeito, ou eram uma figura apenas sexual, na qual eles poderiam afogar todas suas expectativas carnais e somente essas. Assim, foi lançado o complexo de “Madonna- whore” (Madonna-prostituta), que atualmente é muito criticado por simplificar o segundo gênero de uma forma sexista.

Apesar do repúdio a essa teoria, explicitamente machista, as mulheres sempre foram e continuam, em certa medida, sendo retratadas de tal forma. Nas aulas de história da arte, muitas vezes, falta uma pequena explicação: o homem era quem pintava, esculpia e desenhava. Dessa maneira, as representações femininas, até pouco tempo atrás, na verdade, representavam o olhar masculino sobre as mulheres. 

Talvez isso explique porque o homem sempre significava poder e certeza e a mulher representava o que ela transmitia de si para os outros. Ou seja, ela dependia do olhar do outro para existir, o observador era o protagonista e ela apenas exercia o papel secundário. 

No entanto, isso escapa do mundo artístico: John Berger, crítico de arte inglês, afirma que as mulheres são fiscalizadas por elas mesmas o tempo todo. Desde a infância, parte da mente delas toma o papel masculino de se observar e de se punir, assim como um homem fictício faria.

Não há como fugir, criamos um mundo que os homens olham e as mulheres veem-se vistas. Todavia, como somos observadas? Mesmo sendo extremamente sexista, Freud está presente na arte: ou a mulher era representada como a mãe protetora ou a amante. A última sempre foi a preferida na ficção, mas e na realidade? A história nos conta: bruxas foram presas e queimadas, mas as princesas e as freiras não. Talvez seja isso. Na teoria, parece muito legal agredir os padrões, mas na verdade, ninguém quer ser executada. 

 

A princesa

Antes de precipitar-se, é preciso conhecer as mulheres angelicais que se encaixam nos padrões sociais. Elas eram as princesas das histórias de cavalaria, as ophelias de Shakespeare deitadas nas flores, as donzelas que receberam poemas do mal do século, também as virgens dos lábios de mel e, a mais conhecida, a mãe de Jesus. 

Na literatura brasileira é muito fácil reconhecê-las: leia José de Alencar e você encontrará Iracema e seus cabelos mais negros do que a asa da graúna e a meiguíssima e loira Ceci, de O Guarani (1857). Ambas representam as mulheres românticas, altamente idealizadas, sempre acompanhadas e salvas pelo príncipe. 

Mesmo que contra intuitivamente, esses livros não contemplam os “felizes para sempre” dos contos de fadas. Esse desfecho, altamente difundido pela Disney, adentrou nosso subconsciente, assim como a ideia de mulher deles: com certeza, as princesas são o exemplo mor de figura feminina angelical, o modelo a ser seguido. Elas pairam tão fortemente no inconsciente social, que ensinamos as meninas a se comportar como uma “princesa”. Mas o que as princesas fazem? Sentam na janela bordando e esperam pelo príncipe? 

Não é fácil, principalmente em tempos mais antigos, romper com esses valores, como fazia Elizabeth Bennet no livro Orgulho e Preconceito (1813). Se comprometer a cumprir os padrões significava — e muitas vezes, ainda significa — esquecer da sua liberdade, da sua sexualidade, de seus sonhos e de sua carreira para simplesmente ser desejada. Claro, que as mulheres devem ter plena liberdade para tomar suas decisões e ter o perfil perfeito de uma princesa, se for com seu consentimento.

[Imagem: Domínio Público]

Mas e se, talvez, ela quisesse ser a bruxa? 

 

E a bruxa

Segundo Rosana Lima Soares, professora da Escola de Artes e Comunicação da USP e pesquisadora no campo de narrativas e discursos, nós sempre preferimos as vilãs por uma razão catártica: elas fazem tudo aquilo que nós não podemos. No entanto, por mais que elas sejam mais “apaixonantes”, elas representam estereótipos de mulheres que não seguiram os padrões sociais. Para observarmos isso, basta analisar as donzelas machadianas: Capitu seria uma jovem adúltera e persuasiva, enquanto Sofia flerta com homens para ascender socialmente e Marcela é uma prostituta interesseira. Seria essa a forma que as mulheres, fora de um amor romântico, são vistas? Seria essa uma visão totalmente negativa? 

Primeiramente, é um fato: as vilãs estão, em grande parte das vezes, sozinhas, com inveja do amor dos protagonistas. Nessa visão tradicional, carreira e liberdade não seriam suficientes para a felicidade da mulher. Ela precisaria de um casamento feliz para ser completa, caso contrário seria sempre invejosa, infeliz, interesseira e, muitas vezes, sexualizada. 

Essa última característica nos intriga: porque as vilãs estão interligadas à sexualidade? Para exemplificar melhor essa história, na Bíblia, há Salomé, uma menina de 11 anos, a qual, influenciada pela mãe, pediu a cabeça de João Batista. Porém, ela foi transformada em uma adolescente pecaminosa que realizou danças eróticas nos sermões de Santo Agostinho. Assim, percebemos como essas características estão embaraçadas: uma mulher má geralmente é taxada como “puta” e vice versa, como se a liberdade sexual fosse mais um motivo cabível para recriminá-la.

Para a outra pergunta do primeiro parágrafo também há uma resposta apresentada pela professora Rosana: os estereótipos podem se transformar em modelos. Nem sempre esses arquétipos fixos são negativos, muitas vezes olhamos essas mulheres e nos inspiramos: são exemplos de como seguir suas carreiras, optar por não ter uma festa de casamento com um vestido em formato de bolo e continuar completa, mesmo que tentem fazê-las acreditar que não. 

[Imagem: Domínio Público]

 

E agora, quem sou eu? 

Felizmente, nós não somos nenhuma! Mulheres são indivíduos particulares que fogem da simplicidade de uma “Madonna” ou de uma “prostituta”. É claro que, na superficialidade de alguns momentos, a sociedade ainda propaga essas ideias, que criam tragédias: a anulação de um indivíduo e de seus direitos por ser, também, sexual, pode gerar, mais ou menos hora, uma posição agressiva contra aqueles que exercem livremente sua sexualidade.   

Ao entrevistar uma vítima, que aqui chamarei de Maria, ela afirmou que foi com apoio familiar que conseguiu parar de se culpar e voltar a ter confiança. Dessa maneira, fica claro: precisamos ser vistos como indivíduos para nos entendermos como tal. Nesse caso, a família foi quem proporcionou a “volta para realidade”, ou seja, que a fez voltar a se ver como mais do que a violência que aconteceu com ela. 

Enfim, a propagação dessa visão dualística da figura feminina, vista apenas como anjo ou como demônio, traz consequências indesejadas e transforma um indivíduo complexo em um simples perfil padronizado. Logo, deve-se entender que, mesmo que modelos sejam importantes, eles não são totalizadores da nossa sociedade: todas nós somos mais que uma princesa ou uma bruxa, somos pessoas que contemplam uma esfera maior do que a maniqueísta.

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