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Dissonância cognitiva: quando o cérebro é vilão

Como uma teoria retirada de uma seita explica a falta de imparcialidade em um julgamento, a crença em uma ‘fake news’ mesmo depois de uma contra-argumentação e outras incoerências?

Antroposofia
11 ago 2021 | Por Lorraine Moreira (lorrainemoreira@usp.br)

Chicago, 1950. A seita The Seekers pregava que um dilúvio devastaria o planeta Terra. Dorothy Martin, líder do grupo, declarava que os participantes da seita seriam salvos por um disco voador do fictício planeta Clarion. Acreditando nisso, eles gastaram as finanças economizadas, demitiram-se de seus empregos e fizeram tudo aquilo que sempre quiseram. O cientista Leon Festinger, impressionado com a situação, infiltrou-se na seita para investigar como os membros reagiriam quando o evento não ocorresse. Para a surpresa do pesquisador, eles tentaram confirmar a história contada pela líder: o grupo foi fiel à crença e por isso teria salvado a Terra. Segundo Festinger, os participantes adequaram sua visualização da realidade a fim de diminuir o desconforto gerado pela crença inicial não ter se concretizado. A isso deu o nome de dissonância cognitiva.

 

O que é a dissonância cognitiva?

Dissonância cognitiva | Altay de Souza

[Imagem: Reprodução/Altay de Souza]

O termo cunhado por Festinger, segundo Altay de Souza, psicólogo e apresentador do podcast Naruhodo, é “um comportamento que consiste na busca por coerência em nossas crenças e opiniões quando contra-argumentos nos são apresentados”. Altay explica que, a partir da dissonância cognitiva, criamos desculpas para lidar com o fato de que nossas crenças e opiniões foram refutadas por fatos. É importante ressaltar que essas “desculpas” não são feitas voluntariamente pelo indivíduo, mas, na verdade, são uma forma do cérebro lidar com cognições contrárias.

Para entender melhor a dissonância cognitiva, podemos pensar em diferentes exemplos cotidianos que demonstram a presença dela – afinal, não é preciso estar em uma seita para ser enganado por nosso cérebro. Uma pessoa acredita na existência do “kit gay” e, quando confrontada com provas apresentadas pela mídia de que se trata de uma fake news, dispara o comentário: “A grande mídia é uma farsa”. Outra pessoa diz amar os animais, mas come carne e, quando questionada sobre esse comportamento, fala que odeia pessoas veganas e que as vacas, por exemplo, não são animais de estimação. Outro exemplo é um fumante que, em uma conversa em que são expostos os malefícios do cigarro, diz: “Só um cigarro não faz mal, o problema é fumar um maço por dia”. 

Em todos os casos, a pessoa recorreu a justificativas que fazem com que ela acredite que sua crença inicial está correta. Isso explica a dificuldade de convencer alguém que uma informação é falsa, que algo faz mal a sua saúde ou que o comportamento de uma pessoa não condiz exatamente com o que ela afirma, por exemplo.

 

A teoria da dissonância cognitiva no processo penal 

Dissonância cognitiva | Ruiz Ritter

[Imagem: Reprodução/Ruiz Ritter]

A teoria da dissonância cognitiva estende-se para além do cotidiano e entra em campos mais complexos, como no caso do processo penal. De acordo com o advogado criminalista e doutorando em ciências criminais Ruiz Ritter, “a teoria da dissonância cognitiva aparece no processo penal sobretudo na postura do julgador de quem se exige atuação necessariamente imparcial, sob pena de ilegitimidade da sua jurisdição”.

Ruiz ainda afirma que o julgador pode entrar em dissonância cognitiva em diversas situações na marcha processual. Isso porque ele necessita tomar decisões e, inevitavelmente, tem pensamentos conflitantes. “Por conta desse conflito, há uma tendência a confirmar decisões em busca do equilíbrio do nosso sistema psíquico”. Um exemplo é um juiz que pode ter determinada posição desde a fase do inquérito, dando pouco valor às provas testemunhais do processo e realizando perguntas no julgamento que levem a uma confirmação de sua crença inicial – sobre quem é o verdadeiro culpado e a verdadeira vítima.

Pensando nisso, uma das principais questões envolvidas é se a dissonância cognitiva compromete a isonomia – princípio de que todos são iguais perante a lei. Ruiz declara que a dissonância “é um fator de comprometimento da imparcialidade, sobretudo no nosso desenho institucional, que impõe que um mesmo juiz atue durante longo período em uma investigação criminal”. Nessa situação, um juiz pode acabar tomando dezenas de decisões baseadas exclusivamente na versão acusatória.

“Não há abertura cognitiva suficiente para se decidir de forma imparcial. O comprometimento psíquico gerado por tantas decisões em um determinado sentido é geralmente irreversível”. Para o advogado, uma saída é o juiz conhecer o fato originariamente na fase processual, diante da versão de ambas as partes, para ser capaz de julgar com tranquilidade.

 

Dissonância cognitiva no processo penal –Imagem de um malhete

A dissonância cognitiva pode surgir em diversas situações, como no processo penal – e comprometer a imparcialidade de um juiz e o princípio da isonomia. [Imagem: Reprodução/Pixabay]

 

Ruiz ainda afirma que o juiz das garantias, cuja função em um processo é controlar a legalidade da investigação criminal e preservar os direitos fundamentais do acusado, colabora para amenizar os possíveis prejuízos gerados pela dissonância cognitiva e contribui com um julgamento baseado na isonomia.

“Por estar encarregado da legalidade da investigação preliminar e tomada de decisão nessa fase, ele permite que o futuro julgador do processo fique livre de pré-juízos e pré-conceitos advindos da versão exclusiva dos responsáveis pela investigação – seja a polícia ou o Ministério Público, por exemplo”. Nesse cenário, o julgador possuiria maior tranquilidade psíquica. 

Ruiz completa dizendo que a ausência do juiz das garantias em um processo, implica a ausência de imparcialidade. “Sem a participação dele, o juiz pode tomar sua decisão já na fase de investigação – voluntariamente ou não – e apenas a confirma durante o desenrolar processual”. 

 

Como resolver o problema?

Segundo Altay, a partir da distorção da realidade, a dissonância cognitiva gera separação e polarização. “Você acaba pensando que a pessoa ou a situação que te gerou incômodo faz parte de um grupo ou contexto que não é o seu”. Assim, usamos esse mecanismo para manter a ideia de que estamos sempre certos – e os errados são os que discordam de nossas crenças e opiniões. 

O psicólogo ainda diz que “a melhor forma de policiar esse comportamento é por meio da educação científica em conjunto da autoanálise”. Isso porque obter conhecimento sobre a dissonância, entender quais gatilhos levam uma pessoa a entrar nesse processo e observar o próprio comportamento são atitudes que diminuem a probabilidade de se entrar em dissonância cognitiva. Ele completa dando ênfase à autoanálise: “Quando acreditamos que estamos certos, não refletimos a respeito. Mas se nos perguntamos quão errados estamos em determinada situação, obrigatoriamente precisamos buscar fontes de informações e refletirmos a respeito”.

Altay ainda indica dois conteúdos audiovisuais com sua participação, para entender a dissonância cognitiva: um vídeo do canal do YouTube Nerdologia, em que explica por que é melhor estar menos errado, em vez de mais certo; e um episódio do podcast Naruhodo sobre os desafios da psicologia no Brasil.

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