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Falsas memórias: como surgem e o que acarretam
Corpo e Mente
10 mar 2021 | Por Ana Carolina Guerra (anacarolinariosguerra@usp.br)

Talvez você já tenha tido a sensação de que, com toda certeza, tinha colocado suas chaves no bolso da calça, mas, na verdade, as chaves continuavam intocadas no balcão da cozinha. Também, você pode já ter pensado que se lembra de um evento que aconteceu quando era apenas um bebê, sendo impossível que realmente se recorde. Ou, às vezes, você tem plena certeza de que choveu no dia do seu aniversário, porém, segundo todos os seus amigos, estava apenas nublado. Se você já passou por alguma situação semelhante a essas, de ter descoberto que as suas lembranças não são 100% verídicas, você provavelmente já teve falsas memórias na vida. 

Agora, se ficou curioso para entender que pegadinha foi essa que o seu cérebro te aplicou, os seus problemas acabaram: esta reportagem do Laboratório irá esclarecer todas as suas dúvidas sobre as falsas memórias.

 

Como funciona a memória?

Antes de entender como as falsas memórias são formadas, você precisa compreender o processo de criação das lembranças verdadeiras.

“Primeiro, deve-se entender que existem vários tipos de memória diferentes”, afirma William Cecconello, psicólogo forense e professor de Psicologia da IMED. Ele explica que alguns dos tipos mais recorrentes de memórias são a procedural, que está associada à realização de procedimentos, como aprender a tocar um instrumento ou dirigir, e a semântica, que é a memória do conhecimento, sendo a responsável pela memorização das matérias aprendidas na escola. Por outro lado, a memória relacionada à vivência de falsas recordações é a episódica, ou seja, a memória de eventos vividos, responsável pelas lembranças das festas de aniversários, das viagens e de situações trágicas, como um assalto. 

 

Lembranças sobre eventos vividos, como shows e festas, fazem parte da memória episódica. [Imagem: Danny Howe/Unsplash]

Lembranças sobre eventos vividos, como shows e festas, fazem parte da memória episódica. [Imagem: Danny Howe/Unsplash]

 

Cecconello explana que o processo de formação da memória é igual para todos os tipos de recordações e é dividido em três etapas. A codificação é a primeira, na qual o evento é observado e a informação é inserida na memória. Já a segunda parte é o armazenamento, que é o intervalo entre a codificação, ou seja, o momento em que ocorreu o evento, e o período no qual o evento é lembrado. Por último acontece a recuperação, sendo a fase em que o acontecimento é resgatado da memória e, assim, lembrado.

De acordo com Natalia Aggio, professora de Psicologia e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista para o Laboratório, as pessoas tendem a se lembrar mais de eventos ou situações que produziram respostas emocionais. Além disso, é comum recordar-se de memórias relacionadas ao estado emocional atual. Você, por exemplo, já deve ter tido a sensação de que, quando está muito feliz, a maioria das recordações são de felicidade, enquanto quando está triste, apenas consegue se recordar de tristezas e sentimentos ruins.

 

E as falsas memórias?

“Nós não somos os únicos seres vivos que têm memória”, diz Cecconello. Vários outros animais possuem memória, como os outros mamíferos, as aves e os aracnídeos. Segundo o professor, a função da memória, tanto nos seres humanos como nos outros seres vivos, é o aprendizado e, assim, a sobrevivência. Dessa forma, o surgimento da memória foi uma evolução que permite que os seres vivos recordem situações que possam colocar sua sobrevivência em perigo e as evitem.

Você certamente já vivenciou um exemplo real da função da memória na sobrevivência, só que provavelmente em uma menor escala. Isso deve ter ocorrido na sua infância, quando colocou seu dedo no fogão quente ou em uma tomada e percebeu que aquilo machucava. A partir desse fato, você aprendeu que não deveria fazer isso e sua memória sempre o lembrava de não encostar o dedo em tomadas e fogões quentes, assim, não se machucaria.

Como a função da memória é o aprendizado, isso permite que novas informações sejam inseridas na lembrança, mesmo após o evento já ter acontecido, pois o cérebro interpreta que está ocorrendo um novo aprendizado. Contudo, as novas informações não precisam ser verídicas: o cérebro as armazenará da mesma forma que as verdadeiras. É desse modo que as falsas memórias são formadas, como explica o psicólogo forense.

 

A memória apresenta como função o aprendizado. [Imagem: Robina Weermeijer/Unsplash]

A memória apresenta como função o aprendizado. [Imagem: Robina Weermeijer/Unsplash]

 

“No caso das lembranças falsas, sabemos que elas sempre têm relação, em geral implícita, com algo que realmente aconteceu”, informa a pesquisadora Natalia. Ou seja, como as memórias falsas são formadas a partir da inserção de uma nova informação em uma lembrança pré-existente, de certa maneira, uma parcela mesmo que mínima dessa memória realmente aconteceu, porém pode ter sido em outra ocasião. Por exemplo, você pode se lembrar que no dia do seu aniversário de oito anos estava passando na televisão um jogo da seleção brasileira, todavia, depois de um tempo, você descobre que esse jogo ocorreu no dia da sua festa de aniversário e não no dia em que você realmente completou oito anos. Sendo assim, a sua recordação de fato se relaciona com o evento original e uma pequena parte da memória é verdadeira.

Conforme discorre o psicólogo Cecconello, a inserção de novas informações errôneas em lembranças já existentes e, por consequência, a criação de falsas memórias, ocorre devido a processos de indução ou associação.

Natalia Aggio explica que a criação de falsas memórias por associação acontece quando a situação real e a falsa memória possuem uma base semântica, ou seja, uma relação de significado. No entanto, ter relação de significado não é equivalente a ter o mesmo significado, mas apresentar alguma ligação, podendo também ser uma relação de oposição. Além disso, a falsa memória precisa fazer sentido no contexto do evento original. 

“Por exemplo, se eu estou em uma sala e vejo entrar um cachorro, pode ser que depois eu me lembre de ter entrado um gato, mas certamente não me lembrarei de ter entrado um dinossauro”, exemplifica Natalia. Um outro exemplo é você se lembrar erroneamente que no Réveillon estava usando branco, contudo, sua roupa era amarela. Como no Ano Novo a maioria das pessoas veste branco e associa-se a passagem do ano com a utilização de roupas brancas, o seu cérebro criou uma falsa memória por associação. “Assim como o lembrar e o esquecer, as falsas memórias são um processo normal da memória. Não há nada patológico. E isso acontece por essa relação semântica”, esclarece a professora Natalia.

A formação por indução, por sua vez, ocorre quando uma outra pessoa sugere uma nova informação ao evento original, entretanto essa informação é falsa. Como a função da memória é o aprendizado, o cérebro interpreta essa falsa informação como um novo conhecimento sobre o evento original e a insere como parte da memória daquele evento. Um exemplo: você e um amigo são assaltados, você não se lembra da blusa do assaltante, porém, seu amigo afirma que a camiseta era vermelha. Depois disso, você tem a sensação de lembrar que a peça de roupa era realmente vermelha e até consegue descrevê-la com os mínimos detalhes, mas a blusa do assaltante era laranja.

 

Indução de falsas memórias e investigações policiais

 

Falsas memórias estão relacionadas à prisão de inocentes. [Imagem: Bil Oxford/Unsplash]

Falsas memórias estão relacionadas à prisão de inocentes. [Imagem: Bil Oxford/Unsplash]

 

Mesmo que as falsas memórias sejam um processo normal e, no cotidiano, não causem nenhum problema para as pessoas, quando se trata de um crime, a situação se inverte totalmente, podendo causar até a prisão injusta de inocentes. 

Segundo a professora Natalia, “ao fazer uma pergunta, podemos incluir pressuposições falsas que depois são lembradas pelos indivíduos como uma memória sua”. Sendo assim, perguntas mais específicas ou tendenciosas a certas respostas podem desencadear o processo de indução de falsas memórias. “Se eu pergunto ‘você viu a faca na mão do assaltante?’, eu já estou afirmando que existe uma faca. No futuro, a pessoa que não viu a faca pode passar a se lembrar de ter visto”, exemplifica Natalia.

 Como aborda Cecconello, algumas técnicas de interrogação e reconhecimento de suspeitos aumentam a probabilidade de indução de falsas memórias, enquanto outras técnicas contribuem para ampliar a credibilidade do testemunho e para que ele seja composto apenas de memórias verdadeiras. O psicólogo forense ainda adiciona que, no Brasil, os membros do sistema judicial, como juízes, policiais civis e militares, não recebem treinamento para utilizar as técnicas corretas nos interrogatórios e reconhecimentos.

 

Falsas memórias podem ser induzidas em interrogatórios. [Imagem: Freepik]

Falsas memórias podem ser induzidas em interrogatórios. [Imagem: Freepik]

 

Essa falta de treinamento específico acarreta na prisão de inocentes, como foi o caso de Israel de Oliveira Pacheco. De 2008 a 2018, Israel ficou preso injustamente condenado por roubo e estupro, devido a um reconhecimento errado que a vítima fez. Ele foi inocentado, após passar 10 anos preso, por um teste de DNA que comprovou que o seu sangue não era o que estava na cena do crime. Situações como a de Israel de Oliveira não são restritas somente ao território brasileiro. Nos Estados Unidos, o mexicano Angel Gonzalez ficou preso por mais de vinte anos, depois de também ser identificado erroneamente pela vítima em um reconhecimento na viatura.

Para o psicólogo forense Cecconello, o melhor método para diminuir a ocorrência de falsas memórias em interrogatórios é treinar os policiais para utilizar técnicas que não induzam as testemunhas. O professor explica que essas técnicas são focadas em estimular o indivíduo a recordar do evento e o descrever em suas palavras, tendo uma interferência mínima do interrogador. Ele também comenta sobre um procedimento na Inglaterra, no qual as testemunhas recebem um relatório para escrever com suas palavras tudo o que lembram sobre o evento, sendo esse um método que poderia ser aplicado no Brasil também. Natalia complementa: “Em geral, recomendam perguntas abertas, que não apresentem pressuposições sobre a existência de algo”.

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