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Final de Champions League é antologia pura
ARQUIBANCADA
25 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Tainah Ramos

Vestir a camisa do time. Colocar seu hino. Garrafinha de água. Sentar no sofá. Levantar. Sentar novamente. Bater os pés impacientemente. Beber água. Mandar mensagens. Analisar a escalação. Reclamar ou comemorar. Ansiedade. Tradição. Esperança.

“Die Meister

Die Besten

Les grandes Équipes

The Champions!”

Os dias de Champions League não são dias comuns, são sagrados. Lembro-me dos meus 13 anos. Era difícil dormir na véspera, e, no dia da partida, todas as aulas da escola pareciam eternas, não havia uma sequer em que eu não recordasse do meu santo compromisso da tarde. Ao chegar, o almoço era uma refeição em que os meus pais ouviam todas as minhas expectativas e preocupações para o jogo que viria. Cada segundo de um jogo de Champions é um segundo de explosão dos mais variados sentimentos, o qual desperta o amor e a dor.

A final da Liga envolve todas essas emoções, mas em doses ainda mais profusas. Na edição deste ano, a tradição vive em todas as cores, ou talvez em duas específicas – blanco e red. Em campo, são 17 orelhudas: 12 do Real Madrid, o qual busca a cada ano estender a própria história de glória; 5 do Liverpool, este que tem a oportunidade de se tornar o terceiro maior campeão da competição, deixando para trás Barcelona e Bayern de Munique.

Final da UEFA Champions League de 2005 (Imagem: Getty Images)

O histórico das duas equipes mostra que hão de sofrer, hão de sentir agulhadas na alma – não é possível descrever em palavras a recordação da final de 2005 para os ingleses, nem a de 2014 para os espanhóis. O jogo final não esconde as marcas desse passado, a única certeza é que ambos não deixam de lutar até o último apito. Eles sabem que 3 a 0 pode ser revertido, sabem também que, às vezes, a salvação vem aos 92 minutos e 48 segundos.

Se nas oitavas o impossível começa a cair por terra, na decisão ele é desafiado a não existir. Um jogo de UEFA Champions League não deixa ninguém indiferente, ele desestabiliza até o mais recluso torcedor, desperta cada amante do esporte. É arte. É Poesia.

Não deve ser explicado, deve ser sentido ao máximo, por todos as sensações humanas. É abandonar a razão, gritar e vibrar – no meu caso, quebrar o sofá da minha casa, sem querer, ao comemorar o gol de Sergio Ramos em La Décima. É se arrepiar quando toca “The Champions!”, “You’ll never walk alone” e “Hala Madrid y nada más”. É esquema tático, é técnica e, sobretudo, é coração.

Gol de Sergio Ramos aos 92 minutos e 48 segundos na final da Champions de 2014 (Imagem: REUTERS/Paul Hanna)

Somente a paixão pode viver e sobreviver a uma final de UCL. As equipes são representações disso, as personagens são Cupido e Psique, inteligência apaixonada, paixão exaltada, às vezes desesperada, Zinedine Zidane e Jürgen Klopp, a figuração plena do que está em jogo. Há que viver a partida, há que sangrar por suas cores, há que chorar de felicidade e de tristeza, há que roer unhas, há que explodir de amor.

O mundo vai parar, os bares vão se encher de torcedores emocionados vivendo seus dilemas. Cristiano Ronaldo, há tantos anos no topo, buscando coroar-se ainda mais. Mohamed Salah, brilhante, em alto nível, buscando receber o seu cetro. Poderia ser um filme da Marvel, uma série da Netflix, mas é apenas – indescritivelmente apenas – a gloriosa caça pela taça mais cobiçada da Europa. Só pode vencer quem muito sofrer, quem souber sofrer. Fernando Pessoa não imaginava, contudo a situação pode ser adornada com trechos de seu célebre poema.

Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Como arte, a única definição possível para o evento é antologia. A decisão é, por si só, um conjunto de grandes obras futebolísticas, de fãs empolgados e de inscrições históricas. Não há nada mais belo do que um sábado apaixonado pelos 90 minutos em que é travada a batalha entre Liverpool e Real Madrid. Não há nada mais belo do que duas equipes prontas a sofrer por esses mesmos minutos. Não há nada mais belo que a ascensão e a queda de impérios. Não há nada mais belo do que a união das duas torcidas com o Universo – não qualquer universo, mas o da Champions League. Kiev, a cidade das cúpulas douradas, agora possui o ouro desse espetáculo. Ela nunca mais será a mesma.

A cidade de Kiev para o jogo da final de 2018.(Imagem: SERGEI SUPINSKY/AFP/Getty Images)

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