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Fome de vencer
ARQUIBANCADA
11 fev 2020 | Por Vinicius Garcia (vini.garcia.ferreira@usp.br)

Em época de preparação para a Copa do Mundo, qualquer amistoso vale muito. Foi com essa mentalidade que a Tunísia, já classificada para a competição, entrou em campo contra a também classificada, e atual campeã europeia, seleção de Portugal. Logo no início, os lusos mostraram sua dominância, abrindo o placar aos 22 minutos. Porém, eles não ficaram na retranca, aumentando a vantagem para 2 a 0 doze minutos depois. Entretanto, a Tunísia não se entregou, diminuindo logo em seguida, aos 39. Aos 58 minutos, com o sol já posto, tensão total quando o goleiro tunisiano Mouez Hassen foi ao chão com uma suposta lesão. Durante a paralisação, os seus companheiros correram ao banco para beber água e se alimentar. Assim, eles voltaram com garra para empatar o jogo pouco depois, garantindo que saíssem com o empate.

Goleiro tunisiano muçulmano defendendo a seleção

Goleiro tunisiano defendendo a seleção [Imagem: Lance.com]

O incidente com o goleiro poderia ser visto como mais um momento comum em uma partida de futebol, porém, após o pôr do sol no próximo amistoso, contra a Turquia, a cena se repetiria, agora aos 47 minutos. Seria talvez uma fraqueza ao pôr do sol? Após viralizar na internet, foi explicado que essa foi a estratégia da seleção para que os jogadores pudessem acabar com o jejum do dia exigido pelo Ramadã.

O Ramadã, ou Ramadão, é um período em que seguidores da fé islâmica têm que jejuar durante todo o dia, podendo se alimentar somente após o pôr do sol. No mundo dos esportes, os atletas muçulmanos encaram um dilema muito grande, pois geralmente têm que ponderar o que vale mais para eles naquele dado momento. O Arquibancada explica um pouco da religião muçulmana e como os atletas lidam com ela no esporte.

 

Cultura muçulmana

O islamismo, num ponto de vista histórico, é uma religião abraâmica, ou seja, ela pertence à mesma linhagem que o judaísmo e o cristianismo. Inclusive, as três são bastante similares em suas crenças e livros sagrados, sendo os profetas reconhecidos por cada religião. Para os muçulmanos, o verdadeiro profeta é Muhammad, que é a maneira correta de se falar Maomé, e a presença dele é muito importante para os costumes de seus seguidores.

Dentre outros, um dos costumes únicos à essa religião é o já citado Ramadã, que muitas vezes não é compreendido plenamente por quem não o pratica. No imaginário muçulmano, o Ramadã é considerado o mês mais sagrado do calendário Islã, ocorrendo durante o nono mês. 

Por ser um calendário lunar, o período exato no calendário gregoriano (que é o mais utilizado nas sociedades ocidentais) do Ramadã é incerto, sendo sempre 30 dias, porém não sempre nas mesmas datas.

O caráter sacro dessa época se dá pois, na crença muçulmana, esse seria o período em que Allah, como designam Deus, teria revelado a Muhammad as palavras do Alcorão, livro sagrado dessa religião, análogo à Bíblia para os cristãos e à Torá para os Judeus.

Durante esse mês, os seguidores da religião precisam fazer o jejum (suam) da alvorada ao crepúsculo. Esse jejum, além da comida, inclui água e remédios. Junto a isso, é proibido fazer ou pensar em práticas sexuais, já que o corpo e a mente têm que ser dedicados à Allah.

O grande objetivo é separar esse tempo para se dedicar a fé, e assim, fortificá-la. Por isso, para os crentes, é muito importante respeitar essa tradição, que só não é praticada em casos muito específicos, como quando se está viajando, muito doente ou quando se está grávida, por exemplo.

Além disso, este ritual marca a entrada na vida adulta, já que os jovens só podem praticá-lo após a puberdade e com a permissão dos pais, o que é tratado com muita seriedade.

 

Sem jejum de jogos

A questão que fica frente a essa prática é quais seriam, então, os efeitos desse jejum no corpo de um atleta profissional? A resposta mais óbvia e que talvez venha logo à cabeça é que a fome e a sede podem fazer com que o desempenho do atleta caia, além de aumentar o cansaço deste. Porém, a questão é um pouco mais complicada que isso, e para entendê-la temos que compreender a tênue relação entre os alimentos e a formação do corpo.

Segundo Antônio Herbert Lancha Júnior, professor titular de nutrição da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, a comida carrega todos os nutrientes necessários para a formação dos diversos tipos de células do corpo. No caso dos músculos, muito utilizados por atletas, a composição é de 70 a 75% de água, sendo o resto composto por proteínas, carboidratos e minerais, tendo quantidades variáveis de gordura. O professor ainda diz que “para nutrirmos bem um músculo, precisamos de proteínas, e, fundamentalmente, carboidratos, já que a água armazenada no músculo depende diretamente deles, e se faltar carboidrato falta água, o que aumenta as chances de cãimbra”.

Então, para que um jogador não perca rendimento num jogo, ele precisa de aproximadamente quatro horas desde o fim do jejum para retomar seu desempenho. Quando questionado sobre os grandes desempenhos de atletas durante esse período, o professor diz que “os atletas que conseguiram grandes desempenhos durante o Ramadã são aqueles que já são grandes atletas naturalmente”.

Ainda nessa linha de raciocínio, Antônio pontua que a fé tem papel importantíssimo nesses casos, já que o fator motivacional é muito importante para o desempenho de um atleta. Porém, isso precisa ser somado à consistência que os grandes atletas têm por natureza.

Como exemplo para o efeito da motivação, Antônio explica que um atleta pode ter seu desempenho melhorado após um bochecho de água com açúcar, o que não ocorreria se a solução contivesse adoçante. “Mesmo que não haja consumo efetivo desse açúcar, o cérebro identifica o nutriente energético e manda um sinal para o centro de motivação”.

Por fim, o professor ainda pontua que uma supercompensação alimentícia no período em que se é permitido comer pode aumentar muito a gordura corporal, mesmo com o jejum durante todo o dia. Portanto, ainda é necessário se alimentar de forma moderada, com acompanhamento profissional, para poder manter o corpo em forma.

 

Pondo a religião em prática

Os muçulmanos encontram-se muito presentes na prática esportiva mundial, e o que não falta são exemplos de atletas tendo que conciliar a sua fé com a sua profissão. Frente a esse dilema entre profissão e fé, diversas saídas são usadas por aqueles que têm que tomar essa decisão. Alguns realizam o ritual normalmente, outros se abdicam da prática com base nas regras desta, e, em algumas raras vezes, a mais alta cúpula da religião muçulmana intervém e opina sobre o assunto.

Para aqueles praticantes do ritual em sua plenitude, não há muito mistério quanto a como se portam. Aproveita-se todos os momentos possíveis para comer, muitos acordam ainda de madrugada e alimentam-se antes de voltar a dormir, para poderem se manter bem durante o dia.

Porém, o que mais entra em jogo, segundo os relatos dos atletas, é o lado espiritual e mental deste período. Embora muitas vezes o corpo peça por água, por exemplo, a pura perseverança faz com que os atletas resistam a essa necessidade e continuem jogando em seu nível normal. Enes Kanter, jogador de basquete profissional, disse à ESPN americana que “É apenas a mente sobre a matéria, cara. Eu acho que isso apenas dá a você muitas vibrações positivas que simplesmente vão até lá para dizer: ‘Você sabe o que, eu estou fazendo isso por Deus, então Deus me ajudará”’.

Jogador muçulmano Enes Kanter defendendo o Portland Trail Blazers

Enes Kanter defendendo o Portland Trail Blazers [Imagem: Richard Mackson-USA TODAY Sports]

Kanter, inclusive, é um dos melhores exemplos quando o assunto é atletas no Ramadã. O turco, que atualmente joga de pivô no Boston Celtics, disputou os playoffs da NBA, o mais alto nível competitivo do esporte, enquanto praticava este ritual, e acabou por ter performances muito importantes para seu time.

O pivô é um caso bastante especial, pois, durante todo o Ramadã, falou diversas vezes de maneira muito aberta com a mídia sobre sua fé e como foi jogar sem poder ingerir qualquer coisa durante boa parte do dia. Kanter, que é assumidamente alguém que ama comer, diz que pratica jejuns uma ou duas vezes por semana durante a temporada regular, que ocupa a maioria do calendário do jogador, para que seu corpo se acostume com a falta de comida e não sofra além do esperado durante o Ramadã.

Além disso, talvez o detalhe mais bonito de sua história com a fé é que Enes tinha uma lesão no ombro, mas não podia medicar-se durante o dia contra dor que sentia na região. Isso levou o jogador a jogar muitas vezes com dor e, mesmo assim, o turco perseverou e conseguiu boas performances em vários jogos.

Em entrevista à ESPN americana, o jogador comenta um pouco de sua rotina, dizendo que acordava ainda de madrugada para se alimentar e remediar. Após isso, vivia seu dia normalmente, como qualquer outro fora do Ramadã, somente sem se alimentar. Então, em algo muito parecido com o feito pela seleção da Tunísia, ele aproveitava jogos que começassem ou ao menos durassem até depois do pôr-do-sol para poder se alimentar durante a partida, se não, ele compensava com uma boa refeição após o jogo.

Por fim, ainda comentou mais de uma vez sobre ter conversado com Hakeem Olajuwon, um dos melhores jogadores de todos os tempos e que também era pivô, sobre o Ramadã, já que o astro dos anos 90 também o praticava. Na conversa, Olajuwon ressaltava a importância da espiritualidade em todo o processo, sendo ambos os jogadores prova de que é sim possível manter-se em alto nível mesmo durante o Ramadã.

Porém, em casos em que o jogador não se vê apto a jogar fazendo jejum, há algumas maneiras de não praticar o ritual. A primeira é se encaixar em um dos motivos explicitados na tradição muçulmana para não participar do Ramadã. Isso é muito comum, por exemplo, na Copa do Mundo, que costuma coincidir com a tradição islã. Embora alguns jogadores optem por se manter na rotina muçulmana, alguns utilizam-se do fato de estarem viajando para se abster da prática.

 Na Copa de 2014, no Brasil, o assunto foi popular devido ao calor imenso do país, que realmente faria com que um jejum de água fosse no mínimo desagradável, se não impossível. Essa situação gerou um comentário interessante do craque meio-campista da Costa-do-Marfim, Yaya Touré, que disse “Jejuar? Você viu o clima? Eu morreria” em entrevista ao jornal árabe The National.

Entretanto, muitos jogadores, apesar de não quererem jejuar em competições esportivas importantes, não querem quebrar o jejum sob justificativa de viagem, já que isso não é tão bem visto. Uma opção é compensar o jejum em outro momento, algo que é possível segundo o Alcorão. Em outros casos, a decisão vem da liderança religiosa do país, como no caso do Egito: o mufti Shawki Alam, maior autoridade muçulmana do país, emitiu uma fawta, decreto religioso islâmico, permitindo que os jogadores pudessem escolher se participariam ou não do Ramadã. Medida similar foi empregada na Arábia Saudita, o que, reportadamente, não afetou muito os praticantes do ritual, que ainda totalizam grande números.

Seja qual for a solução, o tema sempre gera polêmica quando volta à tona. Sadio Mané, do Senegal, que também jogou a Copa, dividiu essa experiência com seu companheiro egípcio de time, Mohamed Salah. O Liverpool, time de ambos, chegou na final da Champions League, , maior campeonato de futebol de clubes do mundo, durante o Ramadã. Enquanto este suspendeu o jejum três dias antes da importante partida, o senegalês escolheu se manter na tradição e teve trinta minutos para se alimentar antes do jogo. Isso aparentemente não o afetou muito, já que ele marcou um gol e foi o principal jogador de seu time na final. 

Sadio Mané defendendo seu clube, Liverpoool

Sadio Mané defendendo seu clube [Imagem: Arquivo do Liverpool]

A maior polêmica, porém, talvez tenha ocorrido com o tunisiano Oussama Mellouli, nadador que conquistou o ouro na prova dos 10km de águas abertas nos jogos de 2012. Na crença islâmica, entrar em piscinas ou mesmo tomar banho é proibido pois a água poderia entrar no ouvido, o que contraria o mote de que nada pode entrar no corpo da alvorada ao crepúsculo. O nadador, na época, recebeu muitos comentários negativos de muçulmanos ao redor do planeta.

Oussama, nadador muçulmano

Oussama Mellouli, nadador alvo das polêmicas em 2012 [Imagem: Dominic Ebenbichler/Reuters]

Qualquer que seja seu lado no debate, é importante saber respeitar cada indivíduo em sua totalidade, e isso inclui sua religião. É inadmissível que se force algum atleta, ou mesmo um cidadão comum, a desrespeitar suas tradições. Porém, também é importante que se respeite os limites físicos do corpo, nunca os extrapolando em nomes de causa, o que já é, em partes, escrito no Alcorão e nas tradições muçulmanas.

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