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O mundo islâmico em São Paulo: um recorte para além dos estereótipos

Conhecendo um pouco melhor uma comunidade pouco comentada, mas que cresce e se mantém firme e forte entre tantas outras na megalópole brasileira

JPRESS
16 maio 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Marina Reis
marina_reis@usp.br

Muito se vê sobre as expressões extremistas do Islã. Notícias de ataques terroristas e sobre o chamado “Estado Islâmico” trazem visões rasas dos acontecimentos, o que ajuda a aumentar uma ideia negativa do islamismo no imaginário das pessoas.

Apesar da forma como tem sido retratado, curiosamente, o Islã é a religião que mais cresce no mundo. Com adeptos em todos os continentes, a previsão, segundo o Pew Research Center, é de que em 2070, a população islâmica ultrapassará em número de adeptos o cristianismo.

Com o aumento da visibilidade e a expansão nos últimos anos, a religião continua crescendo e tem forte presença no mundo todo. Isso acontece principalmente pela reafirmação das comunidades islâmicas como defensoras da vida, e como contrárias a todas as formas de extremismo.

A cidade de São Paulo não é exceção. Para onde quer que se olhe, é possível perceber inúmeras pessoas, culturas e costumes de diferentes origens. A religião islâmica é, com certeza, parte integrante dessa mistura, embora a maioria das pessoas saiba muito pouco sobre ela.

O grande problema é que essa falta de conhecimento pode levar a mal entendidos que disseminam visões limitadas e preconceituosas sobre os muçulmanos, o que mancha a imagem da religião e de seus seguidores.

Muitas pessoas, por exemplo, não veem diferença entre os costumes muçulmanos e a cultura árabe. Na verdade, ser muçulmano não significa necessariamente ser árabe ou descendente. A comunidade islâmica de São Paulo é formada tanto por árabes e descendentes, de maioria libanesa, quanto por imigrantes não-árabes e brasileiros, nascidos ou revertidos ao Islã. Na religião muçulmana, não se usa o termo conversão, pois se acredita que todas as pessoas nascem muçulmanas, mas, por inúmeros motivos, podem ser levadas a outros caminhos.

Foi a percepção do quanto a maioria de nós não sabe sobre essa comunidade que despertou meu interesse. Decidi investigar como essas pessoas vivem e mantém seus costumes nesta cidade de contrastes, em um país em que a religião islâmica não é considerada tão comum e ainda desperta muita curiosidade.

 

A religião

O Islã é uma religião monoteísta, ou seja, que aceita um único Deus. Ele é chamado Allah, embora não seja diferente do Deus único do cristianismo ou do judaísmo. Apesar de todas as distinções, as três doutrinas têm a mesma origem. Tanto que as histórias presentes na Torá, na Bíblia e no Alcorão Sagrado são, em grande parte, as mesmas. A diferença é que a história do Islã vai além de Jesus e considera-o profeta antecessor de Muhammad, que teria recebido de Deus o Alcorão Sagrado e se tornado o primeiro grande líder Islâmico. Vale lembrar que o correto é chamar o profeta por seu nome original em árabe e não por traduções, como Maomé.

Assim como as igrejas para os cristãos e as sinagogas para os judeus, as mesquitas são os locais em que muçulmanos se encontram para orações, sermões (principalmente às sextas-feiras, seu dia sagrado) e comemorações.

O Sheik é figura de destaque na religião, atuando como líder religioso e, em muitos países muçulmanos, também como líder político. No Brasil, sua imagem costuma ser bastante associada a pessoas de muitas posses, embora isso não seja necessariamente verdade, como explica o Sheik Xiita Rodrigo Jalloul. Ele atua como presidente do Centro Islâmico Fatima Zahra e é o primeiro e único nativo brasileiro a se tornar Sheik da linhagem Xiita.

Sheik Rodrigo Jalloul [Imagem: arquivo pessoal]

A separação da doutrina em duas linhagens, sunita e xiita, surgiu com a morte do profeta Muhammad. A primeira buscou seguir suas orientações liderada por seus companheiros religiosos e, além do Alcorão, segue também a Suna, livro com os feitos de Muhammad. Já a segunda buscou seguir a religião através da interpretação da família do profeta, seguindo mais à risca as tradicionais orientações do Alcorão. Segundo o Sheik, a maioria dos muçulmanos em São Paulo e no mundo é sunita.

 

Costumes

Um fato que chama atenção no Islamismo são os costumes dos praticantes. Os principais são as orações diárias, que devem ser feitas cinco vezes ao dia: na alvorada, ao nascer do sol, no meio-dia solar, ao pôr do sol e à noite. Em uma cidade como São Paulo, que nunca para, manter suas orações em dia pode se mostrar como um desafio na vida do povo islâmico. Recomenda-se que as orações sejam feitas em uma mesquita e no horário correto. Mas, caso não haja outro jeito, podem ser realizadas de outras formas. O importante é que sejam feitas em locais de privacidade e assim que possível, como afirma Hassan Ali Gharib, presidente da ARBIB (Associação Religiosa Beneficente Islâmica Brasileira).

Fatima Cheaitou nasceu e foi criada em família muçulmana e morou em São Paulo por boa parte de sua vida, embora agora viva no Líbano. Quando questionada sobre as dificuldades de manter os costumes, contou: “É bem complicado porque a gente tem essa necessidade de estar sempre correndo e fazendo mais e mais e mais. Mas, quando se coloca a religião como prioridade, a gente realmente faz sem perceber.”

Além disso, há diversos fatores que tornam a vivência dos muçulmanos um tanto diferente da que a maioria dos brasileiros têm. Isso porque a doutrina, esclarece o Sheik Rodrigo Jalloul, pretende orientar a ética e a conduta dos muçulmanos em diferentes esferas. Algumas das peculiaridades incluem a não ingestão de carne de porco e bebidas alcóolicas, além do consumo único de comidas denominadas Halal que significa lícito, autorizado, em árabe.

Para um alimento ser considerado Halal, ele deve seguir certas formas específicas de fabricação. No caso das carnes de frango e bovina, por exemplo, só podem ser consumidas por islâmicos se os animais tiverem sido degolados com as cabeças voltadas para Meca. A degola deve ser feita por um muçulmano, que pede autorização a Deus em sinal de respeito à vida e utiliza uma faca extremamente afiada, a fim de minimizar o sofrimento do animal.

À parte das orações diárias, conta o Sheik, o segundo costume mais importante para os islâmicos é o Ramadã. Neste ano, ocorre entre os dias 6 de maio e 4 junho. O mês do Ramadã é considerado um mês abençoado, pois é o mês em que Allah teria revelado ao profeta Muhammad o Sagrado Alcorão, base da religião. Durante esse período, tempo de reflexão, misericórdia e perdão, os muçulmanos mantém jejum e se voltam para as práticas religiosas.

“Para você entender o clima do Ramadã, ele é mais ou menos como o Natal para as pessoas [não-islâmicas] aqui no Brasil, em que se desculpam, dão presentes, estão mais alegres e comemoram.” O Sheik acredita haver também um benefício à saúde e à reflexão. “Porque, às vezes, a gente tem de tudo em casa e desperdiça. No jejum, você é obrigado a sentir fome e  a dor de outras pessoas. Ele também incentiva a solidariedade e é um trabalho espiritual. A pessoa se renova a cada a ano, tentando deixar hábitos ruins para trás.”, explica Jalloul.

 

Convivência e conflitos

Não é segredo que São Paulo é dominada por uma enorme variedade de expressões culturais. É natural que, em momentos de contato, algumas diferenças apareçam e gerem curiosidade, ou até alguns conflitos. Neste sentido, foi bastante interessante descobrir algumas das dificuldades pelas quais os muçulmanos passam nesta cidade.

Para Fatima, muçulmana que nasceu e cresceu no Brasil, a convivência sempre foi muito comum. Ela expressa seu alívio por nunca ter passado por nenhum ataque físico, embora conheça pessoas que foram alvo dessas agressões. Falando sobre sua experiência, ela conta que se sentia um pouco “de fora” em algumas situações: “Olhares feios, pessoas encarando, apontando, às vezes rindo ou me ‘zoando’, me chamando de mulher bomba ou falando ‘ah, volta pro seu país!’ coisas assim. Mas eu nunca me afetei por isso.”

Fatima Cheaitou [Imagem: Arquivo Pessoal]

A jovem, que é estudante de jornalismo e criadora de conteúdo digital para o seu canal Fala, Fatuma no YouTube, conta que sempre tentou se manter otimista sobre as dificuldades. Considera muito importante seu papel na divulgação do Islã através de informações corretas, a fim de desmistificá-lo para as pessoas que ainda não o entendem.

Ela relembra um caso acontecido há algum tempo: “Eu estava voltando da faculdade de ônibus e abri a mala para pegar o fone de ouvido. A mulher que estava sentada do meu lado começou a rezar. Então, eu, com toda educação, peguei o fone e fechei a mala.” Ela conta que não queria se sentir desrespeitada, mas ofendeu-se por acreditarem que ela faria algo. “Acho que isso é comum porque as pessoas não têm muito conhecimento. Com o canal, estou recebendo bastante comentários ruins, muitos me xingando. Só que estou tentando focar no positivo porque sei que eles não importam.”

O Sheik Jalloul começou seu aprofundamento nos estudos sobre o Islã também por entender a importância de divulgar a religião no idioma português e torná-lo mais acessível. Ele volta a salientar as dificuldades na alimentação Halal e nos lugares frequentados pelos islâmicos, onde não deve haver bebida alcóolica. Também conta que, para muitos brasileiros que se revertem, há certa dificuldade em manter os costumes islâmicos e as relações com familiares e amigos não-muçulmanos. Afinal, alguns dos costumes considerados típicos do povo brasileiro, como as reuniões e comemorações com churrasco, não seguem os preceitos aceitos pelos islamismo.

Além disso, ele revela que, mesmo usando o vestuário típico de Sheik, nunca sentiu tanto o estranhamento de outras pessoas. Acredita que as mulheres, pelo uso do véu, sentem isso de forma mais intensa.

Quanto à convivência na comunidade muçulmana em si, Hassan Ali Gharib ressalta a importância das mesquitas. São espaços em que a comunidade se concentra com frequência, tanto para as orações e sermões, quanto para eventos sociais, religiosos e culturais.

Segundo o Sheik Jalloul, as comunidades islâmicas são bastante unidas e organizadas, tanto em São Paulo, quanto no mundo. Fatima, que agora reside no Líbano, conta que lá a interferência da política na religião, comum em países muçulmanos, causa muitos conflitos que, se evitados, possibilitariam maior articulação entre as pessoas.

A antropóloga muçulmana Francirosy Barbosa, após realizar pesquisa com trabalho de campo e conviver intensamente com muçulmanos de São Paulo, passou pelo processo de reversão ao Islã. Assim como Fatima, acredita que o maior motivo para o estranhamento de pessoas não-islâmicas sobre a cultura desse povo é a falta de conhecimento. Para ela, a convivência real com o Islã foi fundamental na mudança de sua visão.

Em seu caso, as dificuldades de seguir na religião incluem também sua posição como cientista. “Ainda temos muitos estereótipos de que uma pessoa não possa ser religiosa, por ‘fazer ciência’. Isso causou muito transtorno inicialmente, principalmente por se tratar do Islam, que as pessoas associam ao terrorismo.” Sobre sua experiência, conta que continua sendo antropóloga com seus alunos e, para se proteger, faz o mesmo em outros espaços. “Sigo buscando um caminho que não me anule, mas em que eu possa ser quem sou, de modo pleno. Certamente, estou bem mais feliz como muçulmana-antropóloga ou antropóloga-muçulmana. Desafios não me faltam, mas encaro todos e, os que não dou conta, deixo ali no tapete durante as minhas orações.”

Foto de perfil da Professora Francirosy em rede social [Imagem: arquivo pessoal]

Contando sobre seu processo de reversão, iniciado há seis anos, ela afirma que sentiu grande dificuldade no início até perceber que poderia, sim, ser pesquisadora do grupo muçulmano e, ao mesmo tempo, parte dele. Hoje, ela vê que a dificuldade está em alguns muçulmanos e em alguns acadêmicos, que não entendem que a dualidade é possível.

 

O papel da mulher muçulmana e a questão do hijab

Outro ponto focal da cultura islâmica é a vivência feminina no contexto da religião. É possível que muitos associem a ideia da mulher muçulmana a imagens de países do Oriente Médio, onde se usam burcas que cobrem os corpos inteiros e até mesmo os olhos com um véu.

Muitas vezes, essa ideia vem atrelada à suposição de que as mulheres muçulmanas se sentem oprimidas pela quantidade de regras que têm de seguir. Principalmente com ideias ocidentais de liberdade relacionadas ao domínio da mulher sobre o seu corpo e às formas de expressão física.

É verdade que em vários desses países, como a Arábia Saudita e o Afeganistão, a divisão social é definida pelo gênero. Em alguns casos, a lei determina o uso de algum tipo de vestimenta feminina que cubra cabeças e corpos. Porém, isso é uma questão cultural e política, que muda de região para região.

Aqui no Brasil, não é comum que mulheres muçulmanas usem burca. A maioria delas se veste tomando o devido cuidado para não usar roupas muito justas, transparentes ou curtas, como prevê o Alcorão. Ao contrário do que muitos pensam, usar ou não o hijab (véu que cobre o cabelo e os ombros) é escolha da mulher, muito além de uma obrigação religiosa. É importante que ao decidir usar o véu, ela se sinta confortável e esteja convicta do significado do ato para sua vida. A decisão de usar o hijab deve ser sincera.

O hijab, na religião islâmica, simboliza uma forma de proteção da mulher contra os olhares de estranhos. As meninas começam a usá-lo por volta dos nove anos, quando se iniciam os sinais da puberdade. A partir daí, os únicos homens que podem vê-las sem o véu e tocá-las são aqueles com quem não se casariam, ou seja, pai, avôs, tios e irmãos.

Em um de seus vídeos, chamado Por que usamos o hijab?, Fatima explica que, para a maioria das meninas que crescem na religião, o início de seu uso é um momento muito aguardado. Isso porque elas acabam sendo muito influenciadas ao verem as mães, tias, avós, irmãs e primas fazendo o uso do véu. Ela conta que muitas meninas acabam começando antes mesmo de completarem nove anos e que, para essas meninas mais jovens, são feitos lenços mais apropriados à idade, mais fáceis de usar e decorados de forma propícia.

A mulher, segundo a religião islâmica, tem um papel fundamental. Elas são a base da sociedade e é delas a obrigação de educar os filhos e manter a harmonia no lar. Por isso, a doutrina considera muito importante que se eduquem mais e mais, já que isso as prepara não só para a vida na Terra mas para o pós-morte.

Os homens também devem seguir alguns preceitos. É deles a obrigação de ser provedor da família, materialmente. Além disso, a não ser o pai, tios, avôs e irmãos, não podem tocar mulheres ao cumprimentá-las, em sinal de respeito. Também há algumas regras sobre o vestuário, como não usar roupas muito justas ou transparentes e sempre cobrir a pele do umbigo até os joelhos.

A jovem conta sobre sua experiência como mulher islâmica em São Paulo. Havia uma grande responsabilidade, pois sair na rua era representar a religião. No Líbano, como a maioria é muçulmana, isso não acontece. “Sempre serei responsável por estar usando o hijab, mas em São Paulo eu era um exemplo de muçulmana para as pessoas que não conhecem a religião. Se eu saio na rua, como ajo, como trato as pessoas, como converso, como faço tudo. Pode ser a única vez que uma pessoa tem contato com a religião.”

Francirosy, como mulher muçulmana, parte de um lugar diferente do de Fatima, já que não foi criada no Islã, mas se reverteu. Ela conta que, embora tenha iniciado o processo de reversão há seis anos, só passou a usar o véu há um mês. “Aprendi a caminhar devagar e foi assim que cheguei ao uso do véu há 1 mês, tudo muito lentamente. Me inspirei em vários colegas que estudam religião e a sua própria religião. Isso foi importante para o meu empoderamento.”

 

Islã e geopolítica

O Islã, no decorrer da história, foi associado à ideia de ameaça ao mundo ocidental. Isso é visível desde as Cruzadas — guerras travadas entre cristãos e muçulmanos — até a atual imagem atrelada à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico (ISIS). Sobre os grupos extremistas, o Sheik Rodrigo Jalloul explica que a comunidade muçulmana não os reconhece e repudia seus atos violentos. Como frequentemente o único contato da cultura ocidental com o mundo muçulmano é por meio de representações negativas, essa associação pode e acaba criando preconceitos em relação ao Islã.

Para Hassan Ali Gharib, o problema está na generalização. “Não se deve pensar mal de todos os muçulmanos porque um fez uma coisa errada.”, diz. O Sheik explica: “É muito claro no cenário político mundial que todos ligam o islamismo ao terrorismo, quando são duas coisas muito diferentes. A religião, como toda palavra de Deus, é única. Ela prega a vida, não prega a morte.” Ele complementa: “O islamismo mesmo, no Alcorão Sagrado, diz que não é permitido tirar a vida nem que seja de uma formiga, do menor inseto possível, quem dirá de outro ser humano. Assim fica clara a diferença entre o Islam e o extremismo.”

Em questão de números, o Islã é a religião que cresce mais rapidamente no mundo. Curiosamente, o país com o maior número de muçulmanos não fica no Oriente Médio. É a Indonésia. E, no continente americano, o país com o maior número de muçulmanos são os Estados Unidos.

O presidente da ARBIB ressalta que “o importante é olharmos uns para os outros e nos respeitar como seres humanos independente de concordarmos ou não.”

Cheaitou exemplifica: “Na rua, por exemplo, eu sempre ando sorrindo. Porque eu quero mostrar que eu não sou diferente das outras pessoas e que eu não tenho problema com as pessoas se aproximarem para conversar, para perguntar, para tirar dúvida.”

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