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Jaquetas de couro e corações de ouro: por trás do bad boy no cinema   
CINÉFILOS
07 nov 2020 | Por  Gabriella Ramus (gabriellaramus@usp.br)

Então por que as boas garotas gostam dos maus garotos?

Eu tive esta pergunta por um longo tempo.

Eu tenho sido um menino mau, e é claro de ver

Então, por que as boas garotas se apaixonam por mim?”

– Good Girls Bad Guys (Falling in Reverse)

 

A letra anterior é proveniente de uma música sobre os bad boys, figura usada e abusada pela indústria musical e também pela indústria cinematográfica. Tais frases poderiam ter sido proferidas por James Dean, 007, Edward Cullen, Draco Malfoy, Danny Zuko, Johnny Depp, Tony Stark. Mas o que define exatamente o bad boy? Como esse estereótipo evoluiu ao longo dos anos? E por que é uma figura tão intrigante (e sexy)?

 

Pôster com o letreiro do título "Rebel Whithout a Case"[Imagem: Reprodução/Warner Bros]

[Imagem: Reprodução/Warner Bros]


Quem é o bad boy?

Jaqueta de couro, cigarro na boca, cabelo para trás. Além do clássico uniforme e da semelhança com o ícone James Dean como Jim Stark em Juventude Transviada (Rebel without a cause, 1955), todos os bad boys ficcionais ou não-ficcionais partilham de alguns traços de personalidade. 

De acordo com os pesquisadores Ahir Gopaldas e Susanna Molander em seu artigo “O arquétipo do bad boy como um complexo moralmente ambíguo de masculinidades juvenis: a anatomia conceitual de um ícone do mercado” (2019), há algumas características que podem ser encontradas em qualquer personagem que se encaixe no estereótipo. São elas:

 

A agressividade: um bad boy é sinônimo de encrenca. Eles são perigosos, destemidos, destrutivos e ajuda em sua credibilidade (e em seu apelo ao público) se forem também dotados de força, músculos e um tanquinho. 

A rebeldia: um bad boy não segue a conduta moral vigente. Ele faz suas próprias regras, já que é cínico quanto ao funcionamento do mundo real. Tal rebeldia parece existir sem um motivo aparente, mas faz com que o personagem seja também independente, impulsivo e resiliente. O bad boy é solitário, não tem muitos amigos e não forma conexões valiosas ou duradouras com ninguém, pois é, na maioria das vezes, precedido e julgado pela sua reputação. 

 

John Travolta como Danny Zuko, um bad boy, em Grease [Imagem: Reprodução/Paramount]

John Travolta como Danny Zuko em Grease. [Imagem: Reprodução/Paramount]

O carisma: um bad boy é a figura que roubará todas as melhores falas do filme com sua voz rouca. Ele é confiante sem ser arrogante, é charmoso e engenhoso. Os homens querem ser ele e as mulheres querem estar com ele (o que nos leva ao próximo ponto).

A sexualidade: um bad boy tem uma forte energia sensual e sexual. Podemos descrevê-lo como sedutor, promíscuo, silencioso, sexy, ousado, viril e bom de cama. E é exatamente esse conjunto de atributos que faz com que a plateia seja complacente com muitas de suas atitudes nocivas e tóxicas ao longo da narrativa. 

A sensibilidade: um bad boy esconde por trás de um exterior austero um coração de ouro. No final do filme, a figura revela-se como sendo doce e vulnerável, mas somente com aquela pessoa especial. 

 

Johnny Depp como o bad boy Wade Walker em Cry-baby [Imagem: Reprodução/Universal]

Johnny Depp como Wade Walker em Cry-baby. [Imagem: Reprodução/Universal]

Resumindo, o bad boy é como uma fruta proibida: sabemos que queremos, mas não podemos nem o ser, nem estar com eles. São frutas meladas de testosterona e polvinhadas com mistério, mas guardando um interior meigo e açucarado. E sua trajetória reflete exatamente isso. 

Em geral, as ações violentas ou moralmente condenáveis de um bad boy são perdoadas no final, pois ele se transforma e se abre com o amor de uma boa menina. É revelado que infligiu dor em outras pessoas, sendo essa física ou verbal, como um reflexo de sua dor interna. Na maioria das vezes, sua atitude é justificada com trauma infantil, o mais comum sendo devido a um pai abusivo. Assim, o personagem não é só redimido, como adquire também um caráter humano. 

Porém, não são todos os bad boys que têm esse destino. E tudo vai depender da mistura e do equilíbrio que o personagem tem dentre as características principais apresentadas.

Ele é mais agressivo e forte como Gaston em A Bela e a Fera (1991)? Ou ele é mais rebelde como Han Solo (Harrison Ford) na saga Star Wars? Ou ele é mais misterioso  como Edward Cullen (Robert Pattinson) em Crepúsculo (2008)? Ou ele é um psicopata como Jason “J.D.” Dean (Christian Slater) em Heathers (1988)? Ou ele é mais charmoso como o emblemático 007? Ou ele é mais tarado como Daniel Cleaver (Hugh Grant) em Diário de Bridget Jones (2001)? Ou ele é mais sensível como Danny Zuko (John Travolta) em Grease: Nos tempos da brilhantina (1978)?

 

Christian Slater como J.D. em Atração Mortal (Heathers). [Imagem: Reprodução/New World Pictures]

Christian Slater como J.D. em Atração Mortal (Heathers) [Imagem: Reprodução/New World Pictures]


Como surgiu o
bad boy e como ele mudou ao longo dos anos?

Um dia, Teseu acordou suando e gritando. Dionísio (deus dos ciclos vitais, das festas, do vinho, da insânia, do teatro, dos ritos religiosos) havia visitado-lhe em seus sonhos, ameaçando que se não largasse sua mulher Ariadne, ele se arrependeria para o resto da eternidade. Morrendo de medo, Teseu abandonou Ariadne e navegou para longe. Quando acordou, Ariadne entrou em desespero e encontrou (por acaso) Dionísio, que não tardou a consolá-la e torná-la sua esposa. 

Pode-se dizer que, de certa forma, Dionísio agiu como um verdadeiro bad boy: ele intimidou seu adversário e, utilizando-se de seu carisma e senso de moral duvidoso, venceu o coração da mulher que cobiçava. 

Esse é só um exemplo dos milhares presentes na mitologia grega que remete, mesmo que só um pouco, à persona de um bad boy. Na literatura, não é diferente. 

Don Juan, personagem da literatura espanhola, tem uma trajetória trágica, uma vez que é levado ao inferno pela estátua do pai (que ele próprio assassinou) para pagar por seus pecados em vida. Era libertino, impetuoso e rebelde. Era um mulherengo barato, cruel e sedutor que buscava apenas a conquista e o sexo.

Fora da literatura, uma figura muito parecida é a de Casanova, um escritor e aventureiro italiano. Uma aura mágica envolve toda a sua vida de debochado, viril colecionador de mulheres e conquistador empedernido que percorria os bordéis de Londres todas as noites para ter relações com mais de 60 meretrizes. Além disso, reza a lenda que aquele homem conseguiu fugir das masmorras do Palácio Ducal de Veneza através de uma fuga rocambolesca pelos telhados do palácio, depois de aprisionado durante 16 meses.

 

Retrato de Giacomo Casanova feito por Raphael Mengs em cerca de 1760.

Retrato de Giacomo Casanova feito por Raphael Mengs em cerca de 1760. [Imagem: Reprodução]

Quando o cinema foi inventado e ganhou popularidade, os bad boys deixaram de ser lendas que habitavam as páginas e as mentes e passaram a ser papéis em filmes. 

Brevemente por volta dos anos 1930, o bad boy era um mero gângster nas telas. Era um bandido, um fora-da-lei, escarnecedor, inimigo público, sedutor em série, ladrão de banco e queimador de celeiro que quebrava leis e corações. Porém, os anos 1930 também foram marcados pelo regime do Código Hays nos Estados Unidos, o qual designava normas morais que deveriam ser seguidas em todas as produções cinematográficas. Assim, todos os bad boys recebiam finais pavorosos com muita fumaça, fogo e perdição. Um longa emblemático nesse sentido é o O inimigo público (The Public Enemy, 1931) com o protagonista Tom Powers (James Cagney).

 

Pôster do filme The Public Enemy [Imagem: Divulgação/Warner Bros]

[Imagem: Divulgação/Warner Bros]

Já nos anos 1940 e 1950, o bad boy deixa de ser o vilão e passa a ser uma figura trágica com falhas humanas. É o adolescente delinquente com exterior duro, mas interior frágil. É ninguém mais, ninguém menos que James Dean e Marlon Brando  fumando cigarros em camisetas brancas. E, curiosamente, essa peça de roupa é a chave para entender a personalidade dos seus papéis. Antes de tais atores a popularizarem, a camiseta branca era considerada uma peça de roupa de baixo. Usá-la como roupa normal demonstra não só coragem e autoconfiança, como também o ressurgimento de certa fragilidade e insegurança pessoal.

 

Pôster de "A Streetcar Named Desire". [Imagem: Divulgação/Warner Bros]

[Imagem: Divulgação/Warner Bros]

Nos anos 1960, o público conhece a versão mais madura do bad boy: o bad man. Como icônico exemplo, há o filme Onze Homens e um Segredo (Ocean’s 11, 1960), ainda sem o George Clooney, mas estrelando Dean Martin, Frank Sinatra e Sammy Davis Junior. No longa, o bad man é uma figura romantizada por “viver no momento” ao passear em limusines tomando martinis com mulheres em vestidos de gala. Ele continua com o aspecto de “fora da lei”, mas com classe e elegância.

Hoje em dia, o bad boy tem muitas caras. Há o alpha, o qual é forte em todos os sentidos, mas seu calcanhar de Aquiles é a mulher que ama. Há o Casanova, o mulherengo, o 007. Há o pseudo-intelectual como Kyle Scheible (Timothée Chalamet) em Lady Bird: A Hora de Voar (2017). Há a versão mal-entendida como John Bender (Judd Nelson) em Clube dos Cinco (Breakfast Club, 1985) etc. 

 

Judd Nelson como John Bender em Clube dos Cinco, um dos bad boys mais conhecidos. [Imagem: Reprodução/Universal]

Judd Nelson como John Bender em Clube dos Cinco. [Imagem: Reprodução/Universal]


O que o bad boy representa? E por que isso nos é tão atraente?

Para que um estereótipo consiga continuar fascinando pessoas depois de séculos de existência, é porque seu modo de agir e pensar nos é fascinante de alguma forma. Mas de que forma? E por quê? 

A primeira teoria é de que há uma certa atração e tentação naquilo que não podemos ter, mas queremos mesmo assim. Namorar um bad boy traz, na maioria das vezes, mais problemas do que felicidade, mas é algo intrigante. Na psicologia, chama-se de “transgressão” a fantasia de fazer a escolha errada, e isso é exatamente o que o bad boy representa. Ele nos lembra que não dependemos totalmente da aceitação dos outros, que podemos tomar nossas próprias decisões e que somos essencialmente livres.  

A segunda é que, em relações heterosexuais, as mulheres procuram um homem que possa expressar a rebelião que ela desejaria expressar. As mulheres são ensinadas desde muito jovens a serem complacentes e agradáveis, ou seja, sua rebeldia é oprimida. Todavia, se ela encontrar um namorado que expresse esse sentimento por ela, talvez se sinta melhor.

 

Harrison Ford como Han Solo na saga Star Wars [Imagem: Reprodução/Lucasfilm e Twentieth Century Fox]

Harrison Ford como Han Solo na saga Star Wars. [Imagem: Reprodução/Lucasfilm e Twentieth Century Fox]

A terceira teoria é, simplesmente, que estar com bad boys é divertido, excitante e intenso. É uma relação de paixão, não de amor. E é também, de certa forma, paradoxal, uma vez que é instável e estável ao mesmo tempo. Enquanto a instabilidade provém da própria natureza da paixão, a estabilidade provém do sentimento de segurança e proteção que estar com um homem forte traz. 

 A quarta é que o bad boy simboliza para algumas pessoas, um projeto. Obviamente, sua agressividade não é almejável. Em contrapartida, sua “transformação” numa boa pessoa, é. Esse processo fica a cargo de uma boa menina, o que pode lhe trazer um grande senso de validação como recompensa, isto é, ela é realmente boa, bonita e inteligente o suficiente para tal feito.  

A quinta teoria, por sua vez, foi desenvolvida com base na evolução. O instinto para todo animal no quesito escolha de parceiro sexual é a seleção dos genes mais poderosos para sua cria. Como os bad boys suam testosterona e cheiram a hipermasculinidade, já chamam imediatamente a atenção. Além disso, estão, na maioria das vezes, indisponíveis romanticamente, o que indica que é um bom parceiro sexual na linguagem do instinto animal. 

 

Tom Felton como Draco Malfoy na saga Harry Potter também representa a figura de um bad boy. [Imagem: Reprodução/Warner Bros]

Tom Felton como Draco Malfoy na saga Harry Potter também representa a figura de um bad boy. [Imagem: Reprodução/Warner Bros]

De acordo com um estudo de Gregory Louis Carter da Universidade de Durham, as mulheres são mais atraídas a homens que apresentam uma personalidade compatível com a “Tríade Sombria”: narcisismo, psicopatia e maquiavelismo. Tais traços representam a vontade de competir com o próprio sexo, certa insensibilidade, tendência a acasalamento de curto prazo e promiscuidade. Segundo o estudo, não só as mulheres apresentam maior atração a esse tipo de homem durante seu período de ovulação, como os homens que se encaixam nesse tipo têm um nível mais alto de sucesso sexual. 

A sexta teoria é que bad boys foram, são e sempre serão sexys. 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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