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HBO Max: ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’ – A grandiosidade que a equipe merece, seja na duração ou na execução
CINÉFILOS
27 mar 2021 | Por Anderson M. Lima (anderson.marques.lima@usp.br)

“Ninguém volta da escuridão, não sem deixar algo em troca”, comenta um personagem de Liga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder’s Justice League, 2021) em meio a um raro momento de calmaria. De fato, analisando todo o processo de produção do longa originalLiga da Justiça (Justice League, 2017) – além do triste momento vivido pelo diretor, quando sua filha, Autumm, faleceu, não se pode negar que algo foi deixado na escuridão. 

O reflexo dessa escuridão não é apenas notado no novo uniforme usado por Superman (Henry Cavill) ou no tom mais sério escolhido para o épico de quatro horas. Mas sem a escuridão, não podemos ver as estrelas, ou o bat-sinal na noite de Gotham City. Sem a escuridão, não teríamos a versão definitiva do momento de criação da Liga da Justiça. 

Depois de muitos pedidos, Snyder volta ao cargo de diretor e, com o apoio da produtora Warner Bros., consegue finalizar e entregar a versão que tanto almejou desde O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), quando ele traçou o ponto de partida para um universo cinematográfico da DC Comics, e quando deu seguimento a este universo com Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016). 

Fãs acostumados ao trabalho do diretor receberão a obra que mais unifica suas qualidades e defeitos, para o bem e para o mal. Para o bem, pois os conceitos trazidos aqui funcionam em sua grande parte, seja na supersaturação das cores, seja nos eternos momentos de slow motion (câmera lenta) ou nas escolhas das músicas que compõem cada cena. Para o mal, pois tudo em excesso, pode quebrar a expectativa e não trazer mais nenhuma surpresa. Quer um exemplo? Você está lá pelo quarto capítulo dessa epopeia heroica, e já viu muitas cenas de batalhas, e quando mais uma se inicia, você já sabe o que vai acontecer: slow motion, poses, efeitos chamuscantes e um clímax mostrando como o grupo funciona bem em conjunto. 

Visualmente falando funciona? Sim, e muito. No entanto, a ausência de surpresas pode desagradar algumas pessoas, principalmente no ritmo das cenas. Se o andamento desses momentos não traz tantas novidades, não se pode dizer o mesmo do roteiro e da narrativa a qual o filme se propõe. 

A história concebida por Zack Snyder pode até ter a mesma estrutura vista em 2017, mas muda radicalmente seu propósito e final. E essa mudança faz muito bem a essa nova versão, trazendo a maturidade necessária para os momentos de catástrofe e apreensão apresentados. Basicamente todos os personagens se beneficiam dessa mudança, desde os heróis até o vilão Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), que ganha uma nova roupagem, como também novas camadas e, pela primeira vez, parece de fato um inimigo complicado de se vencer.

 

Em Liga da Justiça, Henry Cavill interpreta o Super-Homem

Deu medo aí? Superman mostrando que está de olho em você, caro leitor. [Imagem: Divulgação/Warner Bros.]

A base narrativa continua sendo a mesma da história original: um alienígena busca artefatos poderosos capazes de estremecer não só a existência da Terra, como também a de todos os multiversos. Ao saber disso, Batman (Ben Affleck) decide recrutar heróis para tentar salvar a humanidade e manter sua promessa após a morte de Superman.   

O filme é dividido em seis partes, com um belo epílogo. Essa divisão tem sentido narrativo, tanto que, se alguém parar no final de uma parte, pode voltar tranquilamente em outro momento sem perder o fio do que está acontecendo. Se for considerado como um longa de fato, sua extensão é realmente excessiva, com algumas cenas desnecessárias (então Lois, estão falando de você) e outros momentos em slow motion descartáveis, mas considerando sua divisão, essa obra de Snyder pode muito bem ser tratada como uma minissérie, sem maiores problemas. 

A longa duração também traz benefícios. Um dos maiores problemas do Liga da Justiça de 2017 era sua impossibilidade de dar a real importância de cada personagem em apenas duas horas. Aqui, vemos as verdadeiras facetas de heróis como Cyborg (Ray Fisher) e Flash (Ezra Miller), figuras que ainda não tiveram filmes isolados e que precisavam desse momento em tela, para dar embasamento às suas próprias narrativas e para que o espectador começasse de fato a se importar com seus destinos. Mulher Maravilha (Gal Gadot) e Aquaman (Jason Momoa) já são velhos conhecidos do público, mas também ganham momentos interessantes nessa nova leitura.   

A maior transformação em questão de personalidade acontece com o Batman de Affleck, que de um perfil piadista e emotivo, parte para uma pessoa séria e convicta no que precisa fazer, apesar de ainda dar mais prioridade à fé do que à razão. Em um mundo cheio de heróis metahumanos, fica complicado não ter fé em coisas que desafiam a razão, até mesmo para o homem-morcego. O motivo para sua fé é o kryptoniano Superman, que aparece, mas com menos tempo em tela se comparado à versão anterior, o que ajuda a dar mais importância aos esforços dos heróis já presentes.

 

Darkseid é o vilão da nova versão de Liga da Justiça.

Uma das grandes novidades do filme, Darkseid conecta toda a narrativa e se mostra como um futuro grande oponente no universo proposto por Snyder.  [Imagem: Divulgação/Warner Bros.]

A primeira mensagem apresentada pela obra é: “Este filme é apresentado em um formato 4:3 para preservar a integridade da visão criativa de Zack Snyder”. Snyder dispensa o formato widescreen usado atualmente no cinema (16:9), para colocar sua própria visão em jogo. Tecnicamente, isso salta aos olhos de formas diferentes para cada pessoa. O Farol (The Lighthouse, 2019), de Robert Eggers, por exemplo, utiliza esse formato para dar mais vazão ao sentimento de claustrofobia e também para dar destaque ao personagem principal do filme: o farol. 

Nesta obra de Snyder, não há momentos claustrofóbicos. Aliás, o formato widescreen talvez aproveitasse melhor as lindas paisagens exibidas no filme, tanto em planos abertos em cenas que ocorrem em Themyscira ou em águas fechadas, quando o foco repousa nas ações do Aquaman. A escolha aqui parece ser apenas um capricho do diretor, que pode ser apreciada ou menosprezada, já que não agrega na narrativa ou na parte técnica do longa.    

A Liga da Justiça de Zack Snyder deveria ser aproveitada sem conhecimento prévio, apenas com o olhar do fã que esperou por muito tempo uma versão digna de seus heróis favoritos. A melhor experiência vai ser realmente daqueles que não assistiram ao original de 2017, pois estes não ficarão comparando situações de cada interpretação. Mesmo assim, qualquer pessoa que goste de uma boa narrativa, bons personagens, um vilão persistente e belas paisagens, terá uma grande obra a ser admirada, seja pela grandiosidade em sua duração ou em sua execução. 

O longa está em exibição no canal de streaming HBO Max. Confira o trailer

*Imagem de capa: Divulgação/Warner Bros.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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