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‘Loki’: as mentiras que governaram o tempo

A odisseia do Deus da Trapaça, suas mentiras, desacordos e tudo o que resultou na incessante busca para confrontar a origem do tempo

Controle Remoto
30 jul 2021 | Por Pedro Fagundes (pfmend@usp.br)

Desde o lançamento do primeiro trailer no final do ano passado, Loki (2021) já buscava demonstrar ao público sua proposta ousada, transgressora e até mesmo complexa. A terceira série original da Marvel Studios, veiculada na plataforma de streaming Disney Plus, escolheu abraçar um dos mais conceituados temas do audiovisual: o tempo. 

Essa ilustre temática, que já conduziu o enredo de clássicos, desde o britânico Doctor Who (1963-) a jovens sucessos como o alemão Dark (2017-2020), agora marca presença na nova produção da Marvel. A primeira temporada das crônicas do Deus da Mentira faz jus ao título do “imortal” e não cansa de enganar seu público ao implantar certa desconfiança à trama e às suas personagens. 

Em geral, após os seis episódios de pouco mais de 40 minutos, Loki não apenas carimbou sua passagem no Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), como também abriu de maneira assertiva infinitas portas para o futuro da gigante editora americana nas telonas e telinhas. 

Loki atravessando uma das infinitas “portas” que abriu para o futuro da Marvel. [Imagem: Reprodução/Disney Plus].

Loki atravessando uma das infinitas “portas” que abriu para o futuro da Marvel. [Imagem: Reprodução/Disney Plus].

Uma das pontas soltas de Vingadores: Ultimato (2019) foi o Loki (Tom Hiddleston) utilizando o Tesseract (cubo azul que continha uma das joias do infinito) para fugir dos vingadores lá em 2012. Tal evento desrespeitou os acontecimentos de Marvel’s The Avengers: Os Vingadores (2012), em que Loki — no exato mesmo contexto — ao invés de fugir, é preso pelo grupo de heróis. Com isso, foi colocado um ponto de interrogação na cabeça do público, que ficou disposto a acreditar numa hipotética alteração na linha do tempo original do MCU, uma vez que dois eventos opostamente distintos ocorreram no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Na série, essa ponta solta não somente foi amarrada, como serviu de premissa para pavimentar todos os eventos que acontecem ao decorrer da série. 

               

O Deus da Mentira origina sua série ao fugir “indevidamente” com o Tesseract. [Imagem: Reprodução/Disney Plus]

O Deus da Mentira origina sua série ao fugir “indevidamente” com o Tesseract. [Imagem: Reprodução/Disney Plus].

Procurando esclarecer: aparentemente, o destino de Loki não é nem governar, nem sair vitorioso e nem qualquer outro fim que seja positivo. Muito pelo contrário, a existência do Loki está atrelada à falha. Ele é um perdedor, um derrotado. Por isso, o triunfo de conseguir escapar dos vingadores naquele momento — fugindo da derrota iminente — desrespeita intrinsecamente o que Loki nasceu para ser e fazer na realidade escrita e governada pelos Guardiões do Tempo. Logo, esta “variante” indevida do Deus da Trapaça deve ser apagada da realidade — ou pelo menos da nossa. Mas por quem? Essa é uma pergunta que, quando aprofundada, acompanha o espectador por toda a jornada do protagonista, porém, de forma mais direta pode ser respondida como: por uma empresa burocrática multiversal, extratemporal e espacial tematizada nos anos 60 ー a Autoridade de Variância Temporal, ou TVA, na sigla original do inglês. 

O mais curioso sobre os pontos levantados acima é que eles não se tratam necessariamente de verdades absolutas. No entanto, também não se limitam a mentiras ou trapaças. A odisseia temporal de Loki não é conduzida apenas pela desconfiança e incerteza, mas é, do mesmo modo, uma história de introspecção, autodescoberta e independência para escrever seu próprio caminho. 

Loki a caminho de seu julgamento na TVA. [Imagem: Reprodução/Disney Plus]

Loki a caminho de seu julgamento na TVA. [Imagem: Reprodução/Disney Plus].

São esses os elementos que envolveram a série de episódios que transformaram o antigo vilão da Marvel num protagonista humano com um coração e suas virtudes. Tudo isso sem perder o típico, mesmo que por vezes criticado, “humor Marvel”. 

Humor esse que é muito bem carregado pela excelente interpretação de Tom Hiddleston, que através de seus trejeitos desajeitados, piadas cortantes, característico sotaque britânico e um visual excêntrico para um viajante no tempo, entrega quase que uma homenagem aos fãs de Doctor Who

Para além do protagonista, vale destacar as boas performances dos dois principais parceiros do Deus: Owen Wilson (Mobius) — dessa vez não acompanhado por um cachorro — e Sophia Di Martino (Sylvie), que atuam em sintonia com o carisma de Hiddleston e o complementam, ora como escada para o humor da personagem, ora como um ombro que instiga a face emocional e humana do “imortal”. São essas duas personagens as responsáveis por proporcionar a Loki importantes reflexões quanto a sua existência e a seu modo de agir, o que, consequentemente, o faz evoluir e abandonar os estigmas que antes o regiam e, desta forma, fugir do que um Loki deveria ser.

Os protagonistas Mobius, Loki e Sylvie (2021). [Imagem: Reprodução/DisneyPlusBrasil].

Os protagonistas Mobius, Loki e Sylvie. [Imagem: Reprodução/DisneyPlusBrasil].

Além da mentira, outro norte da narrativa é o já citado tempo. A maneira como ele é manipulado e navegado fica (aparentemente) muito bem delimitada desde o primeiro episódio. Cabe inclusive destacar os esforços do roteirista, Michael Waldron, que conseguiu tratar de maneira didática conceitos consideravelmente complexos como linhas temporais, variantes, eventos nexos e outras palavrinhas que, ao certo, marcarão presença no vocabulário dos marvetes pelos próximos dez anos — e que praticamente não haviam sido exploradas até então no MCU. 

Em uma tentativa de organizar e esclarecer a problemática das viagens no tempo, introduzidas por Doutor Estranho (2016) e amplamente utilizadas em Vingadores: Ultimato (2019), o roteiro adotou como estratégia de explanação o conceito determinista de manipulação do tempo. Muito resumidamente, tal vertente consiste na teoria de que absolutamente todos os eventos que já existiram — e que ainda estão por existir em determinada linha do tempo — na verdade sempre estiveram lá, imutáveis. Dessa forma, uma vez que o tempo sempre foi e sempre será o mesmo, anula-se automaticamente a possibilidade de que um ser altere factualmente o seu percurso, o que, consequentemente, exclui o ideal de livre arbítrio. 

Todavia, nem mesmo o tempo escapa da imprevisibilidade que marca a série. Seu perfil absoluto e pré determinado incomoda o protagonista, que passa a questioná-lo ferrenhamente e, por conseguinte, parte em busca por respostas e resoluções. No final das contas, foram sempre as mentiras que governaram o tempo. 

A forma didática e cartunizada encontrada para explicar as linhas do tempo em Loki (2021). [Imagem: Reprodução/Disney Plus].

A forma didática e cartunizada encontrada para explicar as linhas do tempo em Loki. [Imagem: Reprodução/Disney Plus].

Em apenas três palavras, Loki é uma série autossuficiente, ousada e expansiva. Autossuficiente pois apresenta uma remessa de novos personagens exclusivos e uma narrativa fecunda cheia de pontas soltas para serem amarradas em temporadas futuras. Ousada pois não teve medo de apoiar sua trama em questões até então mal explicadas no MCU — o que lhe rendeu um excelente resultado. Expansiva pois ampliou a mitologia que circunda o universo Marvel de tal maneira que não se observava desde a apresentação da iniciativa vingadores em Homem de Ferro (2009) ou a aparição de Thanos com a manopla do infinito em Marvel’s The Avengers: Os Vingadores (2012). 

A odisseia do Deus da Mentira contagia, surpreende e, inevitavelmente, ludibria o público. Funciona perfeitamente como entretenimento, gera inúmeras risadas, conta com atuações acima da média, faz com que sonhadores (como eu) vislumbrem Tom Hiddleston como um “Doutor Quem” perfeito e já deixa muita saudade. Agora basta torcer para que a confirmação da segunda temporada não seja somente mais uma das mentiras que persistiram na série.

Confirmação da segunda temporada de Loki (2021), ainda sem data estipulada. [Imagem: Reprodução/Disney Plus]

Confirmação da segunda temporada de Loki, ainda sem data estipulada. [Imagem: Reprodução/Disney Plus].

*Imagem da capa: Reprodução/Disney Plus

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