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Nós, Cúmplices do Holocausto Brasileiro
CINÉFILOS
16 nov 2016 | Por Jornalismo Júnior

No Colônia, a loucura esconde a loucura, mas ninguém se impressiona. E quem o faz não sente e quem sente não faz. Esta foi a realidade do antigo manicômio de Barbacena, em Minas Gerais. Entre 1930 e 1980, estima-se o número agoniante de 60 mil mortos. Neste, que não era senão um depósito de “indesejáveis”, transtornados mentais, proles de adultério, estupro ou mesmo gente que desafiou as pessoas erradas. Em Holocausto Brasileiro (2016), derivado do livro-reportagem homônimo da jornalista Daniela Arbex, defronta-se o pior da humanidade e o crime da omissão generalizada.

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O “hospital”, que fora inaugurado em 1903 com capacidade para 200 pacientes, começou a se metamorfosear num ninho de horrores inauditos em 1930. Para lá eram mandadas pessoas de todo o país e, segundo a apuração de Arbex, 70% de seus internos sequer possuíam algum diagnóstico de patologia mental. Sob a égide de instituição de saúde, em arquitetura colonial, existia um assombroso depósito de “rejeitos sociais”. O paralelo com os campos de concentração nazistas é inevitável, até o transporte para a local era feito por uma linha ferroviária, no “trem de doido”.

O filme mostra um acervo vasto de fotografias feitas por Luiz Alfredo, em 1961, para o jornal “O Cruzeiro” e por Napoleão Xavier, em 1979, as quais empurram aos olhos a tragédia da desumanização. Não se vê vida nem morte nas consideradas não-pessoas, apenas o mais profundo vazio.

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Os relatos de ex-funcionários e de habitantes de Barbacena trazem o terrível mal-estar da vulgaridade. Todo o abandono e crueldade, que cortam o coração à primeira vista, é confessado com extrema indiferença. Não se sente arrependimento ou culpa, como se tudo o que aconteceu em Colônia fosse normal. As cicatrizes da carne e da alma dos sobreviventes gritam o contrário. As entrevistas deixam evidentes, também, que não é possível acusar responsáveis individuais. Toda a sociedade brasileira é culpada. Culpada por ser conivente, culpada por perpetuar a intolerância aos enfermos mentais, um problema grave ainda hoje.

O Cinéfilos esteve na coletiva de imprensa com Daniela Arbex, que também co-dirigiu o documentário em parceria com Armando Mendz. Ela afirmou que “o filme reforça o debate público sobre a questão dos manicômios no Brasil”. “Tive contato com as fotografias de 1961 em um livro patrocinado pelo governo, que enaltecia o SUS. Num discurso de ‘vejam como o nosso sistema de saúde melhorou!’”, comentou ironicamente.

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Holocausto Brasileiro é um registro necessário à história do país, pois ele denuncia um ambiente que materializou o conflito da sociedade contra seus dissidentes. Esta tensão, como se verifica na obra, pouco se relaciona com os limites da razão e da loucura. Ela se ergue realmente das entranhas das convenções sociais e dos conflitos de classe.

Afinal, loucos, somos todos.

Holocausto Brasileiro estreia no dia 20 de novembro , às 21h, no canal MAX.

por Daniel Miyazato
danielmiyazato@gmail.com

 

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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