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‘Nós Somos a Cidade’: ação, terror cósmico e identidade

Livro de Jemisin entrega entretenimento de qualidade e um olhar novo à ficção científica

Na Estante
24 set 2021 | Por Diogo Bachega Paiva (bachegapaiva@usp.br)

Meu primeiro contato com N. K. Jemisin foi por meio de A Quinta Estação, primeiro livro da trilogia da Terra Partida. Sucesso absoluto de vendas, o livro chamou minha atenção não só como uma ótima ficção científica, mas também pelos personagens, que não correspondiam à cisheteronormatividade e à branquitude típicas do gênero.

N. K. Jemisin: foto da autora, mulher negra, cabelo preto de comprimento médio, de perfil e camiseta vermelha

N. K. Jemisin, também conhecida pela trilogia da Terra Partida, ficção distópica que se passa em um mundo destruído por catástrofes naturais.
[Imagem: Reprodução/Wikipedia]

Em Nós Somos a Cidade, essa característica se mantém. Nessa nova obra que, ao contrário de seus outros livros, não se passa em nenhum lugar fictício, mas em Nova York, a autora demonstra uma sensibilidade ímpar em retratar seres humanos em sua complexidade, não apenas os mesmos arquétipos tão acostumados ao protagonismo. 

A obra ganha contornos políticos — ao mesmo tempo históricos e atuais — nas ameaças que as personagens enfrentam. Racismo, violência policial, pressão financeira, risco de deportação, homofobia, machismo e preconceitos internalizados são alguns dos temas que conectam ficção e realidade.

Mas não é só na representatividade que a autora brilha. A narrativa é uma ficção científica de fantasia, mas situada na realidade, que em alguns aspectos lembra Deuses Americanos de Neil Gaiman, ao unir características pagãs e urbanas, ao mesmo tempo em que é completamente original na abordagem. 

Jemisin também é capaz de se apropriar de elementos da ficção de H. P. Lovecraft, conhecido tanto por sua grande influência cultural quanto pelo racismo e xenofobia que permeiam suas cartas e sua ficção. As referências lovecraftianas mais explícitas são conectadas aos vilões da obra, o que demonstra aceitação da influência inegável do autor, mas adoção de uma postura crítica.

A autora sabe utilizar a fantasia para refletir sobre questões reais e a realidade para trazer identificação e relevância ao seu universo mágico. Assim, consegue manter o interesse do leitor pelos vários personagens que dividem o protagonismo e pela narrativa do começo ao fim. É uma carta de amor honesta a Nova York, que não ignora seus problemas. Esperamos ansiosos os próximos volumes desta história.

 

*Imagem de capa: Diogo Bachega Paiva/Jornalismo Júnior

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