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O Cangaço no Cinema
CINÉFILOS
01 fev 2021 | Por Theo Sales (theo.carvalho@usp.br)

A paisagem árida marcada pela seca, as matas espinhosas da caatinga, cavalos, tiros, muita violência e, detalhe importante, os chapéus de couro deram origem a um gênero de destaque no cinema brasileiro: os filmes de cangaço. Baseando-se nesse fenômeno notável da história brasileira, os cineastas produziram diversas películas com esse tema, as quais caracterizaram esse movimento de diversas formas, ora como assassinos cruéis, ora como rebeldes injustiçados (ou ambos). 

Ponto polêmico sobre como retratar os cangaceiros, a verdade é que a imagem deles permeia o imaginário popular brasileiro, sobretudo nordestino. Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, até hoje é lembrado como um herói do povo sertanejo, por vezes tratado como uma espécie de Robin Hood do Sertão, que roubava dos ricos para dar aos pobres. Seja como fosse, os cangaceiros eram homens que podiam ser muito bem caracterizados pela máxima de Euclides da Cunha: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Alguns historiadores e pesquisadores do assunto definem o movimento como sendo uma forma de banditismo social, isto é, os cangaceiros eram fruto das injustiças e das condições sociais da época. Eram pessoas que buscavam, por meio da violência e da rebeldia, um meio de sobrevivência e, por vezes, de vingança. 

Nas representações artísticas e culturais, essa imagem acabou por ser associada à luta pela liberdade e contra a desigualdade. Formou-se uma representação do sertanejo mazelado, mas forte, que poderia lutar e mudar de vida. Se o movimento de fato representou isso ou não, cabe aos historiadores decidirem, porém foi essa a imagem que ficou para grande parte das pessoas. 

Tema recorrente na literatura brasileira, o Cangaço deu vida a personagens como Cabeleira, protagonista do livro homônimo escrito pelo cearense Franklin Távora. Esse mesmo cangaceiro foi ressuscitado recentemente no primeiro filme brasileiro da Netflix, O Matador (2017), que pode ser citado como um dos mais recentes do estilo faroeste inspirado no Cangaço. 


Documentários — As realidades do Cangaço

Um dos primeiros e mais importantes filmes de cangaço se trata do documentário Lampião, o Rei do Cangaço (1937), filmado por Benjamin Abrahão, um fotógrafo libânes. A importância desse documento se deve ao fato de serem as únicas imagens em movimento do bando de Lampião, sendo portanto um registro histórico fundamental para estudar e compreender o movimento. 

Nas cenas pode-se ver os cangaceiros realizando as atividades regulares como rezar, carregar água para os acampamentos, correr a cavalo pelas matas da caatinga e até mesmo assistir aos casais dançando forró. O fotógrafo foi bem recebido pelo bando, que brincava e sorria para a câmera nas gravações. 

 

A imagem mostra Virgínio Fortunato e o bando de cangaceiros sorrindo para a câmera em documentário sobre o Cangaço. [Imagem: Reprodução/Aba Film] 

Os cangaceiros sorrindo para a câmera. [Imagem: Reprodução/Aba Film]

Sem se preocupar em como retratar e construir a história daquelas pessoas, o curta-metragem, que não tem sons, cumpre a função de mostrar os cangaceiros do bando de Lampião em suas atividades diárias.

Um registo único na história, as imagens capturadas por Benjamin foram posteriormente usadas em vários filmes de cangaço, tanto em ficções quanto em documentários. Sua singularidade concedeu ao curta-metragem uma representatividade e importância que nenhum outro possui. 

Durante o governo de Getúlio Vargas, no ano em que se daria o golpe do Estado Novo, a película foi censurada, apreendida e permaneceu por anos guardada nos porões da ditadura. Foi somente em 1955 que o filme veio a ser resgatado e reeditado, com uma duração de 10 minutos e com narração. Mais recentemente, em 2007, a Cinemateca Brasileira restaurou o material de 55. Hoje, as imagens gravadas podem ser vistas pelo Youtube. 

 

Benjamin Abrahão aperta a mão de Lampião me documentário sobre o Cangaço. [Imagem: Reprodução/Aba Film]

Benjamin Abrahão aperta a mão de Lampião. [Imagem: Reprodução/Aba Film]

Desde então, diversos documentários foram produzidos sob diversas perspectivas para retratar o Cangaço do ponto de vista histórico. Memória do Cangaço (1964) traz relatos de policiais e cangaceiros que lutaram de ambos os lados nos confrontos armados, tentando mostrar as origens tanto do movimento, quanto dos homens que fizeram parte dele. Ao longo do filme são usadas também as imagens gravadas por Benjamin Abrahão.

Um documentário mais recente, de 2010, Os Últimos Cangaceiros mostra Durvalina Gomes de Sá, a Durvinha, e Antônio Inácio da Silva, uma vez conhecido como Moreno, ambos ex-integrantes do grupo de Lampião. Os dois, já idosos, contam suas experiências do tempo do cangaço, como era a vida no bando e como sobreviveram para contar a história.

Diferentemente da maioria dos cangaceiros, a dupla conseguiu permanecer viva por muito tempo, Moreno faleceu em 2010 aos 100 anos de idade e Durvinha morreu em 2008 aos 93 anos. Após o assassinato da maioria do grupo, os dois fugiram e até mudaram seus nomes para não sofrer perseguições. Pela maior parte do tempo, a antiga vida deles permaneceu em segredo até mesmo dos próprios filhos. 

Já perto do final de suas vidas, Durvinha e Moreno acabam por revelar aquele período que tanto os marcou. O documentário foca no relato dos dois, mas ainda assim traz um panorama do Cangaço a partir do relato dos cangaceiros, como também de outras pessoas envolvidas. Mostrando o lado pessoal e como a dupla passou a enxergar aquela fase de suas vidas, o longa é de grande valor para quem quer entender o movimento. 

 

 

Outros documentários vieram a ser produzidos para ilustrar as diversas facetas do cangaceirismo, sendo uma das mais importantes a faceta feminina. Vários filmes deram ênfase às mulheres que integraram o movimento, dando destaque principalmente a Maria Bonita e a Dadá, as mais famosas cangaceiras. 

O começo do Cangaço pode ser rastreado para cerca do século XVIII, porém, o primeiro registro de uma mulher entre os homens desse movimento só foi conhecido em 1930, com a entrada de Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, no bando de Lampião. A história dessas mulheres pode ser vista no documentário Feminino Cangaço (2016).

Apesar de ser casada com outro homem, ela se apaixonou pelo líder dos cangaceiros e aceitou fugir por livre vontade com o grupo. Porém, não era sempre assim que ocorriam as relações entre os cangaceiros e as mulheres. Muitos dos homens eram extremamente violentos e cometiam estupros e raptos. Dadá, uma das mais conhecidas cangaceiras, foi raptada por Corisco e permaneceu na casa de uma tia dele até que Lampião permitisse a entrada de mulheres no bando. 

Segundo mostra o longa, com a integração de mulheres ao grupo, os homens passaram a respeitar mais e a diminuir a violência. Contudo, episódios como o do assassinato de uma das cangaceiras por trair um dos cangaceiros continuaram a acontecer. 

Apesar de Virgulino e da maioria do grupo morrer em 1938 na Grota dos Angicos, Corisco, um dos principais líderes, permaneceu vivo junto a Dadá, com quem se casara. Em 1940, o Diabo Louro, como Corisco era conhecido, morre também, porém Sérgia Ribeiro da Silva, vulgo Dadá, continua viva até 1994. 

A ex-cangaceira deu entrevistas ainda em vida e um documentário sobre sua vida foi lançado em 2019: Assim Era Dadá – A Vida Pós Cangaço de Sérgia da Silva Chagas, produzido pelo Centro de Estudos Euclydes da Cunha. Nele, é possível aprender sobre a história dessa mulher que foi vítima e parte do movimento dos cangaceiros.


Ficção

No terreno da ficção e da imaginação, o cangaceirismo tomou vários rumos nas telas de cinema, sendo o mais conhecido deles o Nordestern, uma referência aos Westerns, os filmes dos cowboys americanos, também conhecidos como faroestes. O estilo foi amplamente explorado pelos diretores brasileiros, que criaram uma versão abrasileirada dos longas estadunidenses. Com um cenário árido semelhante, os homens montados a cavalo e as cenas de tiroteio, muitas semelhanças foram mantidas nesses faroestes brasileiros. 

Dirigido por Lima Barreto, O Cangaceiro (1953) foi o filme que deu início a esse gênero. Baseando-se bastante em Lampeão e seu grupo, a história desse longa-metragem retrata Teodoro (Alberto Ruschel) — um cangaceiro do bando do Capitão Galdino Ferreira (Milton Ribeiro) — que se apaixona por uma professora raptada pelo líder do grupo. Teodoro ajuda a professora a fugir e é perseguido por seus ex-companheiros. 

Nessa trama, os cangaceiros são retratados com bastante violência e crueldade, com exceção de Teodoro, que teve educação quando criança e incorpora o mocinho, tal qual nos westerns. Enquanto isso, os demais membros permanecem como brutos até o fim.

Apesar de ser um filme de cangaço, um movimento que nunca saiu do sertão nordestino, o longa-metragem foi filmado no interior de São Paulo. Além disso, nenhum dos atores principais são nordestinos, tampouco o diretor. Assim foi para a maioria das produções do gênero. 

O mineiro Milton Ribeiro, que interpretou o Capitão Galdino, está presente em vários dos filmes desse gênero, como A Morte Comanda o Cangaço (1960), Lampião, o Rei do Cangaço (1964) e Corisco, o Diabo Loiro (1969), no qual interpreta Virgulino. O ator, que faz ótimas atuações, ficou conhecido por fazer o papel de homem mau nos filmes de cangaço.

 

Em cena do filme O Cangaceiro, Teodoro (Alberto Ruschel) e o Capitão Galdino (Milton Ribeiro). [Imagem: Reprodução/Vera Cruz]

Teodoro (Alberto Ruschel) e o Capitão Galdino (Milton Ribeiro) em O Cangaceiro. [Imagem: Reprodução/Vera Cruz]

 

Com o Cinema Novo, um movimento que propunha um estilo de engajamento político e de denúncia social por meio dos filmes, o Cangaço ganhou nova forma nas telas e se diferenciou dos faroestes estadunidenses. O diretor Glauber Rocha foi destaque nessa inovação com seu clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o longa foi reconhecido pela  Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) como o segundo melhor brasileiro de todos os tempos. 

 

A imagem mostra o pôster de divulgação do filme deus e o diabo na terra do sol com o cangaceiro Corisco.

Corisco (Othon Bastos) no famoso pôster do filme. [Imagem: Reprodução/Copacabana Filmes]

Explorando as possibilidades artísticas do cinema, Glauber Rocha constrói o filme a partir de um casal de sertanejos assolados pela seca e pela fome. Após Manuel (Geraldo Del Rey) assassinar o próprio patrão, ele e Rosa (Yoná Magalhães), sua esposa, fogem para não serem mortos. 

Em uma jornada que passa por um grupo de fanáticos religiosos, mostrando o messianismo e o misticismo, até o encontro com Corisco (Othon Bastos), a direção de Rocha expõe a miséria e a exploração à qual o povo sertanejo é submetido. A luta e a subversão são exibidas como meios para a liberdade, ainda que nem sempre dê certo. 

A todo momento na obra se ouve a frase “o Sertão vai virar mar”, ao mesmo tempo uma reivindicação revolucionária e uma esperança. Carregando forte simbolismo, contudo, a frase não se concretiza e o sertão permanece seco e o sertanejo continua oprimido, vivendo entre Deus e o Diabo na terra do sol.

 

A imagem é uma cena do filme Deus e o Diabo na terra do Sol. Nela, Manuel está ajoelhado e o líder messiânico Sebastião está ao seu lado.

Manuel (Geraldo Del Rey) e o líder messiânico Sebastião (Lídio Silva). [Imagem: Reprodução/Copacabana Filmes]

Mas não somente nos longas de aventura, ação e drama permaneceram os cangaceiros. Como a imagem deles se consagrou como parte da história e da cultura popular nordestina, comédias também incorporaram personagens do Cangaço. O Cangaceiro Trapalhão (1983), conduzido pelo grupo Os Trapalhões e com protagonismo para Renato Aragão, é exemplo disso. Interpretando cangaceiros de forma humorística e personagens que fazem piadas com os membros do grupo, o filme traz uma história totalmente baseada nesse movimento, mas de forma descontraída.

Outro exemplo é da clássica comédia adaptada do teatro de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida (2000). Apesar de não serem os protagonistas, os cangaceiros têm papel fundamental para a história e são enganados pela dupla Chicó e João Grilo. Questão importante a notar nessa obra é o fato de que o cangaceiro Severino de Aracaju (Marco Nanini) acaba por ser julgado por Jesus Cristo, que o salva da condenação pois a morte dos pais dele quando criança o levou a enlouquecer e ele não foi responsável pelas mortes que causou. 

 

Em cena de O Auto da Compadecida, Severino de Aracaju (Marco Nanini) ameaça João Grilo (Matheus Nachtergaele) com uma faca. [Imagem: Divulgação/Globo Filmes] 

Severino de Aracaju (Marco Nanini) ameaça João Grilo (Matheus Nachtergaele) com uma faca. [Imagem: Divulgação/Globo Filmes]

Uma produção mais recente que pode ser citada é A Luneta do Tempo (2014). Dirigido pelo pernambucano Alceu Valença, o longa-metragem retrata uma visão romântica dos cangaceiros, sobretudo de Lampião, que é mostrado como um carinhoso apaixonado por Maria Bonita. Misturando elementos do teatro, esse filme usa de uma linguagem mais poética e uma bela fotografia para exibir os tempos do Cangaço.

Os membros do bando são vistos como fortes e corajosos na luta contra as injustiças. Com uma trilha sonora composta pelo próprio Alceu Valença, a película também utiliza músicas para ambientar as cenas e criar uma atmosfera envolvente. Ao todo, constrói-se uma produção de grande qualidade artística, mas que romantiza bastante os cangaceiros. 

O Cangaço acabou em 1940 com a morte de Corisco, mas ainda hoje inspira as mais diversas formas de arte, desde os clássicos cordéis e romances da literatura, até os filmes. 

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