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A resistência da religiosidade de matriz africana em Alagoas

O Quebra de Xangô de 1912 e a sobrevivência dos terreiros após um dos episódios mais violentos de intolerância religiosa do país

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23 out 2020 | Por Theo Sales (theo.carvalho@usp.br)

Há mais de 100 anos atrás, em 1912, acontecia em Alagoas um dos acontecimentos mais tristes da história do estado: o Quebra de Xangô. O que começou na capital, Maceió, logo se espalhou pelo resto do território alagoano, carregando o ódio contra as religiões de matriz africana, destruindo terreiros e espancando religiosos. Sob gritos de “quebra!”, um grupo paramilitar perseguiu os chamados “macumbeiros” pelas ruas alagoanas. Mas o povo de axé sobreviveu, e hoje, com seus atabaques e sua cultura, dá um grito de resistência: o Xangô Rezado Alto. 

Lembrar esse episódio é uma atividade para compreender o presente de Alagoas, a formação do seu povo e de sua história. Como conta Thauane Rodrigues, iaô da Casa de Iemanjá, “a história do povo negro, principalmente do povo negro alagoano, foi esquecida, foi deixada de lado”.

Para entender toda essa história de perseguição que se perpetuou no estado por vários anos, é preciso voltar para o passado. É necessário conhecer as figuras por trás desses ataques e os acontecimentos que culminaram no que pode ser considerado o caso mais violento de intolerância religiosa já registrado no Brasil.

O contexto de 1912

No último ano do século 19, em 1900, Euclides Malta assumiu o cargo de governador de Alagoas. A Era dos Maltas, como ficou conhecido o período em que a família permaneceu no comando da política no Estado, durou até 1912, ano do Quebra. 

Em 1903, o primeiro mandato de Euclides como governador acaba e ele arquiteta um meio para eleger seu irmão, Joaquim Paulo Vieira Malta. Naquele período, familiares do governador não podiam ser eleitos para ocupar o mesmo cargo. Euclides elabora, então, uma manobra política que, segundo a oposição, era inconstitucional. Nesse momento, a tensão entre a oligarquia Malta e seus adversários aumenta.

Enquanto seu irmão governava Alagoas, Euclides ocupa o cargo de senador. Porém, não bastasse os dois mandatos já cumpridos por sua família a, Euclides se candidata e ganha novamente, assumindo em 1906 como governador. Outra vez, os políticos oposicionistas contestam, como consta neste trecho do livro Alfredo de Maya e seu tempo, de José Fernando de Maya Pedrosa: “a Eleição de Euclides Malta, apoiado pela máquina do Governo e com a força dos coronéis do interior, não é aceita pela oposição. Em Maceió, domina a anarquia.”

Para tal feito, Euclides e seu irmão orquestraram outra manobra para driblar a constituição. Joaquim renunciou ao seu mandato pouco tempo antes da eleição, para poderem afirmar que, no período eleitoral, Euclides não tinha um parente no governo. A estratégia foi aceita pela justiça e, em 12 de Junho de 1906, Euclides Malta volta a ser governador do Estado.

Euclides Malta e sua esposa Maria Gomes Ribeiro

Euclides Malta e sua esposa Maria Gomes Ribeiro [Imagem: Reprodução/Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas]

Evidentemente não contente com os desmandos da oligarquia Malta, a oposição começa a atacar de modo ferrenho o governador. Seus adversários políticos criaram jornais para disseminar as críticas, como o Correio de Alagoas, o Jornal de Debates e o Jornal de Alagoas, vez ou outra sendo silenciados pelo governo. Euclides Malta passou a ter sua credibilidade agredida diariamente pelos jornais da oposição, entre denúncias de abuso de poder e falta de transparência com as contas públicas.

É nesse contexto que surge a acusação que vai refletir nas religiões de matriz africana: a oposição acusou Euclides Malta de ser um grande frequentador dos terreiros da capital. O governador foi acusado, inclusive, de ter usado o  que chamaram de “bruxaria”e “feitiçaria”  para se perpetuar no poder. 

Durante a Era dos Maltas, os cultos afro-brasileiros receberam a benevolência do governador e gozaram de certa aceitação na sociedade, o que não era bem visto por alguns setores. Apesar de nunca terem sido confirmadas as acusações, não seria absurdo acreditar que Euclides de fato visitava as casas de axé. Inclusive, quando eleito senador, Euclides colocou um afamado pai de santo de Maceió em sua comitiva para a Capital Federal.

Uma história interessante a ser contada é que Euclides Malta teria ido ao evento de abertura da casa do babalorixá Chico Foguinho e recebido o título de Papa do Xangô Alagoano.

Ilustração da Revista Fon Fon de 23 de março de 1912

Ilustração da Revista Fon Fon de 23 de março de 1912 [Imagem: Reprodução/Revista Fon Fon]

Uma pessoa de destaque nessa história de Euclides e os terreiros é Tia Marcelina. Nascida no continente africano, ela era uma das mais antigas ialorixás em Maceió naquela época. Os rumores eram de que o governador a buscava nos momentos de maior tensão para perguntar sobre o futuro que lhe aguardava. Havia até o boato de que a mãe de santo foi chamada por Euclides para realizar rituais no Palácio dos Martírios, então sede do governo.

Em 1909, Euclides é eleito novamente em meio a mais uma polêmica. Dessa vez, ele criou uma proposta para mudar a Constituição do Estado, que permitiu sua reeleição fato inédito na história alagoana. Esse seria seu último mandato como chefe do executivo estadual.

É criada, em 1911, a Liga dos Republicanos Combatentes, uma milícia paramilitar ligada à oposição. Liderada por Manuel Luiz da Paz, um tenente reformado do Exército, que lutou na Guerra de Canudos, a Liga começou a gerar o caos em Maceió. Apenas dez dias após sua criação, a associação já tinha invadido com rifles a casa do Intendente da capital, fazendo-o renunciar do cargo no dia seguinte. E é nesse mesmo dia, 28 de dezembro de 1911, que os combatentes tentam pela primeira vez invadir o Palácio do Governo para pegar Euclides Malta. A tentativa é frustrada porque as forças de segurança conseguem barrar os invasores.

Em 29 de janeiro de 1912, a Liga vai até o Palácio dos Martírios novamente e, dessa vez, a polícia não seria suficiente para impedi-los. Euclides Malta então foge pelos fundos e corre para o bairro do Bebedouro, onde embarca num trem para Recife.

Palácio dos Martírios (atualmente Museu Palácio Floriano Peixoto) em 1911

Palácio dos Martírios (atualmente Museu Palácio Floriano Peixoto) em 1911 [Imagem: Reprodução/Secretaria de Estado da Cultura]

O Quebra

Também chamado de “Operação Xangô” ou “Quebra-quebra”, o episódio foi resultado dessa disputa entre oligarquias que brigavam pelo comando de Alagoas. Como afirma o historiador e babalorixá Célio Rodrigues dos Santos, mais conhecido como Pai Célio, “o Quebra de 1912 é uma situação política que vai respingar na religiosidade”.

Entre o fogo cruzado das oligarquias, estavam as casas de xangô (como eram chamados terreiros em que se realizavam os cultos de matriz africana). Os jornais oposicionistas passaram a usar essa suposta relação para tentar enfraquecer a imagem de Euclides Malta e botar a população contra ele e contra os próprios terreiros de forma geral. 

A invasão gerou um clima tenso na cidade, que perdurou por vários dias e desencadeou ainda mais violência. Na madrugada do dia 1 de fevereiro para o dia 2, membros da Liga dos Republicanos Combatentes saíram pelas ruas de Maceió para invadir terreiros, quebrar e queimar peças sagradas, como também agredir os religiosos.

O primeiro terreiro a ser destruído foi o do já citado Chico Foguinho, que ficava na mesma rua da sede da Liga dos Republicanos Combatentes. Daí, os algozes partiram em busca de mais casas de axé, em um verdadeiro massacre, aos gritos de “quebra!”. 

Grande parte dos objetos sagrados que se encontravam naquelas casas de candomblé foi quebrada ou jogada em fogueira no meio da rua para ser desprezada pelo público que assistia e participava daqueles atos. Porém, uma parte desses artefatos foi preservada, pelos próprios combatentes da Liga, sendo posteriormente exposta pela cidade para o escárnio de quem passava. 

Um filho de santo foi responsável por classificar e organizar as peças, explicando também o significado de cada uma delas entre as várias estátuas, coroas, indumentárias e outros artefatos.

Fotografia mostra os utensílios levados para a sede da Liga dos Republicanos Combatentes.

Fotografia mostra os utensílios levados para a sede da Liga dos Republicanos Combatentes [Imagem: Reprodução/Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas]

Hoje, tais peças são preservadas no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) com o nome de Coleção Perseverança (nome dado pois a Liga os tinha doado para a Sociedade Perseverança, que os guardou até serem mantidos pelo IHGAL). Em 2013, o Governo estadual tombou a coleção, que passou a fazer parte do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Estado de Alagoas. Atualmente, os objetos apreendidos são de grande importância para a compreensão da história dos candomblés alagoanos.

Esse fato reflete em uma questão delicada acerca da história do Quebra: as informações contadas e registradas sobre o que aconteceu naqueles dias foram narradas pelos algozes. Até mesmo as peças sagradas dos oprimidos foram guardadas para serem contadas pelos seus opressores.

 Os principais documentos históricos que expõem esse evento são do Jornal de Alagoas, um veículo da oposição que estava por trás dos ataques. A partir da série de reportagens intituladas “Bruxaria”, publicadas nesse jornal, é que foi possível relatar o que se passou com o Quebra de Xangô.

Edição do dia 4 de fevereiro de 1912 do Jornal de Alagoas. É possível ler na linha-fina da reportagem o seguinte: “Xangô em acção — A oligarchia e o <oghum> O povo invade os covis — Documentos preciosos — Um bode sacrificado — Exposição de ídolos e bugigangas.”

Edição do dia 4 de fevereiro de 1912 do Jornal de Alagoas. É possível ler na linha-fina da reportagem o seguinte: “Xangô em acção — A oligarchia e o O povo invade os covis — Documentos preciosos — Um bode sacrificado — Exposição de ídolos e bugigangas.”   [Reprodução/ Acervo do Arquivo Público de Alagoas]

Charge faz referência a um religioso chamado por Tio Salú, “Retrato do celebre feiticeiro, que ((opera)) como chefe, na Bahia, Alagoas e Pernambuco, na occasião que explicava ao dr. Euclides Malta, seu fervoroso devoto, os mystério do Xangô”. Publicada em 13 de fevereiro de 1912

Charge faz referência a um religioso chamado por Tio Salú, “Retrato do celebre feiticeiro, que ((opera)) como chefe, na Bahia, Alagoas e Pernambuco, na occasião que explicava ao dr. Euclides Malta, seu fervoroso devoto, os mystério do Xangô”. Publicada em 13 de fevereiro de 1912 [Reprodução/ Acervo do Arquivo Público de Alagoas]

Edição do dia 8 de fevereiro do Jornal de Alagoas

Edição do dia 8 de fevereiro do Jornal de Alagoas [Reprodução/ Acervo do Arquivo Público de Alagoas]

Como é possível observar nas imagens acima, o Jornal de Alagoas apresentava uma visão bastante depreciativa da religião de matriz africana e pautada em um racismo latente. “O fetichismo impera em toda a África, onde o negro, ignorante e cego, vive em cubatas que mais se assemelham a covis de féras”, esse trecho deixa bastante evidente a posição desse veículo de imprensa e reforça o problema em ter essas reportagens como principal documento histórico sobre o Quebra.

Outro ponto a ser levantado é a suposta presença de um repórter do Jornal de Alagoas em um culto de matriz africana na noite do Quebra, no dia 1 de fevereiro de 1912. Essa informação traz à tona a questão da preparação e da participação nos ataques, pois indica evidentemente que o jornal e, portanto, a oposição sabiam do que aconteceria.

Segundo o historiador, pesquisador e babalorixá Célio Rodrigues, “o primeiro de fevereiro para o dois de fevereiro não foi à toa, foi uma coisa pensada e estudada pela Liga, porque era festa de Oxum”, em referência às festas em homenagem a essa orixá, que coincidiam com os da Imaculada Conceição, celebrada pelos católicos, entre os dias 23 de janeiro e 2 de fevereiro. Além disso, o carnaval estava próximo, então a cidade inteira se preparava para as festividades. 

Naquela noite, no embalo do grito dos combatentes e do calor das fogueiras, o grupo atraiu mais e mais participantes, alguns para ajudar a destruir os terreiros, outros atraídos pensando que eram as prévias de carnaval. E, de fato, aquele movimento de violência continuou como se fosse carnaval, espalhando-se pelo resto de Maceió e para cidades do interior de Alagoas. “Era um verdadeiro episódio medieval, era a caça às bruxas. A caça aos pais e mães de santo”, conta Pai Célio.

Os pais e mães de santo eram humilhados: colocaram-se trouxas em suas cabeças para serem desmoralizados no meio da rua pelos algozes. No horário dos ataques estavam acontecendo as obrigações nos terreiros e algumas das pessoas ainda estavam com o “santo na cabeça”, sendo pegas de surpresa e dificultando a fuga das vítimas.

Entre os sacerdotes que foram vítimas dessa violência estava a Tia Marcelina. Já idosa, ela guardava as tradições dos saberes de matriz africana e era detentora da Coroa de Dadá, título raro no Brasil, que tinha recebido ainda na África. Afirma-se que Marcelina teria se recusado a deixar seu terreiro, mesmo prevendo que seria atacada.

Segundo relatos da época, enquanto sofria as agressões, Tia Marcelina teria dito o seguinte:  “Bate, moleque! Quebra braço, quebra perna, tira sangue, mas não tira saber”. Para o babalorixá Célio Rodrigues, ela entendia que eles queriam prendê-la para tirar os segredos do candomblé, “então ela dizia que batia, mas que ela não ia dizer nada, podia fazer o que fizesse, mas não iam tirar o saber dela. O saber dela era perpétuo, era dela e para disseminar entre as pessoas”.

Fortemente agredida, Tia Marcelina viria a morrer pouco tempo depois por conta de um golpe de sabre que sofreu na cabeça. Conta-se que enquanto era pisoteada e ferida, a mãe de santo chamava por Xangô, orixá da justiça, e no dia seguinte a perna do agressor foi secando, até que ele ficou manco.

Para Maria Neide Martins, mais conhecida como Mãe Neide, ialorixá da Umbanda e Patrimônio Vivo do estado de Alagoas, “é muito importante não só contar a história do Quebra de 1912, mas em parte lembrar e marcar a força da mulher, porque Tia Marcelina é o símbolo da nossa resistência, da luta contra a intolerância religiosa”.

Pintura de Tia Marcelina pelo artista alagoano José Zumba

Pintura de Tia Marcelina pelo artista alagoano José Zumba [Imagem: Acervo de Edson Moreira]

Por volta de 1917, a Liga dos Republicanos Combatentes começa a perder seu caráter de milícia armada e assume a posição de associação carnavalesca. Porém, as perseguições não pararam por aí. Com o fim do grupo paramilitar e a eleição dos candidatos da oposição, a polícia assumiu o papel de repressão aos cultos de matriz africana. 

Mas, como visto, a Liga foi o principal agente da oposição, sendo influenciada por Clodoaldo Deodoro e Fernandes Lima, que mais tarde viriam a ser eleitos governador e vice-governador respectivamente, no ano de 1912. Fato a ser notado atualmente é a nomeação da principal avenida de Maceió em homenagem a um dos dirigentes de um dos episódios mais tristes da história alagoana, a Avenida Fernandes Lima.

Os ataques continuaram com o passar dos dias e o clima de medo entre o povo de axé se mantinha. O resultado foi catastrófico: todos os terreiros da capital foram fechados. Como conta o babalorixá e historiador Célio Rodrigues, “tantos babás e iyás foram afugentados para os interiores, outros para Pernambuco, e outros para Sergipe, e aí se dissemina. Eu digo que ocorreu aí a chamada Diáspora do Candomblé Alagoano”.

Xangô Rezado Baixo

O receio de novas perseguições e novos ataques perdurou nas Alagoas, fazendo surgir uma nova forma de culto, que ficou conhecida como Xangô rezado baixo, ou “candomblé em silêncio”. Pai Célio explica: “eles não pararam a religião, eles calaram, por isso é conhecido como Xangô rezado baixo.”

Os rituais eram feitos às escondidas dentro das casas e no fundo dos quintais. Não se escutavam mais os atabaques em Maceió, os cultos eram entoados por palmas e orações discretas. As figuras dos orixás foram todas substituídas pelos santos católicos para não levantar suspeitas. “Onde tinha qualquer tipo de candomblé, qualquer tipo de macumba, qualquer tipo de batuque ligado à questão do negro, a Liga ia lá e acabava”, relata o babalorixá e historiador, que finaliza: “nós somos fruto do medo”.

Banner exposto na Casa de Iemanjá, Axé Pratagy, de Pai Célio

Banner exposto na Casa de Iemanjá, Axé Pratagy, de Pai Célio [Imagem: Theo Sales/ Jornalismo Júnior]

Como salienta Pai Célio, “os nossos terreiros têm uma singular importância e uma diferença entre todos os outros do Brasil, o nosso terreiro é no fundo do quintal. O terreiro alagoano é mais com a família, é mais voltado ao culto familiar, por conta disso.” O babalorixá também lembra como tinha de pedir um alvará para que sua avó pudesse tocar o candomblé. 

Apesar de tudo isso, a religiosidade de matriz africana sobreviveu nas Alagoas. Segundo afirma o pesquisador Célio Rodrigues, “o candomblé alagoano é de resistência, de força, de energia e de singularidade”. A unicidade do povo de axé no estado chamou a atenção do pesquisador pernambucano Gonçalves Fernandes, em uma visita à Maceió no ano de 1939. Foi Fernandes quem pela primeira vez nomeou essa modalidade como “candomblé em silêncio”, dedicando-lhe um capítulo inteiro, intitulado “Uma nova Seita Afro-brasileira – O Xangô-rezado-baixo”, do livro O Sincretismo Religioso no Brasil.

Não é possível determinar exatamente em qual momento da história os terreiros puderam voltar a realizar os cultos como antes. Mas, como pode ser visto acima, em 1939, quase 30 anos após o Quebra, a situação ainda não tinha mudado. O Xangô ainda teve de ser rezado baixo por muitos anos.

Para Célio Rodrigues, a Constituição Federal de 1988 foi um marco para a religião de matriz africana, “a gente se empoderou”, afirma o pesquisador. No artigo 5°, inciso VI, da Constituição consta o seguinte: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

A partir daí, o candomblé, a umbanda e todo culto de matriz africana teve sua crença respaldada pela lei maior do Brasil. 

É importante notar, contudo, que o mecanismo legal não impediu e não impede que a liberdade religiosa dessas pessoas seja ferida. Continuam a serem noticiados casos de evidente intolerância religiosa, executada, inclusive, por pessoas do Estado, como em um caso recente, no qual uma mãe perdeu a guarda de sua filha por levá-la para um ritual do candomblé.

“Nossa religião é escancaradamente atacada todos os dias. Na realidade, nós somos uma religião de muita fé, de muita resistência, que fizemos a história do nosso país. Nós fazemos parte da história do nosso povo brasileiro”, conta a ialorixá Mãe Neide. Ela ainda cita uma frase da ativista contra a intolerância religiosa Makota Valdina: “eu não quero tolerância, eu quero que me respeitem”. “Nós queremos o respeito à nossa história, à nossa luta, à nossa fé, à nossa crença e à nossa contribuição para o país”, termina Mãe Neide.

Maria Neide Martins, a Mãe Neide, Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas

Maria Neide Martins, a Mãe Neide, Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas [Imagem: Divulgação/ Secom AL]

Apesar de continuarem os ataques à religiosidade de matriz africana, a Constituição possibilitou a volta de terreiros à vista de todos, não mais escondidos no fundo do quintal. Os atabaques puderam ser escutados outra vez em terras alagoanas. Exemplo disso é do próprio Pai Célio, que abre uma nova casa de candomblé: “em 1999 a gente quebra esses paradigmas, fundando esse terreiro que não é no fundo do quintal, é um terreiro aberto, num bairro populoso.”

 Frente do hoje Núcleo de Cultura Afro-brasileira Iyá Ogun-té — Casa de Iemanjá, Templo dos Orixás, sede fundada em 1999, já com Pai Célio como babalorixá da casa

Frente do hoje Núcleo de Cultura Afro-brasileira Iyá Ogun-té — Casa de Iemanjá, Templo dos Orixás, sede fundada em 1999, já com Pai Célio como babalorixá da casa [Imagem: Theo Sales/ Jornalismo Júnior]

Interior do Núcleo de Cultura Afro-brasileira Iyá Ogun-té — Casa de Iemanjá, Templo dos Orixás

Interior do Núcleo de Cultura Afro-brasileira Iyá Ogun-té — Casa de Iemanjá, Templo dos Orixás [Imagem: Theo Sales/ Jornalismo Júnior]

 “A Casa de Iemanjá é o Templo dos Orixás”. Núcleo de Cultura Afro-brasileira Iyá Ogun-té — Casa de Iemanjá, Templo dos Orixás

“A Casa de Iemanjá é o Templo dos Orixás”. Núcleo de Cultura Afro-brasileira Iyá Ogun-té — Casa de Iemanjá, Templo dos Orixás [Imagem: Theo Sales/ Jornalismo Júnior]

 

Célio ainda foi mais longe e, em 2020, inaugurou sua nova casa: Axé Pratagy, que é também um museu de cultura afro-brasileira, o primeiro do tipo em Maceió. Com um grande espaço e em contato direto com a natureza. Agora sua família não precisa mais se esconder, podendo mostrar toda a sua religiosidade garantida pela Constituição, e assim o fez.

Estrada de terra em meio a natureza que leva ao Axé Pratagy

Estrada de terra em meio a natureza que leva ao Axé Pratagy [Imagem: Theo Sales/ Jornalismo Júnior]

Pai Célio hoje expõe com orgulho a sua religiosidade. Na foto aponta para a placa do Axé Pratagy, sua nova casa de candomblé inaugurada em 2020, que também é o primeiro museu a céu aberto de Maceió

Pai Célio hoje expõe com orgulho a sua religiosidade. Na foto aponta para a placa do Axé Pratagy, sua nova casa de candomblé inaugurada em 2020, que também é o primeiro museu a céu aberto de Maceió [Imagem: Theo Sales/ Jornalismo Júnior]

 

Xangô Rezado Alto

“Xangô Rezado Alto – celebrando a memória do Quebra”, um projeto idealizado pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), começa com a intenção de lembrar esse episódio marcante da história do Estado, que é, no entanto, muito esquecido ainda. Serve para recordar a memória da população e evoca as consequências políticas, sociais e culturais em Alagoas decorrentes do Quebra.

Em 2012, no dia 1 de fevereiro, no centenário do Quebra, como consequência desse projeto, o governador do Estado de Alagoas, Teotônio Vilela, assina um decreto de perdão às comunidades de terreiros, marcando um novo momento para as religiões de matriz africana em Alagoas. A seguir um trecho do discurso do governador:

Não existe nação que se pretenda grande, sem um povo forte. Da mesma forma, não existe povo que seja grande, sem uma forte memória coletiva. A memória é a alma do povo e o povo é a alma da nação.

E nossa memória alagoana precisa ser revigorada com o resgate de lembranças escondidas, erroneamente varridas para baixo do tapete de penumbra do silêncio. Não podemos esquecer que 2012 marca o centenário do auge do período de perseguição aos praticantes dos cultos afro-brasileiros em Alagoas. Época de terror especialmente forte em Maceió, no episódio mais conhecido como a Quebra dos Xangôs, ou simplesmente, Quebra.

Pegando pela palavra, estamos aqui reunidos para quebrar o silêncio oficial que reinou durante décadas sobre os horrores daqueles acontecimentos que marcaram o ano de 1912. Naquele tempo, uma onda de violência sem precedentes se abateu sobre os terreiros em Maceió e sobre as pessoas que então praticavam os ritos de origem africana – o Estado não cumpriu, naquele momento, seu papel de assegurador dos direitos elementares do cidadão, nem na garantia do direito à liberdade religiosa.

Para ler o discurso na íntegra clique aqui.

Apesar de ser um pedido de perdão 100 anos após o ocorrido, Mãe Neide afirma que “como o nosso povo resistiu até esse momento, foi importante para nós saber que um governador iria em praça pública e pedir perdão. Perdão por todas as atrocidades que fizeram com o nosso povo.” A ialorixá conta que isso os incentivou a continuar resistindo e lutando.

Mãe Mirian, matriarca da religião afro de Alagoas, abençoa a bandeira de Alagoas. Atrás dela, de terno, o então governador Teotônio Vilela e, de branco, o reitor da Uneal, Jairo Campos

Mãe Mirian, matriarca da religião afro de Alagoas, abençoa a bandeira de Alagoas. Atrás dela, de terno, o então governador Teotônio Vilela e, de branco, o reitor da Uneal, Jairo Campos [Imagem: Tércio Capello/ Agência Alagoas]

O decreto de perdão foi um acontecimento de grande significado, pois a religiosidade de matriz africana foi oprimida repetidas vezes pelo Estado alagoano após o Quebra. Os próprios organizadores da “Operação Xangô” se tornaram os representantes do Governo. “Foi o Estado reconhecer e pedir perdão a nós que somos hoje os detentores de um saber, de uma tradição que morreu. Ele não tava pedindo perdão a mim, ele tava pedindo perdão aos meus ancestrais”, conta Pai Célio.

Para além do ato simbólico do pedido de perdão, o Xangô Rezado Alto se constituiu em um evento anual em Maceió, organizado pela prefeitura, por meio da Fundação Municipal de Ação Cultural (Fmac). Desde 2013 essa cerimônia acontece e serve para relembrar todos os anos o episódio do Quebra e evitar que isso se repita.

Na visão de Thauane Rodrigues, futura herdeira da Casa de Iemanjá, “o Xangô Rezado alto consegue reafirmar a nossa identidade, ele consegue reviver a nossa fé de que as coisas vão melhorar”.

Mãe Mirian, Mãe Neide e Pai Célio são algumas das lideranças religiosas por trás desse projeto, junto à Uneal, o Poder Público, a sociedade civil e outros representantes da religiosidade de matriz africana. Um dia para celebrar a memória de Tia Marcelina, mártir dos candomblés alagoanos. 

Com diversas manifestações culturais, como os afoxés e os grupos percussivos de maracatu, os religiosos vão para as ruas de Alagoas mostrar suas identidades com orgulho e sem medo. Exibem tudo aquilo que seus ancestrais foram impedidos de exibir. Para lembrar o período em que os terreiros foram quebrados e silenciados, para lembrar o Xangô Rezado Baixo, hoje, o povo de axé faz o Xangô Rezado Alto. Quebram o silêncio histórico que lhes foi imposto.

Em destaque, homem com os machados e as cores de Xangô, orixá da Justiça. Xangô Rezado Alto na orla de Maceió em 2 de fevereiro de 2020

Em destaque, homem com os machados e as cores de Xangô, orixá da Justiça. Xangô Rezado Alto na orla de Maceió em 2 de fevereiro de 2020 [Imagem: Pei Fon/ Secom Maceió]

Xangô Rezado Alto na orla de Maceió em 2 de fevereiro de 2020

Xangô Rezado Alto na orla de Maceió em 2 de fevereiro de 2020 [Imagem: Pei Fon/ Secom Maceió]

Pai Célio a frente no Xangô Rezado Alto no centro de Maceió em 2019

Xangô Rezado Alto na orla de Maceió em 2 de fevereiro de 2020 [Imagem: Pei Fon/ Secom Maceió]

Pai Célio a frente no Xangô Rezado Alto no centro de Maceió em 2019

Pai Célio a frente no Xangô Rezado Alto no centro de Maceió em 2019 [Imagem: Pei Fon/ Secom Maceió]

Mesmo com toda a difusão acerca do Quebra de 1912 e de projetos como o Xangô Rezado Alto, a ignorância e a intolerância ainda fazem parte do cotidiano e se fazem presentes no dia desse evento. “Muita gente acha que é um monte de ‘macumbeiro’ no meio de uma praça fazendo folia”, relata Thauane Rodrigues, filha de santo de Pai Célio. Ela continua: “Xangô Rezado Alto tá ali pra mostrar que mesmo com todas as dificuldades que a gente passou, o povo preto resiste, o povo de terreiro resiste e, principalmente, o candomblé alagoano resiste”.

“Eu sou herdeiro de uma negritude latente nas minhas veias”, afirma Pai Célio, que continua: “eu tenho uma responsabilidade ancestral”. E é essa responsabilidade que motiva ele e todos aqueles adeptos dos cultos de matriz africana que saem às ruas anualmente com seus atabaques e suas vestes. A responsabilidade para com aqueles que foram perseguidos, mortos e silenciados, mas que resistiram para dar continuidade às suas tradições, que hoje dão um grito de esperança.

Cultura alagoana e a religiosidade de matriz africana

O Quebra não impacta somente a religião, afeta também a cultura do estado. O pesquisador e historiador Célio Rodrigues explica: “Alagoas é o maior celeiro de folguedos do Brasil. E a maioria dos folguedos eram de origem africana.”

Pensamento, vá na frente que eu chego depois

Porque trago na lembrança, 

Os olhos que brilham,

Quando de novo se encontram

Pensamento, olho pro céu e vejo as estrelas,

Na folhagem eu sinto o vento

Dia de chuva, mata escura

Me guardo por dentro

Caxixi cadê berimbau que estava aqui

Estava assentado no chão

Parecia um pé de milho

Folguedo de Capoeira

Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira

Música de autoria do Mestre Pernã

Como visto, a “Operação Xangô” se deu nas vésperas do carnaval daquele ano, já tendo impacto nas festividades e nos folguedos que percorreram por Alagoas. Como como conta Pai Célio, ao acabar com a religiosidade, com os terreiros nessa época, “acaba-se também com o maracatu, acaba-se também com o coco de roda, acaba-se também com todas as movimentações de cultura existentes dentro do espaço religioso”.

Grande parte dos folguedos da Cultura Popular Alagoana eram e são relacionados com a religiosidade de matriz africana. Naquela época, os mestres de candomblé (como eram chamados os babalorixás e as ialorixás) eram também os mestres do maracatu. Fato esse que levou também à expulsão e perseguição desse folguedo no estado, o que fez com que Alagoas não tivesse maracatus por quase 100 anos. 

Somente em 2007, volta-se a ter um grupo de maracatu no estado. Mas, apenas o grupo percussivo, sem a tradicional Corte e sem o cortejo pelas ruas. Mais ainda demorou para se ter uma nação de maracatu, pois para isso é necessário que o maracatu nasça dentro de um terreiro de candomblé, em que o babalorixá ou ialorixá será da Corte.

Grupo de Maracatu Baque Alagoano no Xangô Rezado Alto, 2020

Grupo de Maracatu Baque Alagoano no Xangô Rezado Alto, 2020 [Imagem: Pei Fon/ Secom Maceió]

“O Quebra de Xangô não é só o quebrar o terreiro, é o quebra das instituições, é o quebra da cultura, é a separação das estruturas de base da ideologia social, cultural e também religiosa”, relata Célio Rodrigues. Com a Diáspora do Candomblé Alagoano ocorre também a diáspora do maracatu e outras manifestações culturais tradicionais. Onde tinha qualquer indício de religiosidade africana, a Liga, e depois a polícia, destruía. 

Por conta disso, desenvolveu-se uma relação muito forte de proteção com uma expressão cultural dada a história de formação do estado: a capoeira. O historiador Célio Rodrigues conta que “os ogãs capoeiristas eram quem tomava conta da porta do terreiro para que a polícia e a milícia não entrasse e destruíssem o candomblé. A capoeira ela vem com esse enfoque de salvaguarda do espaço físico dos terreiros”. 

Maracatu, Baiana, Taieira, Nega da Costa e Coco-de-roda são alguns dos folguedos tipicamente alagoanos com características afro-religiosas, integrando o grande acervo de tradições populares do estado. Grande parte dessas danças e festas nasciam ou eram realizadas dentro dos terreiros, sendo possível perceber essa forte influência principalmente em seus batuques. 

Além disso, não se poderia esquecer dos afoxés presença marcante em vários carnavais pelo Brasil. O som notável dos atabaques e agogôs denotam a presença desses grupos inerentemente ligados ao candomblé. Atualmente, afoxés, como o Odô Iyá, primeiro do estado e fundado por Pai Célio, ajudam a desmistificar os preconceitos que rodeiam essa religiosidade. Eles exibem com todas as cores e sons que as tradições e saberes de matriz africana permanecem vivos em Alagoas.

PAfoxé Odô Iyá no Xangô Rezado Alto, 2019

PAfoxé Odô Iyá no Xangô Rezado Alto, 2019 [Imagem: Pei Fon/ Secom Maceió]

Afoxé Odô Iyá no Xangô Rezado Alto, 2019

Afoxé Odô Iyá no Xangô Rezado Alto, 2019 [Imagem: Pei Fon/ Secom Maceió]

Pai Célio fundou em 1984 a primeira ONG e ponto de cultura do Brasil dentro de um terreiro de candomblé. A institucionalização da Casa de Iemanjá fez parte de um processo iniciado pelo babalorixá para aumentar o reconhecimento oficial dos terreiros e do candomblé no estado.

Destaque por sua difusão da cultura afro-brasileira no estado de Alagoas, Mãe Neide é reconhecida como embaixadora da gastronomia alagoana e um Patrimônio Vivo. Fundadora do Grupo Espírita Santa Bárbara, Neide também mantém a ONG Inaê, um ponto de cultura e centro de formação e inclusão social. O movimento promove atividades como artesanato, Artes Cênicas, produção artística e cultural e oficinas de capacitação. 

Hoje, Mãe Neide, Pai Célio e outros líderes religiosos são comendadores da Ordem do Mérito dos Palmares, a mais alta honraria do Estado de Alagoas, e da Comenda Tia Marcelina por seus esforços em defender e difundir a cultura afro-brasileira.

Homenagem da Câmara dos Vereadores de Maceió a defensores da cultura e religião de matriz africana

Homenagem da Câmara dos Vereadores de Maceió a defensores da cultura e religião de matriz africana [Imagem: Assessoria de Comunicação da Câmara dos Vereadores]

 

Outros Quebras

Para Célio Rodrigues dos Santos, enquanto historiador e pesquisador, Alagoas sofreu na verdade 4 quebras em sua história, sendo o de 1912 o terceiro. Em suas pesquisas o babalorixá ligou esses eventos marcantes como sendo momentos em que as raízes africanas do estado foram alvo de perseguições, genocídio e destruição de sua cultura, o que mostra o caráter sistemático desses ataques.

O primeiro desses quebras acontece em 1695 com a aniquilação do Quilombo dos Palmares, quando o atual território de Alagoas ainda fazia parte da província de Pernambuco. Iniciado a partir daqueles que conseguiram se libertar dos engenhos, vários negros se juntaram, construíram e expandiram o quilombo, que atravessava o estado de Pernambuco. Em seu ápice, é dito que chegou a ter uma população de cerca de 20 mil pessoas.

“Palmares foi o primeiro quilombo que tinha a ideia de liberdade, de resistência. Então, a Coroa com medo, preocupada que aquilo ali se transformasse numa grande República dentro do Brasil, eles dizimaram por várias tentativas”, conta Célio Rodrigues, e completa: “quando eu digo que lá foi o primeiro quebra é porque lá não existia apenas a ideologia da resistência. Existia a ideologia cultural, a ideologia religiosa, a ideologia de formação e manutenção da cultura banto”.

Palácio República dos Palmares, atual sede do Governo do Estado de Alagoas

Palácio República dos Palmares, atual sede do Governo do Estado de Alagoas [Imagem: Reprodução/ Gabinete Civil]

Segundo o pesquisador, se não tivesse ocorrido esse Quebra, Alagoas seria hoje o maior polo banto (grupo étnico que habita diversos países da África) fora do continente africano. Liderados inicialmente por Acotirene, depois Ganga Zumba e, por fim, Zumbi dos Palmares, o Quilombo resistiu com seus bravos guerreiros às investidas da Coroa por mais de um século em defesa da liberdade dos negros escravizados. 

Ao se destruir Palmares, buscou-se demolir várias tradições africanas que eram preservadas no quilombo, vistas como inferiores e uma ameaça ao Império. “Então lá foi o primeiro quebra. Quebra esse que dizimou a população, acabou com a sua cultura, acabou com a sua formação, ideologia e pensamento”, conta Pai Célio.

“O nosso estado de Alagoas é a terra da esperança da liberdade. Não digo da liberdade porque isso ainda não aconteceu”, afirma Mãe Neide, que celebra os nomes de Dandara, Zumbi, Aqualtune e Acotirene, que lutaram por suas liberdades. O grito deles despertou o povo, continua a ialorixá: “ali começou a nossa liberdade”, dando ênfase ao fato de que ali foi apenas o começo da luta. “É um incentivo para que a gente saiba que tem que buscar a liberdade todos os dias e lutar por ela”, termina a mãe de santo.

Um dos resquícios dos cultos africanos mantidos pelos quilombolas em Palmares pode ser visto ainda hoje: a Gameleira Branca, árvore sagrada para as tradições, representa o inquice (comparável aos orixás) Irôco, da cultura banto, o que mostra a continuidade desses cultos dentro do quilombo. Pai Célio ainda afirma o seguinte: “a religiosidade é a força espiritual de um povo. Eles buscavam na religiosidade a fortaleza para suportar a dor da escravidão.”

Gameleira Branca, árvore sagrada da religiosidade africana

Gameleira Branca, árvore sagrada da religiosidade africana [Imagem: Reprodução/ Parque Memorial Quilombo dos Palmares]

Dia da Consciência Negra na Serra da Barriga, onde ficava o Quilombo dos Palmares

Dia da Consciência Negra na Serra da Barriga, onde ficava o Quilombo dos Palmares [Imagem: Jonathan Lins/ Secretária da Cultura de Alagoas]

 

Já o segundo quebra ocorre em 1817, com a separação de Alagoas da província de Pernambuco. Nesse ano, ocorre a Revolução Pernambucana, vista pela Coroa como uma traição, buscando separar o território em uma área estratégica a emancipação política de Alagoas ocorre em 16 de setembro daquele ano (por coincidência, mesmo dia e mês de aniversário de Euclides Malta).

“Com a separação, muita coisa produzida em Alagoas vai pra Pernambuco. Eu digo até que o nosso frevo vai para Pernambuco, porque o frevo de fato nasce em Marechal Deodoro”, conta Célio Rodrigues, que ainda afirma o seguinte: “Alagoas era o quintal cultural de Pernambuco”. Muitos mestres e muitos folguedos desaparecem do território alagoano nesse momento. 

O terceiro quebra, como narrado acima, acontece em 1912 e vai ser o com maiores consequências para a religiosidade de matriz africana no estado. Acontece o que Pai Célio chama de Diáspora do Candomblé Alagoano.

Por último, segundo os estudos e pesquisas de Célio Rodrigues, ocorre o quarto quebra com a Ditadura de Getúlio Vargas, que reprimiu e criminalizou os cultos de matriz africana no Brasil. Terreiros foram fechados por todo o país e os toques de atabaques foram proibidos. Célio reforça que, enquanto os outros estados passaram então pelo primeiro quebra de sua história, Alagoas já estava em seu quarto, reforçando o caráter único que a perseguição às religiões de matriz africana sofreram em solo alagoano.

Resistir para existir: o hoje e o amanhã

“Infelizmente a gente tá retrocedendo, mas eu digo que o nosso povo é resistente. A gente não vai desistir, mesmo que o xangô venha a tocar baixo, nós não vamos perder a nossa fé, a nossa a crença de lutar por dias melhores e pelo nosso povo”, conta Mãe Neide. A ialorixá afirma que, apesar do retrocesso visto no país, Alagoas hoje possui representantes que se preocupam com a questão da religiosidade de matriz africana.

“Eu sou encarregada de preservar tudo aquilo que os meus antepassados sofreram para preservar”, relata Thauane Rodrigues, iaô e futura herdeira da Casa de Iemanjá. Ainda jovem, ela conta um pouco das responsabilidades e dos desafios que há de enfrentar para manter vivas as tradições de seu povo: “os meus ancestrais lutaram para que eu estivesse aqui hoje, lutaram para que eu continuasse com a minha fé e o meu desafio é propagar isso para os próximos que estão vindo”.

Thauane ainda fala sobre a importância da organização Juventude de Terreiro para a preservação e união do candomblé alagoano, “eu posso, hoje em dia, levar a Juventude, 10 jovens de terreiros diferentes numa praça pública com atabaque, um agogô, um abê, todos vestidos de axó, todos com seus fios de conta, cantando e louvando o orixá”. Estudante de jornalismo, a filha de santo vê com otimismo o futuro: “a Juventude traz esperança”.

Como disse Pai Célio, “o candomblé alagoano é de resistência, de força, de energia, de singularidade”. E, como futura herdeira do terreiro de Célio, Thauane afirma que a união é essencial dentro do candomblé. Para ela, essa pode ser a chave para a preservação das tradições de matriz africana: “quanto mais os líderes religiosos, os líderes de terreiros estiverem juntos, melhor fica. A palavra é união”. 

Mãe Neide finaliza: “enquanto a gente bater os olhinhos, enquanto tiver um rio correndo, enquanto o mar tiver seus peixes para alimentar nosso povo, enquanto os pássaros correrem livres ainda no topo das nossas florestas, a gente não vai perder a fé de um mundo melhor”.

 

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