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O eterno Jeca
CINÉFILOS
18 fev 2013 | Por Jornalismo Júnior

O cinema de Mazzaropi

– Vamo, diabo! Despeja logo esse leite que eu tenho mai o que fazê! Ô vaca preguiçosa, é preguiçosa qual o dono!
– Sai daí muié, essa vaca só conhece eu! Vai, vai pra lá!
– Vai me enche, vai me enche é?
– Vo enche é o balde de leite! Vamo, Oposição!
– Mai o leite não sai!
– Mai ocê já viu oposição dá leite?

É com esse diálogo irreverente com sua esposa que Mazzaropi, ou melhor, Jeca começa um de seus filmes mais famosos, Jeca Tatu (1959). A obra do cineasta, produtor, roteirista, cantor, ator e empresário é tão plural quanto seu trabalho dentro e fora das telas do cinema. Nascido Amácio Mazzaropi, o cineasta viu seu sobrenome italiano ganhar fama no país inteiro.

Desde a criação de um roteiro, passando pela produção das cenas até a distribuição do material, Mazzaropi se fazia presente em todos os momentos. Sua dedicação não era apenas para satisfazer aos críticos de cinema, mas principalmente para fazer algo agradável para o grande público. Pode-se dizer que seu cinema era popular, pois era do povo que vinham suas maiores inspirações: os fatos do dia-a-dia, as histórias e causos contados pelos mais velhos, o vocabulário informal do cotidiano.

Em seus filmes, Mazzaropi fazia questão também de dedicar espaço para a música. Grandes interpretes como Agnaldo Rayol, Hebe Camargo e Elza Soares foram alguns que participaram de suas produções. Além da presença de músicos famosos, Mazzaropi também cantava, emprestando sua voz ao Jeca.

O ator encantava com a capacidade do humor fácil e sincero. Nos filmes, suas piadas e trocadilhos ganham ainda com a irreverência de seus olhares e gestos, principalmente se tratando de sua interpretação do Jeca. Até hoje, seu nome é atrelado a figura do caipira e do homem do interior. O personagem, que foi interpretado várias vezes e em diferentes versões, confunde-se com o próprio Mazzaropi.

A identificação com o gosto popular foi um dos seus maiores trunfos. A urbanização sofrida em meados dos anos 40 e 50 levou milhares para a cidade e o êxodo rural foi responsável pelo crescimento dos grandes centros urbanos no Brasil. O saudosismo do meio rural e da simplicidade da vida no campo aumentaram ainda mais o apreço do público pela sua obra. Retratando o cotidiano, com certeiro toque de humor e enredos de leve absurdo, Mazzaropi conseguiu realizar uma obra única e extensa no cinema nacional.

Mazzaropi por detrás dos holofotes

Mazzaropi não era só um personagem dentro do cinema: fora dos teatros e dos estúdios, era engraçado naturalmente. Quem lembra muito bem de sua irreverência é o oftalmologista Fábio Vilela Ribeiro, que o conheceu pessoalmente quando criança. Aliás, o ator frequentava muito a casa de sua família no centro de Pindamonhangaba (município vizinho de Taubaté) e “era considerado um tio”.

Seu pai, o professor Augusto César Ribeiro, era amigo pessoal de Mazzaropi. Ele dividiu sua carreira nas salas de aula com vários papéis em filmes como Betão Ronca Ferro (1970) e Uma Pistola para D’Jeca (1969) e “quando era um personagem que ele [o pai] aparecia o filme inteiro, meu pai mudava para Taubaté e a gente ficava lá em Pinda”, relembra Fábio. Além de atuar, Augusto César também ajudava a escrever scripts e trocava ideias sobre argumentos de filmes, mas apesar de ter atuado em quase 20 produções, nunca ganhou por participar das produções de Mazzaropi. Junto com sua esposa, Dona Carminha, acompanhavam o ator nas sempre concorridas estreias nos antigos teatros e cinemas de São Paulo.

Mazzaropi e Augusto César Ribeiro

“Era um homem muito caprichoso e muito meticuloso”, recorda Fábio, que acompanhava a gravação de seus filmes “quase como um contrarregra postiço” em suas férias, passadas na fazenda onde havia os estúdios da P.A.M. Filmes. Uma de suas maiores lembranças remonta ao período de gravações dos filmes, quando Mazzaropi passava o dia inteiro trabalhando e quando terminava, ligava para a casa da família: “Carminha, tem um restinho de janta aí?”. Acordavam então Fábio e seus irmãos para arrumar a casa para o jantar que seria servido. Estava feito: o barulho tarde da noite indicava para os vizinhos que Mazzaropi e seus companheiros viriam e já se reuniam todos para esperá-lo.

“Mazzaropi, ao longo desses 32 filmes, sempre via no meu pai um personagem que podia colocar: ‘Augusto, você vai fazer um coronel de 70 anos’, dizia, mas meu pai tinha 50 anos, então ele tinha que envelhecer 20 anos. Botava rugas, cabelos brancos e eu acompanhava essa maquiagem toda”, relembra Fábio de quando acompanhava seu pai junto ao cineasta. O resultado dessa vida junto as gravações pode ser visto em uma foto que ele mostra na tela do computador. Em Betão Ronca Ferro, pai e filho fazem os papéis do padre e do coroinha, respectivamente.

Uma vida entre a capital e o interior

Filho de um imigrante italiano e de uma descendente de portugueses, Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo no dia 9 de abril de 1912. Porém, não foi a cidade grande que viu o futuro ator a se aventurar no mundo artístico. Desde a infância, teve uma ligação muito grande com o interior do estado, especialmente com o município de Taubaté, onde deu seus primeiros passos na carreira. Depois de mudar para a cidade, o avô materno, famoso animador de festas da região, foi quem apresentou Mazzaropi ainda garoto à música e ao teatro..

Entretanto, de início seus pais não apoiaram  sua presença nos palcos e foi obrigado a se mudar para Curitiba com um tio. O amor e a vocação pelas artes não foram abalados pela estadia fora de São Paulo e, voltando, Mazzaropi começou a atuar em grupos de teatro e circos. Em 1934, o jovem ator conhece a Troupe Olga Krutt e ingressa no grupo para acompanhá-lo nas apresentações pelo interior do país. O sucesso é tanto que tempos depois a companhia passa se chamar Troupe Mazzaropi. Os 15 anos seguintes viram a sua carreira amadurecer, e de ator itinerante ele passou a marcar presença nos teatros da cidade de São Paulo e em programas de rádio e televisão.

Depois de encantar nos palcos e nas rádios, era a vez de Mazzaropi estrear no cinema. Convidado pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, estrela o filme Sai da Frente (1952). Depois do sucesso de sua primeira aparição no cinema, começa a dedicar a maior parte do seu tempo para sua carreira nas grandes telas. Após um momento de crise na Vera Cruz, ele decide criar sua própria produtora, a Produções Amácio Mazzaropi (P.A.M. Filmes) em 1958. Da fundação da produtora em diante, são alcançadas suas maiores bilheterias e praticamente lançados  um filme por ano. Em 1975, o já então produtor e cineasta compra uma fazenda em Taubaté onde foi construído seu novo estúdio, que atualmente funciona como hotel fazenda e um museu, mantido pelo Instituto Amácio Mazzaropi. Mazzaropi morreu aos 69, em 13 de junho de 1981, deixando um extenso legado.

O Jeca que fez história

Sem dúvida, o personagem mais marcante interpretado por Mazzaropi foi Jeca Tatu, criado como uma personificação do trabalhador do campo de uma região economicamente irrelevante e descuidada, na famosa obra de Monteiro Lobato, Urupês (1918). Não por acaso, Lobato nasceu em Taubaté e presenciou o atraso em que se encontrava o Vale do Paraíba no final do século XIX e início do século XX, podendo assim ter descrito com clareza as condições de vida do homem do interior: pobreza, ignorância e principalmente falta de saneamento básico, problemas refletidos em um personagem avesso ao trabalho, com os calcanhares rachados pela falta de calçados e na barriga saliente devida a verminoses.

Porém, o que vemos em Tristeza do Jeca (1961), O Jeca e a Freira (1967), Uma pistola para D’Jeca (1969) e tantos outros filmes em que a figura do caipira ocupa o papel principal é o olhar “mazzaropiano” de enxergar o homem do interior. Simples, honesto, ingênuo, um tanto preguiçoso e bem astuto: é assim que é caracterizado o personagem que fez de Mazzaropi grande sucesso de bilheteria. Apesar do humor que marca o personage, a crítica às más condições de trabalho e a exploração pelos grandes proprietários de terra também esteve presente, mas ele ainda era um herói capaz de vencer em meio as dificuldades.

A simplicidade do Jeca convive com sua astúcia, capaz de fazê-lo sair das mais improváveis situações. Em Jeca Tatu, por exemplo, Mazzaropi vive um homem humilde que tem sua propriedade ameaçada por um grande latifundiário, que chega a perder tudo, mas com a solidariedade dos amigos, acaba vencendo o coronel. Já em As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), Mazzaropi vive um caipira que de bobo não tem nada. Mesmo sem herança após a morte de seu pai, consegue “enganar” muitos pelo caminho para no fim poder dar uma educação digna para alguns meninos órfãos que o acompanharam durante sua viagem.

Hoje em dia, talvez o politicamente correto que encobre nossos discursos poderia censurar as pequenas artes do caipira e apontar mais para os grandes problemas sociais que faziam e fazem parte até hoje da vida no campo. Mas de que valeria então a genialidade de Mazzaropi? Com seu talento nato para o riso e seu conhecimento do personagem, o ator (e tantas outras coisas) não só fez o Jeca cair no gosto popular e se tornar um de seus personagens mais conhecidos, mas como também o fez incorporado no imaginário cultural brasileiro.

Por Fernando Souza

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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