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O futebol colombiano sob comando dos narcos
ARQUIBANCADA
08 fev 2021 | Por Rodrigo Tammaro (rodrigotammaro@usp.br )

O futebol colombiano viveu, nas décadas de 1980 e 1990, um período de ascensão. Grandes nomes como Valderrama, Higuita e Rincón formaram, nessa época, uma das melhores gerações da seleção da Colômbia, que participou de três Copas do Mundo consecutivas (1990, 1994 e 1998), feito inédito até então e jamais repetido pelo país.

A seleção nacional não foi a única a crescer, os clubes colombianos também evoluíram no período. O América de Cali chegou a quatro finais da Copa Libertadores da América, sendo três delas consecutivas entre 1985 e 1987, apesar de sair como vice-campeão em todas as oportunidades. Já o Atlético Nacional foi campeão da mesma Copa em 1989, a primeira vez que um time colombiano venceu a competição continental.

O período, porém, também é destacado por outro fato, externo ao futebol, mas com reflexos nítidos dentro de campo: a atuação dos cartéis de narcotraficantes na sociedade colombiana. Essa atuação se fez presente também no futebol. Há indícios que em 1970 alguns narcos já atuavam no esporte, mas foi nas duas décadas seguintes que eles se fizeram mais presente, o que influenciou o futebol de maneira mais explícita.


O narcotráfico muda o futebol

De modo geral, a relação narcotráfico-futebol se deu principalmente por conta de um interesse financeiro dos cartéis, como mostra o historiador e pesquisador em História do Esporte Eduardo Gomes: “A relação se dava muito no âmbito da lavagem de dinheiro. Os traficantes, tanto do cartel de Medelin quanto do cartel de Cali [os principais no território colombiano], buscaram formas para legalizar o dinheiro que eles movimentavam”. Sendo assim, o futebol representava apenas mais uma possibilidade, e foi outra das tantas formas de camuflar o dinheiro ilícito.

Apesar do interesse principal na lavagem do dinheiro sujo, é inegável que a ação dos narcotraficantes possibilitou o desenvolvimento econômico e consequentemente técnico dos clubes por eles comandados. “As equipes que tiveram esse investimento melhoraram. Elas tiveram uma influência maior na questão financeira”, afirma Eduardo. Na lógica capitalista do futebol, o desenvolvimento econômico representa grandes possibilidades de se formar melhores equipes e disputar mais títulos. “Apesar de a geração dos anos 80 na Colômbia ser boa independentemente do narcotráfico, os clubes que foram diretamente influenciados pelos narcotraficantes tiveram melhores condições de formar boas equipes e assim conseguirem bons resultados”, completa Eduardo ao também ressaltar que essa influência era exclusiva a alguns clubes, e não ao futebol colombiano como um todo. Algumas equipes se sobressaíram mesmo sem a influência do narcotráfico.

Entretanto, para o jornalista colombiano Nicolás Samper, essa melhoria era fantasiosa: “Foi uma melhora falsa e mentirosa. Uma luta egoísta entre cartéis para ver quem era o mais poderoso e poderia conquistar mais títulos e contratar os melhores jogadores. Os investimentos transformaram as partidas em grandes shows de futebol, mas os danos foram muito maiores. Era um futebol manchado de sangue”.

Higuita foi um dos principais goleiros do futebol colombiano

René Higuita foi um dos principais jogadores da Colômbia no período e manteve uma relação mais próxima com os Narcos. O jogador chegou a visitar Escobar na prisão. [Imagem: Reprodução/Lance!]

No caso específico da seleção colombiana, que teve nas gerações de 1980 e 1990 uma das melhores equipes da história do país, Eduardo afirma que a influência do narcotráfico e a qualidade da seleção foi apenas uma coincidência: “A princípio, apesar de alguns jogadores que tiveram relações explícitas com o narcotraficantes como Pablo Escobar em que isso é muito claro, não é possível identificar, com as fontes disponíveis, nenhuma relação direta que ligue o período dos bons jogadores no futebol colombiano como consequência do narcotráfico”. 

Ainda assim, há alguns indícios de que Escobar financiou a preparação e viagens da seleção colombiana antes da Copa do Mundo de 1990. Outra relação possível é a morte de Andrés Escobar (que não tinha nenhum parentesco com Pablo, apesar do nome), principal zagueiro da seleção. Andrés foi assassinado dias depois de marcar um gol contra que eliminou a Colômbia em 1994. A principal suspeita é de que sua morte foi encomendada por narcotraficantes.


3 clubes e 4
narcos

Um dos clubes de destaque é o Millonários, comandado José Gonzalo Rodríguez Gacha,  “El Mexicano”. Gacha se destacou no tráfico de pedras preciosas e se associou ao Cartel de Medellín no comércio da cocaína. Em 1988, foi considerado pela Forbes Magazine como um dos homens mais ricos do mundo, e apesar da participação em Medelin, “El Mexicano” atuava com mais influência em Bogotá, capital do país e cidade sede do Millonários Club de Fútbol. Gacha assumiu o comando do clube em meados da década de 1980 e formou o elenco bicampeão nacional em 1987 e 1988, quebrando um jejum de nove anos sem títulos.

Gacha assumiu o Millonários após o assassinato de então presidente do clube. [Imagem: Reprodução/Semana]

No caso de Cali, a influência foi exercida pelos irmãos Miguel e Gilberto Rodríguez Orejuela sobre o América de Cali. Os irmãos Orejuela participaram ativamente no clube e, além de acionistas, exerceram cargos administrativos a partir de 1980. Sob o comando dos líderes do Cartel de Cali, a equipe conquistou o pentacampeonato colombiano entre 1982 e 1986, além de chegar na final da Libertadores em três anos consecutivos, apesar de não ter vencido em nenhuma das oportunidades.

Notícia sobre a atuação de Miguel Orejuela como dirigente do América. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Outro caso notável é a relação entre Pablo Escobar, líder do Cartel de Medellín e um dos principais narcotraficantes da história, e o Atlético Nacional. Entretanto, a relação, nesse caso específico, é um pouco mais nebulosa, e “carece de materialização nas fontes”, afirma Eduardo. Apesar de alguns indícios e suposições, a influência de Escobar no Atlético Nacional não é tão nítida como nos casos Gacha-Millonarios e Irmãos Ochoa-América de Cali. É bem provável que o Escobar tenha investido no futebol, mas a relação direta e explícita com o Atlético Nacional deve ser questionada. “Não se trata de negar o envolvimento, mas sim constatar a carência de provas”, completa.

O historiador comenta sobre o filho de Escobar, autor de biografias sobre o pai e defensor da tese de que Pablo não investiu no Nacional. Por ser torcedor do Independiente de Medellín, principal rival do Atlético, a relação do narcotraficante com o Atlético Nacional deve ser questionada, e Eduardo afirma que não é possível tomar nenhuma das versões como verdadeira. Além disso, ele ressalta: “Prefiro enxergar o caso do Escobar como um investimento esporádico nos clubes de Medellín como forma de mostrar a relação dele com a cidade, mas não de forma direta como no caso do Cartel de Cali e do Gacha, que possuem muito mais materialidade para afirmar que essa influência ocorreu”.

Apesar da relação questionável e da carência de fontes, existem algumas suposições de que Escobar teria investido no clube por meio de patrocínios promovidos por suas empresas de fachada. Em 1989, o Atlético Nacional se tornou o primeiro clube colombiano a vencer a Libertadores, mas muitos rivais questionam o título por conta do suposto envolvimento de Escobar na compra de resultados, subornos e ameaças a juízes.

Pablo Escobar impulsionou o futebol colombiano através do narcotráfico

Escobar era fã de futebol e frequentemente associado ao Atlético Nacional. [Imagem: Reprodução/Wellentheorie]

Também em 1989, o árbitro Álvaro Ortega foi assassinado. O juiz anulou, em Cali, um gol do Independiente de Medellín contra o América de Cali, que acabou vencedor. Pouco tempo depois aconteceu o jogo de volta em Medellín, e o árbitro foi assassinado após a partida. Ao ser preso, o responsável pelo assassinato afirmou que Escobar foi o mandante do crime, apesar de o traficante nunca ter sido declardo culpado por falta de evidências. 

Eduardo Gomes também comenta sobre o assunto: “Nesse caso, não foi uma questão somente do resultado da partida. Além de ser o Independiente de Medellín, clube para o qual Escobar torcia, aquele jogo representava uma disputa entre os cartéis de Cali e Medellín”. Por mais que não tenhamos muitas comprovações sólidas sobre o investimento direto do Escobar no futebol, interferências pontuais para reforçar o poder político do cartel de Medellín frente aos concorrentes de Cali eram frequentes. “O caso do árbitro, ao meu ver, foi muito mais uma disputa de poder do que o resultado do jogo em si”.


Rivalidade dentro e fora de campo

A rivalidade entre os cartéis influenciou a rivalidade entre os clubes. Os mais importantes times colombianos já eram rivais entre si desde a profissionalização do campeonato colombiano, em 1948. Entretanto, com a influência do narcotráfico, ainda mais se considerarmos que os cartéis rivais controlavam clubes que já eram rivais entre si, a rixa futebolística foi sobreposta pelas disputas entre Cali e Medellín.

Os três principais times do futebol colombiano

Escudos de Millonários, Atlético Nacional e América de Cali, respectivamente. [Imagem:Rodrigo Tammaro]

Segundo Eduardo, “o futebol se elevou para a disputa entre os cartéis. Um time de Medellín, independentemente de qual fosse, perder para um time de Cali, representava que a cidade, e respectivamente o cartel, foram superados pelos rivais”. O futebol esteve presente nos conflitos entre os cartéis, que acirraram a rivalidade entre os clubes, mas esse foi um ponto adicional. “A rivalidade entre os clubes, já existia antes do narcotráfico”, acrescenta.

Para Nicolás, entretanto, a disputa entre os cartéis “interferiu, mas de forma periférica. No início, as pessoas não se importavam muito com quem era o investidor do clube. Quando esses clubes se fortaleceram, e mais tarde foi verificada a relação com mafiosos, as rivalidades se tornaram muito mais fortes também dentro de campo”.


A arquibancada diante dos
narcos

A reação da torcida diante do envolvimento dos narcotraficantes era complexa, como mostra Eduardo: “Pablo Escobar foi, por um grande período, idolatrado por parte da cidade, tanto que ele era chamado de ‘Robin Hood Paisa’. Quem não o idolatrava tinha medo. Nos casos do Gacha e dos irmãos Orejuela, eles camuflaram as atividades ilícitas por muito tempo, e chegaram a dirigir os clubes passando a imagem de que as atividades eram lícitas. A princípio, a relação dos torcedores era positiva, já que não se tinha a noção tão explícita, principalmente em Cali, que eles eram de fato ligados ao narcotráfico”. Quando se começou a ter essa noção, o medo fazia com que a posição dos torcedores fosse reprimida.

Nos casos de Gacha e dos irmãos Orejuela, essa situação era ainda mais complexa. Ambos os mafiosos adotaram uma postura mais “discreta” em relação a Escobar. Por isso o envolvimento deles com o tráfico ficou oculto por mais tempo. Mesmo quando os escândalos vieram à tona, boa parte da torcida não questionou, como afirma Nicolás: “Parece triste, mas quando um gol era marcado, as pessoas se esqueciam de onde vinham os investimentos”.

Bandeira de Gacha erguida pela torcida do Millonarios durante jogo. [Imagem: Reprodução/Semana]

A releitura dos fãs de futebol em relação à presença dos narcos no esporte começou a ser feita algum tempo depois. Em 2012, um dirigente do Millonarios tomou uma iniciativa (que acabou não se concretizando): devolver os títulos que o clube conquistou sob o comando de Gacha. Esse fato ajuda a ilustrar a complexidade da relação que a torcida desenvolveu com a presença dos narcos nos clubes. “Foi um movimento de parte dos torcedores, não da torcida como um todo. Essa relação sempre foi muito dúbia. Muitos torcedores defendem que as conquistas não devem ser negadas, já que essa influência não foi específica do Millonarios, mas sim de todo o país naquele contexto”, mostra Eduardo.

Nicolás Samper, torcedor do clube, completa: “A ideia foi entendida como demagógica. A iniciativa, mais do que devolver um título, buscou não esquecer o que vivemos e o quanto esse momento foi custoso para o futebol e para a sociedade. Se a devolução acontecesse, muitas equipes teriam que deixar parte de sua história. Infelizmente essa foi a nossa história, não devemos esquecê-la”. 


Resquícios e o futebol atual

Apesar da superação da era mais explícita do narcotráfico no futebol colombiano das décadas de 1980 e 1990, principalmente com a morte de Gacha e Escobar e a prisão dos irmãos Orejuela, alguns resquícios dessa relação são percebidos até hoje. Em 2002, César Villegas, diretor e acionista do Santa Fé, foi assassinado. Villegas estava diretamente envolvido em um processo judicial que investigava o dinheiro do narcotráfico possivelmente utilizado na campanha de Ernesto Samper, presidente da Colômbia entre 1994 e 1998.

Em 2014, o Envigado, clube de menor expressão na liga nacional, foi punido pelos Estados Unidos após investigações que indicam que Juan Upegui, presidente do time, utilizava o clube para lavar dinheiro do tráfico. Já em 2016, surgiram notícias que ligam James Rodríguez, principal jogador e camisa 10 da seleção colombiana, a Gustavo Upegui, amigo de Escobar e pai de Juan. Segundo as notícias, Gustavo, que participava ativamente do Cartel de Medellín, foi o “olheiro” que descobriu e agenciou o início da carreira de James na década de 1980, antes de ser assassinado por capangas do cartel rival.

James é a estrela do futebol colombiano

James Rodríguez é o principal jogador dessa geração colombiana. [Imagem: Reprodução/SpanishFootballSports]

Coincidência ou não, os principais clubes do país são justamente aqueles que se envolveram com narcotraficantes. Atlético Nacional, Millonarios e América de Cali são os maiores vencedores do campeonato nacional, com 16, 15 e 14 títulos respectivamente. O Atlético também é o mais vitorioso na Libertadores com duas taças, a segunda conquistada em 2016. No mesmo ano, a equipe venceu o prêmio Fair Play FIFA e foi condecorada com a medalha de Mérito Desportivo do Brasil. As premiações foram dadas devido ao clube abrir mão do troféu e das premiações da Recopa Sul-Americana por conta da tragédia envolvendo o avião da Chapecoense, adversária no confronto.

O envolvimento de narcotraficantes e a lavagem de dinheiro em clubes de futebol não são exclusivos da Colômbia. Além disso, diversos setores do país sofreram sob influência de diferentes cartéis, o futebol foi só mais um deles. Mesmo que possivelmente  isso tenha ocorrido em outros momentos e também atualmente, os anos 1980 e 1990 chamam a atenção pela influência direta e explícita  da forma como ocorreu. Ainda assim, o narcotráfico não resume a história do esporte colombiano, que vai muito além tanto antes quanto depois desse contexto.

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