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O país do futebol (de 5)
ARQUIBANCADA
17 nov 2020 | Por Por João Pedro Barreto (joaobf@usp.br)

*Capa: Imagem – Ministério do Esporte

“Desde criança eu já brincava nas ruas, com meus colegas, meus amigos, de uma forma adaptada, colocando saco plástico na bola, por exemplo. Sempre adaptando para que eu pudesse ser inserido”. O relato do multicampeão Jeferson Gonçalves, o Jefinho, demonstra os dois lados do futebol para deficientes visuais: a adaptação e a paixão.

O futebol é parte da vida de boa parcela dos brasileiros e não há motivos para que os deficientes visuais fossem excluídos desse universo. A barreira visual é driblada desde a infância, brincando pelas ruas, até o profissionalismo de uma Paralimpíada.

O país do futebol pode também se orgulhar de ser o país do futebol de 5. A soberania no esporte é absoluta e a luta pelo reconhecimento das conquistas com a camisa brasileira é constante.

História e regras

O futebol é, há muitas décadas, parte integrante da cultura de diversos países. Com essa imersão que o esporte possui dentro das sociedades ao redor do mundo, era inevitável que a paixão e a vontade de praticar atingisse quem estava afastado do padrão do praticante, inclusive os deficientes visuais.

Como contou Jefinho, algumas adaptações são necessárias para a prática do esporte por deficientes visuais. Os primeiros relatos sobre o futebol praticado por cegos datam da década 1920. Neles, objetos como latas e garrafas cheias de pedras e bolas revestidas por sacolas plásticas foram utilizados para que pudessem ser ouvidas pelos jogadores.

A prática, que no começo era apenas pelo lazer e diversão, foi ficando mais séria e virando realmente um esporte. O jogo praticado em pátios abertos foi levado para a quadra de futsal. A bola foi evoluindo, passando por diversas versões até a década de 1980, quando a versão que é utilizada atualmente foi criada.

Nessa mesma época, as primeiras competições oficiais aconteceram ao redor do mundo e no Brasil. Mais especificamente em 1978, nas Olimpíadas das APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), em Natal, ocorreu o primeiro campeonato de futebol para cegos no Brasil e, em 1984, a primeira disputa nacional, a Copa Brasil.

Os primeiros campeonatos de seleções organizado pela IBSA (Federação Internacional de Esportes para Cegos) aconteceram mais de 10 anos depois. Em 1997, copas continentais na América do Sul e na Europa foram disputadas, com, ainda, poucos competidores. No ano seguinte, o primeiro mundial foi realizado pela entidade

As adaptações que fizeram parte do desenvolvimento da modalidade culminaram no que conhecemos hoje como o futebol de 5. Por ter sido levado para as quadras de futsal durante seu desenvolvimento, a modalidade incorporou diversas características e regras do futebol de salão. Uma delas é ter cinco jogadores de cada time em quadra, o que dá nome à modalidade no Brasil.

O futebol de 5 só é praticado por deficientes visuais da categoria B1, que são os completamente cegos ou que conseguem perceber levemente a luz. Para que todos tenham a mesma condição durante o jogo, os jogadores usam vendas nos olhos.

Por conta disso, a audição se torna a melhor amiga dos atletas dentro de quadra. Muito diferente de um estádio de futebol convencional, no futebol de 5, a torcida deve fazer silêncio total enquanto a bola rola. 

A famosa bola com guizos possibilita a localização dela através do som pelos jogadores e é a adaptação mais essencial da modalidade. Além disso, é obrigatório que o jogador grite “voy” para sinalizar aos demais que ele está indo em direção a bola.

O jogo é disputado, normalmente, em quadras de futsal adaptadas. Nas Paralimpíadas, a disputa acontece em campos de grama sintética, mas que mantêm as dimensões de 40 por 20 metros da quadra de futebol de salão convencional.

Uma das adaptações que a quadra sofre é a divisão em três zonas. Duas de 10 metros nas extremidades do campo e uma central de 20 que fica entre elas. Essas zonas existem para dividir o campo em setores de ataque, defesa e meio campo. 

Rio de Janeiro – Parque Olímpico da Barra – 17 de setembro de 2016 [Imagem: Danilo Borges/Brasil2016]

A existência desses setores é necessária pois, o goleiro, o técnico e o chamador que são videntes, ou seja, enxergam normalmente e auxiliam, por meio da fala, a movimentação dos jogadores. O goleiro orienta sua defesa, enquanto seus jogadores estão no setor defensivo. Já o chamador fica atrás do gol adversário e orienta os jogadores no setor de ataque enquanto o treinador orienta-os no setor de meio campo.

Situação dos campeonatos no Brasil e no mundo

Além da conhecida Paralimpíada, muitos outros campeonatos de futebol de 5 são disputados no Brasil e pelo mundo. A IBSA organiza diversos campeonatos continentais e mundiais que têm crescido a cada ano, tanto em quantidade de equipes quanto em visibilidade.

No Brasil, o esporte é organizado pela CBDV, Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais. A entidade organiza um total de seis competições anuais – três regionais (sul-sudeste; nordeste; centro-norte), a Copa Brasil séries A e B, que é o principal campeonato nacional, e a Supercopa, que reúne os três melhores da série A e campeão da série B. A Confederação reúne aproximadamente 35 equipes nesses torneios.

A realidade dos clubes brasileiros ainda não é das melhores. Muitos sofrem com dificuldades financeiras, nas quais os jogadores têm que tirar recursos dos próprios bolsos para viagens, por exemplo. Jefinho analisa a ausência de uma visão de empresas para o esporte: “Falta também os empresários saberem que dentro do futebol de 5, com os resultados e a imagem que a gente tem no mundo, a gente tem condições de trazer retorno financeiro para as empresas”.

Para o futebol de 5 feminino o buraco é ainda mais embaixo. Até o ano de 2020, nenhuma competição feminina foi disputada. Estava marcado para fim de maio o primeiro festival de futebol de 5 feminino no Brasil, organizado pela CBDV, mas a competição teve que ser cancelada por conta da pandemia. O primeiro mundial organizado pela IBSA também aconteceria em 2020, mas foi adiado para 2021. 

Entretanto, essa dura realidade vem melhorando com o tempo e existe a expectativa que melhore a cada ano. Jefinho, que é atleta desde 2003, lembra de histórias difíceis do começo de carreira e afirma: “Hoje em dia as coisas estão bem melhores, de lá pra cá, nesses pouco mais de 15 anos teve uma evolução muito grande”.

Jogador Jefinho em viagem internacional para o mundial com o Instituto de Cegos da Bahia, seu clube no Brasil [Imagem: Mateus Pereira/GOVBA – Fotos Públicas]

O SporTV vem transmitindo as competições nacionais após uma parceria fechada com a CBDV em 2018, o que resulta em uma maior visibilidade dos times e pode acarretar em mais investimentos de marcas. 

Além disso, no ano de 2019, a Confederação Brasileira captou recursos da Lei de Incentivo ao Esporte pela primeira vez para a realização da série A da Copa Brasil. Até então, eram utilizados apenas os recursos designados pela Lei Agnelo Piva, que repassa 2,7% da renda das loterias federais para o COB e o CPB (Comitê Olímpico/Paralímpico Brasileiro).

A possibilidade do uso do programa de bolsa atleta do governo e o patrocínio fechado com a Caixa Econômica Federal em 2013 também são braços importantes para a real profissionalização dos atletas no esporte.

Na visão de Renato Ferreira, profissional de educação física que trabalha com o esporte e dono da página @futebolde5br no Instagram, algumas questões logísticas das competições nacionais diminuem a visibilidade do esporte. Atualmente todos os regionais e os campeonatos nacionais acontecem durante apenas uma semana. “Acredito que se a Copa Brasil ou o regional pudessem ser divididos ao longo do ano seria interessante, porque teria mais chance de divulgar o esporte. Outros jogos (além da final e da semifinal, que são transmitidos atualmente) poderiam ser transmitidos pela televisão”, analisou Renato.

A seleção

Não é exagero dizer que a seleção brasileira é a melhor do mundo e soberaníssima em competições internacionais. Um trabalho muito bem feito tanto da comissão técnica quanto dos jogadores trouxe diversas conquistas para o país.

A seleção foi campeã de todas as Paralimpíadas em que o futebol de 5 esteve presente. Desde de 2004, em Atenas, ano de estreia da modalidade nos jogos, o Brasil venceu quatro medalhas de ouro em quatro disputadas e vai em busca da quinta em 2021, em Tóquio. Nos mundiais, também há uma supremacia brasileira. Dos sete disputados desde 1998, a seleção venceu cinco – 1998, 2000, 2010, 2014 e 2018 – ficando em segundo e terceiro lugares nas duas oportunidade que não foi campeã. Além disso, são quatro Parapanamericanos, seis Copas América e vários troféus de outras competições. 

O sucesso vem de um trabalho primoroso feito pelas entidades que cuidam do esporte e de um brilhante desempenho da comissão técnica. Além de tudo, a seleção usa uma estratégia para melhorar o entrosamento e o controle da evolução dos jogadores. Todos os meses, durante uma semana, alguns jogadores saem de seus clubes para treinarem juntos no centro de treinamento da seleção. Renato comenta sobre como essa estratégia ajuda a seleção, ainda mais por utilizar uma estrutura “de outro mundo” que está a disposição no centro de treinamento: “Uma semana por mês você tem o atleta na sua mão para ir lapidando, melhorando e evoluindo cada um deles, com toda a estrutura que rodeia. Não é atoa que tenha conseguido grandes resultados, é muito trabalho”.

O Rio 2016, a última Paralimpíada disputada, foi um marco para a seleção e para a modalidade no país. Era de se esperar de que, pelo fato da disputa acontecer em solo brasileiro, o esporte ganhasse um pouco de visibilidade e crescimento. Mas o resultado foi muito melhor do que o que se imaginava.

Jefinho, que já havia sido duas vezes campeão paralímpico, contou sua experiência na que se tornaria “a competição mais especial” de sua vida: “A sensação de entrar na arena e ser aplaudido por milhares de pessoas, uma coisa que a gente sequer imaginava, foi maravilhoso”.

Rio de Janeiro – Brasil vence Irã por um a zero no futebol de cinco e ganha medalha ouro na Paralimpíada Rio 2016 [Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil]

Renato também se surpreendeu com a proporção que a competição tomou: “Trabalho com futebol de 5 desde 2006, nunca imaginaria na minha vida que um dia eu fosse ver tanta gente assistindo o jogo. Foi impressionante”.

Muitas pessoas puderam conhecer o esporte pela televisão ou pessoalmente e ver o talento e o valor da seleção nacional. Depois desse completo sucesso, competições nacionais e continentais começaram a ser transmitidas também na televisão.

Um esporte transformador

O esporte, de modo geral, é capaz de promover grandes transformações na vida das pessoas. Não é novidade histórias desse tipo em qualquer modalidade do esporte convencional. Mas no caso do futebol de 5 talvez seja um pouco diferente.

“O futebol de 5 é muito importante para uma pessoa com deficiência visual, é uma chance da gente mostrar nosso valor, que a gente tem capacidade”, destaca Jefinho.

O jogador também contou de como, na quadra, o deficiente visual pode esquecer das dificuldades do cotidiano postas pela deficiência: “Fora de quadra, apesar da nossa independência hoje, de a gente poder sair sozinho, ter um lazer e fazer nossas coisas, a gente sempre depende de alguém para fazer alguma coisa, mas dentro de quadra não, não existe esse limite. Somos independentes, temos nossa liberdade, o momento que eu me sinto mais feliz é dentro de quadra jogando”.

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