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Observatório: Cultura do silêncio – o recorde de Allyson Felix e a maternidade no esporte
ARQUIBANCADA
13 out 2019 | Por Gabriela Caputo (gabrielacaputo@usp.br) e Luana Franzão (luanafranzao@usp.br)

No último dia 01 de outubro, a velocista estadunidense Allyson Felix conquistou seu 12º ouro, na prova de revezamento 4X400 de gênero misto, no Campeonato Mundial de Atletismo em Doha, no Catar. Com o feito, bateu o recorde antes pertencente ao jamaicano Usain Bolt, que se aposentou com 11 medalhas de ouro em mundiais de atletismo. A vitória de Felix não é importante somente por ultrapassar Bolt, uma lenda do atletismo, mas também pelo fato de que a corredora ainda se recuperava de uma gravidez com complicações. Durante seu período de gestação também enfrentou dificuldades nas negociações de patrocínio com a Nike.

A atleta de 33 anos participou de quatro Jogos Olímpicos, nos quais ela foi ouro seis vezes. A vitória no campeonato de Doha foi a sua primeira depois de se tornar mãe, há dez meses. Felix recomeçou os treinos apenas dois meses depois de dar à luz, e voltou a competir em julho. O parto de Allyson foi difícil ela sofreu de pré-eclâmpsia (complicação que coloca mãe e bebê em risco, em decorrência de alta pressão arterial) e teve de passar por uma cesárea de emergência. 

Em maio deste ano a velocista assinou um artigo no The New York Times, no qual posiciona-se em relação às crises nas negociações com patrocinadores, sofridas por atletas que querem ser mães. “A cultura em torno da gravidez no atletismo é o silêncio. Você engravida e esconde isso”, relatou Allyson. Ela contou que, em decorrência da gravidez, se sentiu pressionada para voltar à forma o mais rápido possível. Além disso, a Nike queria lhe pagar 70% a menos do que antes. Outras atletas também posicionaram-se sobre a questão da maternidade no esporte e os problemas com a empresa, em artigos para o mesmo jornal. 

“Pedi à Nike para garantir, contratualmente, que não seria penalizada se minha performance não fosse a melhor nos primeiros meses posteriores ao parto. Queria estabelecer um novo padrão. Se eu, uma das atletas mais destacadas da Nike, não conseguisse assegurar estas proteções, quem conseguiria?”, escreveu Felix. O patrocínio é uma questão muito importante no atletismo dos Estados Unidos, já que a renda dos atletas provém basicamente desses acordos, que estão ligados aos seus desempenhos. 

A voz das atletas foi ouvida e a onda de denúncias levou a Nike a rever e alterar sua política de patrocínios. Em maio, a empresa informou que não reduziria o pagamento às atletas grávidas por um período de 12 meses. Depois, aumentou o período para 18 meses. 

Allyson acabou assinando novo contrato com a marca Athleta, mas através de sua militância deixou um importante legado. A decisão feita pela Nike diante da pressão das atletas é significativa, já que se trata de uma das maiores marcas no quesito patrocínio, e acaba sendo um padrão para todo o mercado.

 

Conquistando espaço em meio à hostilidade 

O caso de Felix serve de exemplo para um problema que é antigo no mundo esportivo. A presença feminina na área ainda é um ponto muito sensível. É mais difícil para times e atletas femininas conseguirem patrocínio e apoio de marcas por diversas razões que se enraizaram historicamente, como explica a pesquisadora Katia Rubio, da Escola de Educação Física e Esportes na Universidade de São Paulo: “Mesmo com os movimentos de empoderamento feminino, as mulheres atletas ainda têm dificuldade em buscar patrocínio, e um patrocínio equivalente aos mesmos feitos pelos homens. E isso se associa à própria história do esporte, que no princípio excluiu as mulheres, considerando-as como usurpadoras de um espaço constituído historicamente como masculino”. Essa separação foi durante muito tempo justificada com afirmações sem fundamento científico, como uma fragilidade do corpo feminino.

Allyson Felix com a filha [Imagem: Charlie Neibergall/AP]

As atletas também enfrentam problemas com a cobertura da mídia sobre as modalidades. Competições femininas têm menos adesão de veículos e menos divulgação, e acabam ficando sempre à sombra de times compostos por homens. “A menor adesão do público às modalidades femininas é porque os meios de comunicação também sempre estiveram nas mãos de homens, então o discurso construído para descrever os feitos femininos sempre estiveram associados à beleza, ao charme, a elementos menos convincentes do que performance em si. Então os feitos femininos não são menos grandiosos que os masculinos, porém eles também são construídos historicamente como menores, porque quem registrava os feitos das mulheres, eram homens.” afirma Rubio acerca do assunto.

Devido a esses ideais formadas, a concepção da atleta feminina como inferior ao homem prejudicou muito o reconhecimento dessas profissionais. A pesquisadora afirma que todas as questões relacionadas com a força, a velocidade, essas características dadas  naturalmente masculinas, fazem parte desse universo. E as mulheres não. Os feitos femininos são sempre acompanhados de justificativas como sorte, ou como falta de mérito, e portanto elas têm de se provar muito mais merecedoras de reconhecimento.

Dentro desse universo difícil, o tabu da maternidade é ainda mais complicado. A gravidez e a amamentação causam alterações no corpo feminino, incluindo a perda de massa muscular e o aumento de gordura. O organismo precisa de certo tempo para recuperar a performance de antes desse momento, e os patrocinadores, muitas vezes sem ter esse conhecimento, não respeitam esse prazo. Exigem a mesma performance em um tempo muito breve, e com menos apoio financeiro. Muitas vezes, as mulheres são forçadas a escolher entre a carreira no esporte, e a maternidade.

Toda essa conjuntura torna os protestos de Allysson Felix e de outras atletas não apenas justos, mas também necessários. O mundo dos esportes ainda é muito inóspito para mulheres, e as obriga a fazer escolhas extremamente complicadas. Dessa forma, a voz de todas essas atletas é mais do que bem-vinda.

 

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