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Observatório: O futuro incerto dos litorais nordestinos
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27 out 2019 | Por Karina Tarasiuk ((karinatarasiuk@usp.br) e Leticia Cangane (leticiacangane@outlook.com)

A gente tá aqui com mais um crime ambiental que aconteceu no nosso país, fora o de Brumadinho, que é mais uma das omissões [do governo]. Com esse capitalismo selvagem a todo o curso, é a humanidade que vai pagar, os seres vivos é que vão pagar mais ainda. E a gente não sabe a que pé vai chegar isso tudo.

Estevão Santos, diretor e criador da ONG Onda Limpa para as Gerações Futuras

Desde 30 de agosto, manchas de óleo vêm aparecendo em dezenas de praias no litoral nordestino. Provenientes de petróleo cru, já chegaram a nove estados da região. A origem do derramamento ainda não foi identificada acredita-se que o vazamento tenha ocorrido durante uma transferência entre navios em alto mar. O Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA) aponta que a origem do petróleo pode ser venezuelana. 

Em nota, o Ibama registra 39 animais, 25 mortos, afetados diretamente pelo óleo. A substância atingiu manguezais e recifes de corais, interferindo em diversos ecossistemas da região. Voluntários se mobilizam para limpar as praias com as próprias mãos. Governos locais também estão atuando, assim como empresários da região. Porém, as críticas ao posicionamento e à ação do governo federal ganham espaço enquanto manifestações se espalham pelo país.

 

Como a população está lidando com isso

Trabalho voluntário na praia dos Carneiros – Tamandaré (PE) [Imagem: Recife Aerial Media (@rec_am)]

Diego Lins frequenta a praia dos Carneiros, em Pernambuco, praticamente todo final de semana há 7 anos. Ele conta que as pessoas da região têm se unido para trabalhar na remoção dos resíduos. Segundo Diego, a situação da praia retoma sua normalidade aos poucos, mas a comunidade permanece alerta para atuar de forma rápida caso mais óleo chegue à praia. “Diariamente continuam as verificações por toda a extensão da praia com quadriciclos e motos atitude voluntária das pousadas e pescadores”. 

A praia dos Carneiros está bem recuperada após o surgimento do óleo. Houve uma rápida e grande ação de todos nas regiões atingidas da praia. “Fomos beneficiados com o favorável clima (chuvoso e nublado) no dia do surgimento. Isso facilita a retirada dos corais, mar, areia e vegetação, já que o óleo fica mais pastoso com o clima mais frio”. 

O maior temor das pessoas em Carneiros é o aparecimento de mais resíduo de petróleo, por isso  continuam verificando com frequência. Até agora, não há indícios de mais material perto da extensão marítima ou da areia dessa praia. Porém, o cuidado continua. 

Estevão Santos comenta sobre seu projeto Onda Limpa para as Gerações Futuras, que reuniu voluntários desde domingo para limpar as nove praias do município de Cabo de Santo Agostinho. Eles se encontram na sede, em Itapuama, e passam o dia inteiro tentando eliminar o petróleo que chegou à costa. “A gente não sabe qual o efeito disso aqui, mas a gente sabe que esse material no oceano e no meio ambiente está utilizando o nosso espaço”.

Numa situação de crise e lentidão como essa,o trabalho voluntário é essencial: “Para  limpeza do petróleo a gente tá utilizando o trabalho braçal dos voluntários. A gente vê o voluntariado como uma coisa surpreendente, ver outras pessoas fazerem o papel que a União deveria estar fazendo.”

“A gente não sabe como é que vai ser com todo esse tormento que chegou aqui no nosso litoral”.  As preocupações dos moradores se baseiam na incerteza do futuro da comunidade pesqueira, do surf e, sobretudo, do turismo – maior fonte de renda da população . Há também risco de contaminação dos alimentos. Para Estevão, a preocupação não é apenas com a comunidade: “O petróleo não deveria ter chegado na costa, porque quando chegou acabou com a fauna e a flora. A biota marinha tá sendo acabada e a gente tá aqui numa situação de guerra.”

Moradores realizando limpeza da praia. [Imagem: Recife Aerial Media (@rec_am)]

Moradores realizando limpeza da praia. [Imagem: Recife Aerial Media (@rec_am)]

 

A limpeza

Na região de Carneiros, a limpeza é feita por grupos atuantes nas praias, que estão utilizando luvas e sacos para o recolhimentos dos resíduos, mas faltam os equipamentos (EPI’s) necessários. A retirada da substância foi feita com as mãos, com algumas pás e ciscadores. “O empresariado das pousadas se uniu e doou vários equipamentos de EPI, e também disponibilizou máquinas pesadas como tratores e caminhões, além de pick-ups e quadriciclos para vistoria e recolhimento”, conta Diego. 

Na região de Itapuama não é diferente. Estevão menciona a importância do cadastramento dos voluntários para manter controle das pessoas e dos materiais, pois alguns dos equipamentos doados foram extraviados. Também é necessário utilizar equipamentos de segurança, como máscaras, luvas, botinas e óculo especiais para evitar inflamação e contaminação. Todos os equipamentos foram doados pela Defesa Civil, mas Estevão sugere aos voluntários que também levem meiões de futebol para proteger a perna.

Existe risco de contaminação das pessoas que estão limpando as praias, principalmente sem o EPI necessário. Algumas já apresentaram reação ao óleo, como enjoo, dor de cabeça, erupções e pontos vermelhos na pele. Animais e ecossistemas também foram afetados pelo petróleo, e as consequências a longo prazo podem ser preocupantes. 

Antonio Bannwart, professor de Engenharia Mecânica da Unicamp especializado em petróleo e óleos pesados, alerta para o risco da limpeza feita pela população: “É preciso isolar a área e ter um serviço especializado. Eu sei que as pessoas querem ajudar, mas é um serviço que lida com uma substância complexa que pode fazer mal à saúde.” Com o isolamento da região, as pessoas não podem tomar banho na água poluída até que todo o petróleo seja recolhido, podendo ser utilizado para a produção de piche ou ser incinerado.

Ele explica que se o petróleo fosse recolhido no mar os riscos seriam bem menores, pois não haveria contaminação do solo. Essa tarefa foi dificultada pela alta densidade desse petróleo, muito próxima da densidade da água. A mancha, assim, fica submersa na água, o que dificulta sua visualização por meio de drones ou satélites e, consequentemente, seu recolhimento a nível marítimo, que poderia ser realizado por empresas de petróleo.

 

Locais

Segundo o Ibama, em relatório divulgado dia 22 de outubro, as áreas oleadas totalizavam 233 localidades em 88 municípios e 9 estados — Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Dentre elas, 14 unidades federais de conservação marinha foram atingidas.

 

Áreas atingidas pelo petróleo [Imagem: Relatório Ibama/ Ministério do Meio Ambiente]

Áreas atingidas pelo petróleo [Imagem: Relatório Ibama/ Ministério do Meio Ambiente]

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