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Observatório | Revisionismo histórico: o que as estátuas falam sobre nós
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21 jun 2020 | Por Luana Melo (luaa9@usp.br) e Maria Clara Abaurre (mariaclara.abaurre@usp.br)

Leopoldo II, Winston Churchill, Borba Gato e Cristóvão Colombo. Essas personalidades em algum momento surgiram para você em um aula de história ou mesmo em um livro. Antes lembrados por seus feitos que marcaram suas respectivas épocas, agora o heroísmo e exaltação que rodeavam essas figuras históricas está sendo questionado.

A catarse gerada pelo movimento Black Lives Matter tem feito centenas de pessoas ao redor do mundo questionarem a herança de uma cultura escravocrata em seus próprios patrimônios históricos. Essa atitude revela que o racismo não está apenas na falta de oportunidades ou na violência policial, mas também na manutenção de símbolos que prestam homenagem aos opressores.

Nesse sentido, um novo elemento passa a fazer parte das reivindicações: o questionamento de nomes de ruas, praças e escolas, e da presença de estátuas identificadas como passado colonial nas cidades.

Estátua lançada em um rio em Bristol, Reino Unido.

Estátua lançada em um rio em Bristol, Reino Unido [Imagem: PA/Ben Birchall]

No Reino Unido, o momento mais marcante foi quando a estátua do traficante de escravos, Edward Colston, afundou no rio em Bristol. O movimento “Derrubem os Racistas” elaborou uma lista com mais de 50 estátuas que gostariam que fossem retiradas. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, admitiu a remoção de estátuas de personalidades imperialistas. Já o primeiro-ministro, Boris Johnson, criticou a derrubada de símbolos e defendeu a estátua de Winston Churchill, que foi blindada após depredações.

Nos Estados Unidos, dezenas de pessoas cobram a retirada de monumentos e símbolos confederados. Contudo, o presidente Donald Trump atacou a proposta que pede a renomeação de bases militares. “(…) Minha administração nunca considerará renomear essas magníficas e lendárias instalações militares”, afirma em um tuíte do dia 10 de junho.

Já na capital belga, manifestantes exigiram a retirada da estátuas do rei Leopoldo II. O monarca é conhecido pelo genocídio de centenas de congoleses no período em que o país africano era uma colônia da Bélgica. Os protestantes afirmam que tais marcos servem para falsear a História e disseminam uma visão eurocêntrica e racista.

Rei Leopoldo II, da Bélgica, tem as mãos sujas de sangue

Rei Leopoldo II, da Bélgica, tem as mãos sujas de sangue [Imagem: Francois Lenoir/Reuters]

O Brasil não ficou de fora das discussões. Existem manifestações pedindo a mudança do nome da Avenida dos Bandeirantes, uma das principais vias de São Paulo. Há, também,  controvérsia acerca de Manuel de Borba Gato, bandeirante que nomeia inúmeras ruas, uma estação no centro-sul de São Paulo e que possui estátua em sua homenagem.

Por muitos anos essas personalidades figuraram como heróis na narrativa histórica tradicional solidificada por esses monumentos, mas agora passam a ser vistas por muitos como representantes de uma cultura que deveria ser ultrapassada. 

Prefeitura de São Paulo colocou a estátua de Borba Gato sob vigilância da polícia. O que esperar do movimento no Brasil?

Prefeitura de São Paulo colocou a estátua de Borba Gato sob vigilância da polícia. O que esperar do movimento no Brasil? [Imagem: Divulgação]

Segundo Maria Helena Pereira Toledo Machado, especialista em história social da escravidão, a contestação de símbolos e monumentos é natural no processo de reinterpretação da História: “o que está acontecendo não é uma mudança na história, mas na sua narrativa, na sua interpretação. Isso é natural porque, embora os fatos não mudem nunca, os métodos da história evoluem ”.

A professora acredita, ainda, que o debate no Brasil é muito elitizado, restrito a especialistas. “Eu percebo opiniões mais fortes favoráveis à manutenção, que é uma visão conservadora.Mas essa visão de que o passado é único e intocável é um engano teórico, não é uma compreensão muito lúcida da história, porque ela está mudando o tempo todo”.

Assim como a sociedade, a História passa por revisões e mudanças constantes. Tereza Carolina Abreu, ex-superintendente do Iphan no Espírito Santo, aposta na informação e na educação: “agora, é preciso recontar a história de uma forma mais fidedigna, menos convencionada aos poderosos da época”.


Patrimônio histórico

Apesar de ter tomado proporções globais o movimento enfrenta oposições. Há aqueles que dizem que as ações dos manifestações representem um perigo para o patrimônio histórico.

Um ponto comumente levantado é o paradoxo de que as estátuas estão aos olhos de todos, mas muitas vezes se tornam invisíveis em meio aos excessos urbanos. Dessa forma, a destruição desses ícones seria responsável por resgatá-los da obscuridade, principalmente através do compartilhamento via internet.

A pesquisadora Maria Helena ressalta: “É claro que monumentos que têm valor artístico devem ser julgados de forma diferente. (…) Mas outra coisa é um monumento que não tem grande valor artístico, e que está ali para glorificar uma certa interpretação e que espontaneamente a sociedade não tolere mais.” 

Sobre a questão da preservação, Tereza Carolina Abreu afirma que “a estátua tem um valor histórico e não acho que acabar com ela é a melhor opção”. Em acordo com esse pensamento, muitos manifestantes têm pedido a retirada dos monumentos de seus locais originais e realocação em museus.

Estátua do Rei Leopoldo na Antuérpia foi retirada e realocada para Museu de Escultura ao Ar Livre de Middelheim

Estátua do Rei Leopoldo na Antuérpia foi retirada e realocada para Museu de Escultura ao Ar Livre de Middelheim [Imagem: Jonas Roosens/Belga/AFP]

 

A questão revisionista

Outra discussão aberta com a popularização do movimento seria seu possível caráter revisionista. O revisionismo histórico é um tema controverso: trata-se de uma corrente que oferece uma perspectiva alternativa à historiografia tradicional. Contudo, existem movimentos que negam a interpretação factual de episódios históricos e até sua existência – são conhecidos como negacionistas. No Brasil, é possível observar afirmações de que não houve Golpe em 1964 ou que o nazismo foi um movimento de esquerda, por exemplo.

Para a professora da USP, Maria Helena Machado, a questão da ditadura e do negacionismo histórico estão diretamente ligadas ao passado escravista brasileiro. “O sistema escravista é um sistema no qual o senhor de escravos é a lei; o outro, o escravizado, não é pessoa. Isso gera uma sociedade com traços extremamente autoritários. Essa história ainda faz parte do nosso DNA social”, afirma. Dessa forma, a sociedade teria criado uma tolerância com a quebra da legalidade e o negacionismo seria fruto desse substrato. 

Em relação à remoção de estátuas, Thiago Amparo, professor da Fundação Getúlio Vargas, diz que não é possível relacionar a atitude dos manifestantes ao revisionismo histórico. “Não estamos discutindo se essas figuras mataram ou não mataram em massa. Estamos questionando o lugar delas de heróis”, afirma em entrevista para a Folha de São Paulo.

Maria Helena ressalta ainda que “toda mudança histórica e toda mudança de perspectiva obviamente contém um aspecto de revisão do passado”. Para a historiadora, o que se falava de revisionismo em 2019 não era uma reinterpretação, mas uma negação de dados. “Vamos, então, tirar o conteúdo ideológico dessa palavra. A história revisa sua interpretação, ela não nega dados – nunca.”

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