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Os gritos na terra do sol nascente
CINÉFILOS
15 out 2012 | Por Jornalismo Júnior

Fazer um filme de terror nunca foi uma tarefa simples. Isso porque provavelmente o medo seja uma das sensações mais perceptível ao homem e, assim, o campo dos filmes de horror acaba por se tornar uma área perigosa. Pois não é nem um pouco fácil transpor a barreira que separa um notável filme de terror de mais uma produção encharcada de sangue falso e falta de originalidade .

Sabe-se que Hollywood está sempre à busca de boas histórias e porque isso seria diferente no âmbito do horror? Desse modo, o ocidente, na procura por bons contos de terror, encontrou o Japão. Entretanto, além de bons enredos de horror, Hollywood encontrou algo muito mais interessante: um mercado extremamente lucrativo.

Se comparados com a linha de produção cinematográfica hollywoodiana, os filmes de terror japoneses possuem orçamentos baixíssimos. Um claro exemplo disso são os números referentes à versão americana do filme nipônico O Grito (The Grudge, 2004). O longa produzido pela Sony Pictures teve orçamento de apenas 10 milhões de dólares e arrecadou mais de 187 milhões de dólares. Dessa forma, a alta lucratividade dos filmes atraiu o interesse americano, o que resultou em remakes de filmes como O Chamado (The Ring, 2002), Água Negra (Dark Water, 2005), Pulse (Idem, 2006) e Uma Chamada Perdida (One Missed Call, 2008). Sobre isso, Cristiane  Sato, autora  do livro JAPOP – O poder da cultura pop japonesa (Editora Nsp-hakkosha), diz que “o que atrai é o seguinte: Você tem uma história de terror que é eficiente, tem baixo custo de produção, e, proporcionalmente a isso, tem retorno, lucro. Descobriu-se que existe um mercado no ocidente para esse tipo de filme… O americano é muito prático, ele vê a relação custo-benefício”.

J-Horror – Terror ou suspense?

No ocidente, quando nos referimos ao gênero de terror, somos condicionados a um pensamento sanguinolento. Seja por meio de vampiros, lobisomens, monstros, demônios, alienígenas ou sádicos seriais killers, a morte geralmente aparece no terror ocidental de forma repentina e inesperada. O medo nesses filmes é construído apenas por uma sequência de sustos, muitas vezes desconexos, e deriva de um sentimento de repulsa às cenas violentas e ensanguentadas. Todavia, no oriente, e mais especificamente no Japão, há uma mudança nesse contexto. Nesse País, além dos filmes de terror à moda ocidental,  existem os filmes nipônicos de suspense . Eles realizam uma construção do medo mais intimista, alcançando – como coloca o ocidente – o horror psicológico. Horror este resultante da vulnerabilidade da mente humana à exposição de uma situação capaz de gerar um forte incômodo.

Kwaidan (Idem, 1964) foi um dos primeiros filmes japoneses a divulgar esse aspecto, mas provavelmente foi O Chamado (Ringu, 1998) que consolidou o cinema nipônico de terror como psicológico. Contudo, há produções cinematográficas nipônicas que seguem o conhecido padrão ocidental de produção de filmes de horror. Sobre isso, Sato comentou que “a maneira pela qual o ocidente, principalmente na parte de filmes, encara a morte, é sempre por um lado sanguinário da coisa, estilo Roger Corman [referência aos filmes de terror de segunda classe característicos do diretor, roteirista e produtor, Roger Corman]. E os japoneses não são tão assim, essa coisa mais do estilo Corman, é um negócio um pouco mais recente no cinema japonês, é uma influência ocidental, por incrível que pareça”.

Essa noção de misturar fundamentos orientais (terror psicológico dos contos tradicionais) com estruturas ocidentais (terror sanguinário) inovou, sem querer, o cinema japonês dos anos 1990 para cá. Um exemplo prático é O Chamado. O tipo de espírito presente em tal filme é o yūrei, espécie de alma penada. Esses espíritos, na cultura japonesa, aparecem apenas para atormentar e assustar. São apenas ícones do sofrimento daqueles que não morreram em paz e nunca aparecem para matar – logo, esse lado assassino dos espíritos presente no filme seria uma influência ocidental. O J-Horror (termo cunhado às produções nipônicas do gênero), então, é na verdade um híbrido. É o resultado da relação de adaptação dos contos tradicionais nipônicos para o padrão moderno de produção cinematográfica ocidental propagado por filmes como O Exorcista (The Exorcist, 1973).

Mas há um ponto de grande importância que deve ser levantado: no Japão quase todas as produções são consideradas suspense, poucas são as que seguem a linha de produção do terror como o conhecemos no ocidente. Acerca disso, Sato disse que “a maioria dos filmes que nós [ocidentais] chamamos de terror japonês, o J-Horror, no Japão é classificado como filme de suspense. E seria diferente com Psicose (Psycho, 1960) do Hitchcock? Não. A classificação ‘terror’ no Japão aparece quando há um quê de Roger Corman [violência explícita] no filme”. Tal paralelo entre Hitchcock e o J-Horror pode ser feito a partir do prisma de que ambos prezam por uma construção de um ambiente de  tensão nos filmes, o que intensifica o apelo ao psicológico do espectador.

Convívio cotidiano com o sobrenatural

Uma característica importante a se ressaltar sobre a cultura japonesa, e que influencia diretamente na maneira como se desenvolve não apenas o cinema de horror, como também as histórias que abrangem o sobrenatural, é a de que “o japonês não distingue muito aquilo que seria um ‘cotidiano espiritual’ do ‘cotidiano dos vivos’. A linha entre uma coisa e outra, no Japão, sob o ponto de vista cultural, é muito tênue”, afirma Sato.

No Japão há uma espécie de culto ao memento mori (constante lembrança de que nós, enquanto homens, somos temporários no mundo, de que todos nós um dia vamos morrer), de maneira que surge como resultado uma estranha familiaridade dos japoneses lidarem com o além e a morte. Sendo assim, tradicionalmente, tem-se essa convivência estranha dos japoneses com aquilo que seria o “mundo dos espíritos”.

Como resultado desse comportamento natural dos japoneses, podemos encontrar características interessantes de fusão entre a vida cotidiana e o misticismo em seus filmes. Sobre isso, Sato cita o filme O Chamado e coloca que “o que assusta realmente no filme é que o meio pelo qual as pessoas tomam conhecimento ou são ‘amaldiçoadas’ é a fita de videocassete – um objeto estupidamente comum”. Tal aspecto também pode ser notado no filme Uma Chamada Perdida, que utiliza em sua trama o celular, e em Kairo (Idem, 2001) – filme que depois ganhou uma versão americana, chamada Pulse – que apresenta o computador como objeto amaldiçoado.

Sato inclusive afirma que esse conceito de integração de objetos ordinários ao misticismo está presente há muito tempo na cultura japonesa. De modo que tal conceito teria apenas sido transposto para os objetos modernos. Sobre isso a autora diz que “no Japão antigo [o objeto amaldiçoado] seria o Chouchin, ou seja, uma lanterna de papel fantasma! Quer coisa mais comum que uma lanterna? E de repente ela sai por aí flutuando… Outro objeto também que era muito comum, e que sempre aparecia nas histórias, era o Karakasa Obake, guarda-chuva que ao invés de um cabo tinha uma perna e andava pulando por aí sobre um pé só”.

Contos de fadas e predominância feminina

Uma questão de grande importância em relação aos contos tradicionais japoneses que abrangem o sobrenatural é a de que tais histórias possuem uma função muito parecida com a dos contos de fadas difundidos amplamente no consciente público ocidental. Tanto as literaturas originais dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen (consideradas trágicas demais pelos desavisados), quanto o imaginário sobrenatural nipônico com seus contos de horror, estão inseridos em um mesmo contexto: o de alertar as pessoas de que situações terríveis acontecem, e de até tentar, por meio das histórias fantásticas, encontrar explicações para tais eventos.

Também é possível notar que há um predomínio de personagens sobrenaturais do sexo feminino nos contos tradicionais japoneses. Questionada a respeito disso, Sato disse que como “boa parte dessas histórias tem a ver com fatos reais”, há uma predominância feminina, pois “na maioria dos casos, as mulheres é que eram as vítimas”.

Todas essas histórias de terror tradicionais sobreviveram ao tempo por terem sido passadas de geração para geração, contadas de boca em boca. Com o tempo, foi natural o processo de adaptação desses contos para o teatro, para a literatura e para o cinema. “E assim, acabou surgindo acidentalmente, um novo padrão, um intermediário entre aquilo que consideramos um filme de terror e um suspense”, diz Sato.

Por Valdir Silva
v.s.ribeiro93@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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