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Para além da indecisão e das gavetas organizadas

A realidade das pessoas que convivem com Transtorno Obsessivo Compulsivo e Transtorno Afetivo Bipolar

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08 set 2020 | Por Evan Carvalho (evan.carvalho@usp.br)

Doenças mentais: todos nós já ouvimos falar sobre elas, seja no jornal, na sala de aula ou na roda de conversa com os amigos. Apesar dessa notoriedade, elas ainda estão envoltas em um ar de mistério e estranheza. Seu nome evoca a imagem de uma pessoa insana em uma camisa de força, que baba em si mesma e possui o olhar louco de um vilão colorido das histórias em quadrinhos. 

Azula [Imagem: p. 79 Nickelodeon Avatar: The Last Airbender – The Promise Part 3; Editora Darkhorse 2012]

Essa imagem não poderia estar mais equivocada: segundo pesquisas, cerca de 86% dos brasileiros lidam com algum tipo de transtorno mental, sendo depressão e ansiedade os mais populares. Para se ter uma ideia, o Brasil é o país mais ansioso do mundo, com cerca de 9,3% da população lidando com o transtorno, número que é quase o triplo da média internacional. Os números sobre a cidade de São Paulo são ainda mais impressionantes: quase 20% da população lida com ansiedade.

Sendo assim, doenças mentais não deveriam ser tabus, temas de conversas sussurradas longe das crianças. Não são coisa de loucos, desocupados, ou frescurentos.

Se transtornos tão comuns como depressão e ansiedade sofrem com esse estigma, distúrbios tais quais o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) e o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) são quase lendas urbanas. Ambos, porém, são mais recorrentes do que você poderia pensar: cerca de 14 milhões de brasileiros lidam com essas doenças. Isso é mais do que a população da cidade de São Paulo (12,18 milhões).

Sintomas e Outras Características

De forma simples, o transtorno bipolar é um distúrbio que afeta o cérebro e causa mudanças no humor, energia, e comportamento. Cerca de 4% da população em idade adulta é atingida por essa doença. Sua característica mais marcante se dá pela alternação entre episódios maníacos – também chamados de eufóricos – e depressivos com períodos sem sintomas. 

Ao contrário do que os memes podem nos levar a acreditar, ter bipolaridade não se resume a mudar de ideia sobre um corte de cabelo ou brigar com seus pais após se divertir com os amigos. 

A duração dos episódios pode variar de algumas semanas até meses, e os ciclos – o tempo entre o início de um episódio e outro – também variam em intensidade e duração conforme o paciente e o tipo.

Essa característica do TAB faz com que diagnósticos errados sejam comuns. Como alguns pacientes podem apresentar sintomas psicóticos como alucinações, diagnósticos de esquizofrenia também ocorrem. 

Foi o que aconteceu com Ana Maria Amorim, professora portuguesa de 62 anos. Ela só recebeu o diagnóstico de bipolaridade tipo II aos 40 anos de idade, apesar de passar com médicos psiquiatras pelo menos uma década antes disso. “Os sintomas não eram claros. Inicialmente tinha mais depressões. Só tive o primeiro episódio eufórico com 40 anos”, ela relembra.

Apesar de já ter lidado com um diagnóstico anterior, Ana Maria conta que demorou aceitar sua bipolaridade: “nem me dava conta que essas doenças existiam. Quanto ao preconceito, eu também tenho. Todo o comportamento que é diferente é apelidado de maluquice/loucura. Creio que só depois do segundo internamento é que aceitei a doença e comecei a levar a sério.” 

Como não tem filhos, sempre teve muito apreço por sua família, e conta que o apoio deles foi crucial para sua recuperação: “a família inicialmente não compreendeu, mas sempre me apoiou. As doenças mentais são muito estigmatizadas e a família faz parte da sociedade.”

Meme sobre bipolaridade

Meme sobre bipolaridade. [Imagem: Reprodução/Mídias sociais]

As causas para o transtorno ainda não foram determinadas, apesar de o início dos episódios por vezes estar ligado a algum evento estressante ou traumático na vida da pessoa. Foi assim com Cinthia Almeida Lopes, de 31 anos. Ela conta que seu primeiro episódio veio aos nove anos após presenciar a mãe alcoólatra batendo na avó que a criou.

“Na adolescência o que piorou foi meu relacionamento com as pessoas. Eu me tornava muito competitiva. Com 14 anos eu tive meu segundo gatilho. Fiquei umas duas semanas sem ir para a escola, deitada no quarto sem levantar. Simplesmente eu desisti de tudo. Raramente bebia água, raramente comia”, conta Cinthia. Ela também relata que seu comportamento gerava estranheza em sua avó e em outras pessoas próximas: “ela achou super estranho, pois sempre fui muito dedicada à escola, eu gostava. Sempre fui considerada doida pelo meu comportamento por colegas, ou estranhos”.

Ela apenas procurou ajuda médica quando estava grávida de seu segundo filho. Segundo ela, os médicos concluíram que sua condição estava relacionada à gravidez. “Aí depois não fui mais à terapia, acreditando que aquilo fazia parte do meu caráter, da minha personalidade. Eu achava que era de mim ser competitiva, ser agressiva, ser depressiva. Achava que era meu normal.”

Apenas este ano Cinthia voltou a procurar ajuda médica. Em março, durante um episódio eufórico especialmente forte que causou problemas em sua relação com seus filhos, ela percebeu que seu problema era sério. “Também estava me atrapalhando no trabalho, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer e eu resolvi procurar um profissional para me diagnosticar direito e me ajudar.”

Outro comportamento que foi observado como catalisador desses episódios é o uso de drogas. Leandro Rodrigues de Amorim, autônomo de 35 anos, relata que seu primeiro episódio maníaco ocorreu aos 18 anos após experimentar maconha pela primeira vez.

“Eu me lembro que na época da minha adolescência eu costumava tirar sarro de pessoas com transtornos mentais, achava que nunca ia acontecer comigo”, conta Leandro. “A grande maioria dos meus amigos se afastou.”

O TOC, ao contrário do que grande parte das pessoas pensam, não se resume a gostar de ver as coisas organizadas por tamanho e cor. Trata-se de um distúrbio mental e crônico, caracterizado por pensamentos obsessivos e intrusivos – aos quais a pessoa não consegue controlar – e/ou comportamentos compulsivos – ações repetitivas e por vezes irracionais, realizadas com o objetivo de amenizar a ansiedade causada pelos pensamentos obsessivos.

print de um meme no twitter sobre TOC

Meme sobre TOC; [Imagem: Reprodução/Mídias sociais}

Além dos tratamentos com medicações, a terapia também tem um papel de grande importância no tratamento de doenças mentais. Ana Maria chegou a ser internada cinco vezes por conta de sua doença, e sua última internação foi há sete anos. A professora atribui grande parte dessa conquista à “ajuda preciosa da minha psicóloga.”

 

Entendimento e Aceitação

Seres humanos são seres sociais, e não há dúvidas quanto aos benefícios de se ter uma boa rede de apoio, em especial quando se está lidando com uma doença mental. Porém, muitos amigos e familiares não entendem o que elas são ou como funcionam, ficando incapazes de ajudar de forma efetiva.

Aline da Silva Coelho tem 30 anos e lida com a bipolaridade desde a infância, apesar de o diagnóstico ter sido feito apenas três anos atrás. Ela conta que sempre foi chamada de “volúvel” e que as pessoas culpavam a forma como agia durante os episódios de mania por sua depressão. “Até hoje eles não aceitam, não entendem meu comportamento como doença. Eles não entendem muito o que é mania, acham que é coisa nova, que o pessoal tá inventando muita coisa por aí.”

Em seus episódios eufóricos, Aline relata ser agressiva e inconsequente, fazendo coisas que normalmente não faria, como gastar grandes quantias de dinheiro com coisas não essenciais e buscar relações sexuais com pessoas que não o seu marido, por conta de sua libido elevada: “É um alívio ter um diagnóstico e saber que você não era uma cretina.”

Por essa falta de entendimento de sua condição, as tentativas de sua família de ajudá-la, por mais bem intencionadas que sejam, podem causar o efeito contrário do desejado: “‘Aline, vai à igreja. Você precisa é de paz, encontra em Deus’. Mesmo que eu siga as regras, continue indo à igreja, se não funcionar eles vão dizer ‘você não fez o suficiente.’”

“As pessoas estão tentando ajudar? Talvez, não sei. Mas é muito pior. Eu acho muito melhor você saber que é uma doença do que qualquer outra explicação que uma pessoa sem conhecimento possa dar”, diz Aline.

Segundo ela, seu marido foi uma das pessoas que a incentivou a procurar ajuda: “geralmente nos casamentos quando tem episódios de traição ou coisa do tipo, a pessoa termina porque é mau caráter. Mas ele é especial e realmente achou que era porque eu tinha algum tipo de problema, mas não entendia muito do assunto.”

Assim como Aline, Cinthia procurou um diagnóstico após machucar uma pessoa próxima a ela. Divorciada, os três filhos que ela teve com o ex-marido moram com ele, enquanto ela os vê em fins de semana intercalados. Apesar de ter uma boa relação com os filhos – em especial os mais novos, com oito e sete anos –, ela conta ter receio de “fazer alguma coisa com eles”, mas que esse medo existe apenas em períodos em que ela está “bem”: “quando é para fazer alguma coisa eu faço. É uma impulsão, uma coisa incontrolável”.

Infelizmente, esse medo acabou se concretizando quando, em um ataque de agressividade durante um episódio eufórico, Cinthia perdeu o controle e acabou gritando e batendo em sua filha de dez anos no meio da rua. Desde então, a relação entre as duas se tornou tensa e desconfortável: “ela está com medo de mim”. Esse incidente foi o que a motivou a procurar ajuda.

Apesar de a relação com seus outros dois filhos ser melhor do que a com sua primogênita, está longe de ser perfeita. Cinthia conta que seu caçula, que tem apenas sete anos de idade, já percebe as variações de humor e comportamento da mãe e age de acordo: “quando eu estou agressiva ele procura ficar bem quieto e fazer com que o irmão dele faça as coisas mais rápido, por exemplo.”

Mesmo quando ela e o pai das crianças ainda estavam juntos, a relação familiar não era a da típica família tradicional brasileira: era ela quem passava a maior parte do tempo fora de casa trabalhando, sendo o “homem provedor”, enquanto ele ficava em casa cuidando das crianças.

Bacharel em Turismo, Cinthia é apaixonada pelo trabalho, mas conta que nem sempre é fácil: “eu não podia ir no RH e falar ‘olha, eu tenho transtorno e eu não vou conseguir trabalhar. Vocês me afastam?’, ou levar um documento de um médico. Você já sofre o preconceito, você é demitido.”

Para Leandro, essa situação não foi hipotética: “eu tentei fazer algo para contornar a situação, mas como eu estava em experiência eles disseram que o máximo que podiam fazer era me mandar embora. Procurei advogados, mas ninguém quis pegar o caso, porque eu não tinha muito tempo de firma”. Por conta dessa dificuldade em se manter no mercado de trabalho formal, Leandro hoje é autônomo. 

“Uma coisa que eu sempre achei bem errada é quando eles fazem esses testes psicológicos”, comenta Cinthia. “Se chega o resultado de que essa pessoa tem bipolaridade, essa pessoa tem depressão, essa pessoa tem ansiedade, eles descartam. Isso é ruim para nós que temos esses transtornos. O mercado de trabalho não está preparado para esse tipo de pessoa, e a gente precisa trabalhar.”

Cinthia conta que já pediu demissão diversas vezes durante os episódios de depressão, quando ela passa semanas na cama, mal se alimentando. Aline buscou outra “solução” para o seu problema: o álcool.

Sua dependência chegou ao ponto de ela sentir a necessidade de ir a encontros dos alcoólicos anônimos compartilhar sua história. “Tenho uma filha, tenho animais, tenho aluguel, então tive que trabalhar, não tinha jeito. Mas para conseguir levantar da cama eu tinha que beber, e ia bebendo até o trabalho. Colocava a bebida numa garrafinha para não perceberem o que era, para me manter durante o dia.”

Desde o início do tratamento, Aline se policia para não sofrer uma recaída, mas diz não precisar mais da bebida, pois os medicamentos fazem o que antes era seu papel.

 

Estigmas e empatia

A banalização das doenças mentais se tornou algo comum, do vocabulário popular aos memes. As piadas inocentes, porém, podem ser mais prejudiciais do que o esperado: “tenho apenas um amigo que me entende, e minha família que tem ciência disso, com o passar dos anos passei a ter fobia social, porque sempre que eu relatava meu problema para uma pessoa ela dizia que era falta de Deus.” 

Seja por ignorância ou falta de empatia, há pouca aceitação e entendimento sobre essas doenças por parte da população em geral. Quem cresceu junto ao bruxinho, nem imaginaria que Daniel Radcliffe – o ator que deu vida a Harry Potter nos filmes da franquia – lida com o TOC desde criança. Tímido por natureza, o peso de ter os olhos do mundo voltados para ele desde seus 11 anos veio com um preço. Além do transtorno, o ator também revelou ter lutado contra o alcoolismo após anos escondendo seus distúrbios.

Meme com fotos do Daniel Radcliffe no filme, com frases como “Harry Potter e a Medicação Perdida/Esquecida” ou “Harry Potter e o Remédio Perdido/Esquecido”. [Imagem: Reprodução/Redes sociais]

É provável que um dos motivos que levaram Radcliffe a esconder essa parte de sua vida tenha sido os estigmas e julgamentos que viriam com a verdade. “Não dão a importância devida para isso, o que acaba fazendo com que as pessoas com esses problemas se isolem ainda mais”, disse Rafael Henrique da Silva Rocha, terapeuta de 30 anos que convive com o transtorno. “A pessoa não se sente acolhida, se sente excluída”, conclui. 

“Acho que eles deveriam levar mais a sério esses transtornos, porque há muitas pessoas que têm e não sabem, têm e não se cuidam, têm e não foram diagnosticadas corretamente. Isso atrapalha muito a vida”, diz Cinthia sobre o assunto.

Para o terapeuta, é papel do governo combater essa desinformação generalizada sobre as doenças mentais. Se doenças mentais forem discutidas nas salas de aulas e propagandas de prevenção e educação forem transmitidas em massa, as pessoas terão um melhor entendimento sobre o que as doenças mentais realmente são e poderão identificar os sintomas nas pessoas ao seu redor, levando a um diagnóstico precoce. São doenças como quaisquer outras e precisam ser tratadas como tal.

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