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Por que o surfe é um esporte tão branco?
ARQUIBANCADA
03 nov 2020 | Por Mariana Marques (m4rimarques@usp.br)

Quando você pensa em surfe, qual é a primeira coisa que lhe vem à mente? Se a sua resposta for parecida com a da maioria das pessoas, ela inclui: clima quente, praias bonitas, ondas enormes e um homem de porte atlético branco, loiro e sem preocupações em cima de uma prancha. As praias paradisíacas e o ambiente desafiador são, na maioria das vezes, verdadeiros, mas não é curioso que um esporte associado ao Havaí tenha entrado no imaginário popular através de homens
brancos?


Mas de onde veio o surfe? 

Duke Kahanamoku: três vezes campeão olímpico de natação, ator e surfista

Duke Kahanamoku: três vezes campeão olímpico de natação, ator e surfista [Imagem: Reprodução/ Surfertoday]

A origem do surfe é incerta e remonta a mais de 2000 anos. Uma parte significativa dos pesquisadores encontram evidências que sugerem a prática de atividades semelhantes  na costa peruana, na África Ocidental e, principalmente, nas ilhas do Oceano Pacífico. Em todas essas áreas, o hábito de “pegar ondas” se intensificou devido à intensa atividade pesqueira em toda a região, onde, para chegar mais rapidamente à costa, os pescadores usavam a força do mar para impulsionar os barcos mais leves, fazendo-os deslizar sob as ondas. 

Foi no arquipélago havaiano que o surfe ganhou mais notoriedade. Para sua população nativa, deslizar sobre o mar era uma atividade com intensos significados religiosos e sociais. Longe de ser apenas uma prática relacionada ao lazer, surfar era uma representação do poder político das sociedades havaianas, e por muito tempo ficou conhecido como “o esporte dos reis”. 

O primeiro relato europeu sobre o surfe no Havaí foi feito pelo oficial da Marinha Britânica James Cook, em 1778. Como deslizar sobre as ondas era uma prática de cunho religioso e espiritual marcante, os missionários que chegaram até o arquipélago coibiram o surfe como uma das maneiras de impor a fé cristã aos polinésios que habitavam aquelas ilhas. 

Com a colonização das ilhas e a dizimação da população local, o hábito preservado por milhares de anos foi caindo no esquecimento. Felizmente, por meio de figuras como George Freeth e Duke Kahanamoku, o surfe foi popularizado no estado da Califórnia no início da primeira metade do século XX. Desde então, a modalidade se solidificou enquanto esporte, ganhando cada vez mais adeptos com o passar do tempo.


A praia e a segregação

Crianças de Hartford, Connecticut, brincando em uma praia particular em um protesto contra políticas de exclusão

Crianças de Hartford, Connecticut, brincando em uma praia particular em um protesto contra políticas de exclusão [Imagem: Bob Adelman]

Não foi só nas origens do surfe que pessoas racializadas estavam presentes. Em toda a história recente da modalidade, esses atletas desafiaram muito mais do que ondas gigantescas e oponentes bem preparados. Por muito tempo, alguns deles não poderiam sequer frequentar as praias. 

Nos Estados Unidos, após a abolição da escravatura, em 1865, os estados instituíram uma série de legislações que tinham por objetivo segregar a chamada “população de cor”, coibindo a ascensão social e reservando a esse grupo posições de subalternidade e escassez de recursos. A segregação espacial estadunidense era uma prática não destituída legalmente até os anos 1870, e antes disso, o acesso a diversos espaços, como piscinas públicas, lagos e praias, eram negados à população negra. 

Em grande parte dos estados do sul, como Virgínia, Carolina do Sul, Flórida e Norfolk, a população negra não tinha permissão legal para frequentar praias públicas. Quando alguma reivindicação por espaços públicos de lazer era bem sucedida, os governantes faziam questão de submeter os negros a situações degradantes. Isso porque as raras praias destinadas a essas pessoas geralmente eram antigos depósitos de lixo e ficavam próximas a saídas de esgoto urbano não tratado, como o Buzzard´s Point em Washington DC. 

Por isso, o que acontecia nas praias e lagos tinha certo impacto nas políticas de segregação racial estadunidense. Em julho de 1919, ao atravessar acidentalmente o limite que separava negros e brancos no Lago Michigan, Eugene Williams,17, foi apedrejado e morto por jovens brancos que frequentavam a região. O caso foi tão emblemático e desumano que desencadeou um motim conhecido como “Chicago Race Riot. O motim durou uma semana e teve como saldo 38 mortes, 500 feridos e aproximadamente mil famílias negras desalojadas por terem tido suas casas incendiadas durante os ataques racistas, fazendo parte do “Verão Vermelho”.

Devido a essas condições, a população negra aprendeu a evitar, e até mesmo temer frequentar lagos e praias. Por muito tempo, enquanto a juventude estadunidense branca se aperfeiçoava cada vez mais no surfe, jovens negros eram impossibilitados de aprender a nadar. E isso certamente teve um reflexo negativo para a representatividade no esporte. 


Surfistas negros na história

Montgomery “Buttons” Kaluhiokalani no Havaí, 1974

Montgomery “Buttons” Kaluhiokalani no Havaí, 1974 [Imagens: Jeff Divine]

Mesmo assim, pessoas negras fizeram história na modalidade. Nick Gabaldon é considerado por muitos, o primeiro surfista negro nos Estados Unidos. Já na década de 1940, Gabaldon remava regularmente 20 quilômetros para chegar à praia de Malibu e acessar o melhor pico das ondas, sem precisar andar na faixa de areia, onde a presença de pessoas negras não era tolerada. 

Sua história foi documentada no filme 12 Miles North: The Nick Gabaldon Story (2012), dirigido por Richard Yelland produzido junto a Nike. A obra vai muito além de relatar apenas a vida de Nick como surfista. Ela mostra também os desafios diários desse grande amante do surfe para continuar desafiando ondas e as barreiras da segregação.

Outro inesquecível nome do surfe é o de Montgomery Kaluhiokalani, conhecido como “Buttons”. Considerado um dos surfistas mais criativos da história, foi o primeiro a realizar um 360° em frente às câmeras, e suas manobras criativas sobre a prancha inspiram até a atualidade. Natural de Honolulu e filho de um homem negro e uma jovem havaiana, ele se descrevia como “meio negro, meio havaiano, meio chinês”. 

Apesar da dificuldade em se adaptar ao estilo das competições, Buttons ganhou popularidade pelo modo espontâneo como realizava manobras. Seu estilo imprevisível chamava atenção na década de 70 pelos movimentos inspirados no skate, que hoje são frequentemente incorporados ao surfe profissional. Caracterizado pelo black power que utilizou desde a sua juventude, “Buttons” Kaluhiokalani marcou o surfe com seu jeito inovador. 


Surfistas negras no Brasil

Da esquerda para a direita: Nuala Costa, Monik Santos, Érica Prado e Yanca Costa

Da esquerda para a direita: Nuala Costa, Monik Santos, Érica Prado e Yanca Costa [Imagem: Sam Manhães]

“Quando eu comecei a surfar eu tinha 5 anos. Comecei por incentivo do meu pai e do meu irmão e com oito anos já estava na minha primeira competição… E eu gostei! Era uma coisa natural para mim”. O início da história de Yanca Costa com o esporte é igual a de muitos atletas em todo o mundo, mas aos 19 anos, Yanca, mulher e negra, já relata a falta de representatividade no esporte. Vencedora da abertura do Circuito Brasileiro Feminino na categoria Pró-Adulto em 2019, ela afirma: “Eu só conheço cinco meninas negras que surfam. Com o perfil que a Érica Prado fez [@surfistasnegras] eu conheci muito mais meninas que surfavam”. 

Além da pouca representatividade dentro do meio profissional, os atletas negros ainda hoje enfrentam outros empecilhos. Nuala Costa explicita que maiores dificuldades para esses atletas, em especial se são mulheres e nordestinas, estão relacionadas ao patrocínio: “As marcas não patrocinam as verdadeiras atletas, os grandes talentos. As marcas buscam padrões de mulheres que não são brasileiras. Buscam padrões americanos, europeus e esse padrão não é o que nós, surfistas nordestinas e negras, temos”. 

Mesmo quando projetos sociais conseguem incluir jovens de diferentes realidades no esporte, outras dificuldades aparecem. Ganhar visibilidade é um desafio para muitas ONGs (Organizações Não Governamentais) que promovem a acessibilidade do surfe. O preconceito e o descaso muitas vezes são fatores determinantes para que jovens atletas não consigam prosseguir na carreira profissional. Idealizadora do TPM (Todas Para o Mar),  movimento que busca divulgar, fortalecer e estimular o surfe feminino, Nuala Costa não esconde: “Uma mulher negra e periférica que faz projeto social com crianças negras periféricas. A sociedade não quer estar preparada para essa força, para essa potência.”

Essa triste realidade não se dilui conforme o avançar da carreira. Nuala lembram bem dos episódios marcantes no qual seu talento não foi reconhecido. “Todo o meu tempo de competição eu me senti invalidada e invisibilizada. A ponto de ganhar uma grande competição e não sair no jornal ou de o meu nome estar escrito errado no resultado de um campeonato.”

“O que me fez desistir do esporte foi o racismo” afirma Nuala de forma categórica. O preconceito no ambiente esportivo foi tanto que a atleta chegou a abandonar a carreira profissional por 15 anos. De lá pra cá, nem tudo mudou: “Eu passei muito tempo fora por desistir de competir. Criei uma certa revolta por todo esse meio do surfe, então decidi jogar para o alto a minha carreira para poder correr atrás da minha vida. Quando eu voltei, as dificuldades ainda eram as mesmas, isso é absurdo”.

Apesar do desestímulo constante e da falta de reconhecimento do trabalho e do esforço das atletas, ainda há espaço para otimismo. Yanca acredita que com a ascensão da pauta antirracista, a representatividade tende a aumentar no esporte também. Mais do que isso, a jovem atleta não deixa de sonhar alto. Quando questionada sobre quais seriam as próximas metas nas competições, a resposta veio firme: “O meu objetivo é ser a próxima campeã brasileira”.

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