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Resenha: Sopa de salsicha
Na Estante
18 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Sopa de salsicha é a primeira graphic novel do quadrinista Eduardo Medeiros, lançada em 2016 pela Companhia das Letras. É uma história baseada em sua webcomic (quadrinho publicado periodicamente na internet) homônima e autobiográfica.

A história começa com Eduardo e sua esposa, Aline (apelidada carinhosamente de Baixinha), se mudando de Porto Alegre para Florianópolis. Após um sonho premonitório envolvendo citações de livros de sci-fi e a presença do cantor Michael Bolton, Eduardo decide investir na ideia de criar uma graphic novel, logo nas primeiras páginas.

A HQ segue um clima despretensioso, pois Eduardo deixa bem claro que não tem uma história de vida extraordinária. Essa característica é essencial para que o quadrinho não decepcione: “Sopa de salsicha” reúne pequenos episódios da vida modesta de Eduardo e Baixinha, que justificam seus comportamentos e características. Como o episódio em que o protagonista participa de uma “briga de cuspe” com um homem na praia, ou quando ele explica sua aversão à banana e banheiros pequenos. Essas pequenas histórias entrecortam a narrativa principal, que é o processo de criação (ou da falta de criatividade) da graphic novel de sua vida.

Os desafios da vida de um quadrinista (como os bloqueios criativos) são retratados nas páginas de “Sopa de salsicha”. Foto: Bianca Muniz / Jornalismo Júnior

Apesar da descontração e do bom humor que predominam nas páginas, o quadrinho traz alguns momentos mais pesados e de maior reflexão — como o próprio autor diz no início, em tom de brincadeira, em uma graphic novel o autor-protagonista conta suas tristezas e até inventa doenças para elevar as vendas. A chegada aos 30 anos, a distância dos amigos, a mudança de cidade e o duro processo criativo lhe trazem amadurecimento, uma “mudança interna que reflete em mudanças externas”, como ele diz.

A história apresenta e desenvolve poucos personagens, mas fica difícil não deixar de se cativar pela sinceridade deles. Exemplo disso, é a Baixinha. Percebe-se como o protagonista admira sua esposa e o incentivo que ambos se dão para atingirem  objetivos. Isso fica bem evidente quando o autor fala sobre o falecimento de sua sogra e todos os efeitos desse trágico episódio em sua companheira. A descrição do estado depressivo de Baixinha e a sua superação são as páginas mais tocantes da HQ.

Baixinha, esposa de Eduardo, tem bastante destaque na trama. Foto: Bianca Muniz / Jornalismo Júnior

No entanto, a ausência de um plot emocionante pode tornar a leitura das 165 páginas, monótona. Essa sensação pode ser intensificada por uma paleta de cores bem definida e que permanece igual em quase todas as páginas – quase, porque em alguns momentos o autor utiliza recursos que quebram essa linearidade de tons e acontecimentos. Como as regressões ao passado do autor, através da lembrança de seu grupo de amigos da adolescência (retratadas em páginas de caderno pautadas), ou as participações especiais de artistas consagrados no meio dos quadrinhos, como Gustavo Borges, Fábio Moon, Gabriel Bá e Rafael Albuquerque (este, responsável por desenhar duas páginas da HQ). Essas páginas são desenhadas de uma forma especial, utilizando cores e estilos de traço diferentes (até a Baixinha tem seus desenhos na história).

Página desenhada por Rafael Albuquerque, com direito a uma “alfinetada” do quadrinista. Foto: Bianca Muniz

Desenho feito pela Baixinha. Foto: Bianca Muniz

A leitura de “Sopa de salsicha” é recomendada para quem gosta de histórias mais leves e com um bom acabamento gráfico. A vida “comum” de Eduardo é um ponto positivo para a HQ, por mostrar que é possível contar uma boa história sem grandes aventuras.

Por Bianca Muniz
(biancamuniz@usp.br)

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