Quando o grupo sul-coreano BTS (sigla para Bangtan Sonyeondan, “garotos à prova de bala”, em tradução livre) anunciou que viria ao Brasil com a 2017 BTS Live Trilogy Episode III: The Wings Tour, o alvoroço na internet brasileira já indicava o sucesso que seriam os shows. O grupo de k-pop, que já visitou o país outras duas vezes, em 2014 e 2015, teve um aumento notório em seu público, vide as  trinta mil pessoas na fila online disputando pelos catorze mil ingressos para as apresentações e os oito mil Armys (A.R.M.Y é o nome do fandom do grupo) no aeroporto para recepcionar os ídolos.

Surgido em 2013, o BTS é formado por sete rapazes com idade entre 19 e 25 anos: Rap Monster, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook. Eles vêm fazendo história no cenário do k-pop, com seu mais novo álbum Wings ficando no topo do Itunes em cerca de 27 países, incluindo EUA e Brasil, e estreando em 26º lugar na Billboard 200, sendo o único artista de k-pop a conseguir tal feito. No Brasil, foram realizados dois shows no CitiBank Hall nos dias 19 e 20 de março, e os destaques vão para as performances elaboradas e para a troca de carinho entre fãs e ídolos.  

SHOW DO BTS E PARA O BTS

Ao começar a apresentação na última segunda (20), com o mais novo single Not Today, já ficava claro que aquele não seria um show comum. Mesmo sem um palco gigante e cheio de pirotecnias como estão acostumados na Coreia do Sul (ou até mesmo em alguns outros países que procuraram copiar os moldes coreanos, como nosso vizinho Chile), o BTS fez questão de trazer palcos móveis para conseguirem executar um show elaborado. Além dos sete artistas no palco, mais oito dançarinos complementavam as coreografias, e adereços cenográficos, luzes, confetes e vídeos perfeitamente produzidos fechavam o espetáculo. Na platéia, fãs com luzes brilhantes (chamados de lightstick, objeto comum nos shows de k-pop) gritavam e cantavam junto com os artistas. O público, em uníssono, repetindo perfeitamente – ou ao menos tentando fazer isso – as letras em coreano, respondia ao setlist cheio de singles animados como Dope, Fire e um medley dos sucessos do grupo nesses quase 5 anos de existência. Os sete estavam claramente felizes e confortáveis, mandando corações para o público e agradecendo sempre que não estavam dançando. Mas o amor era recíproco, os armys, além de cantarem junto, prepararam balões, plaquinhas, gritos ensaiados, tudo para surpreender e agradar o grupo. Fizeram um verdadeiro show para o BTS.  

Foto do grupo a?os o show, postada em sua conta oficial no twitter, com os membros segurando as plaquinhas que todos os fãs levantaram durante a última música – as frases nas placas: “Até chegarmos a outra extremidade da Terra” e “ Nunca largamos a sua mão”, versos das músicas Spring Day e First Love, respectivamente. (Imagem: Reprodução)

CORAGEM, TALENTO E SURPRESAS

A parte mais emocionante e o grande diferencial do show, no entanto, não foram as title songs em coro, e sim a coragem de cantar os solos de cada membro ao vivo.  Apesar de todos os integrantes de grupos de k-pop serem bons na dança e no canto, muitas dessas boybands possuem um ou dois que se destacam e “carregam” o restante. No último álbum do BTS, Wings, eles  surpreenderam o cenário e incluíram uma música solo de cada membro, provando que todos os integrantes têm talento e são artistas completos. Porém, desafio mesmo era segurar uma plateia enorme, jovem e que ansiava por músicas animadas cantando solos lentos e emotivos, sem coreografias e adereços. E, novamente, o show veio dos dois lados.

O primeiro a se apresentar sozinho foi o mais jovem do grupo, Jungkook. Em Begin, música que ele presta uma homenagem aos outros membros, o garoto de 19 anos mostrou porque não é chamado de “menino de ouro” (“golden maknae”) à toa: com um vocal perfeitamente afinado e uma coreografia rápida que emulava um sapateado no refrão, a plateia não sabia se gritava ou se ficava parada admirando o talento do garoto que canta e dança com uma perfeição e leveza admirável. Lie, o solo de Jimin, que veio logo em seguida, já era uma música mais pesada que falava sobre mentiras e tentações. Com uma coreografia composta entre os dançarinos e o ídolo, ele foi carregado, dançou vendado e um lustre desceu até o palco, formando todo um cenário dramático. O garoto, que geralmente sorri com os olhos, estava sério e encarnando um personagem perturbado por tentações, num solo que valorizou o que ele faz de melhor: dançar como se a música fizesse parte dele. Suga, o próximo da vez, tinha uma das músicas mais difíceis. First Love é uma faixa que alterna sussurros e gritos em um declaração de amor ao piano. Como ele fez isso ao vivo? Um piano foi posto no palco e Suga apenas cantou como se fosse a última vez. A plateia, emocionada, gritava em coro “Min Yoongi”, nome original do integrante, e o ídolo, com os olhos marejados de ver o amor de tantos fãs do outro lado do mundo, não conseguiu terminar a música, só virou as costas e deixou o coro continuar, saindo com o fim do instrumental. Um final conceitual para uma apresentação única.

Depois de sucessos coreografados e cantados por todo o grupo como “Save Me” e “I Need You”, os solos voltaram com o líder do grupo, Rap Monster. Reflection é uma música de rap lenta e reflexiva, que o líder cantou sozinho em um palco extra que virava uma galáxia com o telão. No show do dia 19, no fim da música, ao  cantar o verso “I wish I could love myself”, os fãs gritaram “We love you”, o que fez sua voz tremer e sua expressão de choque ficar clara. Na segunda, já preparado para o momento em que os fãs gritariam “We love you”, ele modificou a letra para “Yes I do love myself” e terminou com “Yes we do love ourselves”, mostrando que realmente ficou emocionado com o amor e carinho dos armys. Lágrimas eram só o que se via nos olhos da plateia. Após esse momento, V veio com sua “neo-soul” Stigma. O ponto alto dessa música, que é pesada e sofisticada, nas palavras do próprio V, são as notas altas que ele consegue atingir, principalmente por ter uma voz bem grave, quase um barítono, e rouca. Também sozinho no palco, ao fazer os high note perfeitamente, a plateia foi a loucura e ovacionou o cantor.

Para quebrar o clima, o próximo solo foi Mama, de J-Hope. Apesar da letra emotiva, pois é uma homenagem à sua mãe, que fez de tudo para o filho realizar o sonho de ser artista, a música é alegre e dançante como o dono do solo. Com uma coreografia que parecia estar contando uma história, no telão eram mostradas fotos do ídolo desde criança. O sorriso e a alegria no rosto dele contagiava a plateia inteira, que gritava “Hey Mama” e “J-Hope” mais alto do que para qualquer outro, o que estava claramente o emocionando bastante. O último, mas não menos esperado, foi Jin e sua doce Awake. Jin tem uma história interessante, pois  é o chamado “visual” do grupo, ou seja, sua “função” é ser o rosto bonito do BTS. Nos clipes com histórias, ele quase sempre é o principal e aparece muito, mas nas músicas do grupo, seus versos quase sempre são os menores. Ele também é criticado pelos mais observadores – ou por quem quer arranjar algum defeito – por não dançar tão bem quanto os outros. Agora, Jin tinha uma música, um palco e uma platéia inteira só para si. Logo ao começar, o coro dos fãs foi instantâneo, não cantando só o refrão em inglês, mas a música inteira com o ídolo. Numa apresentação que ele claramente deu o seu melhor, Jin foi outro que não conseguiu cantar o final de sua música por causa da emoção que o público lhe passou, e os gritos de “Jin, eu te amo!” se estenderam até mesmo quando ele saiu do palco.

DESPEDIDA E PROMESSA DE VOLTA

O líder, Rap Monster, pegou uma bandeira com os users do twitter de vários fãs (Imagem: Reprodução)

A última música do show, o single Spring Day, veio com mais surpresa da plateia: no clipe, ao final da música, há um coro gritando “ohhhh”, que não há na música original do álbum ou nas apresentações ao vivo dessa canção. Mas, nos dois shows do Brasil, os fãs, após o término da música, imitaram o coro do clipe. No show do dia 19, a expressão de choque dos meninos por todo o engajamento do público era evidente. No dia 20, os sorrisos predominavam. Com despedidas em português que iam muito além do comum “obrigado”, eles retribuíram o amor aos fãs. J-Hope disse, em português, que os armys eram as asas do BTS e que eles voariam ainda mais longe juntos. Jin prometeu que eles iriam voltar, mas para se apresentarem em um lugar maior, onde coubessem todos os fãs. E o líder, Rap Monster, encerrou as despedidas dizendo que eles e os fãs não precisavam falar a mesma língua para se olharem nos olhos. Com certeza, tudo o que foi transmitido nesse show por esse olho no olho ficará guardado não só pelo público, mas também pelo próprio BTS.

Por Ingrid Luisa
ingridluisaas@gmail.com

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