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‘Solução de dois Estados’ não é a solução. É o problema.
Na Estante
06 jan 2021 | Por Guilherme Gama (guilhermegama@usp.br)

Solução de dois Estados, a princípio, é um projeto que visa cessar as disputas políticas, territoriais e militares entre Israel e Palestina, por meio da criação e coexistência de dois Estados, com independência e soberania reconhecidas internacionalmente. Porém, na obra de mesmo nome, de Michel Laub, lançada pela Companhia das Letras em 2020, o projeto de solução da questão palestina é só um pano de fundo — uma analogia distante e desfocada. Há uma trama familiar que discute indiretamente a maior variante de temas possível que cabe entre conflito e conciliação, no nosso tempo e, principalmente, no Brasil. 

O romance é construído em dicotomia. Alexandre Tommazzi é um homem conservador, religioso e empresário de uma rede de academias que ganhou a periferia de São Paulo. Compartilha um ódio recíproco por sua irmã, Raquel Tommazzi. Esta, por sua vez, é mulher das artes performáticas, reconhecida internacionalmente. Pesa cento e trinta quilos, sofria bullying na adolescência e faz disso parte de seu ato artístico que polemiza a violência, a pornografia e a própria arte. Ambos são entrevistados separadamente e apresentados em alternância para o leitor pela documentarista alemã Brenda Richter, enquanto grava seu documentário sobre ódio, no Brasil. 

A construção da narrativa foge do convencional pelo formato de apresentação: as vozes dos personagens são declarações que constituem parte da captação da cineasta. No lugar dos convencionais capítulos, a separação do livro é configurada em transcrições das entrevistas, pré editadas e brutas, e materiais externos, como reportagens, notas de imprensa etc. A fidelidade dos fatos fica à mercê da imparcialidade jornalística de Brenda, das informações que seleciona e do modo como as decide apresentar. 

O ano é 2018. Não coincidentemente, ano das eleições presidenciais que marcaram a bipolarização política  no Brasil — outra comparação implícita proposta por Laub. Raquel sofre um ataque enquanto palestra num evento sobre violência, e o agressor tem ligação com seu irmão. Esse é o pretexto pelo qual a entrevista se inicia, junto ao interesse de Brenda em destrinchar o passado conflituoso da Família Tommazzi, que envolve a herança do falecido pai, o que sobrou depois da falência de sua empresa durante o governo Collor. Percebe-se, aos poucos, que a questão está longe de um mero caso de família sob um cenário político e econômico questionável. Trata-se de uma guerra caricata, representativa, recheada de metáforas sociais que questionam o ódio e a barbárie na atualidade.

A construção dos personagens por Laub é riquíssima. É incrível o modo programado em que são sutilmente apresentados, gradativamente ganhando mais personalidade e uma dimensão bem maior. O que aparenta ser apenas um ranço que Alexandre tem por médicos, advogados etc., é, na verdade, parte do discurso negacionista e obscurantista que repercute dentro da sua grande rede fitness. Alinhada à ideologia conservadora evangélica, funciona quase como um Estado paralelo na periferia, influente a ponto de incentivar Jessé a agredir Raquel durante o evento. Desde o começo o leitor sabe que Raquel usa a nudez de seu corpo para a arte, só não conhece até então detalhes dessa performance. Consiste em uma posição de submissão, como mulher e gorda, agredida e humilhada dentro de uma atmosfera sexual com atores masculinos agressivos. O cenário propõe a discussão do fazer artístico, da mulher na sociedade, da objetificação dos corpos, da pornografia, da gordofobia, da intolerância às minorias e da capitalização da arte. 

É interessante também a dicotomia que há entre uma mulher não religiosa e obesa e um homem que aliou reforma espiritual e do corpo ao perdão. Deve-se lembrar que a extrema rivalidade entre os irmãos começa no passado, fortemente guiada pela falência do pai. Seria Laub dando indícios de que a bipolarização política no Brasil vem de uma crise economia anterior? Para além de explorar as questões brasileiras atuais, há uma forte referência bíblica na obra. 

Tal referência é composta pela  pregação do pastor Dúlio sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, em Gênesis, e por personagens com nomes também presentes no Antigo Testamento, como Raquel e Jessé. Além disso, há a ligação desse contexto com a origem das nações islâmica e palestina.

Seria a intenção do autor sustentar e enriquecer o discurso moralista religioso de punição e violência num cenário político? Ou comparar Estados inimigos, em oposição ideológica e disputa territorial no oriente, a dois irmãos em guerra por razão, poder e herança? Independente da resposta, parece que as referências convém quando o assunto é ódio e conciliação, e a leitura fica mais interessante com os graus de repertório e complexidade dados por Laub. 

Solução de dois Estados não apresenta soluções — assim como o projeto para a “paz no oriente” talvez não o faça também  — e sim escarra o problema. O romance é complexo na mesma medida que é envolvente, ou seja, em grandes proporções, e deixa mais questões do que respostas. É o tipo de leitura que não abandonamos depois de fechar o livro, profunda demais para caber em 241 páginas.

 

Imagem de capa: Carteira de identidade (auto polegar direito), Rubens Gerchman [Reprodução/Acervo Museu de Arte Moderna de São Paulo via Google Arts & Culture]

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