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Os temas obscuros no heavy metal
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09 jan 2021 | Por Rodrigo Tammaro (rodrigotammaro@usp.br)

O heavy metal é um gênero com muitos fãs ao redor do mundo. Além do aspecto musical, como ritmos acelerados, guitarras distorcidas e vozes “rasgadas”, uma outra característica para além da sonora é frequente e bastante utilizada no estilo, principalmente no subgênero black metal: o recorrente uso de símbolos ligados a demônios, morte e satanismo.

Essa característica faz do heavy metal um estilo polêmico. Enquanto algumas bandas levantam bandeiras de cultos e práticas satânicas, outras garantem que a temática não passa de uma narrativa simbólica e fantasiosa. Mesmo as bandas que adotam a simbologia de morte e demônios apenas como estética são alvos de críticas e condenações por parte de alguns grupos religiosos e outros setores sociais que se incomodam com o apelo a tais imagens.

A presença dessa temática não se limita ao visual, como mascotes, emblemas, logos e outros símbolos, mas também pode ser percebida no conteúdo e na letra de muitas músicas. Esses símbolos se tornaram tão característicos no heavy metal que foram naturalizados, e as origens dessa prática ficaram esquecidas. Desta forma, é interessante entender como e por que surgiu a relação entre o metal e tal simbologia, além de  conhecer a forma com que os fãs do estilo enxergam e se relacionam com esse aspecto tão marcante.

Capa do álbum The Number of the Beast (1982) da banda de heavy metal Iron Maiden, com referências explícitas ao diabo e outras formas cadavéricas. [Imagem: Divulgação/Parlophone Records]

Capa do álbum The Number of the Beast (1982) da banda Iron Maiden, com referências explícitas ao diabo e outras formas cadavéricas. [Imagem: Divulgação/Parlophone Records]

Assim como outros subgêneros do rock, o heavy metal tem suas origens no blues e consequentemente no rock clássico. O estilo começou a ganhar popularidade no final da década de 1960, quando bandas como Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, todas inglesas, lançaram seus primeiros álbuns de sucesso. Durante esse período, o heavy metal começou a se consolidar como um estilo musical, e a presença dos símbolos de morte ainda não era tão frequente. 

Já em meados da década de 1970, novos nomes surgiram e o heavy metal começou a se tornar mais performático. Bandas como Kiss, Iron Maiden e Alice Cooper trouxeram para o estilo um conceito visualmente mais rico e que não se limitava somente ao aspecto musical. As maquiagens de Kiss e os shows teatrais de Alice Cooper, por exemplo, incrementaram o metal, que começou a valorizar cada vez mais a performance como complemento da música. Foi nesse momento que os temas ocultos começaram a figurar com mais destaque nos aspectos visuais das bandas para além da lírica e do conteúdo das músicas.

De acordo com Alexandre Timoteo, redator dos portais Iron Maiden Brasil Notícias e Roadie Metal, foi nesse período que a utilização de temas ocultos se tornou frequente no metal: “Antes de 1970, algumas bandas já abordavam temas ocultos. Mas eu diria que a origem de tudo se deu quando Geezer Butler, baixista do Black Sabbath, teve uma ‘sacada’ genial. Ele passou certo dia de frente a um cinema e percebeu que havia uma fila enorme de pessoas para assistir um filme de terror. Geezer percebeu que, assim como as pessoas pagam para assistir filmes de terror, também poderiam pagar para ouvir uma música de terror”. Depois disso, outras bandas foram muito influenciadas tanto musicalmente quanto na lírica pelo Sabbath, inclusive fora da Inglaterra.

Show da banda Kiss, uma das mais performáticas e teatrais em suas apresentações. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons] 

Show da banda Kiss, uma das mais performáticas e teatrais em suas apresentações. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Além da ideia de Geezer de fazer músicas de terror assim como acontece com os filmes, não existe um motivo muito claro que justifique a relação entre o metal e os símbolos ocultos. Para Dani Esteves, Wellington Silva, Ítalo Santana e Douglas Agostinho, integrantes da banda cover Into The Sabbath, tal relação deve-se à característica dos músicos e metaleiros: “Rock, de uma maneira geral, significa liberdade. É um estilo que te permite ser aquilo que você quiser. Na sociedade patriarcal e cristã na qual estamos, não se pode falar abertamente sobre esses temas, mas o rock te permite falar sobre qualquer assunto”.

Alexandre também comenta sobre a diferença no uso desses símbolos: “Existem bandas na Escandinávia que levam o satanismo a sério. Eu diria que, nesses casos, os símbolos transcendem a esfera estética e fazem parte do estilo de vida dos integrantes da banda e seus respectivos fãs. Contudo, vejo que a maioria das bandas e fãs usam meramente como uma forma estética ou até mesmo como uma estratégia de marketing. Eu mesmo nos anos 80 e 90 comprava muitos LP’s pela capa, em que na maioria das vezes havia ou uma caveira ou um demônio”.

Também é importante ressaltar que os símbolos obscuros com referências ao satanismo e formas demoníacas não são exclusivos do heavy metal e podem ser percebidos em outros estilos musicais. Mesmo no próprio heavy metal existem alguns subgêneros em que a presença de temas obscuros não é central. Há ainda o white metal, subgênero em que, ao contrário do black metal, os símbolos cristãos são valorizados.

Outro ponto de destaque é a forma como os fãs se relacionam com as bandas e a utilização de temas ocultos. Sobre isso, Alexandre afirma: “Eu particularmente nunca tive problema com tais referências, pois, pelo menos para mim, o aspecto musical vem primeiro. Consigo numa boa escutar tanto o Seventh Avenue, uma banda cristã alemã, como o Mercyful Fate, com uma abordagem fundada em satanismo filosófico. Mas conheço pessoas dentro do heavy metal que não gostam de determinadas bandas que abordam temas obscuros”.

Alexandre também acredita no apelo simbólico como forma de marketing, e lembra do Eddie The Head, símbolo com traços de demônio e caveira da banda Iron Maiden: “O Eddie, mascote do Iron Maiden, é uma das mais excelentes estratégias de marketing dentro da música. Tem gente que o conhece e não conhece a banda. Com ele, a banda inclusive deu vários recados na sua história, tais como a evidente saída de um membro, ou a renovação e renascimento do grupo”.

Mascote Eddie The Head, símbolo da banda Iron Maiden. [Imagem: Reprodução/Deviant Art/redninjarnotalone]

Mascote Eddie The Head, símbolo da banda Iron Maiden. [Imagem: Reprodução/Deviant Art/redninjarnotalone]

Há ainda outro fato que ilustra o possível marketing na relação entre metal e ocultismo, mesmo que parte do público não goste do apelo aos símbolos obscuros, é o The Number of the Beast, também do Maiden. Em 1982, a banda foi acusada de satanismo depois do lançamento do álbum. A igreja e a sociedade conservadora americana organizaram um boicote, e chegaram inclusive a queimar os discos. Em contrapartida, os fãs e a comunidade de uma forma geral ficaram ainda mais curiosos em saber do que se tratava, e foi aí que as vendas decolaram. Não à toa, esse é o LP mais bem sucedido em vendas do grupo.

Marketing, estética ou prática, a temática se tornou comum no estilo. As pessoas que se interessam pela narrativa de terror na música têm no heavy metal um gênero musical rico e repleto de conteúdo. Já aqueles que não se interessam por esse conteúdo, mas gostam da musicalidade do estilo, podem encontrar no heavy metal e em seus subgêneros músicas bem produzidas e com os mais diversos temas, sem limitar-se ao terror.

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