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O diabo são os outros: como os transtornos mentais são retratados no terror
CINÉFILOS
28 nov 2020 | Por Pedro Ferreira (umpedroferreira@gmail.com)

As transformações socioculturais ocorridas na segunda metade do século 20 propiciaram uma revolução nos estudos acadêmicos sobre a loucura e os transtornos mentais. O filósofo francês Michel Foucault se tornou uma das grandes referências do período com a análise sobre os fenômenos psíquicos em seu livro História da Loucura na Idade Clássica (1961). No âmbito das artes e do entretenimento, a psique humana foi e ainda é o eixo de inúmeras obras, desde as telas de galerias até as de cinema, porém com uma subjetividade a mais que pode ser benéfica ou maléfica para a representação do tema.

Alguns bons exemplos são o quadro expressionista O Grito (1893) do pintor norueguês Edvard Munch, que transmite a ansiedade e a angústia humanas, e a série de jogos de terror psicológico Silent Hill, estreada em 1999,  que contém monstros que simbolizam diversas perturbações da mente, como a frustração sexual e a culpa que leva à autopunição.

Nos filmes de terror, apesar de haver excelentes obras que abordam a temática, há uma tendência a representações que reforçam ideias preconcebidas e estereotipadas sobre transtornos mentais. Os manicômios e clínicas psiquiátricas retratados de forma zombeteira, a hiperbolização dos sintomas e a diabolização de pacientes são elementos que compõem diversos longas-metragens que marcaram fãs do gênero.

Na monografia A representação da doença mental no cinema, escrita por Maria Julieta Gadelha para sua especialização em saúde mental na Universidade Federal da Paraíba, parte-se do pressuposto de que as produções audiovisuais podem reforçar clichês, assim como modificar percepções, pois elas “são, sobretudo, janelas privilegiadas para um enfoque mais detido sobre a imagem social da loucura”.

Cabe, então, fazer uma análise crítica sobre os méritos e deméritos das representações de transtornos mentais de algumas das maiores produções de terror dos últimos anos.

 

Quando a mente é gravemente abalada…

Os traumas podem acompanhar alguém durante a vida inteira. A cidade de Haddonfield é palco de diversos eventos traumáticos em um dos maiores clássicos slasher do cinema: Halloween (1978), em que o terror causado por Michael Myers (Nick Castle, Tony Moran e Will Sandin) assola Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), a única sobrevivente do massacre no Dia das Bruxas. E é na sequência Halloween (2018), 40 anos após os assassinatos, que observamos os danos causados à personagem.

Lidando com um transtorno de estresse pós-traumático, ela se mantém em constante vigilância, temendo a volta de seu algoz e, ao mesmo tempo, planejando seu assassinato, em um constante estado de paranoia. Esse aspecto, apesar de não ser o foco do enredo, é bem desenvolvido e faz com que o público entenda melhor a personagem.

Jamie Lee Curtis em Halloween (2018). [Imagem: Reprodução/Amazon Prime]

A paranoia de Laurie é transmitida a sua filha, Karen (Judy Greer), que é ensinada a atirar e a lutar desde cedo como forma de se proteger de uma ameaça invisível a seus olhos. O que faz com que as duas se distanciem e alimenta o ressentimento que Karen tem pela mãe.

Esses distúrbios transmitidos através da árvore genealógica alicerçam o enredo de Hereditário (Hereditary, 2018). Annie Graham (Antonia Collet) passa por intensos processos de luto e convívio com doenças mentais durante sua vida. Sua mãe tinha transtorno dissociativo de identidade — popularmente conhecido como transtorno de múltiplas personalidades — e demência. Seu pai morreu por inanição durante uma crise depressiva e seu irmão tinha esquizofrenia e cometeu suicídio. Ainda lidando com tudo isso, ela perde sua filha mais nova em um acidente de carro.

Toda a dor carregada por ela interfere em sua vida profissional e, principalmente, na relação com o filho mais velho, Peter (Alex Wolff), que em diversas ocasiões se demonstra apático com os acontecimentos em sua casa — um dos sintomas da depressão. O filme alude aos traumas e transtornos mentais com fatores genéticos que são transmitidos de geração em geração. Na família Graham, particularmente, o sofrimento enfrentado pelos membros mais velhos transborda-os e se derrama sob os mais novos, que repetem o ciclo.

A apatia de Peter adquirida de forma hereditária. [Imagem: Reprodução/Amazon Prime]

Quando a mente cria seus próprios monstros…

É difícil aprender a conviver com seu lado sombrio. O psiquiatra suíço Carl Jung foi responsável por criar alguns dos conceitos mais utilizados da psicologia, entre eles o da sombra. Ela é como o sótão da mente, localizado no inconsciente. É nesse cômodo que depositamos todos os aspectos de nosso ser que queremos esquecer, aqueles com os quais não nos identificamos ou não damos a devida importância, sejam eles construtivos ou destrutivos. Além de fazerem parte de nossos instintos, esses atributos são autônomos e capazes de tomar controle do consciente, por maior que seja nosso esforço em mantê-los aprisionados.

É essa a batalha interna enfrentada por Amelia (Essie Davis) em O Babadook (The Babadook, 2014). Após perder o marido em um acidente de carro no dia do nascimento de Samuel, ela apresenta um estado depressivo e uma relação conturbada com o filho. Apesar de amar e cuidar dele, há uma clara rejeição motivada pelo trauma que os afasta. Os acontecimentos daquele dia, inclusive, são um tópico velado entre os dois e a mãe os censura toda vez que são mencionados pelo filho, até que Amelia é obrigada a confrontar sua sombra.

Para uma leitura antes de dormir, Sam escolhe o livro “O Senhor Babadook”. A história é sobre uma entidade sobrenatural que perturba e tenta se apossar de qualquer um que tome conhecimento de sua existência. De início, Amelia ignora o livro e tenta escondê-lo, mas logo Samuel e ela começam a ser assombrados pela criatura. Chapéus e casacos pendurados em cabideiros passam a adquirir a forma do monstro no cotidiano dos personagens, que permanecem em um constante estado paranoico.

O Babadook é a personificação da sombra junguiana. Ele é alimentado pelo esforço que Amelia realiza para não lidar com seu trauma e deixa claro que quanto mais ela tenta afastá-lo mais forte ele fica. A personagem é levada ao seu limite e somente após dias de privação de sono, descontrole emocional e até mesmo um assassinato é que ela finalmente entende que jamais poderá se livrar da entidade. Pelo contrário, terá que conviver com ela por toda sua vida, por mais assustadora que seja.

“Quanto mais você nega, mais forte eu fico”, uma das passagens do livro de Babadook. [Imagem: Divulgação/Causeway Films]

Quando os transtornos são estereotipados… 

Os pacientes são os mais afetados por representações ruins no cinema. O psicólogo estadunidense Danny Wedding, em entrevista à revista Vice, afirma que “talvez o mito mais comum seja o de que as pessoas com doenças mentais são violentas e perigosas, embora também se saiba que uma pessoa esquizofrênica, por exemplo, está muito mais vulnerável à violência do que aqueles que a rodeiam”.

De fato, diversos clássicos de terror associam algum transtorno mental — ainda que sem nome — às atitudes violentas dos personagens. Na franquia Sexta-Feira 13 (Friday the 13th), Jason Voorhees aparenta ter um transtorno análogo ao dissociativo de identidade, em decorrência de ter presenciado a morte da mãe durante a infância. Isso seria a causa dos assassinatos que comete. A mesma patologia, junto à esquizofrenia, é percebida em Norman Bates (Anthony Perkins) de Psicose (Psycho, 1960), com sua conturbada relação com a mãe, agravada ainda mais após sua morte.

Em relação a Michael Myers, observa-se o mesmo descuido, tanto no clássico de 1978, quanto no filme mais recente da franquia. Os assassinatos cometidos por ele são justificados como consequências de um transtorno inominado e o levam a ser internado em uma clínica psiquiátrica.

As cenas que mostram o local contêm diversos figurantes representando versões extremamente estereotipadas de pacientes, com indivíduos que precisam de camisas de força até sujeitos que perseguem borboletas. A instituição é assemelhada a uma prisão e não há nenhuma consideração pela integridade física e o bem-estar dos pacientes. Além disso, após anos de tentativas frustradas de tratamento, os próprios médicos responsáveis por Michael desistem do paciente e o definem como “puro mal”.

Produções como essas são parcialmente responsáveis pela estigmatização da saúde mental. Retratar as instituições psiquiátricas como espaços de reclusão para aqueles que sofrem de transtornos, os quais, supostamente, os tornariam violentos e perigosos, é profundamente danoso e fomenta a segregação social dessas pessoas.

Myers no pátio da clínica psiquiátrica, onde os pacientes são acorrentados com distanciamento entre eles. [Imagem: Reprodução/Amazon Prime]

Quando a história real é bem mais assustadora…

Em alguns casos, há uma inversão de valores sobre quem de fato é “puro mal”. Um dos maiores sucessos de terror dos anos 2000, O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose, 2005) é o caso mais emblemático da irresponsabilidade de algumas produções cinematográficas em relação aos transtornos mentais. O típico enredo de possessão demoníaca e exorcismo baseia-se em uma história real perturbadora.

Anneliese Michel era uma jovem alemã que cresceu em um ambiente rigorosamente católico. Em 1968, ainda adolescente, ela apresentou diversas crises convulsivas e foi diagnosticada com epilepsia. Enquanto realizava seu tratamento, apresentava sinais de esquizofrenia e desenvolveu uma depressão profunda. Ela atribuiu os transtornos a uma possessão e relatava ouvir vozes que a condenavam ao inferno e ver rostos demoníacos, assim como adquiriu repulsa a objetos religiosos, como crucifixos. Após anos sem melhoras significativas, a família acreditou que a medicina não poderia ajudá-la e foi em busca de padres que pudessem conduzir um exorcismo.

Em 1975, com autorização do bispo Josef Stangl, o padre Arnold Renz iniciou o procedimento. Foram 67 sessões durante dez meses, todas mantidas em sigilo pela Igreja. Todas as medicações foram interrompidas e esse era o único “tratamento” que Anneliese recebeu no período, sem apresentar melhora alguma. Aos 23 anos, ela morreu em 1º de julho de 1976 por falência múltipla de órgãos, após meses sem se alimentar.

Anneliese Michel na adolescência. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Após o caso se tornar público, o Estado alemão indiciou os pais de Anneliese, o padre e o bispo envolvidos no exorcismo por homicídio e negligência médica. Segundo os promotores, a morte da jovem poderia ter sido evitada até uma semana antes. O julgamento foi realizado com imagens e áudios das sessões e resultou em uma multa para a Igreja Católica e na absolvição dos pais de Anneliese, pelo critério de uma lei alemã que estabelecia que eles já haviam sido punidos o suficiente — no caso, com a morte da filha.

O fato de Emily Rose obter maior repercussão do que Anneliese Michel revela toda a problemática envolvida em representações irresponsáveis de pessoas com transtornos mentais no cinema. Além de reforçar estereótipos e promover inverdades sobre esses distúrbios, elas banalizam casos ímpares e perdem a oportunidade de levantar questões relevantes para a conscientização e discussão do problema.

O caso de Anneliese ganhou notoriedade como mais uma história de possessão demoníaca, por vezes tendo omitidos os detalhes clínicos e referentes à negligência do casal Michel. Na atualidade, quando ganha espaço em threads do Twitter, o que mais recebe destaque dos usuários são os relatos explícitos das ações de Anneliese durante as crises, bem como as fotos e áudios das sessões de exorcismo. Sua desumanização permanece mesmo após sua morte e ela é tida como um mero receptáculo do mal.

A diabolização é usada para encobrir a negligência de toda uma sociedade, quando, na verdade, o diabo são os outros.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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