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Amazon Prime: O desequilíbrio hormonal em ‘A Química que Há Entre Nós’
CINÉFILOS
17 set 2020 | Por Pedro Ferreira (umpedroferreira@gmail.com)

Em tempos de ressignificação do amor, a análise bioquímica desse confuso fenômeno da experiência humana tem se tornado mais interessante. Se os efeitos neurológicos de se apaixonar afetam todas as pessoas nas mais diversas fases da vida, eles são ainda mais avassaladores durante a adolescência. A Química que Há Entre Nós (Chemical Hearts, 2020) busca explorar a química envolvida nas paixões durante o “limbo adolescente”, mas falha quase inteiramente em ativar a circulação dos hormônios da felicidade nos espectadores.

Baseado no livro Our Chemical Hearts (Bonnier Childrens, 2016), da escritora Krystal Sutherland, e dirigido por Richard Tanne, o coming of age é protagonizado por Henry Page (Austin Abrams) e Grace Town (Lili Reinhart). Ele é um menino tímido, com poucos amigos e um talentoso escritor. Ela é uma menina reservada, intimidadora e not like the other girls — um perfil usado demasiadamente em produções adolescentes para caracterizar garotas que fogem dos estereótipos de feminilidade. Os dois gradativamente se apaixonam e Henry tenta desvendar os mistérios e traumas que circundam Grace.

Os atores Austin Abrams e Lili Reinhart. [Imagem: Reprodução/Amazon Prime]

O apressado primeiro ato revela imediatamente o maior déficit do filme: o roteiro. Também feito por Tanne, ele apresenta diálogos mal escritos, como as falas de jovens de 17 anos excessivamente autoconscientes sobre a adolescência, e personagens mal explorados — problemas persistentes durante todo o longa. Além disso, as filmagens incluem cenas confusas, com ângulos ruins e cortes duvidosos, e o diretor não consegue explorar o melhor dos atores, que entregam performances medianas.

É impossível simpatizar rapidamente com os protagonistas e os coadjuvantes — que, supostamente, servem como alívio cômico. O desenvolvimento superficial de Henry alinhado ao pouquíssimo tempo de tela que seus amigos ganham não consegue torná-los amáveis — falta estímulo à produção de ocitocina no público. Nem toda a endorfina do mundo pode aliviar a dor causada pelo potencial desperdiçado do romance paralelo entre Lola (Kara Young) e Cora (Coral Peña).

Cora, Lola, Henry e Muz (C.J. Hoff). [Imagem: Reprodução/Amazon Prime]

A trilha sonora é um dos poucos pontos fortes do filme. Repleta de música alternativa que pode encher os espectadores de serotonina, ela une The xx, Perfume Genius, SYML e até mesmo um remix da música Piece Of Your Heart feito pelo DJ brasileiro Alok. Contudo, a música tema Take Care, da dupla Beach House, é tocada exageradamente, o que reduz sua relevância para a trama.

O enredo que começa de forma frenética amadurece aos poucos e termina com um certo aprofundamento dos personagens, mas que não leva a lugar algum. Mesmo ao final do filme, é difícil lembrar de seus nomes, motivações e personalidades.

A impressão que fica é de que Tanne contou a história certa com os personagens errados. Abordar temas como suicídio e saúde mental na adolescência é um grande mérito da produção, que cumpre, de forma responsável, o papel de explorar as fragilidades desse período. Apesar disso, o roteiro é fraco demais para sustentar tudo que o filme se propõe a ser.

O amor é uma reação química que ocorre repetidamente ao longo da vida. Eventualmente, o corpo humano pode se acostumar com todos os hormônios estimulados por ela e a quantidade deles passa a ser insuficiente — é quando a paixão acaba e o organismo deixa de se sentir recompensado. No caso do filme, a dopamina produzida é escassa desde a primeira cena.

A Química que Há Entre Nós já está disponível no Amazon Prime. Confira o trailer:

Capa: [Imagem: Reprodução/Amazon Prime]

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