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Liberdade para sentir

Em uma sociedade na qual ficar com uma única pessoa pelo resto da vida é a receita para um “felizes para sempre”, há muitos relacionamentos que provam que felicidade pouco tem a ver com monogamia

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03 fev 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Fernanda Pinotti (fsilvapinotti@usp.br)

 

Amor livre. Um movimento que surge para pregar a ideia de que todos deveriam poder amar e se relacionar sem imposição de terceiros. Ele foi criado não para incentivar a promiscuidade ou um grande número de parceiros, mas para que os relacionamentos não fossem definidos e regulados pelo Estado ou Igreja. Os simpatizantes acreditavam que uma relação, seja como ela for, na qual os parceiros estão por livre e espontânea vontade não devia jamais sofrer interferência da lei ou da pressão social.

 

O amor livre ganha força nos anos 60, junto à contracultura e o movimento hippie. Pregando o afeto sem padrões e sem regras, o termo começou a ser associado às relações consideradas não-monogâmicas. Adeptos do poliamor e de relacionamentos abertos encontraram respaldo na ideia. Mesmo tanto tempo depois, essas relações não convencionais ainda são vistas com olhos preconceituosos por muitos.

 

Nascemos e crescemos assistindo a comédias românticas, a mocinhas que esperam por seu príncipe encantado para que os dois fiquem juntos para sempre. A monogamia está impregnada na nossa sociedade e aqueles que têm um relacionamento diferente da norma têm que ouvir constantemente que sua relação está fadada ao fracasso.

 

Esses valores, no entanto, são muito recentes em termos de história. Os primeiros seres humanos se organizavam em sociedades de caçadores-coletores e foi nessa configuração que a espécie humana viveu mais de 90% de nosso tempo no planeta, até o início da agricultura e a sedentarização do homem. As sociedades de caçadores-coletores se organizavam de forma muito diferente da atual. Eram extremamente igualitárias em relação à importância dos gêneros, e os grupos costumavam dividir suas posses e conquistas, como a caça, a comida e também os parceiros sexuais. As crianças nascidas na tribo não eram responsabilidade apenas de quem as concebeu: todos os homens e mulheres cuidavam dos mais novos como parte de sua família.

 

Apenas depois do início do processo de sedentarização e da agricultura que os valores da espécie humana mudaram. Com a agricultura começou a se moldar também a noção de propriedade privada. Nesse contexto, a ideia de formar uma pequena família para cuidar de suas posses e garantir que elas não passem para outra família se torna interessante.

 

No livro Sex at dawn, Christopher Ryan e Cacilda Jethá, co-autores e namorados, chamam de “narrativa padrão” os motivos clássicos que o homem utilizou para justificar a monogamia: a mulher oferece ao homem a fidelidade sexual em troca da obrigação masculina de prover e garantir segurança para ela e seus filhos. Desta forma, o homem pode ter certeza de que o filho que ele sustenta é biologicamente seu. Para os dois autores, o problema desta narrativa, que retrata os homens como naturalmente promíscuos e possessivos e as mulheres como recatadas e submissas, é que, além de ofensiva, em diversos períodos e locais no mundo há sociedades e casais que não seguiram e não seguem esse modelo.

 

Maria de Fátima Araújo, autora do livro Gênero, violência e psicologia, estuda as transformações na estrutura familiar. Ela explica que o casamento, da Antiguidade até a Idade Média, não consagrava um relacionamento amoroso. “Era um negócio de família, um contrato que dois indivíduos faziam a conselho e por interesse de seus parentes.” Neste contrato a sexualidade também não era vivida como fonte de prazer, tinha como objetivo apenas a reprodução.

 

O casamento monogâmico foi legitimado pelo poder patriarcal para “preservar a propriedade privada e a garantia dos bens e da linhagem da família”. A fidelidade sexual, porém, era uma regra a ser seguida apenas pelas mulheres, situação que fica clara ao revisitarmos os casamentos que firmavam alianças durante a época das monarquias europeias. Os reis dispunham de várias amantes e frequentemente tinham filhos bastardos, enquanto uma rainha acusada de adultério era sentenciada à morte, já que seu dever era assegurar-se de gerar o próximo descendente homem da linhagem real.

 

Maria de Fátima fala que a relação entre amor, sexualidade e casamento é uma invenção moderna. “Amor, no sentido moderno de consensualidade, escolha e paixão amorosa, não existia no casamento antigo. Surge na era burguesa como um novo ideal de conjugalidade.” Mesmo na atualidade, apesar das mudanças ocorridas nas relações de gênero, no casamento e na sexualidade, a monogamia persiste como valor fundamental.

 

Esse valor tão essencial para alguns é diariamente desconstruído por casais que optam por um modelo não tão tradicional de amor, porém com a mesma quantidade de carinho, afeto e comprometimento.

 

Raquel, 27, e Gabriel, 34 (nomes fictícios), já tinham uma relação estável há três anos quando começaram a discutir a possibilidade de abrir o relacionamento. Raquel diz que começou a se perguntar por que eles haviam adotado a monogamia sem considerar outras possibilidades. “Geralmente as pessoas seguem isso sem nem se questionar a respeito”. O casal passou algumas semanas conversando sobre o assunto e chegaram à conclusão de que o fato da monogamia ser a opção mais comum tinha pouco a ver com ser o mais certo, e sim com o sentimento de posse e as inseguranças que costumamos sentir.

 

Ao observar os relacionamentos de amigos e conhecidos, perceberam que muitas vezes as pessoas invalidam seus sentimentos por alguém apenas para se adequar ao modelo tradicional de relação. “Quando você já está com alguém, mas fica balançado por outro, geralmente acaba tendo que escolher entre um deles”, explica Raquel. Os dois decidiram que não queriam passar por isso no futuro e eventualmente desistir do relacionamento quando podiam reconstruí-lo. “O amor devia ser incentivado sempre.”

 

Após a decisão, Gabriel ainda sentia um pouco de insegurança, porém os dois conversaram muito sobre, e ela diz que ele entendeu: “O que a gente sente um pelo outro nada tem a ver com o que podemos vir a sentir por outra pessoa”. Para Raquel, a maioria dos casais monogâmicos tentam fingir que nenhum dos dois pode vir a se interessar por alguém e tornam esse assunto algo proibido, que não pode ser trazido à tona ou discutido sem causar brigas. “As pessoas tentam tapar o sol com a peneira.”

 

O casal acredita também que uma parte importante do seu relacionamento é querer ver o outro feliz. Por conta disso não querem limitar bons momentos que um deles possa ter fora da relação para tentar proteger seu próprio ego. “É muito comum ver as pessoas falando ‘eu também quero ver ele ou ela feliz, mas desde que seja não fazendo nada com outra pessoa’.”

 

Os dois decidiram que não queriam impor regra alguma um ao outro, pois se relacionar sem envolvimento romântico já não interessava para nenhum deles. Raquel e Gabriel nunca se envolvem com a mesma pessoa juntos. Consideram que no meio do poliamor existe um estereótipo predominante de casais que procuram alguém apenas para se relacionar sexualmente quando estão com vontade, e não para se envolver de verdade e criar um relacionamento. “Essa terceira pessoa é conhecida no meio como ‘unicórnio’, e geralmente são mulheres”, ela explica.

 

A família dos dois não sabe sobre a relação aberta, apenas alguns amigos próximos. Eles foram extremamente criticados e ressaltam a hipocrisia existente entre aqueles que os criticaram. Raquel conta que “a mesma pessoa que julga o poliamor é aquela que já manteve um caso escondido, que conversa com várias pessoas pela internet sem o parceiro saber.”

 

Lorena, 19, e Rafael, 27, decidiram optar por uma forma diferente de relacionamento também. “A gente sempre deixou claro que nos relacionamentos passados o principal problema era nos sentirmos presos, então quando foi ficando mais sério conversamos muito e vimos que nenhum dos dois queria fechar a relação”, ele diz.

 

“Sempre teve muito mais a ver com a sensação de liberdade do que com a ação de ficar com outras pessoas.” (Imagem: Reprodução/ Rafael Costa)

 

O mais importante para o casal é o diálogo constante para que a relação sempre evolua junto com os dois, falar a verdade mesmo que talvez o outro fique magoado. No começo eles haviam combinado de não contar caso ficassem com alguém e em pouco tempo perceberam que essa não era a melhor forma de lidar com isso para ambos. Lorena diz que “quando a gente não contava parecia que estava escondendo alguma coisa, então decidimos que o melhor é contar tudo”. Rafael fala que toda essa sinceridade, por incrível que pareça, diminui muito o ciúme, “eu já fui muito ciumento em outros relacionamentos e nesse eu sou muito tranquilo”. Lorena concorda: “Se você não sabe o que a outra pessoa fez, sempre vai ser pior na sua cabeça”. É essa política de honestidade que permite que eles entendam o que é aceitável e o que não é.

 

Ela não gosta de usar a palavra “regra”, pois considera que o que eles têm está mais para um acordo, que pode ser modificado sempre que eles conversam ou se incomodam com algo. “O nosso acordo é que a gente pode ter qualquer tipo de relação física com outras pessoas, tanto beijo quanto sexo, mas que o emocional é só entre nós”. Eles consideram uma ação emocional sair pra passear, ficar conversando por mensagens frequentemente ou criar intimidade com a pessoa que você ficou. O bom senso também é importante: não ficar com ninguém que poderia magoar o outro.

 

Os dois contam que a reação de seus amigos muda muito. Lorena veio de uma cidade pequena do litoral e diz que suas amigas sempre perguntam se ela não tem medo de Rafael se apaixonar por alguma outra garota. Para os dois, isso não faz muito sentido, já que tanto em um relacionamento monogâmico quanto num relacionamento aberto há a possibilidade do seu parceiro começar a gostar de outra pessoa. “A diferença é que no nosso relacionamento a gente conta tudo um pro outro”.

 

Já Rafael fala que seus amigos acham a ideia de ficar com outras pessoas legal, mas desde que se aplicasse somente a eles na relação. “É comum eles dizerem que adorariam ficar com outras pessoas, mas não aguentariam saber que o namorado ou namorada está ficando com outros também”. Sentir ciúme é natural entre os dois, porém eles dizem que passaram por um processo de aceitar o sentimento para que ele não fosse necessariamente algo ruim, e sim algo normal, de forma que eles não precisassem brigar toda vez que sentissem isso. “Se eu sinto ciúmes é só uma prova de que eu gosto muito de uma pessoa”, diz Lorena. “Não precisa ser um sentimento ruim.”

 

Lorena não acredita que ter um relacionamento aberto tem a ver com uma questão de maturidade, e sim com a forma de relacionamento que funciona melhor para cada um. “Eu só acho errado você nem se questionar e adotar a monogamia no seu relacionamento sem tentar entender o que os dois querem”. Atualmente, eles estão há alguns meses sem ficar com ninguém fora do relacionamento, e pelos dois isso não muda nada. Um relacionamento tem diferentes fases e não há problema em passar por elas. “Sempre teve muito mais a ver com a sensação de liberdade do que com a ação de ficar com outras pessoas. Caso eu tenha vontade, eu posso.”

 

Dri, 25, Cláudia, 29, e Thaís, 26, estão juntas há um ano e para elas foi uma surpresa entrar no mundo do poliamor. Cláudia e Thaís já tinham um relacionamento sério durante oito anos, a relação das duas era o que elas chamavam de semi-aberta, ou seja, elas podiam ficar com outras pessoas desde que estivessem juntas. Em uma festa na qual Thaís estava sozinha, conheceu Dri, com quem fez amizade. Ao voltar pra casa onde moravam juntas, Thaís falou com Claudia sobre a mulher que havia conhecido e elas decidiram marcar um encontro casual. “A gente acabou se apaixonando as três, uma pela outra”, conta Cláudia.

 

No início desse novo relacionamento, elas confessam terem sentido um pouco de insegurança e receio de uma delas ficar de lado. “No começo, quando não estavam as três juntas, apenas duas, a gente sentia um incômodo”, diz Thaís. Porém, logo elas se acostumaram com a nova rotina a três e decidiram, então, ter um relacionamento fechado, já que não pretendem conhecer ninguém novo.

 

Suas famílias aceitaram bem. Alguns tiveram mais resistência a entender que um relacionamento poliamoroso é tão sério quanto qualquer outro, porém, ao perceber o amor e carinho que existe entre as três, ninguém mais tentou contradizer a relação. O trio anda na rua, e não se preocupa em esconder seu amor. Dizem nunca terem passado por alguma situação de preconceito. “É engraçado porque eu acredito que se fôssemos em duas sofreríamos mais com isso, porém, como andamos em três, as pessoas acham que somos apenas três amigas de mãos dadas”, conta Dri.

 

Hoje, Claúdia, Thaís e Dri discutem abertamente seu relacionamento e os conceitos do poliamor em seu canal no YouTube: Happy in Three.

 

“A gente acabou se apaixonando as três, uma pela outra” (Imagem: Reprodução/ Canal do YouTube “Happy in Three”)

 

Roberta, 33, e Leandro, 41, decidiram abrir a relação após cinco anos de casados. Hoje, eles estão juntos há 15 anos e têm duas filhas: Fernanda, de 14 e Lyana, de 12. Roberta é bissexual e, por conta disso, ela e o marido decidiram se relacionar apenas com mulheres. Ela sofreu um pouco com ciúmes no início. Achou que o marido, ao gostar de outra pessoa, deixaria de amá-la. Apenas depois de pesquisarem e conversarem muito sobre o assunto, ela perdeu suas inseguranças.

 

Explicar para a família e para os conhecidos, no entanto, foi um grande desafio. Os pais dos dos dois aceitaram bem, para a surpresa do casal, porém a outra parte da família não reagiu da mesma forma, cortando relações com ambos. Roberta diz que “a partir daí decidimos não nos importar mais com os outros e sim com nós mesmos.” A maior preocupação dos dois era com suas filhas. Sentaram para conversar com elas para explicar o conceito do poliamor e deixar que elas perguntassem o que quisessem. Aos poucos, elas foram entendendo que os pais não iriam se separar por conta disso e, ao perceber que algumas pessoas da família não aceitaram bem a situação, as duas meninas ficaram ao lado dos pais e os apoiaram a fazer o que quisessem.

 

Roberta e Leandro atualmente estão conhecendo uma pessoa nova, e fazem questão de que suas filhas conheçam e convivam com ela. Para os dois é fundamental que as meninas entendam e não tenham problema com isso.

 

Ela e o marido constituem um exemplo do perfil da maioria das pessoas que ingressam no poliamor: casais que estão a procura de formar um trisal, conhecer uma terceira pessoa para que possam se apaixonar e ter um relacionamento sério juntos. Há muitos grupos nas redes sociais que debatem o poliamor e servem para as pessoas que buscam esse tipo de relacionamento se encontrarem. Nos grupos há sempre o lembrete de que o poliamor é um movimento que incentiva o afeto e não a promiscuidade. A maioria dos participantes não são jovens, e sim adultos.

 

A consolidação da monogamia foi permeada pelos interesses do patriarcado, mas isso não quer dizer que os relacionamentos não-monogâmicos estão isentos de machismo – muito pelo contrário. O cenário do poliamor se depara sempre com discussões que indagam por que a grande maioria dos trisais são compostos por duas mulheres e um homem, e são muitos os casos de relacionamentos abertos que são impostos por homens e apenas acatados por suas parceiras.

 

Raquel fala que é muito difícil encontrar homens para se relacionar de forma mais séria. A maioria diz se interessar pelo poliamor, porém colocam Raquel na categoria “mulher para sair” e não consideram ter um relacionamento ou se envolver a longo prazo com ela.

 

Ela também diz que vê o machismo prevalecer nos relacionamentos poliamorosos, em situações nas quais os homens decidem abrir a relação, porém não se importam caso a mulher não se sinta completamente confortável com a decisão. São muitos os homens que se utilizam desta ideologia como pretexto para traição ou para relacionamentos abusivos, nos quais eles possuem liberdade sexual, porém fazem a mulher se sentir culpada quando persegue essa mesma liberdade.

 

Lorena também conta que já recebeu muitas mensagens, após falar nas redes sociais que tinha um relacionamento aberto, de garotas pedindo conselho. Boa parte delas dizia que o parceiro queria um relacionamento aberto, porém desde que a garota ficasse apenas com outras mulheres. Lorena é bissexual, e Rafael diz que já ouviu de alguns conhecidos comentários como “ela ficar com mulher tudo bem, mas você não se incomoda quando ela fica com homem?”. A maioria dos homens fetichiza relações entre duas mulheres, já que não encaram outra mulher como sua competição e sim como outro objeto de prazer sexual. Para todas as garotas nessa situação a resposta de Lorena foi a mesma: “Troca de namorado.”

 

Ainda hoje, há alguns países onde a poligamia é legal, porém apenas a poligamia masculina. A maioria destes países tem população majoritariamente muçulmana, e o próprio Alcorão (livro sagrado da fé muçulmana) permite que os homens tomem até quatro esposas, limite adotado por boa parte das legislações.

 

Existem, porém, povos que possuem uma cultura que estimula a poligamia de forma igualitária. Os Mosuo, na China, vivem em uma sociedade matriarcal e ensinam a liberdade sexual igualmente para os dois gêneros. Os relacionamentos da tribo dependem apenas do consenso daqueles que estão envolvidos e não sofrem influência da família ou de qualquer outra instituição.

 

A monogamia é um acordo cultural, que já está pré-estabelecido mesmo antes de entrarmos em um relacionamento. No entanto, milhares de casais ao longo da história e cada vez mais na contemporaneidade provam que este acordo pode ser revisto, mudado e adaptado para se adequar às vontades e ideias de cada um. Ter apenas um parceiro não deve ser uma obrigação, e sim uma decisão. São muitas as convenções sociais que nos obrigamos a seguir apenas para permanecer dentro da “normalidade”, porém nenhuma delas deveria interferir no amor.

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