Home Descobrir Cinema Terror japonês e os chamados do J-Horror
Terror japonês e os chamados do J-Horror

O investimento em uma cena cultural própria ajudou o Japão a construir uma identidade única em um dos gêneros mais consumidos no mercado

CINÉFILOS
04 set 2021 | Por Amanda Marangoni (amandamarangoni@usp.br) e Júnior Vieira (jvsanjunior@usp.br)

O terror é um gênero bem conhecido no cinema japonês contemporâneo e apresenta uma forte identidade cultural, mas suas raízes datam de muito tempo antes de sua popularização e influência em nível internacional. O horror nipônico é, em sua maioria, influenciado pelos contos populares particulares da cultura do Japão que eram passados oralmente para gerações posteriores. Com histórias sobrenaturais de demônios invisíveis e fantasmas, os contos de terror foram atuados e trazidos à vida por meio do teatro tradicional, como é o caso do Kabuki e do Noh, sendo que este é performado desde o século 14.

As artes cênicas foram uma grande inspiração para o desenvolvimento dos filmes de terror no Japão, e até mesmo os elementos utilizados no teatro foram conservados na produção das obras cinematográficas. Os primeiros filmes japoneses de terror datam do final do século 19, mas a grande explosão do gênero se deu após a Segunda Guerra Mundial, mais especificamente na década de 1960. Um dos filmes mais proeminentes dessa época foi Onibaba – A Mulher Demônio (Onibaba, 1964), do diretor Kaneto Shindô, um terror histórico que se passa no Japão feudal e acompanha uma viúva e sua sogra tentando sobreviver em meio a uma guerra civil. O nome do filme se refere a uma lenda sobre demônios que são vistos como mulheres extremamente velhas e rancorosas, de feições horripilantes.

 

Um dos filmes mais relevantes do terror japonês, em uma cena em preto e branco, uma mulher utilizando um kimono coloca uma máscara com chifres, dentes pontudos e olhos grandes.

Onibaba é um dos mais marcantes filmes de terror do cinema japonês. [Imagem: Divulgação/Kindai Eiga Kyōkai]

Outro longa muito marcante para o horror japonês da década de 1960 e que, junto com Onibaba, contribuiu para a popularização do gênero, foi Kwaidan – As Quatro Faces do Medo (Kaidan, 1964). Dirigido por Masaki Kobayashi, o filme conta quatro histórias do livro Kwaidan: histórias e estudos de fantasmas, de Koizumi Yakumo, escritor grego naturalizado japonês. Os contos atuados são: “O Cabelo Negro”, “A Mulher da Neve”, “Hoichi, o sem orelhas” e “Em uma Xícara de Chá”. Com poderes narrativos e visuais incrivelmente aclamados, Kwaidan é considerado uma obra prima do horror japonês, concorrendo ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1966.

 

Na imagem, uma mão escreve no rosto de outra pessoa, com olhos fechados.

O longa é reconhecido e aclamado por seus elementos visuais. [Imagem: Divulgação/Ninjin Club]

As características do terror japonês e sua influência no gênero

Um dos pontos mais notáveis do terror japonês é seu distanciamento das representações originais do gênero no Ocidente. No Japão, o gênero do medo é focado principalmente na construção de tensão, que envolve terror psicológico e sobrenatural, o que inclui fantasmas, exorcismos e possessões. Enquanto o terror americano é, normalmente, acelerado e repleto de cenas de ação e jump scares, o terror japonês apresentam características mais sutis, que focam na ambientação e na tensão por ela criada.

Porém a presença desses elementos no terror hollywoodiano atual é claramente perceptível, o que ocorre devido à influência das histórias de terror orientais no cinema internacional. Essa influência pode ser facilmente percebida com os diversos remakes estadunidenses de filmes de terror japoneses, sendo esse o caso de O Chamado (The Ring, 2002), que, na verdade, é um remake do longa Ring: O Chamado (Ringu, 1998), dirigido por Hideo Nakata. O filme conta a história de uma jornalista chamada Reiko Asakawa (Nanako Matsushima) que decide investigar uma lenda que diz que os que assistirem a determinado vídeo morrerão em sete dias de maneira inexplicável. 

 

Uma mulher deitada e sem as unhas tenta arranhar o chão de madeira.

Ringu utiliza tons escuros e sons para a construção do medo. [Imagem: Divulgação/ Tōhō Kabushiki-Kaisha]

Mesmo que O Chamado seja um remake de uma película originalmente japonesa, ainda existem muitas diferenças entre as duas versões. Ao invés da presença de inúmeros sustos, um passo acelerado, uma trilha sonora assustadora e uma infinidade de efeitos especiais que visam assustar os que o assistem, que é o caso de remake norte-americano, o filme original é centrado numa atmosfera de medo e na extrema angústia que o espectador acaba por experienciar devido à incrível ambientação. A comparação feita anteriormente não é incomum ao colocarmos os originais japoneses ao lado de seus remakes, ou até mesmo dos filmes de terror de Hollywood no geral.

 

Principais filmes do gênero

House (Hausu, 1977)

 

Uma mulher com cabelos loiros curtos aparece com um olho dentro de sua boca semiaberta

Na trama, Yôko Minamida interpreta a tia da protagonista. [Imagem/Reprodução: Tōhō Kabushiki-Kaisha]

Encomendado pela produtora Tōhō após o sucesso de Tubarão (Jaws, 1975), Nobuhiko Obayashi foi pedido para criar um longa nos mesmos moldes. No entanto, após conversar com sua filha, a ideia de criar um filme de terror baseado em uma perspectiva infantil foi levada adiante, indo na contramão do desejo inicial.

Visto como um potencial destruidor de carreiras, Obayashi assumiu a condução da obra e, em 1977, House foi lançado nos cinemas japoneses. A produção acompanha Gorgeous (Kimiko Ikegami), uma estudante que decide passar suas férias junto com seis amigas na casa de uma tia distante. Lá, elas presenciam forças sobrenaturais e passam a lutar por suas sobrevivências.

Descoberto posteriormente pelo Ocidente, House é considerado um cult. Famoso por sua estética experimental, a narrativa visual é muito mais explorada do que o enredo em si. Ainda, Nobuhiko dirige um filme divertido que mistura elementos do trash com o terror. Com uma aprovação de 90% no agregador de críticas Rotten Tomatoes, é um ótimo exemplo da execução do surrealismo na arte cinematográfica.

 

Perfect Blue (Pāfekuto Burū, 1997)

 

Em uma animação, uma mulher de cabelos escuros e usando luvas brancas e um laço vermelho na cabeça, aparece ensanguentada.

A problemática da sexualização feminina é um dos temas abordados no enredo. [Imagem: Reprodução/Rex Entertainment]

Na animação dirigida por Satoshi Kon, o espectador acompanha a difícil transição de Mima Kirigoe para a carreira de atriz. Após anos sendo integrante de um grupo de J-Pop, a personagem precisa encontrar uma maneira de se desvencilhar da imagem teen proporcionada por sua carreira musical. Durante a trajetória, Mima tem seu psicológico abalado enquanto enfrenta a distorção da realidade.

O longa cria um forte vínculo com a realidade ao destacar os males que a exposição midiática podem causar no dia a dia de uma celebridade, além de denunciar as abusivas condições enfrentadas por muitos artistas. Seu legado é perceptível até hoje, tendo sido fonte de inspiração para os filmes Requiém Para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) e Cisne Negro (Black Swan, 2010).

 

O Teste Decisivo (Ôdishon, 1999)

 

Em um dos filmes de terror japonês, uma mulher olha para baixo e segura uma seringa.

A trama de Takashi Miike introduz uma dinâmica de disputa pela dominação. [Imagem: Reprodução/Vitagraph Films]

O Teste Decisivo apresenta o espectador ao Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi), que, por influência de seu filho, decide dar uma nova chance ao amor após anos do falecimento de sua esposa. Para isso, simula audições de um filme com o intuito de conhecer novas pretendentes. Em um desses testes, conhece a misteriosa Asami Yamazaki (Eihi Shiina), por quem se apaixona.

Ao investir no desenvolvimento do suspense, Takashi Miike dirige um longa cujo ritmo aumenta gradativamente. Conforme o público mergulha no passado de Asami, o encaixe das peças é conduzido pela aclamada atuação do casal de protagonistas. Com destaque para a então estreante Eihi Shiina, a sucessiva transformação na personalidade de Yamazaki é feita com maestria.

Em junho de 2014, surgiram rumores de que um remake norte-americano de O Teste Decisivo estava sendo produzido. No entanto, nenhuma atualização sobre a condução das filmagens foi feita.

 

Água Negra (Honogurai Mizu no soko kara, 2002)

 

Uma criança usando uma camiseta branca liga a torneira para encher uma banheira de água.

A água atua como principal elemento responsável pela tensão presente no longa. [Imagem: Divulgação/United Artists]

O longa Água Negra, dirigido por Hideo Nakata, conta a história de Yoshimi Matsubara (Hitomi Kuroki), que acaba de passar por um divórcio e se muda, com sua filha Ikuko (Rio Kanno) para um novo apartamento. Em seu novo lar, ambas passam a ter experiências sobrenaturais que envolvem o vazamento de água vindo do apartamento de cima.

Com um passo lento, Nakata constrói a atmosfera do medo ao redor da água partindo do zero. Com o desenvolvimento da trama, a água parece estar presente em todo momento, rodeando as protagonistas. Também é abordado o tema de uma pessoa que não é estável psiquiatricamente e experiencia situações sobrenaturais, o que causa uma incerteza no espectador em relação ao que é real. O filme recebeu uma adaptação norte-americana de mesmo nome em 2005, dirigido por Walter Salles. 

 

O Grito (Ju-on, 2002)

 

E um dos maiores clássicos do terror japonês, uma pessoa se depara com um rosto esbranquiçado encarando-a por debaixo dos cobertores.

A fúria de Kayako é reproduzida até os dias atuais na cultura pop. [Imagem: Reprodução/Xanadeux]

Baseado em uma lenda do folclore japonês, O Grito conta a história das vítimas de Kayako (Takako Fuji), uma mulher assassinada por seu marido, e Toshio (Yuya Ozeki), seu filho. Ambos tornaram-se fantasmas vingativos que matam e perseguem aqueles que entram na casa onde morreram. 

Antecedido por dois curtas-metragens e dois longas lançados diretamente em home video, Takashi Shimizu foi responsável por criar uma das franquias de terror mais conhecidas na atualidade. Hoje, a saga possui nove filmes produzidos no Japão, incluindo Sadako vs Kayako (2016), um crossover com Ringu. Além disso, possui uma série original Netflix intitulada O Grito: Origens (Ju-On: Origins, 2020).

O sucesso com o público fez barulho ao redor do mundo, o que fez com que os Estados Unidos encomendassem sua adaptação. O Grito (The Grudge, 2004) também foi dirigido por Shimizu e segue quase o mesmo enredo da versão japonesa — no entanto os personagens principais são substituídos por intercambistas norte-americanos. A principal diferença entre o original e o remake é a montagem: enquanto o primeiro brinca com a temporalidade em uma narrativa não linear, o segundo é direto ao ponto, com um possível intuito de agradar os interesses do mercado. 

Arrecadando US$187 milhões mundialmente e com uma aprovação de apenas 40% dos críticos no site Rotten Tomatoes, a versão estadunidense recebeu mais duas sequências lançadas em 2006 e 2009, além de um reboot em 2020. Considerados genéricos e sem sentido, amargam uma aprovação de 12%, 27% e 21% no mesmo site, respectivamente. A decisão de investir em uma versão própria da trama ao invés de acompanhar os simultâneos lançamentos japoneses foi, perceptivelmente, um desperdício.

 

Impacto do J-Horror no mundo

O gênero do terror está presente há muitos anos dentro da produção artística japonesa. Com suas primeiras aparições datadas nas representações teatrais do século 17, ele se modelou conforme a atualidade em que o país se encontrava. Inspirado pelos ataques de Hiroshima e Nagasaki, Godzilla (Gojira, 1954) ajudou a popularizar o cinema do Japão e se exportou como um de seus primeiros blockbusters a emplacar na mídia internacional, gerando uma série de histórias em quadrinhos, sequências e, não surpreendentemente, seu próprio remake americano.

 

Em cena em preto e branco, um enorme monstro lagarto aterroriza a cidade.

Poucos anos após o término da Segunda Guerra Mundial, Godzilla vilaniza os Estados Unidos. [Imagem: Reprodução/Tōhō Kabushiki-Kaisha]

No entanto a estreia de Ringu abriu um novo caminho para a indústria audiovisual nipônica. Com um mercado que é um dos mais fechados para a entrada da cultura estrangeira segundo o artigo “J Horror e a Cultura Cinematográfica no Japão Contemporâneo”, de Filipe Falcão e Thiago Soares, a nação se permitiu construir uma individualidade única para suas criações artísticas. Antes majoritariamente conhecido pelo desenvolvimento de aparelhos eletrônicos, o lançamento do longa permitiu que a identidade presente nos seus filmes fosse compartilhada para o mundo.

Assim, a produção de 1998 mostrou-se um importante divisor de águas. Mesclando a tecnologia emergente do fim do século 20 com elementos fantasmagóricos, foi aqui onde o termo J-Horror se originou. A pura forma do medo apresentada nos filmes do gênero foi importada em outros países e pavimentou um importante caminho para a visibilidade da arte asiática. 

Por mais que Hollywood insista em criar suas barulhentas versões para atingir os gostos do mainstream, a genialidade dos subestimados diretores japoneses impressiona. A valorização do silêncio e a criação de uma atmosfera que se torna amedrontadora de maneira gradual já é observada em diversos longas independentes da atualidade. De qualquer forma, o mercado estadunidense de terror dos anos 2000 e o lucro obtido por meio de suas adaptações têm muito a agradecer ao Japão.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*