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A saga do herói: Vanderlei Cordeiro de Lima

Boia Fria, maratonista profissional por causalidade e incidentes olímpicos, a trajetória do maratonista é repleta por sucessivas superações.

ARQUIBANCADA
06 set 2021 | Por Rafael Canetti (rafaelcanetti@usp.br)

O espírito olímpico reside nos seguintes valores: a vitória com esforço próprio, a ética para atingir objetivos, a aceitação das derrotas e a persistência para seguir em frente com coragem e determinação. A personificação de tudo isso se dá na figura do maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima. Em entrevista para o Arquibancada, o especialista em atletismo Antonio Colucci relembra a trajetória de um dos principais atletas da história.

Início de carreira

Vanderlei Cordeiro de Lima nasceu em 1969, em uma pequena cidade no Paraná. Na infância, ele ajudava sua família com trabalhos na fazenda, cortando cana e colhendo algodão. O seu primeiro esporte foi o futebol, no qual tinha a intenção de se profissionalizar.

 Com 14 anos, Vanderlei foi apresentado ao Atletismo por um professor de educação física. No início dos anos 90, já estava consolidado no novo esporte, Cordeiro era destaque em corridas de rua, com a presença de um treinador fixo, Ricardo D’Angelo

 O início profissional na maratona foi por acaso. Vanderlei começou a correr competições de longa distância ao ser contratado por organizações de provas para marcar o ritmo dos demais competidores, realizando metade do percurso — atuação conhecida como “coelho”. Em 1994, na maratona de Reims, ele se sentiu confiante, competiu até o final e alcançou o primeiro lugar do pódio.

Com a vitória na França,  o atleta passou a se dedicar às corridas de longa distância, principalmente à maratona, cuja distância oficial é de 42,195 km .

Vanderlei, em 1997, disputando uma prova de 10 quilômetros em Santos. [Imagem: Reprodução/Tião Moreira]


Trajetória e persistência olímpica

 No primeiro ano de foco, venceu a maratona de Tóquio, onde se tornou o recordista sul-americano, com o tempo de 2h 08 min 38 s, e ainda se classificou para os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 96. Nos Estados Unidos, ele ficou longe da melhor marca: problemas no seu tênis o fizeram terminar em 47º lugar. 

Na preparação para Sydney 2000, Vanderlei quebrou o seu próprio recorde sul-americano, com o tempo de 2 h 08 min 31 s, em 1998, além da conquista do Pan-americano de 1999, em Winnipeg. Apesar de já ser respeitado, problemas no pé e lesões mal curadas atrapalham seu desempenho na Olimpíada australiana , no entanto isso não impediu dele continuar persistindo, conseguindo terminar a prova trotando na 75 colocação. 

Sempre se superando, Vanderlei chega à Grécia com mais um ciclo olímpico positivo. Ele vinha de vitórias nas maratonas de São Paulo, em 2002, e de Hamburgo, em 2004, além de ter se consagrado bicampeão pan-americano em Santo Domingo, no ano de 2003

Mesmo diante dessa grande fase, o corredor paranaense ainda não era considerado um forte candidato à conquista do ouro olímpico. Antônio Colucci explica: ‘’Era o brasileiro mais experiente e favorito da época, mas a prova tinha recordista mundial e maratona sempre tem suas surpresas e estratégias”.


Antecedentes da grande prova

A maratona moderna surgiu como forma de homenagear Fidípides, um mensageiro do exército ateniense que teria percorrido cerca de 40 km entre o campo de batalha de Maratona até Atenas para revelar aos cidadãos atenienses a vitória contra os persas. Em 2004, os maratonistas correriam praticamente no mesmo local e trajeto da lenda grega.

Na hora da largada, o destaque brasileiro não estava acompanhado do seu fiel escudeiro Ricardo D’Angelo. O treinador enviou uma carta com uma mensagem inspiradora ao seu comandado:

‘’Infelizmente não estarei na largada, mas tenho certeza que meu espírito e coração estarão. Não só na largada, como durante todo o percurso. Estou muito confiante em um excelente resultado, como já conversamos sobre isso. Entretanto, fique absolutamente tranquilo pois minha confiança em você é enorme e desenvolvemos isso ao longo de nosso convívio. Vamos lutar até o fim pois este é um sonho que estamos acalentando há muito tempo. Saiba que, seja qual for o resultado, você sempre terá o meu apoio e confiança, de um amigo verdadeiro e sincero, que te admira muito pelo ser humano que você é! Boa sorte e te vejo na chegada, para depois tomarmos uma cerveja juntos, ok? Do seu amigo, Ricardo”

Vanderlei e Ricardo juntos durante o revezamento da tocha na Rio 2016. [Imagem: André Mourão / Rio 2016]


A grande prova 

 Embalado pela mensagem e por seu talento, antes dos 10 quilômetros Vanderlei passou de 35º lugar à primeira posição. Oscilou próximo ao 15º km, ficando na 16ª colocação, mas permanecendo no pelotão da frente. Acelerando, conseguiu retomar o primeiro lugar. Inesperadamente, por volta do quilômetro 36,  Neil Horan, um fanatico religioso irlandês, invadiu a pista e o agrediu.

Quem assistia a corrida no Brasil não entendia nada, os espectadores da TV ficaram confusos e incertos com o acidente. Colucci relembra a sua experiência como espectador no momento da agressão do padre ao competidor brasileiro: “Bem na hora do ataque a TV estava no intervalo. Quando voltou, ninguém sabia explicar o que tinha acontecido até recuperarem as imagens.’’

Em outra entrevista, o então primeiro colocado descreveu a interferência psicológica sofrida no episódio: “Não deu para vê-lo vindo em minha direção. Ele atacou pela lateral. Fui surpreendido. Não tive tempo de reação. Foi uma situação muito difícil para mim. Pensei que a pessoa pudesse atentar contra a minha vida. Perdi até o chão. Fiquei preocupado que tivesse algo pior. Tive muito medo.’’

O brasileiro tinha 25 segundos de vantagem, o que seria, aproximadamente, 250 metros. O treinador D’Angelo apontou tecnicamente o prejuízo: “ Mesmo se os outros tirassem uns três segundos por quilômetro, não iam alcançar. Ele perdeu pelo menos uns 20 segundos ali, perdeu a concentração, teve de recuperar o ritmo”

Antonio expressa os sentimentos gerais sobre os personagens dessa situação: ”O padre é um maluco que queria aparecer e optou pela prova mais importante do Atletismo. Azar do Vanderlei que era o líder e virou o alvo. Sobre o grego e os outros que ajudaram, eles foram sensacionais, rápidos e muito afetivos. Uma cena inesquecível.’’ O grego a que Colucci se refere é Polyvios Kossivas, apelidado de papai noel grego. Ele veio ao Brasil em 2004 como celebridade, sendo recebido com festas e homenagens.

Mesmo com as adversidades, Vanderlei resistiu a liderança por alguns quilômetros, mas foi superado pelo italiano Stefano Baldini e pelo norte-americano Mebrahtom Keflezighi. O esportista brasileiro concluiu a prova em terceiro lugar, a 1min16s do vencedor e a 42s do segundo colocado. 

Tênis, problemas físicos e nem mesmo a proximidade ao título olímpico foram capazes de espantar a alegria do corredor na hora da conclusão da prova. Nesse momento, o brasileiro estampava um sorriso na cara, fazia aviãozinho e comemorava o bronze como se fosse um ouro. Colucci opina sobre essa surpreendente reação, que difere Vanderlei dos outros atletas: “Reação inacreditável. Toda ação tem uma reação. Essa reação foi uma que nenhum roteirista teria pensado previamente. Vanderlei após a chegada, com suas respostas verdadeiras, sem ódio, só curtindo seu momento especial, se tornou um ícone do esporte, uma referência positiva para todos.’’


Reconhecimento 

Na época, existia uma mobilização social como forma de trazer justiça. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) reivindicou uma divisão da medalha de ouro, entre o maratonista italiano e o brasileiro. Emanuel, do Vôlei de Praia, campeão olímpico naquela mesma edição, ofereceu sua medalha ao maratonista

Vanderlei não aceitou a medalha e nem recebeu ela do Comitê Olímpico Internacional (COI). Entretanto, o COI o premiou com a medalha Pierre de Coubertin, a maior honraria do esporte, integralmente feita de ouro. Ele está em um grupo seleto de 21 atletas que valorizam a competição olímpica mais do que a vitória.

Medalha Pierre de Coubertin [Imagem: Reprodução/Comitê Olímpico Brasileiro]

 O maratonista brasileiro se tornava uma lenda. Recebeu também a maior honraria do Comitê Olímpico Brasileiro, o troféu Adhemar Ferreira da Silva, além de ser o grande escolhido para acender a pira olímpica nos Jogos do Rio, em 2016. No mesmo ano, ainda foi homenageado no desfile de carnaval da União da Ilha, na Sapucaí. 

Vanderlei Cordeiro de Lima erguendo a pira olímpica, em 2016

Vanderlei acendendo a pira nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016 [Imagem: Reprodução/Instagram]

O título de campeão olímpico foi substituído pelo de campeão do espírito olímpico, que consolidou a trajetória de Vanderlei no imaginário esportivo mundial mais até que o campeão da prova.

“Pergunte a qualquer pessoa que se lembra dessa cena, depois pergunte se a pessoa lembra quem foi o vencedor da medalha de ouro, ou somente a nacionalidade dele. Talvez ninguém saiba que foi o italiano Stefano Baldini, que perdeu a oportunidade de ficar calado após episódio.’’ Colucci se refere a fala de Baldini após a prova de Atenas, que disse que ganharia a medalha de ouro de qualquer forma.

Tendo vivido o momento anterior e posterior do cenário do Atletismo diante do incidente, o especialista conclui descrevendo a condição da modalidade no Brasil:”Infelizmente, o Brasil não investe em seus heróis, não investe na educação esportiva e nem em projetos para descobrir novos talentos. Dos milhares de novos praticantes, poucos se interessam em saber sobre os grandes nomes do atletismo brasileiro”. 

Apesar disso, a prova atípica fez justamente o caminho contrário, de formar novos atletas para a maratona. “Nesse aspecto, o padre Irlandês fez um bem imensurável para o Vanderlei, para o Brasil e para a Maratona. Se o Vanderlei tivesse conquistado a medalha de ouro sem interferência do padre, talvez nunca mais ouviríamos falar dessa prova. Agora, graças ao ocorrido, em todos os Jogos Olímpicos essa cena será reprisada, relembrada e a história revivida”, finaliza Colucci.

Arquibancada
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COMENTÁRIOS
Dani Alvarenga
A história do Vanderlei é um verdadeiro exemplo, e foi muito bem explicada pelo repórter, que não se prendeu só ao acontecimento de 2004, mas toda a incrível trajetória do atleta. É importante demais esse reconhecimento e compartilhamento sobre os esportistas incríveis que temos no nosso país.
19 set 2021
 
Marcos Henrique Gil
Parabéns pelo texto, retrata a história de um grande ícone do esporte brasileiro de forma incrível, não conhecia os pormenores da trajetória do Vandarlei, conhecendo todos os obstáculos que ele passou só faz nossa admiração crescer e traz a esperança de ver um grande campeão brasileiro no esporte novamente!
10 set 2021
 
Guilherme Naoki Takabatake
Muito emocionante, é uma história realmente fantástica! Até então eu tinha ouvido falar muito pouco sobre o Vanderlei Cordeiro de Lima, gostei bastante de saber mais sobre a biografia dele. Muito legal a iniciativa de trazer esse tipo de reportagem!
08 set 2021
 
Camila Meloni
Texto de qualidade 👏 Me prendeu do início ao fim, adorei conhecer a história!
07 set 2021
 
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