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Tocamos música ou ela nos toca?
Corpo e Mente
26 fev 2020 | Por Danilo Moliterno (danilomoliterno@usp.br)

Nunca aprendi a arte de nenhum instrumento. Apesar de não tocar música, a música sempre me tocou. Curti ao som de Slipknot quando mais novo. Sofri as belas melodias de Ed Sheeran na adolescência (ainda sofro, para dizer a verdade). Hoje, tenho até uma playlist nomeada “motivacional” — escuto antes de momentos decisivos da minha vida.

A música é parte importante da minha vivência e, tenho certeza, da de muitas outras pessoas. Por isso me propus a estudar a forma com que ela nos afeta, além das vias subjetivas individuais. O que a ciência nos diz sobre a influência da música na vida humana, você descobre agora neste texto do Laboratório.

O sonoro início da trilha

Após decidir que escreveria sobre a influência da música na vida das pessoas, estagnei. Por alguns dias não soube como progredir com a pauta. Matutava, maturava e nada. Entretanto, em uma quarta-feira chuvosa, esperando o ônibus — de pé, pois o ponto estava lotado — escutei Gonzaguinha me sussurrar por meio do fone de ouvido:

E aprendi que se depende sempre

De tanta, muita, diferente gente

Toda pessoa sempre é as marcas

Das lições diárias de outras tantas pessoas

Não me pareceu claro o recado, em primeira instância. Em segunda, sim: pessoas, no plural. Logo procurei Raphael, um dos meus melhores amigos, que corriqueiramente me indica canções, acompanhadas de uma carga sensata e emotiva de reflexões. Tinha certeza que ele adoraria falar sobre isso.

A influência da música na vida do Raphael

“Nostálgico e ao mesmo tempo triste” quando escuta canções românticas, somente o próprio Rapha pode descrever como a música o influencia: “a música é uma forma de resgatar pessoas e momentos vividos, maximiza todo sentimento guardado e oprimido e nos leva a lugares de onde nunca queríamos ter saído ou estado”. Durante nossa conversa, senti que o fato de ele ter relatado em terceira pessoa reforçou a propriedade sobre as próprias sensações.

Depois disso, pesquisa. Descobri que a música percorre longo caminho antes de chegar aos nossos corações: do emissor para os ouvidos, então convertidos em impulsos que percorrem os nervos auditivos até o tálamo (região do cérebro considerada central para as emoções, sensações e sentimentos).

A percepção musical envolve as três áreas do sistema auditivo: as primárias recebem sinais do ouvido interno através do tal tálamo e são responsáveis pelos primeiros estágios da percepção musical como frequência de tom, contornos melódicos e volume; secundárias processam padrões mais complexos de harmonia, melodia e ritmo; terciárias permitem uma percepção geral da música.

É uma trilha teoricamente longa, porém ocorre em milésimos de segundos. É praticamente o refrão de Rap God, do Eminem. Concluída a total captação dos elementos por parte do ouvinte, muitos são os efeitos que podem ser acarretados. Rapha também me falou sobre isso: “a música faz eu me sentir vivo, me faz confiar que o que eu vivi foi real e valeu a pena. Ameniza o fato dessas lembranças serem passado pelo fato de a junção de melodia e letra me levar pra onde eu quiser”. 

Após relato tão complexo, torci para que a ciência me acalentasse com alguma explicação. A influência da música no comportamento humano, artigo de Jessica Adriane Weigsding, graduada em Ciências Biológicas, me acalentou: a percepção musical depende de muitas áreas do cérebro e é capaz de influenciar o corpo todo através de reações emocionais e fisiológicas. Esta capacidade de agir sobre as pessoas é devido ao fato de que a magnitude das reações depende diretamente da relação sentimental estabelecida entre música e indivíduo.

A influência da música na vida do Fabrício

Precisava de pluralidade; pessoas. Contraditoriamente, procurei em mim algum traço que relacionasse sensações corporais e música. Lembrei que gosto de ouvir algo durante o treino na academia: eletrônica, rock e um pouco de trash. Este último termo se refere àquelas músicas que falam sobre musculação, como Bonde da Maromba, do Léo Stronda.

Duas em duas horas, não deixo pra depois

Um monstro treina como um, come como dois

Dou bastante risada com esses trashes. Porém, neste dado momento, os venerei. Eles me fizeram recordar meu primo, Fabrício, que faz da musculação parte importante de sua vida. Sequer hesitei, o chamei para conversar sobre.

“Eu não costumo ouvir músicas durante o treino, porque elas me tiram do foco e da concentração no que eu estou fazendo. Porém, antes de treinar, as músicas têm uma capacidade incrível de liberar adrenalina e ocitocinas, talvez porque a mente humana não consegue de fato diferenciar realidade de imaginação, e quando ouvimos alguma música motivacional nos imaginamos superando desafios e chegando nos objetivos, daí vem a motivação”. Mais uma vez, contei a sorte de encontrar um entrevistado que falasse com propriedade. Tal virtude pode ser explicada pelo fato de que meu primo estuda na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

Como jornalista, não me contentei com a explanação (aparentemente embasada) e complementei a pesquisa. No mesmo artigo de Jéssica Weigsding, descobri que a música estimulante pode produzir um efeito excitante, aumentando o ritmo da respiração, da pressão arterial e dos batimentos cardíacos. Isso em consequência da ativação autônoma simpática que produz uma sensação de aumento do estado de alerta — o que acarreta melhor desempenho em atividades físicas.

A influência da música na vida de José

Um quase especialista em sentimentos, outro em biologia, faltava algo. Faltava música. José é um dos meus melhores amigos no curso de jornalismo. Em uma das nossas primeiras conversas, no início da graduação, me revelara que, na época do vestibular, pensava em prestar música. Para minha alegria, e tristeza da música, escolheu jornalismo.

Bastante interessado por melodias desde cedo, José é bastante íntimo deste universo. Aos 10 anos, ingressou no Projeto Guri (programa realizado no Estado de São Paulo que visa introduzir jovens à música), onde de fato passou a produzir, por meio de instrumentos de percussão.

“Me sinto contente: por ouvir o que eu estou fazendo, sentir que estou produzindo algo legal e agradável; tem também satisfação, em um sentido de conseguir fazer isso, passar da melhor forma a emoção, o sentimento”, ele descreve os momentos em que está tocando.

Nas aulas da graduação, sempre admirei a capacidade de José de absorver conhecimento. Nunca pensei que isso pudesse ter algo relacionado à música: o córtex auditivo primário do ser humano é bastante influenciado pela experiência musical, já que quanto maior ela for, maior é o número de células estimuladas. Este processo induz o aprendizado e afeta os processamentos nas áreas auditivas secundárias e de associação.

Portanto, aprender a tocar um instrumento induz uma reorganização de diversas áreas cerebrais como, por exemplo, as áreas motoras, o corpo caloso e o cerebelo, além de desenvolver o hemisfério esquerdo (área da linguagem) e de beneficiar a memória. 

A influência da música na vida do Danilo

Tive medo em alguns momentos que esta matéria se tornasse algo impessoal, já que considero este tema bastante particular e subjetivo. Conversei com meu editor sobre isso. Ele me surpreendeu: não só concordou com o modelo que propus, em primeira pessoa, escrevendo sobre os indivíduos de maneira próxima, como me sugeriu falar sobre mim. Adorei.

A verdade é que todos os relatos anteriores carregaram um pouco de Danilo, então não é necessário um grande bloco dedicado a mim. Contudo, gostaria de pontuar uma situação: após a cansativa captação deste texto, surgiu em mim uma vontade inusitada… ouvir música.

Ouvi Gonzaguinha, Eminem e Ed Sheeran (sim, sofri). Me senti relaxado, tranquilo, pelo êxito nas entrevistas do meu último texto como repórter da Jornalismo Júnior. Então, um desconforto. Por que estava me sentindo assim? A apuração jornalística nunca acaba!

Alguns estudos sobre a influência da música no comportamento humano citam o fator sedativo. Compreendem-se neste campo os andamentos lentos, com harmonias simples e leves variações musicais. Uma de suas características é aumentar a capacidade contemplativa do ser humano, produzindo um efeito relaxante, com redução da frequência cardíaca, pressão arterial e ventilação. 

O privilégio de escrever uma matéria acerca de duas temáticas que amo, ciência e música, me deixaram inseguro quanto a finalização do texto. Após martelar bastante, procurando uma solução, decidi que não havia outra maneira… Vos deixo com um dos trechos de uma das minhas canções favoritas do Coldplay, quiçá de todas. 

Tell me your secrets and ask me your questions

Oh, let’s go back to the start

Running in circles, coming up tails

Heads on a science apart

Laboratório
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