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Uma cidade espetacular e efêmera
ARQUIBANCADA
15 ago 2016 | Por Jornalismo Júnior

Por Iolanda Paz

“Deveria ter Olimpíada todo ano”, disse sorrindo um artista de rua, após ganhar R$ 50 de um gringo. O espírito olímpico apareceu nos mais diversos locais por onde estive: nos jogos, nas ruas, nas arenas e, até mesmo, no metrô. Raias de natação decoravam o chão de algumas estações. Faixas de atletismo numeradas, outras. Também vi uma reprodução do salto em distância – mas espero que ninguém tenha se arriscado a tentar. As escadas rolantes foram criativamente decoradas com adesivos de pernas correndo em maratona. Tudo para lembrar o transeunte do evento importante pelo qual a cidade passa, quer ele esteja apressado, quer ele esteja admirando os detalhes.

O metrô – meio de transporte escolhido por grande parte das pessoas – foi, também, palco de encontros inusitados e de integração de culturas. Quantas conversas não foram trocadas e quantas experiências, compartilhadas. Eu estive presente em algumas. Um americano, por exemplo, falava em ótimo português para um grupo de brasileiros que nem todos os estadunidenses tinham desinteresse por outros idiomas e o que ele queria era falar muito mais do que apenas inglês.

Uma moça do interior de Santa Catarina, que havia puxado assunto comigo, desistiu de explicar a localização de sua cidade: “Bem depois de Balneário do Camboriú”, dizia risonha. Qual não foi a surpresa para mim quando um rapaz, do outro lado do vagão, falou: “Eu acho que você é minha prima, conheço seu pai”. Mas ela não estava surpresa: “Toda vez que eu saio, ou encontro conhecido, ou encontro parente, impressionante!”. Tiraram foto e eu continuei na conversa como mera expectadora. Falavam sobre como a cidade deles era pequena e como, contudo, não se conheciam.

A vida tem de seus momentos de acaso e o espírito olímpico veio reuni-los a quilômetros de distância de suas moradias. A verdade é que as pessoas estavam, em sua maioria, abertas ao diálogo, vivendo um momento de confraternização – muito diferente do cenário que costumamos encontrar no dia a dia, em que não temos tempo para conhecer os estranhos ao nosso redor.

Numa outra ocasião, voltando de noite do Parque Olímpico, já exausta de um dia de jogos e de grandes deslocamentos pelo Rio, deparei-me com duas voluntárias que conversavam em minha frente, enquanto eu me equilibrava nas barras do metrô. Não demorou muito para que eu fosse incluída no assunto. Uma delas me contava do trajeto diário de quatro horas para chegar a sua cidade – Itaboraí. A outra, vinha ainda mais de longe. Seu português impecável não me fazia reconhecer de onde era. Polonesa, morava no Brasil há apenas um ano. As duas amigas tinham em comum o desejo de participar da Olimpíada, que era muito maior do que qualquer distância ou cansaço físico.

Como voluntárias da modalidade do tênis, já haviam assistido a muitos treinos e jogos. E me explicaram: “Nós não podemos conversar com os atletas, a não ser que eles venham até nós”. Mas isso não importava para elas. Haviam conseguido tirar foto com o Nadal –  que disseram ser muito simpático –, presenciaram visitas de Guga – um grande ídolo, tanto pelo seu esporte quanto pela sua personalidade – e tinham como sonho ver de perto o Djokovic.

No sábado 6 de agosto, a Coreia do Sul venceu o Japão por 3 sets a 1 no Maracanãzinho (Foto: Iolanda Paz)

No sábado 6 de agosto, a Coreia do Sul venceu o Japão por 3 sets a 1 no Maracanãzinho (Foto: Iolanda Paz)

Foi curioso reparar também a maneira como os brasileiros se comportam nos jogos: para quem escolhem torcer quando o Brasil não está protagonizando? As lógicas de identificação que podem explicar as preferências passam tanto por motivos históricos – como imigração ou passados similares – quanto por motivos esportivos: não torcemos para times que nos eliminaram em partidas anteriores, ou então, que são reconhecidamente fortes.

No jogo de vôlei feminino Japão X Coreia da primeira rodada, por exemplo, o Japão vencia após fechar o primeiro set. A Coreia do Sul voltou para o segundo reagindo e conseguiu o empate. No terceiro set, o Maracanãzinho assistiu a uma disputa acirrada, ponto a ponto, em que muitas vezes o telão do ginásio anunciava: “What a Rally!”. Os esforços das atletas dos dois times refletiam não apenas o desejo olímpico de vencer o jogo, mas também uma espécie de duelo histórico.

A península da Coreia foi invadida e ocupada pelos japoneses de 1910 a 1945, período no qual coreanos foram obrigados a realizar trabalhos forçados, além de perderem o controle de suas instituições de governo e sofrerem opressão cultural. Assim, para a Coreia, ganhar o jogo tinha um significado maior, implícito na possibilidade de utilizar o esporte como um instrumento pacífico para extravasar rivalidades e conflitos.

Dado o progressivo desempenho superior da Coreia – com sucessivos bloqueios e boas cortadas –, a torcida para o Japão aumentou seu barulho no terceiro set. E não apenas de japoneses ela era composta: muitos brasileiros descendentes estavam no ginásio em apoio. O Brasil é o país que abriga a maior população de japoneses e descendentes fora do Japão, mas, mesmo com os incentivos, a Coreia manteve seu ritmo e venceu tanto o terceiro quanto o quarto set.

Na Arena do Futuro, angolanas venceram poderosa Romênia por 23 a 19 no handebol feminino. (Foto: Iolanda Paz)

Na Arena do Futuro, angolanas venceram poderosa Romênia por 23 a 19 no handebol feminino. (Foto: Iolanda Paz)

Na noite do sábado, 6 de agosto, a torcida brasileira adotou euforicamente o time da Angola no jogo de handebol contra a Romênia. A equipe europeia havia eliminado o Brasil nas quartas de final do Mundial de 2015 – ficando em terceiro lugar naquela competição –, mas essa não foi a única razão que levou os brasileiros a apoiarem as angolanas. Também foi por motivos históricos – temos uma maior proximidade com o país africano, alvo como nós da colonização portuguesa –, e pelo bom desempenho que elas demonstraram em quadra.

Sem uma tradição olímpica no handebol, a seleção da Angola surpreendeu, não deixando a Romênia ficar em momento algum na dianteira. O time abriu o placar e continuou com um ataque eficaz até o final do jogo, impedindo qualquer reação adversária. A goleira angolana Teresa Almeida (apelidada de Bá) fez grandes defesas e conquistou a torcida brasileira. Era possível ouvir pela arena: “Bá, eu te amo”. A simpatia das jogadoras africanas como um todo gerou uma identificação forte com a arquibancada. Ao final, cantou-se: “Eu sou angolano, com muito orgulho, com muito amor”.

O time da Romênia foi muito vaiado nos momentos em que tinha posse da bola e era visível a incredulidade de suas jogadoras com o resultado que se ia encaminhando ao final do jogo. Perto de onde eu estava sentada, contudo, não eram só as romenas que estavam descontentes. Presenciei uma cena de racismo: uma menina que deveria ter em torno de uns 10 anos estava inconformada com a vitória da Angola. Quando uma jogadora angolana sofreu uma falta, caindo na quadra, ela disse irritada: “Levanta, sua feia!”. Mais preocupante do que a postura da menina, era a postura dos pais dela, que assistiam a tudo sem se manifestar. De fato, as crianças são moldadas pelo ambiente em que crescem e pelos preconceitos que as rodeiam.

Arena do Vôlei de Praia em Copacabana: uma construção temporária para as Olimpíadas. (Foto: Iolanda Paz)

Arena do Vôlei de Praia em Copacabana: uma construção temporária para as Olimpíadas. (Foto: Iolanda Paz)

Já no vôlei de praia, no domingo 7 de agosto, foi a vez das norte-americanas serem vaiadas pela torcida brasileira, em jogo contra a Polônia. As polonesas começaram perdendo, mas, ao ganharem o segundo set, passaram a receber apoio e terminaram por vencer o jogo. Quando as norte-americanas iam sacar, os brasileiros gritavam animados: “uh, zica!”, numa tentativa de levá-las ao erro. Depois, quando o Chile entrou em cena para enfrentar a Holanda, muitos brasileiros acompanharam os gritos de “Chi Chi Chi! Le Le Le! Viva Chile!”. Não raro foram os momentos em que haviam mais brasileiros cantando entusiasmados do que os próprios chilenos.

Foi visível e explícita a integração de culturas, com o Rio dominado pelo espírito olímpico. Mas fui embora dele com um paradoxo: alegre pelos momentos que presenciei, mas receosa de não ter conhecido uma cidade real e sim, uma montada para o grande evento, não refletindo o cotidiano dos cariocas. As pistas de saída também estavam vazias – o trânsito era nulo. Sabemos que essa cidade espetacular é passageira. Segunda-feira, 22 de agosto, o Rio deixará de ser espetáculo e tudo voltará à normalidade. Resta-nos apenas aproveitar o final das Olimpíadas.

 

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