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‘O Brilho do Diamante Secreto’ leva público à loucura, e isso pode não ser bom

Longa apresenta estética ousada com referências aos filmes de espião dos anos 60, mas resultado final pode desagradar público em geral
Por Gustavo Santos (gustalima1306@usp.br)

Estreia nesta quinta-feira (17) o novo filme dirigido pelo casal de cineastas Hélène Cattet e Bruno Forzani, O Brilho Do Diamante Secreto (Reflet dans un Diamant Mort, 2025). Entre flashbacks, metalinguagem e sensualidade, o longa diverte ao propor uma experiência alucinógena e sensorial ao espectador, mas peca ao não desenvolver uma narrativa convincente.

Ambientado à beira da praia, no luxuoso hotel Côte d’Azur, o enredo acompanha o espião aposentado John Diman (Fabio Testi). Ao observar um diamante no seio de sua vizinha, o personagem divaga em meio às lembranças de suas gloriosas missões, encerradas abruptamente por uma vilã mascarada. Motivado a investigar o desaparecimento da moradora do hotel, mesmo sem a força que havia outrora, John é obrigado a retornar ao seu passado enquanto alucina em seu presente, o que resulta em um filme de narrativa fragmentada e cheio de referências ao cinema de espionagem dos anos 60.

Em meio às alucinações, o personagem de Fabio Testi já não sabe em quem confiar dentro de seu hotel [Imagem: Reprodução/IMDb]

A versão mais jovem do espião, interpretada por Yannick Renier, demonstra ser um personagem forte e que executa seu trabalho com muita maestria. Entre uísques, jogos de pôquer e missões ultra secretas, John se observa ameaçado com a chegada de Serpentik (Thi Mai Nguyen), uma mulher mascarada extremamente sensual e perigosa, o que o leva a uma empreitada interminável pela descoberta de sua verdadeira identidade.

Uma experiência alucinógena

Tanto John do passado quanto sua versão do presente estão loucos, e a produção técnica demonstra isso com maestria. Esse é, de longe, o maior ponto positivo da obra — e, também, sua maior problemática. A narrativa brinca com o gênero policial ao realizar inúmeras referências visuais a clássicos do cinema de espionagem, como o uso da música tema de James Bond ou a presença de arquétipos já muito explorados pelo cinema: o mocinho misterioso e atraente, o vilão rico rodeado de mulheres e o personagem mascarado que sempre escapa sem ser reconhecido.

Nessa lógica, o filme pode até não ser inovador e revolucionário, mas o resgate dessas ideias o dão um charme extra. A fotografia antiquada e granulada, em conjunto às imagens coloridas e saturadas, permite uma experiência visual exótica e agradável aos olhos, mas apenas aqueles que não são fotossensíveis, já que a alta quantidade de flashes pode causar incômodos. Isso acontece devido ao uso exaustivo dos flashbacks e ao seu formato circular, em que o começo e o fim não estão necessariamente delimitados.

Mas o incômodo também é um efeito planejado pela direção. Toda a parte técnica não permite um ponto sem nó: o som de palmas se confunde com o de pedras rolando na beira da praia, quadros pintados de branco e preto fazem alusão à morte de um dos personagens, o uso constante de objetos brilhantes referenciam o nome do filme e as músicas em loop levam personagens — e o público — ao delírio coletivo. O Brilho do Diamante Secreto abusa de detalhes gráficos por meio de rápidos close-ups em objetos e personagens, assim como os realizados, por exemplo, em A Substância (The Substance, 2024), outro longa aclamado pelo uso de cenas gore e exageradas. Em ambos, o uso da sinestesia se torna o centro.

Com a estética dos anos 60, Yannick Renier interpreta um espião impetuoso que não desiste de encontrar sua vilã mascarada [Imagem: Reprodução/IMDb]

Serpentik, uma máscara entre várias 

A sensualidade também é um recurso utilizado pela direção para instigar John e o espectador em relação à identidade de Serpentik. Para além da delicadeza do corpo nu da vizinha desaparecida, toda a violência e selvageria do filme também é associada ao corpo feminino. A vilã é visualmente muito parecida com a personagem Mulher-Gato (Catwoman) das HQs da DC Comics devido ao uso de um figurino feito de couro. A personagem não é, mas se comporta como uma dominatrix: rouba a cena e fazem os homens perderem a cabeça.

O filme não pretende ser uma história realista de espião, logo, as unhas vermelhas da personagem são feitas de material cortante em associação a garras e seu salto também é utilizado para batalhas como uma espécie de superpoder. Outra personagem, interpretada por Céline Camara, apresenta um vestido de lantejoulas que, além de funcionarem como câmeras, funcionam como lâminas. Em cenas de luta, Serpentik aparenta sentir orgasmos em vez de dor, o que confunde o público a descobrir se o objetivo de John é matá-la ou beijá-la. A vilã nunca tem seu verdadeiro rosto revelado porque, na verdade, sua máscara é feita do rosto de outras mulheres das mais diferentes etnias, o que sugere que ela personifica o perigo que é se envolver nos planos de uma mulher.

Serpentik é uma personagem forte, que permanece atraente mesmo com seus assassinatos sanguinários e sempre consegue roubar a atenção do espectador [Imagem: Reprodução/IMDb]

Metalinguagem: um recurso mal utilizado 

O espetáculo visual e o caráter experimental do longa são suas principais qualidades, mas também o limitam. Diversos filmes exploram personagens que se perdem dentro de si e confundem o real com o imaginário. Amnésia (Memento, 2000) e Ilha do Medo (Shutter Island, 2010) são excelentes exemplos em que o protagonista não sabe ao certo o que está acontecendo, o que provoca no espectador o sentimento de desconforto e o desejo por investigação, algo que se perde em O Brilho do Diamante Secreto

Em meio aos flashbacks e às alucinações, John passa pelo mesmo conflito que o protagonista de Bolt – Supercão (Bolt, 2008), já que ambos precisam lidar com a metalinguagem de se reconhecer como um personagem fictício. Mas a diferença primordial entre a animação e a narrativa do espião é que a primeira soube os limites desse recurso e construiu um enredo bem feito e amarrado. No filme de 2025, esse não é o caso. 

A metalinguagem, se bem utilizada, pode ser um recurso incrível para uma narrativa, já que permite uma quebra de expectativa no público e a revisão de conceitos pré-estabelecidos pela história, o que resulta em uma nova perspectiva. Até certo ponto, o enredo de John consegue esse objetivo, mas a constante fusão entre passado e presente, sons delirantes e imagens saturadas perdem a atenção do espectador. 

Ao final da narrativa, quando aparece “Fim” na tela, o público não sabe se deveria levantar da cadeira ou se o filme está tentando enganá-lo novamente com um final alternativo. Isso pode causar o riso, porém mais por confusão do que por diversão. A metalinguagem e os flashbacks são utilizados ao ponto que a trama inicial já não faz mais sentido. Serpentik é real? Ela é de fato uma vilã? John é um personagem de cinema, quadrinhos ou apenas um idoso que se perdeu em meio a uma paixão corriqueira?

O Brilho do Diamante Secreto não é um filme para ser entendido, ele é feito para ser sentido. Sua estética é ousada e seus absurdos divertem. A edição e fotografia são elogiosas aos filmes do gênero e permitem uma experiência única, mas sua história é falha e pode incomodar o espectador, que talvez saia com mais dúvidas do que respostas concretas. A narrativa leva John e o público à loucura. E isso pode, ou não, ser um fator positivo.

O Brilho do Diamante Secreto já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

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