Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br)
Desastres ambientais, questões familiares, paixões infantis e ficção científica são, impressionantemente, apenas alguns dos temas abordados na nova animação Arco (Arco, 2025). Nela, Íris (Margot Ringard Oldra), uma garota teimosa que vive no ano 2075, vê um arco-íris despencando na terra. Ao chegar ao ponto da queda vê Arco (Oscar Tresanini), um garotinho de capa colorida quase inconsciente, que veio do ano de 2932. Concorrente ao Oscar de Melhor Animação, o longa-metragem francês estreia nos cinemas brasileiros dia 26 de fevereiro, em parceria com a plataforma de streaming MUBI.
O filme começa apresentando a realidade de 2932, com casas em plataformas no topo das nuvens, circundadas pela natureza. Nela, cidadãos maiores de doze anos podem viajar pelo tempo, enquanto usam trajes colados e capas coloridas como o arco-íris. Arco, um garoto frustrado por não poder se juntar a seus pais e irmã nas viagens, rouba uma das vestes e se joga pelo ar — ele queria ver dinossauros. O rapaz acaba descontrolando seu voo e caindo no tempo de Íris, 2075. A garota curiosa e teimosa vive junto do seu robô babá, Mikki, e seu irmão mais novo, embora seus pais estejam vivos.
Além das relações familiares no mínimo curiosas, a estrutura das cidades em 2075 também chama atenção: casas são protegidas por redomas contra climas extremos, como tempestades e incêndios. Íris vê um arco-íris descontrolado caindo em direção a floresta. Ao chegar lá, encontra o garoto quase desacordado e decide ajudá-lo, apesar de serem perseguidos por três irmãos vestindo óculos arco-íris. Ao acordar, o rapaz conta de onde veio e Íris decide ajudá-lo a voltar para casa, mesmo que isso arrisque sua segurança.

[Imagem: Divulgação/MUBI]
Apesar da narrativa clássica ‘do garoto que se perde de casa e precisa resolver como voltar enquanto se desenvolve como indivíduo e faz amizades pelo caminho’, vista em tantas animações — O Rei Leão, Viva: a vida é uma festa ou Procurando Nemo — a história não parece repetitiva e cansada aqui. Ela ultrapassa isso. Além de sofrer pela ingênua criatura, perdida e confusa, ela faz o espectador refletir sobre as relações da humanidade com a natureza e a família.
Para isso, a dinâmica entre o passado e o presente do longa é construída completamente diferente daquela em outros filmes. Robôs e máquinas voadoras são itens ultrapassados, ou até desconhecidos, aos olhos de Arco. A perspectiva de um 2932 em que a humanidade se reconecta com o natural e sai da terra para “deixá-la descansar”, como é dito pelo próprio personagem que dá nome ao filme, parece um suplício por mudança em atitude. Uma parábola catastrófica contada por meio de uma animação colorida e otimista.
Além do alerta ambiental — que até assusta, dada a proximidade entre os anos 2025 e 2075 — a questão levantada sobre as relações familiares das crianças é outra que traz uma luz especial ao filme. Íris é frustrada pelos pais, que optam por deixá-la com Mikki enquanto trabalham na cidade grande. Apesar do robô babá ser um personagem afetivo e uma espécie de mentor para a garota, o sentimento de abandono permeia suas ações. Dessa forma, o longa mostra o destino da instituição familiar quando a criação dos filhos fica de escanteio.
Por outro lado, Arco têm laços muito fortes com seus familiares, o que motiva seu retorno à casa. Ao construir um futuro de relações paternais mais importantes do que obrigações laborais, o longa pede, de novo, uma mudança de perspectiva da sociedade. Para que os pais, ao levarem suas crianças para assistir, questionem como querem que seus pequenos se sintam: como Íris ou Arco?

[Imagem: Divulgação/MUBI]
Apesar das reflexões comoventes trazidas pela animação, citadas acima, uma outra se perde, aquela trazida pelo personagem Clifford. Amigo de Íris, ele possui algum tipo de afeição romântica pela garota desde o início e, eventualmente, acaba se frustrando. A mensagem que os produtores desejavam passar com a presença de Clifford em cena se torna irrelevante quando comparada às demais: é superficial e até clichê. Enquanto outros personagens ganham diversas facetas conforme os desafios aparecem, ele permanece o tempo todo como um acessório à Íris, sem personalidade própria.
Quando se trata do desenho e da fotografia, é difícil tecer qualquer comentário negativo. Com estilo de animação muito comparado na mídia àquele do estúdio Ghibli, as cores e traços são tão majestosos que dá até vontade de entrar no universo do filme. Ignorado por estúdios mais mainstream, como a Disney ou a Pixar, o 2D carrega um aspecto nostálgico difícil de bater.
Uma referência especial para espectadores brasileiros são os nomes das personagens: Arco e Íris, arco-íris, um elemento presente por toda a história. A relação tecida entre os dois é a tradução disso: colorida e amável. Enquanto para outros idiomas, até mesmo o original francês, o detalhe não fará tanto sentido, no Brasil existe um momento deleitoso extra. Aquele “Ahhhh”, gostoso de quando se pega uma informação escondida.
Entre momentos de choro desesperado, cheio de catarro, e risadas altas na sala do cinema — motivada pelos três irmãos que servem de alívio cômico — o espectador se pergunta: “Será que isso é mesmo filme de criança?” A ausência de consequências físicas quando as personagens sofrem quedas monumentais e certas analogias meio óbvias (em determinado momento, a garota diz que quer voar e em seguida o menino cai do céu), têm aparência de filme infantil. Por outro lado, os fortes momentos dramáticos e a preocupação paternal de Mikki em relação a Íris, com certeza afetam os mais maduros adultos.
Arco consegue inovar a narrativa cansada do personagem que se perde e precisa voltar para casa. É um alerta para a humanidade sobre o futuro que deseja aos seus sucessores. Faz os pais pensarem em como desejam criar seus filhos e como, todos, desejam tratar seu planeta. Ao mesmo tempo, é um retrato da inocência juvenil. A amizade de Arco e Íris é, quase literalmente, colorida — apesar de estarem inseridos em realidades distintas em todos os aspectos. Uma coisa é certa: infantil ou não, ele definitivamente ensina as crianças a não fugirem dos pais no shopping.

Arco estreia nos cinemas brasileiros no dia 26 de fevereiro. Confira o trailer:
*Imagem de Capa: [Divulgação/MUBI]
