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Resenha | Além da música: Tyler, the creator conta sua história a partir de videoclipes

Rapper multifacetado usa do universo audiovisual para apresentar sua trajetória de autoconhecimento com tom cômico e original

Por Ana Julia Oliveira (anajulia.oliveira@usp.br)  e Heloisa Falaschi Lima (heloisafalaschi@usp.br)

A apresentação de Tyler, the Creator no Lollapalooza Brasil 2026 marca o primeiro show do cantor por aqui durante sua carreira solo. Grandes expectativas pairavam entre os fãs desde de que ele cancelou sua vinda em 2018, por motivos pessoais, no mesmo festival. Seu último show no país foi em 2011, quando liderava o extinto Odd Future Wolf Gang Kill Them All (OFWGKTA), grupo musical também chamado de Odd Future.

Com aproximadamente 50 milhões ouvintes mensais no Spotify em 2025, Tyler é celebrado entre os fãs por misturar diferentes estilos musicais como forma de inovar e enriquecer sua arte. Além de diversos estilos musicais explorados, as temáticas de seus álbuns também se mostram ecléticas. Enquanto seus trabalhos de estúdio mais recentes se mostram mais sensíveis e polidos, seus primeiros lançamentos têm temáticas violentas e controversas. Com letras homofóbicas, misóginas e carregadas com outras formas de ofensas, são lembrados até os dias atuais de forma a problematizar parte da trajetória do cantor.

Suas eras também são marcadas pelos diferentes elementos utilizados em seus videoclipes. Além da música, o artista também adentra em áreas como a moda e o audiovisual. Responsável por dirigir clipes como Darling, I e A Boy Is a Gun, Tyler expressa suas dores e angaria fãs com fatores que vão além da música, como direção de arte,  harmonia visual e sensibilidade narrativa adotada em seus vídeos musicais.

Para Marcos Junior, professor e doutorando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM), em entrevista ao Sala33, os clipes são como uma extensão da identidade do artista, ao mesmo tempo um produto cultural e uma estratégia de comunicação. “No caso de Tyler, os clipes não servem apenas para divulgar músicas, mas para construir um universo estético próprio, uma espécie de assinatura visual”, afirma. Esse método, segundo o professor, reforça o vínculo com o público e amplia o alcance comercial da obra. 

 “Em um mercado audiovisual competitivo, que pode ser considerado saturado,  artistas que conseguem comunicar visualmente o que sua música expressa acabam se destacando pela coerência entre som, imagem e discurso.”
 Marcos Junior, professor e doutorando em Comunicação

Diferentes efeitos sentidos são aplicados com elementos do audiovisual [Imagem: Reprodução/Youtube/@TylerTheCreator]

Originalidade e controvérsias

Bastard (2009), seu álbum de estréia, não teve videoclipes oficiais produzidos para seu lançamento. Anos depois, clipes publicados no canal do youtube de OFWGKTA foram dirigidos por Tyler sob o pseudônimo de Wolf Haley. Apesar do caráter caseiro dos clipes e da baixa ingestão de investimento, o cuidado com a estética pessoal é perceptível desde essa fase.

O vídeo musical de French!, quarta faixa de Bastard, já demonstra características incorporadas em trabalhos posteriores do artista. Mesmo com a falta de recursos e baixo refinamento audiovisual, o vídeo incorpora aspectos da música a partir de sua estética caótica. A presença de tons de cinza e imagens frenéticas traduz a identidade sombria e controversa da música que entra na categoria de obras que são negativamente aclamadas na atualidade.

Para os apreciadores de cinema, o teor de contraversão de leis e estética do clipe pode remeter ao clássico do cinema francês O Ódio (1995) [Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

Até os dias atuais, Goblin (2011) é um dos álbuns mais comentados do artista. Frequentemente citado para trazer à tona o passado controverso de Tyler, o trabalho é grotesco, impactante e pode gerar gatilhos. Embora adote tom de crítica, assim como Bastard pode ser problematizado pela abordagem explícita de discurso de ódio e violência.

Yonkers é um videoclipe dessa era que se afasta do álbum anterior em técnicas, mas se aproxima em temáticas e simbolismos visuais. O preto e branco é  novamente utilizado, só que dessa vez não há cenário, nem outros personagens. Apenas o cantor é colocado em foco, no centro do vídeo, junto com outros elementos como um inseto e uma forca. Apesar dos recursos escassos, os poucos utilizados foram aplicados de forma uniforme e refinada. Essa utilização, juntamente com a edição uniforme e performance excepcional do cantor, eliminam os aspectos de produção “caseira” e acrescentam teor profissional ao clipe.

No clipe uma espécie de plano sequência é aplicado enquanto Tyler os performa a música e constrói a narrativa da canção com ações impactantes [Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

 Marcos fala que a expressão de temáticas sensíveis de forma explícita pode ser “um recurso estético poderoso, desde que não seja gratuito”. Como exemplo aponta o videoclipe This is America (2018) de Childish Gambino, que salienta injustiças raciais, culturais e sociais de forma explícita e até mesmo violenta — mas que não deixa de expressar a realidade — experienciadas no contexto estadunidense. 

Assim como Childish, Tyler usa em seus trabalhos abordagens absurdas que destacam o horror e expressam o desconforto racial e social. Marcos cita que a estratégia não é didática, e sim, sensorial, como uma forma de esclarecer os absurdos sob as lentes de um trabalho audiovisual.

Em entrevista ao Sala33, Ana Júllia Ferreira, admiradora do trabalho de Tyler e estudante de cinema, pontua como sua fase controversa o persegue até os dias atuais. Parte da culpa disso vem da cultura do cancelamento, muito presente nas redes sociais. Entretanto, comenta que o multiartista também tem parcela de culpa nisso. “O mínimo que ele podia fazer, é uma nota de esclarecimento, um pedido de desculpas”, salienta a falta de um posicionamento mais rígido contra suas suas músicas que destacavam hábitos problemáticos.

“Ele sempre foi muito certo de não voltar atrás. Tanto pro lado bom quanto pro lado ruim. Então, se ele fala uma coisa, ele vai até o final com isso.”
Ana Júllia Ferreira, fã

Ana concluí o tópico ao pontuar a entrevista que Tyler concedeu à rádio de hip-hop Hot 97, onde comenta a necessidade de voltar aos seus erros passados. No bate-papo o cantor assume os erros cometidos e reconhece que promoveu violência e diferentes formas de preconceito, mas continua não ver sentido nas pessoas continuarem a desenterrar esses assuntos ao seu respeito. “As pessoas simplesmente voltam para as coisas antigas e dizem: ‘Olha o que ele costumava fazer’. E eu fico: ‘É, mas eu não estou mais nessa’”, destaca.

Entre personas e novos horizontes

Na era de Wolf (2013), o maior investimento em produções é perceptível, seja pelos visuais mais completos do clipes ou até mesmo pela maior profundidade narrativa do conjunto. Se desde Bastard o artista apresentava trailers oficiais de cada álbum, em Wolf esse trabalho de apresentação foi ainda mais complexo e bem produzido.

O trailer oficial do álbum mostra Tyler agredindo Wolf Haley, o que pode representar a transição entre sua era tumultuosa e início de uma fase mais introspectiva [Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

Nesse álbum as análises poéticas de Tyler começam a ir além. Os aspectos excessivamente macabros e impactantes são substituídos por humor ácido. Além disso, ele foca mais em seus alteregos e reflete as personas criadas desde seu primeiro trabalho de estúdio.

Ana Júllia Ferreira comentou sobre como as múltiplas personas vividas por Tyler em seus clipes refletem as suas facetas, aspectos de sua personalidade, seus medos e vulnerabilidades.“Você acaba criando uma identificação com esses alter egos. Porque apesar de serem bem caricatos, por serem personagens, eles acabam trazendo um pouco de realidade”, salienta. Marcos Junior também pontua a importância da implementação de personas ao longo das eras do cantor.

“O uso de alter egos permite que ele conte histórias a partir de perspectivas diferentes, enriquecendo sua perspectiva pessoal.”
Marcos Junior, professor e doutorando em Comunicação

No clipe de Domo23, também dirigido pelo multi-artista sob pseudônimo Wolf Haley, o lutador Fookie Bookie representa uma figura masculina, exibicionista e exagerada. O trabalho pode ser tomado tanto como uma provocação à performance da masculinidade excessiva no rap, como também uma resposta de Tyler às críticas que recebia na época, advindas do teor problemático de seus trabalhos anteriores. No vídeo, o contraste entre o cômico e o sensível é perceptível.

 Nos instantes finais do clipe, o rapper aparece em uma espécie de romance com uma mulher, em uma sequência de cenas que apresentam cores quentes e acolhedoras [Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

Em Cherry Bomb (2015), como afirmou o jornal britânico The Guardian, “as táticas de choque juvenis persistem, mas agora ele canaliza sua energia travessa em experimentos empolgantes e nas referências mais consagradas do hip-hop”. A maturidade e mudança de comportamento continuou a refletir em seus videoclipes. Essa dupla de trabalhos — Cherry Bomb e Wolf — podem ser considerados o pontapé inicial para a aproximação do Tyler com o artista que representa nos dias atuais.

Fucking Young é um dos clipes que mais chama atenção. Ao centralizar coesão visual e caos emocional caracteriza um dos principais pontos do trabalho do artista, que agora se mostra mais preocupado em produzir clipes cinematograficamente belos e artísticos. Elementos como efeitos visuais, cores pastéis e flores são apresentados.

A partir dessas eras, é possível começar a perceber um outro elemento apontado por Marcos como uma estratégia de trazer sentimentos de desconforto à tona. A mescla do cômico com o trágico se mostra cada vez mais presente, demonstrando a complexidade das emoções humanas. Além disso, também dá para observar a simetria audiovisual cada vez mais presente. Para o doutorando, isso pode servir de tradução para a solidão claustrofóbica apresentada ao longo de seus trabalhos.

O trabalho abre caminho para Flower Boy, um dos trabalhos mais emblemáticos do rapper que representa sua entrada para um universo mais próximo do pop [Imagem: Reprodução/ Youtube/@OFWGKTA]

Furando a bolha do rap

Depois de 10 anos se dedicando inteiramente ao rap, letras polêmicas e atitudes controversas, Tyler decidiu provar que também conseguia fazer música pop. O lançamento de Flower Boy (2018) quebrou a barreira que separava o artista do mainstream, e através de composições sinceras sobre relacionamentos e identidade, conseguiu conquistar um novo público e manter seus fãs mais antigos.

Em Who Dat Boy, por exemplo, o alterego de Tyler, Wolf Haley, assume a direção do clipe, que também recebe a colaboração de A$AP Rocky. O vídeo tem início com uma ambientação sinistra, que lembra filmes de terror, enquanto Tyler aparece de costas, como se tivesse algo a esconder. Logo em seguida, ele aparece andando pela vizinhança com o rosto machucado, enquanto rima sobre fama e estilo. 

A$AP Rocky é amigo próximo de Tyler, e esteve presente em diversas de suas produções musicais
[Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

Então, Rocky entra em cena como um cirurgião, responsável por implementar um “novo rosto” a Tyler, correspondente a um homem branco e mais velho. Após a cirurgia, uma cena dentro de um carro, em que o rapper é acompanhado de um menino mais novo, a câmera vai se afastando e corta para uma cena completamente diferente, em um cenário florido e alegre. Nesse momento, Tyler aparece multiplicado em quatro versões diferentes, que anunciam o que seria seu próximo single na época: 911/ Mr. Lonely, uma parceria com Frank Ocean. 

Para Marcos Júnior, nesse clipe, o rapper usa “o horror corporal para falar sobre identidade negra, reconstrução e aceitação” e, com a ausência de uma resposta direta para tal uso, ele provoca no público a reflexão de estranhamento da própria realidade racial e social.

“Ele trata cada fase ou ‘era’ como um projeto total, onde figurinos, paletas de cores, videoclipes, capas e performances se conectam de maneira inseparável. Essa abordagem torna sua estética transmídia, funcionando como uma narrativa contínua que convida o público a transitar por estes universos.”
Marcos Junior, professor e doutorando em Comunicação

Considerado o single que, de fato, estourou a bolha de Tyler, the Creator, See You Again segue com a marca de 215 milhões de visualizações no Youtube. Com a colaboração de Kali Uchis, em ascensão no mundo do pop, e A$AP Rocky novamente, Tyler entrega um clipe colorido e impactante, no qual interpreta o papel de um comandante de frota militar entediado. Kali surge em um barco salva-vidas, cercada de três tripulantes que se jogam no mar enquanto ela canta “estou prestes a ir para a guerra, e não sei se vou te ver de novo.”

Liricamente, Tyler se abre como nunca antes, em uma composição que fala sobre a idealização da pessoa amada, saudades e a melancolia de um futuro incerto. Na tela, sequências esteticamente agradáveis de soldados marchando em conjunto, enquanto o rapper rima sobre a fantasia de uma relação que só se realiza em seus sonhos. Ao final do clipe, em um cenário completamente diferente, Tyler aparece vestido de fantasma enquanto canta Where This Flower Blooms, segunda faixa de Flower Boy e parceria com Frank Ocean.

Originalmente, See You Again havia sido escrita para uma possível parceria com Zayn Malik, que nunca aconteceu
[Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

IGOR: mais uma camada desvendada

Diferente de seus trabalhos anteriores, IGOR (2019) foi um passo além na compreensão da persona de Tyler. Se em Flower Boy o público teve acesso às suas inseguranças e crises de identidade, o álbum seguinte é isso e muito mais, com letras profundas sobre relacionamentos, sexualidade e decepções amorosas. 

“Quando você olha para essas eras mais recentes dele, a partir de IGOR: Chromakopia, Call Me If You Get Lost, você vê os clipes, e eles estão totalmente ligados à música.”
Ana Júllia Ferreira, fã

Em EARFQUAKE, Tyler aparece pela primeira vez como Igor, um alter ego que veste uma peruca loira inconfundível e se encontra preso em um triângulo amoroso. No clipe em questão, ele usa óculos escuros e um terno azul-bebê, e faz uma apresentação musical em uma espécie de talk show apresentado pela atriz Tracee Ellis Ross, de Black-Ish (2014-2022).

A performance começa bem, com elementos de cenário e transições que lembram programas antigos, das décadas de 1970 e 1980; de repente, o palco pega fogo e a apresentação é interrompida. Tyler reaparece como um dos bombeiros que apaga o incêndio nos versos finais da canção, que é suspensa com um corte seco.

Para Marcos, o uso dos tons pastéis e da estética retrô funciona para suavizar a vulnerabilidade emocional da música. Para ele, “transcender a música significa traduzir timbres, texturas e emoções sonoras em imagens. Tyler faz isso ao usar a direção de arte e a fotografia como metáforas do som — as cores saturadas, os contrastes de luz e sombra, ou o uso de lentes distorcidas”.

Em A BOY IS A GUN*, o triângulo amoroso apresentado por Tyler finalmente ganha forma. Em meio a cenários que exalam riqueza e luxo, como grandes salões, jardins e quartos de hotel, o rapper se abre em relação à sua relação com outro homem, que o deixa para ficar com uma mulher. Ao substituir o ditado original “a girl is a gun” (“uma garota é uma arma”, do inglês), Tyler demonstra maturidade e sensibilidade para falar sobre uma parte de si mesmo que até o momento não era conhecida pelos fãs. Ao final do vídeo, o artista se vê sozinho na imensidão de um hotel depois da partida de seu parceiro.

No clipe a simetria claustrofóbica é percebida em seu ponto mais radical. Ela traduz a solidão vivida pelo personagem de forma similar ao cineasta estadunidense Wes Anderson. Tyler e Wes abordam a solidão e o sentimento de desamparo na vida adulta ao criar um universo lúdico, colorido mas estrategicamente melancólico. 

Junto de Flower Boy, IGOR foi a abertura de Tyler para o mundo da música, em que ficou conhecido como um artista cool e criativo
[Imagem: Reprodução/ Youtube@TylerTheCreator]

‘Me ligue se estiver perdido’

CALL ME IF YOU GET LOST (2021) constitui o sétimo álbum de estúdio de Tyler, The Creator. Dessa vez, o artista aposta na volta de suas rimas afiadas, mas sem abandonar completamente o pop, além de explorar uma estética vintage, em que as cores pastéis, os carros antigos e os cenários luxuosos predominam. 

Em LUMBERJACK, primeiro single antes do lançamento do álbum, o cantor aparece pela primeira vez folheando um catálogo de carros, enquanto uma bicicleta é deixada de lado na sala. No próximo take, vemos o rapper em pé sobre uma pilha de malas, em uma sala cheia de roupas e acessórios jogados. 

Na letra, ele fala sobre superação, autoconfiança e ostentação de forma irônica, como no trecho “whips on whips, my ancestors got they backs out” (“chicotes sobre chicotes, meus ancestrais ficaram com as costas expostas”, em tradução livre), em que a palavra “whips” pode significar tanto carros quanto chicotes. De forma geral, o clipe e a música revelam sua capacidade de permanecer autêntico mesmo enfrentando adversidades. 

Já em WUSYANAME, Tyler revela novamente seu lado mais sensível, ao se apaixonar ou idealizar uma garota que viu pela primeira vez. Com um apelo nostálgico forte, o clipe tem início com um carro cheio de malas na estrada, de onde o artista sai e vê o interesse amoroso — interpretado pela atriz Helena Howard — pela primeira vez. 

Durante o resto do vídeo, Tyler acompanha a menina enquanto eles andam por um campo quase bucólico, e Tyler canta sobre desejo, planos futuros e fantasias de uma conexão que só aconteceu em sua cabeça. No fim do clipe, o público vive a decepção junto do rapper: a garota já era comprometida.

Em muitos dos clipes de Tyler, ele aparece usando sua marca de roupas original, Golf Le Fleur [Imagem: Reprodução/ Youtube@TylerTheCreator]

DORSO é ambientado em uma festa infantil, em que Tyler conversa sobre a urgência de lançar uma nova música com um aparente empresário ou assessor. Em seguida, o rapper faz uma apresentação inusitada acompanhado de DJ Drama, em uma mixtape que relembra os anos 2000. 

Na letra, Tyler desabafa sobre seu estado emocional em meio à fama e à riqueza que adquiriu em sua carreira, sempre com um tom debochado e irônico. Ele intercala entre seus altos e baixos, fala sobre suas decepções amorosas e um luxo exagerado. Ao final da performance, seu assessor o parabeniza e a festa volta ao normal, como se nada tivesse acontecido.

“A relevância pode vir da coerência entre forma, conteúdo e autenticidade. Um videoclipe se torna marcante quando consegue condensar a identidade do artista em uma narrativa visual envolvente.”
Marcos Junior, professor e doutorando em Comunicação

Em SORRY NOT SORRY, que faz parte da uma versão expandida do álbum chamada CALL ME IF YOU GET LOST: The State Sale, Tyler decide reunir todos os seus personagens e alter egos em uma só tela. 

A letra é ambígua, ora revela um remorso e arrependimento pelos erros do passado, ora revela uma clara ironia e crítica às pessoas que o julgam. No clipe, suas diferentes versões se alternam para pedir desculpas, em uma das produções mais emblemáticas da carreira do rapper. Aos poucos, cada um é “arrastado” para fora da tela pela versão original de Tyler, que no fim, é revelado ao público como o responsável por destruir — física e metaforicamente — todos os seus personagens.

Após “matar” seus alter egos, Tyler está pronto para começar uma nova fase em sua carreira, que veio a público em 2024
[Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

Tyler se veste de si mesmo

Com o lançamento do seu oitavo disco, CHROMAKOPIA (2024), Tyler deu início a uma nova era inspirada nos antigos filmes noir das décadas de 1940 e 1950. Com preto e branco predominantes, muitas sombras e enquadramentos diferentes, que conferiam um ar dramático às cenas criadas, o foco foi a vida do artista antes da fama.

“Se você olha os álbuns anteriores, vê muita cor, muito aparato, muito cenário, muita coisa bonita. Só que se você olhar os clipes de CHROMAKOPIA, é claro, são lindos. Só que eles são mais objetivos. Eles são mais focados, para quem assiste prestar mais atenção na letra.”
Ana Júllia Ferreira, fã

Em ST. CHROMA, teaser e faixa que inauguram o álbum, Tyler surge marchando em direção a um contêiner que exibe o nome do disco. Atrás dele, uma fileira de homens “sem rosto” seguem na mesma direção, como robôs ou soldados. O rapper exibe um penteado inusitado, que se assemelha a dois chifres no topo de sua cabeça, além de uma máscara do seu próprio rosto. Ao final do clipe, quando todos os homens entram no contêiner, o mesmo é explodido por Tyler.

NOID, uma das faixas mais famosas, retrata o desconforto consequente da fama, representado por paparazzis e fãs que não respeitam sua privacidade. Com a participação especial da atriz Ayo Edebiri, que interpreta um desses fãs, Tyler se encontra em estado de paranoia e desconforto, simbolizado pelos celulares apontando em sua direção, que se transformam em armas, e pela sensação de que alguém o persegue ou que sua casa será invadida. Qualquer que seja a situação, o rapper encontra dificuldade de se sentir seguro.

Em CHROMAKOPIA, Tyler fala sobre sua infância, sua relação com seu cabelo, e planos para o futuro
[Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

Já em DARLING, I, Tyler abandona a atmosfera sombria dos clipes anteriores, as cores e as batidas mais leves voltam à produção. Dessa vez, o foco está nas diferentes relações do cantor com outras mulheres, em que ele demonstra se entregar demais, com muitos presentes e passeios, que também fazem parte do seu apelo pela ostentação. 

Por outro lado, a letra fala sobre sua dificuldade em permanecer em um único relacionamento, e que todas as suas conexões agregam de maneiras diferentes. Ao final, todas as mulheres com quem se relaciona recebem seu coração de presente, o que as assusta e afasta, formando o ciclo de decepções amorosas de Tyler.

Música, movimento e memória

Com um lançamento inesperado e praticamente sem publicidade, o nono álbum de estúdio de Tyler, The Creator ganhou vida em 2025. Intitulado DON’T TAP THE GLASS, a obra tinha como proposta principal, segundo o próprio artista, recuperar a sensação primitiva que as pessoas sentem ao escutar uma música, com a vontade de cantar, dançar, ser você mesmo sem medo de julgamento. 

Lançado no mesmo dia em que o disco, STOP PLAYING WITH ME consegue traduzir bem a ideia que Tyler deseja comunicar. No clipe, ele aparece vestido de couro vermelho, que foi entendido como uma referência ao rapper LL Cool J, dançando no meio de dois amplificadores enormes. Com as participações ilustres de Pusha T, Malice — da dupla de hip hop Clipse —, LeBron James e Maverick Carter, Tyler reforça a mensagem de que as críticas direcionadas a ele não são ignoradas.

Já em SUGAR ON MY TONGUE, último videoclipe do álbum até o momento, o rapper deixa de lado seu humor ácido para dar lugar à sensualidade. Na letra, Tyler fala sobre o desejo que sente por alguém; na tela, só ele e uma mulher dentro de uma sala, distantes um do outro. 

As imagens se alternam, e de repente, o ambiente está cheio de pessoas dançando, como uma festa. Em outra cena, os dois personagens aparecem seminus e Tyler é puxado em direção à mulher por uma coleira. Ao final do vídeo, ambos surgem sem roupas e o rapper corta sua língua fora, em uma sequência quase sem sentido, característica comum nas obras do artista. 

Com forte influência da dance music dos anos 1980 e 90, a música é uma celebração da liberdade sexual e do desejo, explícita em trechos como “tell your mama, tell your daddy, tell the world” (“conte à sua mãe, conte ao seu pai, conte ao mundo”, em tradução livre). Tyler que mostrar, tanto liricamente quanto visualmente, que temas como sexo não precisam ser um tabu e podem ser tratados de forma leve e divertida.

Em um post nas redes sociais, Tyler falou sobre a ideia de fazer um novo álbum, cujo único objetivo seria tirar as pessoas da inércia, fazê-las dançarem e se divertirem [Imagem: Reprodução/ Youtube/@TylerTheCreator]

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