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Parkour no Brasil: entre a filosofia de vida e o espetáculo esportivo

Atividade ganhou popularidade no Brasil em 2004 e enfrenta o desafio de manter sua identidade diante a mídia e as federações esportivas

Por Letícia Longo (letlongo2006@usp.br) parkour brasil
parkour brasil
Entre os dias 28 de outubro e 2 de novembro, a cidade de Brasília recebeu o Campeonato Brasileiro Loterias Caixa de Ginástica Aeróbica, Acrobática e Parkour. O evento, organizado pela Confederação Brasileira de Ginástica (GBG), marcou a primeira competição brasileira de parkour na história. 

Popularizado no início dos anos 2000 no Brasil, o parkour conquistou espaço no país por conectar aventura, estilo urbano e atividade física, além de representar um símbolo de rebeldia para os jovens. Sua incorporação em campeonatos esportivos têm provocado polêmicas na comunidade dos traceurs (nome dado aos praticantes da modalidade). Para eles, o parkour representa mais do que um esporte: é também uma subcultura e uma filosofia.

Surgimento e popularização

O parkour foi criado no final da década de 1980 pelo ator e coreógrafo David Belle, na França. A atividade é uma evolução moderna do treinamento militar francês parcours du combattant (percurso de combate em tradução livre), junto ao Método Natural, e as próprias experiências urbanas de Belle.

O Método Natural, criado por George Herbert, tinha como base a ideia de que o ser humano atinge seu pleno desenvolvimento físico pelos gestos naturais da espécie humana, como saltar, correr, escalar e caminhar. “Ser forte para ser útil” é o principal lema na obra de Herbert cujo elemento central é o altruísmo. Herbert acreditava que o treinamento físico deveria preparar o indivíduo para situações reais, desenvolvendo não apenas força e agilidade, mas capacidade de ajudar os outros em momentos de necessidade. 

Raymond Belle, pai de David Belle, era bombeiro e passou pelo treinamento do parcours du combattant,  uma mistura  entre o treinamento militar básico e o Método Natural, de acordo com o artigo da Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, Parkour: História e Conceitos da Modalidade. 

Inspirado pelos treinamentos de seu pai, David Belle começou a usar o espaço urbano de Lisses para o seu desenvolvimento físico pessoal, que o pudesse ajudar em situações reais. O parkour surge a partir do uso de grades, muros e prédios, como um “campo de treinamento”. Em 1997, surgem os “Yamakasi”, grupo composto por David que praticava parkour. A partir do surgimento do grupo, os traceurs começam a aparecer em propagandas, jornais e filmes, popularizando a prática ao redor do mundo.

David Belle participou de vários filmes de ação em que realizou manobras de parkour [Imagem: Reprodução\Youtube\@DavidBelle]

No Brasil, a prática se popularizou com a divulgação de vídeos na internet. Em entrevista ao Arquibancada, Jean Wainer, um dos primeiros traceurs do Brasil, diz que descobriu a atividade enquanto assistia o programa “Buzzina”, apresentado por Cazé Peçanha na  MTV, em 2004. “Na época, eu me identifiquei muito com os vídeos. Eu fazia vários esportes na época e pensei que poderia ser uma forma de adquirir habilidades que eu possa usar na rua, em qualquer situação.”

O atleta conta que, na época, o Orkut foi o principal meio de integração e divulgação do parkour para outras pessoas. Uma semana após descobrir a atividade, ele entrou em um grupo na rede social intitulado “Le Parkour Brasil”, criado por Eduardo Bittencourt, com integrantes de Brasília e de São Paulo. Os participantes combinavam de se encontrar em espaços públicos, como praças e parques, para praticar as manobras. “Era um grupo com três pessoas, e depois cresceu para 50 mil, 200 mil pessoas.’

Durante os anos 2000,  o Le Parkour Brasil teve uma grande repercussão na mídia, o que ajudou na popularização da prática no Brasil. Em 2005, integrantes do grupo foram recebidos pelo Gordo Freak Show, na MTV, além de protagonizarem uma matéria no jornal Folha de São Paulo.

Nos anos 2000, a USP foi um dos principais espaços públicos usados pelos traceurs para treinar [Imagem:Reprodução\Youtube\DJHANDOM]

Em 2005, é fundada a Associação Brasileira de Parkour, com o objetivo de disseminar a modalidade em nível nacional. Em 2008, surge o primeiro curso oficial de parkour no Brasil, fundado por Leonard Akira. Segundo o instrutor de parkour, seu interesse pela modalidade, assim como o de outros traceurs, veio do fato de ser um esporte disruptivo, o qual ainda havia desconhecimento entre as pessoas mais velhas.

As peculiaridades do parkour brasileiro

O desenvolvimento do parkour no Brasil é marcado pelas suas características singulares. Por ter se popularizado pela internet, a maioria dos primeiros traceurs brasileiros eram de classe média alta, segundo Jean Wainer. “Em 2004, não era todo mundo que tinha um smartphone ou um computador em casa, era um recorte social muito grande”. Muitos dos primeiros praticantes só viam o parkour como hobby, e, logo que começaram a trabalhar, largaram os treinos. 

Leonard Akira afirma que, no início, a falta de informações sobre a atividade prejudicava a execução dos movimentos. “A gente tinha que baixar uns gifs, que ficavam repetindo o movimento, e copiava o que via.” Devido a essa falta de referências, muitos praticantes veteranos da modalidade se lesionaram e eventualmente pararam de praticá-la.. 

A diversidade arquitetônica brasileira é um dos principais fatores os quais diferenciam sua prática de parkour da de outros países. Segundo Akira, em cada estado existem diferentes formas de treinar. “Na Bahia, a galera tem um estilo de parkour completamente voltado para a arquitetura baiana, onde não tem muito lugar pra escalar. O parkour deles é muito mais [uma] corrida: velocidade e salto. Em São Paulo, é mais praticada a escalada, por conta da arquitetura mais verticalizada, que permite subir e descer.”

Akira também fala do preconceito sofrido quando começou a praticar a modalidade. Devido a suas características e  sua fama de ser um esporte “radical”, muitos policiais olhavam para a atividade com desconfiança e proibiam a prática em espaços públicos. “Eram os caras, bravos, sempre tentando impedir a gente de treinar. A gente fingia normalidade. Não tínhamos autorização e a gente ia sem autorização mesmo”, diz o traceur.

Além disso, havia uma oposição inicial dentro da comunidade do Orkut em relação ao ensino da prática do parkour, de acordo com Akira. O atleta relata ter sido criticado por outros praticantes ao decidir abrir um curso, pois muitos acreditavam que a figura de um tutor contrariava a filosofia de autodesenvolvimento da modalidade.

Esportivização do Parkour e espetacularização da mídia

Em 2017, A Federação Internacional de Ginástica (FIG), incluiu o parkour como uma de suas modalidades. A institucionalização dessa atividade urbana tem dividido opiniões entre os brasileiros, que veem um distanciamento dos valores originais da disciplina quando este é realizado para fins competitivos.

O parkour original, criado por David Belle, não surgiu para competições esportivas, e sim como uma forma do indivíduo explorar sua condição física e ultrapassar obstáculos de forma ágil, rápida e segura. As competições, de acordo com Akira, apresentam uma modalidade mais acrobática: o objetivo não é mais a saúde, e sim sobre atingir e ultrapassar limites.

Os entusiastas da prática argumentam que a FIG se apropriou indevidamente de uma prática cultural e física que se originou e se desenvolveu independentemente da ginástica. A própria vice-presidente da instituição, em 2020, criticou a inclusão do parkour e alegou que a ginástica perderia sua identidade.

“O parkour antigamente era muito mais bonito. Hoje, virou uma sessão de acrobacia.” 

Leonard Akira, primeiro professor de parkour do Brasil

Tanto Wainer quanto Akira acreditam que o surgimento de cada vez mais competições de parkour é fruto de um interesse mercadológico, para atrair mais pessoas a assistirem os eventos. As instituições esportivas buscam estratégias midiáticas para apresentar a modalidade como um exercício radical e distante do público em geral, com filmes de ação, propagandas e vídeos.

Tal feito acaba por deturpar o real propósito do parkour. “A espetacularização é muito grande. Em parte porque, como organização, o pessoal do parkour era desorganizado. A gente não sabia como se colocar perante à sociedade e apresentar a cultura da atividade.” diz Jean Wainer.

Nos anos 2000, as  propagandas publicitárias foram dominadas por figurantes de parkour, com o intuito de impressionar o público com as manobras mais radicais da prática. [Imagem:Reprodução\Youtube\ @johnjohndenim]

‘Tem outras formas de fazer parkour, não só essa que estamos vendo na mídia.” 

Leonard Akira

Apesar das discordâncias em relação à esportivização do parkour, há uma certa abertura para competições, que pode ser uma forma de reacender a popularidade da atividade no Brasil. “Essas grandes competições, como as Olimpíadas, têm auxílio do governo para os atletas. Se o parkour chegar tão longe, as pessoas podem começar a enxergar um caminho de viver disso” diz Wainer.

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