Por Luiz Dias (lhp.dias11973@usp.br) e Maria Luiza Negrão (maluizacnegrao@gmail.com)
No dia 21 de março, a Jugui Artigos Esportivos realizou a segunda edição do ‘A Luta Continua’. Composto por aulões coletivos de esportes de combate, o evento ocorreu na Cornerman – maior academia de lutas da América Latina, localizada na Vila Leopoldina, em São Paulo. Além de um público de mais de duzentas mulheres participantes, gigantes brasileiras também marcaram presença como instrutoras, a exemplo de Rose Volante, a primeira brasileira campeã mundial de boxe.
Carol Zura, idealizadora do evento, conta que a ideia surgiu logo quando assumiu o cargo de diretora de inovação da Jugui, há três anos. “Nós queremos estimular cada vez mais mulheres a praticarem artes marciais, não só por uma questão de defesa pessoal. Entendemos que essa comunidade de mulheres precisa também se fortalecer e experimentar outros esportes”, explica.
“Olhem atrás, na camiseta de vocês. Está escrito ‘A Luta Continua’, mas não é só aqui no tatame, é em cada ponto das suas vidas. Por que, em um país como o nosso, vocês não podem estar desprotegidas e precisam saber revidar”
Larissa Rojo, em anúncio durante a abertura do evento
Carol reflete que uma das principais mudanças relativas à edição do ano passado foi a proporção: o workshop contou com cerca de 100 mulheres participantes em 2025, e neste ano o número beirou os 250. Com essas dimensões, ela considera um desafio realizar um evento que comporte os diferentes níveis de prática — das que nunca nem entraram em um tatame às que lutam há anos. “Mas deu tudo muito certo. Até se estendeu um pouquinho, porque a galera se empolga mesmo”, declara. Os aulões, previstos para terminar às 16h30, acabaram quase uma hora depois.

Mulheres de todas as idades se reuniram para lutar ao longo de três horas. Alguns filhos e cônjuges acompanharam as participantes [Imagem: Maria Luiza Negrão/Jornalismo Júnior]
Além de Rose Volante, o workshop reuniu uma lista extensa de instrutoras com trajetória de destaque nas artes marciais. Entre elas estavam Danila Ramos, campeã mundial de boxe em 2023, e Sábatha Lais, campeã mundial de jiu-jitsu em Abu Dhabi, além de nomes com títulos sul-americanos, pan-americanos e brasileiros em diferentes modalidades — como Larissa Rojo, Thalita Lupeti, Thalyta Silva e Pati San. Todas essas campeãs também são instrutoras na Cornerman.
Amigas de tatame
“Eu acho que a minha maior expectativa de hoje é a união das mulheres na luta”, afirmou a social media Dominique Tonio, de 32 anos, pouco antes do evento. “É uma confraternização com várias mulheres lutando dentro de um esporte que é supermasculino e a gente está conseguindo reunir um grande número de mulheres”, concluiu a participante.
Dominique faz parte do quarteto de “amigas de tatame” – como elas mesmas se denominaram – com quem o Arquibancada conversou. Laura Gabriel, 27, é a que treina há mais tempo: são cinco anos no Muay Thai. “Decidi que era um momento de iniciar algo que eu não conhecia e o mundo da luta era muito distante da minha realidade”, diz. “Eu também estava num momento de me entender como mulher socialmente. Preciso aprender a me defender, ter ferramentas para viver em uma sociedade que está super agressiva com mulheres e conseguir, talvez, incentivar outras ao meu redor”.
“Fiz a primeira aula [de Muay Thai] e não parei nunca mais. Eu acho que não só encontrei um lugar para aprender a me defender, como descobri no tatame um espaço em que eu consiga me acolher. Que eu consiga controlar a ansiedade. Que eu consiga, mesmo que fisicamente cansada, descansar mentalmente de um dia ruim”
Laura Gabriel, participante do ‘A Luta Continua’
Juliana Oliveira, 30, já praticava dança, mas começou a lutar há dez meses como parte de um desafio em que precisava testar algum esporte. “Meu amigo falou: ‘Tô indo pro Muay Thai’, e eu falei: ‘Vou também’.” Era para ser só uma aula experimental, mas ela gostou dessa novidade e afirma não conseguir mais viver sem os treinos. “E hoje estou aqui [no evento] com as mulheres que treinam comigo”, diz, referindo-se às três amigas de tatame.
Já Amanda Castro, também de 30 anos, conta que começou a praticar lutas há um ano, movida pela curiosidade e pelo desejo de encontrar um novo hobby. “Eu decidi tentar nesse [lutas], e eu adorei! Também tenho uma questão de ansiedade, então para mim foi ótimo porque consegui controlar. É um momento em que eu realmente me desligo de tudo.”
O evento também contou com lutadoras experientes, como Juliana Sequeira, praticante graduada de Muay Thai há 15 anos e jiu-jitsu há 13. Segundo ela, mesmo para aqueles com experiência, eventos assim são proveitosos devido às oportunidades de networking e autoconhecimento que oferecem. Sequeira enfrentou a instrutora Letícia Rojo, ex-atleta profissional com três passagens no circuito internacional de Muay Thai na Tailândia, em uma das atividades do workshop.
Decorrer do evento
O aulão foi organizado como uma sequência progressiva. Começou pelo aquecimento coordenado por Larissa Rojo e avançou para os fundamentos do boxe, demonstrados por Rose Volante, e do Muay Thai, ensinados por Talita Borges. Depois, as participantes foram divididas em duplas para os exercícios com aparadores, antes de seguirem para um circuito com sacos de pancada e thai pads. Entre uma etapa e outra, a organização intercalou pausas para água e sorteios, o que ajudou a manter o ritmo do encontro ao longo da tarde.

Larissa Rojo, lutadora de Muay Thai e boxe e personal trainer, comandou o aquecimento no início do evento [Imagem: Maria Luiza Negrão/Jornalismo Júnior]
A parte final do evento concentrou alguns dos momentos mais marcantes da programação. O sparring estruturado, conduzido por Thalita Lupeti e apresentado em tom descontraído como “10 minutinhos sem perder a amizade”, antecedeu a aula de jiu-jitsu liderada por Sábatha Lais, com participação de Thalyta Silva, Pati San e Josi Machado.
Na reta final, houve ainda uma demonstração de jiu-jitsu com Adriana Curtz e Kethelyn Sodré, antes do encerramento com yoga e desaceleração comandadas por Marcela Mizoguchi. Depois, o cronograma ainda previa café, networking e integração entre as participantes.
Projeções para o futuro
Carol reafirmou que a segunda edição do evento superou em muito as expectativas dos organizadores e que o ‘A Luta Continua’ de 2027 já está em processo de idealização. Inclusive, com a repercussão positiva deste evento, ela afirmou que uma possível edição bônus durante o Outubro Rosa está sendo pensada ainda para 2026.

Carol Zura e Dona Cristina que, além de fundadora da Jugui, é mãe de Carol [Imagem: Maria Luiza Negrão/Jornalismo Júnior]
Apesar de o evento anterior ter sido realizado em outra academia parceira da Jugui, Carol reforça a nova relação com a Cornerman, que irá se estender para além do evento. A empresária confirmou a presença de sua loja de artigos esportivos na academia em um projeto maior de parceria ao longo dos próximos anos. “Esse é um espaço que não é só de treino, ele conecta as pessoas. Então existem muitas oportunidades aqui”, reflete.
*Imagem de capa: Maria Luiza Negrão/Jornalismo Júnior
