Por Luiza Torre (luizatorre@usp.br)
O segundo longa-metragem dirigido, estrelado e produzido por Djin Sganzerla, Eclipse (2026), estreia nos cinemas nesta quinta-feira (7). Obra nacional de drama e suspense aborda temas atuais e relevantes do cenário brasileiro em um viés de crítica social.
Eclipse acompanha a história de Cleo (Djin Sganzerla), uma astrônoma que espera um filho de seu marido, Tony (Sergio Guizé), quando é surpreendida pela visita de sua irmã de origem indígena, Nalu (Lian Gaia). O encontro entre irmãs revela segredos obscuros do passado da família, mas funciona como incentivo na construção de uma relação especial entre ambas, que desemboca em uma investigação de mistérios sombrios.
O filme destaca o contraste entre as duas personagens e suas realidades. Enquanto Cleo cresceu com uma condição financeira confortável e teve apoio emocional paterno, Nalu teve que se virar economicamente e teve uma relação abusiva com o pai de ambas, que é revelada à irmã quando se reencontram. Apesar dos fatores que indicam uma forte tendência de que o contato entre elas seria de inimizade, injustiça e inveja, a conexão que constroem durante a trama se estabelece rapidamente, o que tem um quê de sororidade forçada.
O fato de a vida de Cleo não ser tão perfeita quanto Nalu julgava ser parece uma justificativa encontrada pelo roteiro para que a forte irmandade entre elas aparecesse tão facilmente, deixando de lado a questão do rancor guardado diante das dificuldades que enfrentou sem o apoio de sua irmã.
Entretanto, as divergências e semelhanças entre ambas é algo bonito de se ver. Mesmo sendo de jeitos diferentes, elas possuem uma ligação intensa com o universo, sendo Cleo por meio da astronomia e Nalu pela sua ancestralidade indígena. Ao citar o fenômeno eclipse, Nalu o enxerga como uma analogia para coisas que podem ser encobertas por um tempo mas que não deixam de existir, entrelaçando seus sentimentos com a natureza.
Mesmo sendo algo que, para uma pesquisadora científica, como é o caso de Cleo, poderia não fazer sentido, é uma ideia respeitada e admirada pela personagem. A combinação de duas personalidades tão diferentes, mas que funcionam de forma tão equilibrada, é mais um dos elementos que traz sentido ao título.

A obra apresenta cenas fortes ao retratar a violência sofrida pelo sexo feminino, que vão desde relatos de abuso na infância, importunação sexual, mensagens com teor misógino, que se assemelham as que estão presente no movimento Red Pill, até uma tentativa de estupro coletivo. O filme deseja transmitir uma mensagem importante, e é inegável que consegue provar seu ponto de certa forma, alertando sobre os perigos da onda crescente de misoginia no país, seja pela internet ou outros meios, chocando com representações impactantes. Apesar disso, certa parte dessa mensagem fica ofuscada pela grande quantidade de informações, o que faz com que nem tudo tenha um devido tempo para ser explorado.
O trauma da infância de Nalu aparenta existir somente para ser algo que afeta sua irmã, visto que o foco foi direcionado somente para os sentimentos de Cleo em relação à descoberta sobre o pai. A maneira como Nalu lidou com os abusos e suas emoções foram esquecidas durante a narrativa, sendo um desperdício de uma personagem tão forte e com uma história tão dolorosa.
A caracterização dos personagens não decepciona, tendo figurinos que combinam com a identidade de cada um. Nalu usa roupa e acessórios artesanais que sugerem uma conexão com sua ancestralidade, com muitos tons de marrom e verde que remetem a elementos da natureza. Cleo é vista usando mais de um pijama com estampas de galáxias e astros, reforçando mais uma vez sua ligação e paixão pela astronomia.
A fotografia também condiz com seu conteúdo. A baixa iluminação e o contraste suave combinam com a seriedade do tema abordado, além de colaborarem para o sentimento de desconforto causado no público em cenas de tensão. A trilha sonora é igualmente coerente, contendo faixas como Dentro de Cada Um, de Elza Soares, que aborda a libertação feminina em sua composição e serviu como uma ótima escolha de música para os créditos.
Contudo, certos efeitos sonoros foram usados de maneira exagerada com a tentativa de forçar um suspense sobre um mistério que sempre esteve óbvio. A previsibilidade dos acontecimentos existe desde o início, e o longa falha na tentativa de surpreender, deixando aspectos interessantes em escanteio para focar em uma virada pouco eficiente.

O site fictício “227chan” foi introduzido na trama para retratar como o discurso de ódio contra mulheres vêm crescendo em fóruns obscuros da internet. O mundo virtual é apresentado como um espaço perigoso e propício para que homens se organizem e pratiquem crimes de gênero. O longa serve como um alerta sobre o tipo de conteúdo que pode ser encontrado nessas plataformas, e como elas facilitam a elaboração e dispersão de pensamentos machistas que costumam ir para além do universo das telas. Mas é um tema que poderia ter sido melhor desenvolvido caso tivesse mais tempo de tela, em vez de apenas aparecer superficialmente..
O final de Nalu e de sua trajetória com o patrão que a perseguia não teve um desfecho concreto. O que acontece com a personagem é subjetivo e deixado em aberto propositalmente, e o que é feito para deixar o telespectador curioso mais parece um fim preguiçoso e batido.
É uma obra que tem sua devida importância para o contexto atual brasileiro, mesmo que não cumpre o propósito de tratar dessas temáticas com a profundidade que elas merecem, tendo um tempo não proporcional com a quantidade de assuntos apresentados. Ainda assim, Eclipse é uma experiência que compensa, por ser repleto de subjetividades que permitem mais de uma interpretação.

Eclipse já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Divulgação/Pandora Filmes
