Jornalismo Júnior

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Tatreez: o milenar bordado palestino que se tornou meio de resistência

A tradição, além de arte, é símbolo da identidade nacional palestina e uma forma de preservação da memória
Mulheres palestinas em preto e branco nas extremidades das imagens. à esquerda, cinco mulheres bordando. À direita, mulher séria =, olhando para o lado. Ao fundo, um bordado palestino (tatreez), nas cores branco, preto e vermelho.
Por Theo Zapella (theozapella@usp.br)

O Tatreez (bordado, em árabe) é uma arte praticada pelos povos e comunidades palestinas, vinda das áreas rurais da região e originada séculos antes da Era Comum. A prática é majoritariamente atrelada à ornamentação de vestidos, denominados thobes, ainda que também possa adornar outras superfícies, como coletes, véus e acessórios. Realizado na técnica do ponto-cruz, esse saber milenar se perpetuou até a atualidade a partir da transmissão geracional entre as mulheres, e, ao longo de sua existência, foi se transformando em decorrência dos processos históricos vivenciados pela nação Palestina, como a Nakba (“A catástrofe”), de 1948. 

Em 2021, a expressão cultural foi reconhecida como um Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. A prática do tatreez é pesquisada por artistas contemporâneas como Joanna Barakat, e também é ensinada em oficinas em São Paulo, por Rahaf Hussein, ambas entrevistadas pela Jornalismo Júnior

O tatreez é fundamentado no bordado de símbolos e ornamentos que fazem referência à história, memória e ao território, e se consolidou como uma forma de expressão identitária e de reafirmação da cultura palestina. Para a confecção, são empregados diferentes tipos de cores, desenhos e formas, o que resulta em peças com alta complexidade e detalhamento artístico. 

No tatreez, há uma grande variedade de figuras e padronagens que podem ser incorporadas ao bordado. Elas representam elementos que se conectam às vivências da bordadeira e do núcleo social que a envolve, como símbolos religiosos, místicos ou mitológicos; representações da flora e fauna locais; e outras figuras que também aludem à identidade e ao pertencimento ao território. Dentre elas, encontram-se tanto figuras comuns à nação como um todo, quanto também figuras com um caráter mais regionalizado, próprias e típicas da cultura de uma região específica da Palestina.

Véu da região de Ramallah, feito entre 1900-1945. Nota-se a presença de elementos regionais, como a couve-flor (agricultura) e o sanguessuga (medicina), que evidenciam a conexão dos bordados com a identidade e o território [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A tradição do Tatreez

Até a metade do século 20, a Palestina era um extenso território que abarcava cidades e uma grande quantidade de vilarejos. A artesania do bordado era originada e predominante nas regiões rurais, realizada por mulheres que aprendiam a prática com suas mães e a ensinavam às suas filhas. Assim, o tatreez, desde sua origem, se fundamenta como uma prática integrativa entre as mulheres de uma comunidade, que bordavam, em seus vestidos, as figuras que aprendiam entre si. 

Seus thobes, os vestidos tradicionais — cujo corte possui um formato de “T” —, contém bordados principalmente na região do busto, nas mangas, na frente e nas laterais da saia. Durante o uso eram frequentemente envoltos por cintos, o que conferia à silhueta uma maior curvilinearidade em meio à forma reta do vestido. 

Vestido de uma mulher camponesa do vilarejo de al-Ne’ane, em Ramallah, de 1920. Nos bordados dessa região, é comum o uso de linhas cujos materiais e tingimentos possuem tons avermelhados [Imagem: Ma’moun Othman/WikiMedia Commons]

As especificidades do tatreez de cada região da Palestina se revelavam pelos materiais empregados e pelas figuras bordadas — algumas próprias de uma determinada região. Por isso, o thobe, para além de uma vestimenta, é também um material autobiográfico de sua bordadeira: somente a partir dos ornamentos visuais incorporados no tatreez, é possível identificar a territorialidade da mulher que o produziu. 

Elas também incluem outras marcas que expressam suas individualidades nos bordados. Por meio de pontos, cores e linhas, constroem figuras que podem aludir à sua história de vida, religião, classe social e estado civil. 

Símbolos e ornamentos

A possibilidade da diferenciação da região de origem do vestido partindo da análise dos bordados é mais viável para os vestidos produzidos até a metade do século 20, dado que é até esse período que a Palestina ainda possuía seu território íntegro, vilarejos delimitados e fronteiras estabelecidas. Com a colonização britânica sobre a Palestina e a expansão do turismo no início do século, a disseminação de materiais sintéticos (como linhas, tecidos e tingimentos) também impactou a especificidade regional do tatreez, já que, até então, os bordados eram produzidos com materiais locais e de origem natural, o que permitia uma maior distinção entre as produções.

Mapa da Palestina composto por padronagens de tatreez oriundas das regiões de Ramallah, Gaza, Hebron, Yibna, Beit Dajan, Isdud e Belém. A ilustração demonstra o leque de símbolos pertencentes aos vários vilarejos palestinos 
[Imagem: Reprodução/Tatreez Traditions]

Entre os símbolos comuns à Palestina como um todo destacam-se variações de estrelas, árvores — como oliveiras e ciprestes —, padrões geométricos e pássaros, além de representações de templos e elementos nacionalistas, como a própria bandeira. Porém, ainda existem os símbolos específicos dos territórios. Em Yafa (Jaffa), por exemplo, a forte tradição do cultivo de laranja na agricultura do local fez com que as laranjeiras se tornassem figuras centrais nos bordados da região. 

Tatreez pós-Nakba, “a catástrofe”

Em 1948, com a aprovação da Resolução 181 das Nações Unidas, foi estabelecida a partilha da Palestina entre árabes e judeus para a criação de Israel — momento denominado, pelo povo palestino, como Nakba (catástrofe ou desastre em árabe). A divisão do território foi empreendida de modo desigual entre os dois povos. A população judaica, que antes detinha 7% do território, passou a possuir 56% após a resolução. 

Essa proposta, aprovada pela ONU, não se mostra igualitária quando analisada pela lente demográfica, dado que, foram destinadas, à população árabe — constituinte de cerca de 2/3 do total populacional da região — terras que somavam menos da metade do território original. A porção da Palestina que os foi designada era fragmentada, constituída principalmente de regiões desérticas, menos planas e menos férteis em comparação às que foram apossadas pelo recém-criado Estado de Israel.

A partilha deu início a uma série de violações à integridade e à vida da população palestina, cometidas por grupos sionistas e forças militares israelenses. Foram empreendidas expulsões violentas, desapropriações, massacres, estratégias de limpeza étnica e tentativas de supressão da cultura, sociedade e da população desse território. 

Segundo dados da Agência Brasil, estima-se que entre 700 e 800 mil palestinos foram expulsos de suas casas, obrigados a abandonar sua terra de origem, pertences e memórias como meio de garantir sua sobrevivência. Uma grande parte dos indivíduos enfrentaram longas jornadas e deslocamentos exaustivos para se refugiarem em regiões árabes vizinhas, como a Síria, Líbano e Jordânia. 

Mulheres e crianças da região de Tantura, Palestina, após expulsão. A região, antes uma aldeia costeira da Palestina, foi um dos alvos dos massacres empreendidos por Israel em 1948. Após um violento processo de limpeza étnica e expulsão dos povos locais, Israel estabeleceu o kibbutz (assentamento) de Nahsholim no local [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Essa instabilidade impactou e reconfigurou a prática do tatreez. A disponibilidade de materiais foi altamente reduzida e os deslocamentos forçados direcionaram pessoas das mais diversas regiões da Palestina aos campos de refugiados. Com a retomada da confecção após a Nakba, as mulheres — diferentes por território, mas unidas pelo refúgio — passaram a trocar entre si conhecimentos acerca de técnicas de bordado através do compartilhamento de padronagens e figuras que lhes foram ensinadas anteriormente. A partir desse momento, o tatreez perdeu grande parte de sua regionalidade.

Mulheres bordando e costurando em um hospital em Gaza, 1953. A fotografia foi tirada cinco anos após a Nakba, e integra uma série do Acervo Nacional da Holanda retratando o Oriente Médio [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A prática foi ainda mais reavivada no contexto da Primeira Intifada, de 1987 — grande revolta da população palestina contra as imposições, opressões e violências praticadas pelo Estado de Israel. Essa insurreição popular foi marcada pela desproporção de forças e recursos entre as duas nações — Israel possuía um aparato bélico e estratégias militares consolidadas, contando, em grande parte, com o apoio dos Estados Unidos. Essa oferta de recursos armamentistas não se verificava com a mesma dimensão para a população palestina, o que levou o evento a ser também conhecido como “guerra das pedras“, recurso utilizado como arma pelos civis e que virou símbolo do conflito. 

Além dos protestos e atos físicos, o tatreez também emergiu como uma forma de engajamento. A partir desse marco — momento fundamental na trajetória da resistência palestina —, os bordados adentraram em uma nova fase de sua história, na qual assumiam uma conotação explicitamente política e nacionalista. Nesse processo, muitas mulheres passaram a bordar, em seus vestidos, símbolos que aludiam à identidade nacional palestina e que dialogavam diretamente com os conflitos e entraves vivenciados pela nação no momento da confecção. 

O ato de vestir o tatreez assumiu uma nova posição, como pontuado por Joanna Barakat, em entrevista ao Sala33: “Os vestidos eram adornados com bandeiras e diferentes símbolos de libertação e de nacionalismo, e eram usados durante os protestos na Intifada. Isso era uma forma de apossar-se corporalmente do protesto. Nesse momento, você entra em uma ‘política do corpo’”,  diz a artista, em tradução livre do inglês.

Realizar o tatreez, no contexto pós-Nakba, era não apenas decorar uma peça de roupa, mas também uma ação deliberada para manter essa prática viva: preservar a herança transmitida há séculos pelas gerações anteriores e resistir ao apagamento e ao etnocídio que ameaçavam a existência da população. 

O  uso do thobe adornado com tatreez parou de simbolizar apenas identidades regionais específicas, como era anteriormente, e passou a simbolizar uma identidade nacional da Palestina, ao se tornar uma forma de manutenção da memória e de luta pela sobrevivência cultural. Isso revela a dimensão do tatreez como expressão artística e, ao mesmo tempo, política. 

O Tatreez nos dias atuais

Na atualidade, o tatreez é realizado e estudado em diferentes países ao redor do mundo. Uma de suas pesquisadoras é Joanna Barakat, autora e artista multidisciplinar que estuda o tatreez e suas atualizações na contemporaneidade. De origem palestina, Joanna hoje vive em Abu Dhabi, e além de criar obras de arte, é autora do livro Narrative Threads: Palestinian Embroidery in Contemporary Arts (Saqi, 2025) e ministra o grupo The Tatreez Circle, no qual ensina práticas e a história do bordado. A artista foi entrevistada pela Jornalismo Júnior e detalhou suas visões acerca do tema.

A artista realiza diversas oficinas, cursos e palestras em Abu Dhabi e produz conteúdos para as redes sociais. Joanna é um dos expoentes na pesquisa e disseminação do tatreez na atualidade [Imagem: Reprodução/Instagram]

Discutindo as principais mudanças vistas no tatreez na contemporaneidade, Joanna destaca o papel da internet: “As redes sociais despertaram nas pessoas o interesse no bordado da Palestina como uma forma de conexão com essa cultura. Através da minha atuação com o The Tatreez Circle, eu descobri como esse interesse evoluiu completamente Eu me lembro de quando comecei a ensinar, poucas eram as pessoas que também o faziam. Agora, grupos de tatreez e oficinas estão em todo o lugar. E isso é maravilhoso!”, diz a artista.

Além dessa mudança, ela também alerta para a questão da “comoditização” do tatreez com o passar do tempo. O avanço do bordado industrial abriu a possibilidade para que itens cujo propósito original era o uso pessoal se tornassem objetos a serem vendidos. Isso implicou em diversas consequências, como casos em que peças vendidas com o tatreez não eram acessíveis monetariamente para grande parte das bordadeiras. Apesar da problemática, a artista pontua que “essas questões vêm sendo mais debatidas agora. Mas, se marcas, designers e pessoas que trabalham com bordadeiras não se mostrarem transparentes no processo, não queira comprar com eles”.

Uma obra de destaque da artista é o autorretrato intitulado “Heart Strings” (fios do coração), criado em 2017. Nele, Joanna une a pintura ao bordado para criar uma tela que dialoga diretamente com sua identidade e ancestralidade. Ela conta que já havia feito outros autorretratos nos quais pintou os símbolos do tatreez, mas que “não carregavam a mesma densidade visual do que quando se tem as costuras, de fato, intrincadas na tela”.

“Heart Strings”, de Joanna Barakat. Nele, a artista borda uma figura do tatreez em seu próprio corpo. No fundo, papoulas, flores comuns nas paisagens da Palestina e de outros países árabes [Imagem: Reprodução/Joanna Barakat]

Sobre o processo de criação dessa obra, Joanna detalha que encontrou o símbolo de tatreez escolhido para compor a tela Heart Strings em um livro chamado ‘Arabesques’, escrito por uma pesquisadora têxtil israelense. Sobre o livro, ressalta: “Eu não sei dizer se foi por uma escolha pessoal do autor ou por um impedimento de publicação, mas a palavra ‘palestino’ não aparece no livro uma única vez. Não há nenhum reconhecimento. O tatreez é chamado de ‘bordado árabe’, mas não aborda a existência da população Palestina e o fato de que isso é uma prática indígena desse povo.”

A obra possui uma grande carga simbólica, e, segundo Joanna, realizá-la foi uma forma de reivindicar tanto sua história, como uma mulher palestina, quanto o símbolo empregado, cujas origens foram apagadas do documento no qual era exibido.

“O vestido com tatreez é uma prova das práticas indígenas da Palestina. E, quando se tem um poder ocupante que tenta criar a narrativa de que os palestinos ‘não existem’, você dispõe desses artefatos físicos. Esses vestidos se tornaram um verdadeiro arquivo da história das mulheres palestinas.”

Joanna Barakat

O Tatreez no Brasil

O tatreez acompanhou a diáspora da população Palestina após a fragmentação do território. Com isso, a prática cresceu também em outros países —  com destaque para a Síria e Jordânia —, a partir da atividade de mulheres de origem ou ascendência palestina que seguiram com o legado da tradição. Ao transmitirem seus conhecimentos às suas filhas, elas criaram uma forma de se reconectar com sua ancestralidade e transpor as distâncias e barreiras impostas pela emigração.

Esse é o caso de Rahaf Muhammad Hussein, de 29 anos. Nascida na Síria, de família palestina, Rahaf hoje vive em São Paulo e perpetua as tradições do tatreez ensinadas a ela por sua mãe em sua infância. Ela é fundadora da Yafa Artes, rede na qual comercializa suas artes com o tatreez. O empreendimento é nomeado a partir de uma cidade costeira que foi um dos principais centros da Palestina — e também é o nome dado por Rahaf à sua filha mais velha. 

Além disso, ela também ministra oficinas de bordado palestino organizadas pelo coletivo Ponto Zero do Refúgio em São Paulo. As oficinas acontecem periodicamente e já passaram por diversas unidades do SESC, como Consolação, São Bento, Paulista, Belenzinho, Santana, Taubaté, Campinas e outros. Em entrevista para a Jornalismo Júnior, a artista relatou sobre seu processo de vinda ao Brasil e suas conexões com o tatreez.

Rahaf ministrando uma oficina de bordado no Sesc São Bento
[Imagem: Vinicius de Oliveira/Instagram]

Rahaf veio para o Brasil há 9 anos como refugiada, fugindo da Guerra da Síria. “Aprendi [o bordado] durante a guerra que passei no meu país, a Síria, onde não podíamos sair de casa nem para estudar, nem para nada. Havia muitas dificuldades, como os constantes cortes de energia e a falta de itens básicos. Minha mãe começou a nos manter ocupados para que não sentíssemos medo, e até hoje me sinto segura quando pratico a arte do bordado”, conta.

A artista diz que foi bem recebida no Brasil e que considera o país gentil. No entanto, também ressalta algumas tensões que vivenciou, influenciadas pelos conflitos geopolíticos: “em termos pessoais, fui muito bem recebida, assim como minha cultura. Quando a guerra em Gaza começou em 7 de outubro [de 2023], notei algumas dúvidas e me deparei com situações em que não me senti totalmente à vontade, mas as superei e continuei”.

O tatreez é presente diariamente no cotidiano de Rahaf, e ela revela que o ato de bordar é de extrema importância: “Quando estou feliz, bordo; quando estou triste, também bordo. Quando procuro um presente especial para meus amigos, escolho o bordado sem hesitar. O bordado estimula a minha mente a pensar em algo novo e bonito”.

“[O Tatreez] é definitivamente um bordado que revela a verdade para outras sociedades. Que as pessoas entendam quem são os palestinos, como é a vida deles, o que fazem e como resistem para preservar suas terras.”

Rahaf Muhammad Hussein

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