Por João Zogobi (jvznogueira@usp.br)
Em um estudo do MapBiomas foram coletados dados sobre o desmatamento no Brasil entre 1986 e 2023. Foi indicado não somente um aumento de 163% no número bruto de fragmentos da vegetação nativa brasileira, mas também a diminuição da área dos fragmentos, apontando maior degradação nas últimas décadas.
Além de Cerrado e Mata Atlântica, o bioma amazônico aparece como um dos principais degradados. A organização ressalta que os principais motivos gravitam em torno do avanço da fronteira agrícola, de grandes centros urbanos, desmatamento ou abertura de estradas.
E o que há de concreto?
Séculos mais tarde do início da expansão urbano-agrícola e da fragmentação da mata nativa, as notícias recentes não mostram grandes avanços no quesito da preservação ambiental. Por meio de imagens de satélite e um complexo cruzamento de dados, a organização MapBiomas realizou uma pesquisa que constata o aumento do número de fragmentos de vegetação nativa do Brasil, quantificados a partir de meio hectare.

Desmatamento e Fragmentação
Apesar de serem fenômenos correlatos, há uma importante diferenciação acerca dos processos de desmatamento e fragmentação. Segundo Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e membro da Equipe MapBiomas Fogo, a fragmentação da vegetação nativa é um subproduto do processo de desmatamento e fenômeno definitivo na exposição da mata remanescente aos efeitos mais longínquos da degradação.
O desmatamento é a remoção total da vegetação e substituição por algum tipo de uso da terra, como a pastagem, agricultura ou mineração. Por outro lado, apesar de ser um subproduto do desmatamento, a fragmentação e a degradação causadas por ela acontecem com a vegetação nativa ainda em pé, fragilizando sua estrutura e resiliência.
Dehmerson Conciani, membro da Equipe Mapbiomas Fogo
A organização ainda ressalta que 26 milhões de hectares (5% da vegetação nativa) estão contidos em fragmentos cuja área é menor que 250 hectaresConciani explica que a grande problemática da fragmentação consiste no aumento da dificuldade que o ecossistema possui para se restabelecer de forma natural, isto é, quanto mais fragmentada, a área está mais suscetível à extinção de espécies, menos propensa à colonização de indivíduos vindo de outras localidades, mais exposta a espécies invasoras e mais desprotegida quanto à alteração físico-químico-biológica desse habitat ao entrar em contato com áreas expostas ou não protegidas, o chamado efeito de borda. Apesar da fragmentação aparecer em todos os biomas, os números mais espantosos são do Pantanal e Amazônia, cujo aumento do número de fragmentos é de 350% e 320%, respectivamente.

Outra constatação resultante desses últimos 36 anos de coleta de dados consiste no tamanho das áreas fragmentadas. Segundo o estudo, a área média de um fragmento em 1986 era de 241 hectares, número que reduziu para 77 hectares, o que mostra um desgaste não somente nas áreas anteriormente homogêneas, mas também nas áreas já fragmentadas, “indicando que este fenômeno não é intensificado apenas nas grandes fronteiras do desmatamento, mas também em áreas com uso da terra já consolidado, mas que ainda experimentam a supressão de vegetação nativa ainda que em menor escala”, aponta Conciani.

O que se analisa em cada bioma?
Quando se analisa os dados referentes ao número bruto de fragmentos, Mata Atlântica e Cerrado são líderes. O estudo justifica esse número com diferentes motivos para cada bioma. No caso da Mata Atlântica, localizada na zona litorânea de Natal (RN) até Criciúma (RS), há um aumento justificado pelo crescimento de vegetação secundária em áreas anteriormente prejudicadas. Entretanto, o bioma ainda é degradado e extremamente frágil, com estados como Bahia, Piauí, Rio Grande do Sul e Minas Gerais liderando as estatísticas de desflorestamento. No caso do Cerrado, localizado na parte central do território e abaixo da Floresta Amazônica, a justificativa se dá pelo avanço do desmatamento para áreas de pasto e agricultura monocultora e à divisão de remanescentes da vegetação nativa em áreas cada vez menores.
Pantanal e Amazônia, por sua vez, caminham no mesmo sentido do Cerrado. Ambos apresentaram diminuição no número médio da área dos fragmentos com queda de 80% e 82%, respectivamente.
Bússolas para próximos passos
Os dados acerca do que a vegetação restante aguarda ainda indicam desafios. Até 24% da vegetação nativa restante (135 milhões de hectares) está exposta a pelo menos um fator de degradação, como área de borda, possíveis queimadas e/ou corte seletivo. Essa última, consiste em uma prática que retira árvores selecionadas que possuem grande diâmetro de tronco, altura e valor comercial, ação que prejudica a manutenção e a reprodução da vida do vegetal. Ela está presente em quase 10 milhões de hectares na Amazônia brasileira, sendo que deste número,80% estão concentrados no Mato Grosso e Pará. Entre os dez municípios mais exploradores, todos estão no Mato Grosso, segundo o MapBiomas. O Cerrado é o bioma mais exposto a fatores de fragmentação e desflorestamento em área absoluta (42,6 milhões de hectares) , seguido por Mata Atlântica e Pampa.
No caso amazônico, o distúrbio de dossel e o corte seletivo se mostram protagonistas na exposição do bioma à degradação. O dossel é definido como uma camada superior da floresta, uma espécie de teto, formado pela continuidade e homogeneidade das copas das árvores. Com a degradação dessas árvores, seja por vento, fogo, desmatamento ou corte, percebe-se uma clareira no corpo da floresta, chamado de distúrbio de dossel. No período analisado pela pesquisa (1986-2023), pelo menos 7% da área da Amazônia Legal apresentou esse distúrbio por, pelo menos, um mês de duração até o restabelecimento natural, sendo 2016 o ano com a maior área mapeada com essa problemática, com 4 milhões de hectares afetados.

Breve histórico da luta ambientalista no Brasil
O início do desgaste da vegetação nativa data de quatro séculos e meio antes do início da coleta de dados pela organização MapBiomas, impulsionado pelo extrativismo predatório de recursos naturais que edificou a estrutura colonial brasileira. Desconsiderando qualquer tipo de compreensão ancestral originária sobre o metabolismo da natureza, os colonizadores usurparam os recursos existentes e estabeleceram o lugar que a terra tupiniquim ocupa até hoje na divisão internacional do trabalho: a exportação de matérias primas. De acordo com Bruno de Pierro, da Revista Pesquisa FAPESP, a primeira atitude considerada ecológica e reparadora, nos conceitos da modernidade, ocorreu entre 1861 e 1874 a partir do plantio de 100 mil mudas de vegetação nativa na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, após um grupo de intelectuais convencer o governo do estado de que a seca vivida na época era culpa do desflorestamento causado pela produção de café e carvão vegetal na região.
O entendimento de que a preservação ambiental só seria possível por meio de políticas de Estado é, entretanto, do século XX. Pioneiro na industrialização brasileira, Getúlio Vargas foi também pioneiro ao colocar intelectuais ligados à pesquisas conservacionistas em cargos públicos, aplicando, formalmente, a utilização racional de recursos naturais. Um dos nomes mais importantes desse período é Paulo Campos Porto, responsável pela criação do Parque Monumento Nacional de Monte Pascoal, na região de Porto Seguro, auxiliando na manutenção de fauna e flora locais.
Ainda segundo De Pierro, a grande virada acerca do pensamento ecológico se deu com a publicação de Primavera Silenciosa (1962), de Rachel Carson. Símbolo da influência de Carson no Brasil, o professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e ex-secretário especial do meio ambiente, Paulo Nogueira-Netto, formulou legislações ambientais que tornavam mais rigorosos a produção e descarte de produtos químicos, dificultando possíveis contaminações.
Já na modernidade, Chico Mendes, Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Cristine Takuá e Daiara Tukano se mostram personagens centrais na expansão da visão ambientalista na grande mídia, na luta por demarcação de terras e áreas de preservação, não coincidentemente ligados ao pensamento ancestral-originário.
O que há para ser feito hoje?
Como compromisso assinado em acordos e iniciativas globais como o Acordo de Paris, Desafio de Bonn, iniciativa 20×20 e cúpula da Amazônia, o Brasil estabeleceu como meta a restauração de 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. Estudos indicam que o país conseguiu regenerar/recuperar cerca de 7-10 milhões de hectares desde 2000. Conciani ainda ressalta que conservar a flora ultrapassa motivos unicamente morais, mas “está diretamente relacionada com a quantidade e qualidade de serviços ambientais que a vegetação nativa pode oferecer às populações humanas, como por exemplo a purificação do ar e a geração de água, impactando diretamente nossos modos de vida”.
Imagem da capa: Divulgação Polícia Federal/Agência Brasil
