Jornalismo Júnior

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Emmy, Grammy e Oscar: a falsa inclusão dentre as maiores premiações do entretenimento

A abertura recente dos corpos de votação traz mais diversidade, mas escancara a exclusão histórica dessas instituições
Imagem em preto e branco de artistas segurando troféus. Na ordem: Liniker, Fernanda Torres, Beyoncè, Bad Bunny, Wagner Moura, Walter Salles e Kendrick Lamar.
Por João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br)

Nos últimos anos, as principais premiações do entretenimento americano têm, cada vez mais, voltado a atenção para obras internacionais e projetos realizados por minorias sociais. Pela primeira vez, o Brasil recebeu o prêmio de Melhor Filme Internacional em 2025; Parasita (Gisaeng Chung , 2019) — um filme falado em língua não-inglesa — levou o prêmio de Melhor Filme, principal categoria do Oscar, em 2020. 

No mundo da música, Bad Bunny se tornou o primeiro latino em mais de duas décadas a levar o Grammy de Álbum do Ano em 2026. No ano anterior, Beyoncé levou o prêmio principal pela primeira vez depois de sua quinta indicação na categoria. A televisão brasileira também se mostrou forte no Emmy Internacional em meio à era dos streamings, com a série Ninguém Tá Olhando (2019), da Netflix, e A Ponte: The Bridge Brasil (2023), da Max, que ganharam em categorias de Comédia e Entretenimento, respectivamente.

As premiações, porém, nem sempre foram um espaço aberto para pessoas fora do meio norte-americano e europeu. A mudança dos corpos de votação tem chamado atenção da mídia e dos telespectadores nos últimos anos, visto que diversas “primeiras vezes” estão sendo noticiadas. Mesmo assim, o público tem questionado a postura das academias quando o assunto é diversidade de vencedores  e aceitação de novas gerações de artistas.

A origem das premiações

A primeira premiação criada para reconhecimento de excelência na arte foi na área do cinema. O prêmio da Academia (hoje conhecido como Oscars) teve sua primeira edição em 1929, e contava  com 13 categorias. O intuito inicial era de reconhecer a excelência no campo da sétima arte, segundo a própria Academia, mas diversos veículos apontam que a verdade é outra. 

A história alternativa sobre a fundação da Academia diz que Louis B. Mayer, o diretor dos estúdios MGM — maior estúdio da época — , teve a ideia de criar a premiação como uma forma de juntar todos os trabalhadores da indústria cinematográfica no mesmo lugar dos grandes patrões, para aproximá-los e gerar  um sentimento de inclusão. A iniciativa veio após um período  de crise em Hollywood, em que os escritores, assistentes de câmera e atores se revoltaram contra a  oligarquia das produtoras ao reivindicarem  direitos trabalhistas. 

Hattie McDaniel, primeira pessoa negra a ganhar um Oscar. Na época, em 1940, precisou ser autorizada a comparecer à cerimônia, pois o espaço era somente para brancos [Reprodução/Wikimedia Commons]

Já o Emmy tem uma origem um pouco diferente. O criador da Academia de Televisão, Syd Cassyd, via o meio televisivo como uma possível ferramenta para educação, e não almejava a criação de uma premiação no início de seus planejamentos. Ele encontrou muita resistência para a criação da academia, pois, na época, os cineastas viam a televisão como uma ameaça à popularidade do cinema. 

Na segunda metade da década de 1940, apenas 50 mil lares nos Estados Unidos tinham aparelhos televisivos, o que fez a ideia de criar uma associação nessa área algo não interessante do ponto de vista econômico. Assim, a Academia de Televisão nasce como uma organização sem fins lucrativos, com o intuito de “promover a finalidade cultural, educacional e de pesquisa da televisão”, segundo Cassyd

A premiação em si aconteceu pouco tempo depois, após outros executivos parceiros convencerem Syd que um evento anual traria diversas oportunidades de relações públicas e de melhoria de imagem. A primeira cerimônia, que ocorreu em janeiro de 1949,  reconhecia produções somente da área de Los Angeles, expandindo nacionalmente ao longo dos anos 50, na Era de Ouro da televisão americana.

A história da fundação do Grammy se assemelha às anteriores , mas, para compreender o contexto de iniciação da cerimônia, é preciso entender um pouco do cenário americano na década de 1950 e da luta por direitos civis de pessoas negras no país. 

Em 1954, a Suprema Corte decidiu, no caso Brown contra o Conselho de Educação de Topeka, no estado do Kansas, que era inconstitucional a separação de crianças pretas e brancas nas escolas americanas. A decisão derrubou a política de 1896 que defendia o termo “separados, mas iguais”, que determinava a segregação na área da educação. 

Mesmo sendo um grande passo em busca de uma sociedade mais igualitária, o movimento gerou uma reação negativa de pessoas racistas na indústria. A partir desse momento, nasce o debate sobre “excelência”, o que justificou, mais tarde, a criação de uma Academia para o reconhecimento de destaques  no mundo da música: o Grammy.

Após a Segunda Guerra Mundial, o intelectualismo pós-guerra levantou diversos questionamentos sobre o conceito e o papel de “raça” na sociedade ocidental, devido ao Holocausto. Discussões acerca do anti-racismo, nesse tempo, eram muito focadas na definição de racismo como algo diretamente discriminatório, mascarando a forma como  esse preconceito funcionava como a base para distinção e afirmação de inferioridade feita por brancos.

Nesse mesmo espaço de discussão, diversas estruturas de distinção começaram a surgir, como a definição de Excelência, uma ferramenta posterior ao Caso Brown para um tipo diferente de discriminação racial.

O termo “Excelência” se tornou importante para a compreensão das origens da Academia de Gravação (GRAMMY’S), pois foi criado por pessoas brancas não só para distingui-las de pessoas pretas, mas também para moldar um novo nível hierárquico acima de qualquer meio popular. Esse conceito trazia a ideia de que a desigualdade não era fruto do racismo e do preconceito, mas sim da ineficácia que as pessoas negras tinham em atingir a Excelência, ainda segundo o jornalista John Vilanova

“A missão da Academia de Gravação é reconhecer excelência na artes e na ciência gravadas , cultivar o bem-estar da comunidade musical, e garantir que a música continue sendo parte integral de nossa cultura.”

Texto base da fundação do Grammy, escrito por Stan Freberg

Outro fator essencial para a fundação da Academia foi  a ascensão do Rock n’ Roll, um gênero fundado por pessoas negras, que se tornou extremamente popular na época pós-guerra. Até a primeira entrega de prêmios, em 1959, não existiam categorias de rock. Somente em 1962, Melhor Performance de Rock n’ Roll foi criada, sendo dissolvida em categorias de R&B e Contemporâneo pouco tempo depois. A relação do estilo musical com a premiação foi explorada por Cleber Facchi, crítico musical, em entrevista à Jornalismo Júnior.

A gente tem, no começo dos anos 60, a popularização do Rock n’ Roll, do Blues, do Jazz, que eram estilos interpretados por artistas pretos. A indústria vê nisso um problema, se articula e decide premiar, o que era considerado por eles, a “boa música americana.”

Cleber Facchi

Os Beatles ganharam diversos Grammys nos anos 60, em categorias de R&B e de Música Contemporânea, pois o Rock não era reconhecido [Reprodução/Wikimedia Commons]

Mesmo com o sucesso estrondoso do gênero, as categorias de Melhor Canção Rock e de Melhor Álbum de Rock só foram instituídas em 1992 e em 1995, respectivamente. Artistas destaques no gênero, como a Sister Rosetta Tharpe, fundadora do Rock. nunca foram reconhecidas pelos seus trabalhos, o que provocou um protesto do cantor Little Richard durante a cerimônia de 1988: “Vocês nunca me deram nenhum Grammy. E eu tenho cantado por anos. Eu sou o arquiteto do Rock n’ Roll”, ele afirmou.

A questão internacional 

Desde o ano de 1956, o Oscar premia filmes produzidos por outros países na categoria Melhor Filme Internacional — conhecida anteriormente como Melhor Filme de Língua Estrangeira — e, até o ano 2000, havia premiado somente 3 países não-europeus: Japão, Argentina e Taiwan. Além disso, performances em língua não-inglesa foram pouco reconhecidas pela Academia ao longo da história da premiação, com algumas vitórias, como a mais recente, de Zoë Saldaña, que levou o prêmio de Atriz Coadjuvante por Emilia Pérez (2024).

O maior reconhecimento internacional veio em 2020, quando o filme Parasita levou os prêmios de Melhor Filme; Melhor Direção (Bong Joon Ho); Melhor Roteiro Original (Bong Joon Ho e Han Jin-won) e Melhor Filme Internacional (Coreia do Sul).

Após a vitória de Ainda Estou Aqui (2024) e a indicação de Fernanda Torres, seguida de Wagner Moura no ano seguinte, os olhos da indústria estão apontados para o Brasil. “Tem algo diferente sobre o Brasil: uma febre nacional do Oscar que é exuberante, competitiva e extremamente online”, afirmou o jornalista Michael Schulman, em uma matéria para o veículo americano The New Yorker, sobre a presença brasileira na premiação, intitulada “‘Come to Brazil?’ The Oscars Just Might” (“‘Venha para o Brasil?’ O Oscar Talvez Vá”, em tradução livre)

Outras premiações têm formas diferentes de reconhecer produções internacionais, como o Emmy. A Academia Internacional de Televisão, Artes e Ciências foi fundada em 1969 para reconhecer a excelência em campos televisivos fora dos Estados Unidos em 16 categorias. Apesar da iniciativa, a discrepância entre a premiação internacional e a estadunidense é visível ao analisar o número de categorias e indicações. 

Fernanda Montenegro. A atriz é a única brasileira a ganhar um Emmy Internacional por atuação. Em 2013, levou o prêmio de Melhor Atriz por sua personagem Dona Picucha, em Doce de Mãe (2012) [Reprodução/Wikimedia Commons]

O Emmy Internacional contém categorias como Drama, Comédia, Atriz e Ator, com 4 indicados em cada uma. A premiação é pequena e específica quando comparada com  as mais de 100 categorias do Primetime Emmy (Emmy do Horário Nobre) — que reconhecerem atuações principais e coadjuvantes de homens e mulheres em áreas como Drama, Comédia e Minissérie, com mais de 5 espaços de indicações cada.

Existem também outros prêmios Emmy principais: Emmy do Horário Diurno; Emmy de Esportes; Emmy de Crianças e Família; Emmy de Documentários e de Notícias e Emmy de Tecnologia e Engenharia. Todos focados em produções do país, além das premiações que reconhecem os trabalhos feitos em áreas específicas, como em Los Angeles e em Nova Iorque. 

Já o Grammy premiou artistas internacionais, inclusive brasileiros, em categorias principais desde a sua fundação. No ano de 1965, João Gilberto levou o grande prêmio de Álbum do Ano por Getz/Gilberto (1964), e somente 34 anos depois, o mexicano Carlos Santana repetiu o feito como artista latino vencedor da categoria, com Supernatural (1999). Em 2026, Bad Bunny se tornou, oficialmente, o primeiro e único cantor a ganhar o prêmio por um disco inteiramente em espanhol. 

“Os Estados Unidos vivem hoje com o Governo Trump, onde ele tem uma polícia dedicada para perseguir imigrantes [ICE]. A vitória do Bad Bunny é um esforço coletivo dos votantes em trazer visibilidade para esse disco, que ocupa um espaço importante no Grammy num contexto de tensão política.”

Cleber Facchi

Além das vitórias na premiação estadunidense, existe também uma vertente latina da cerimônia: o Grammy Latino. Fundado em 2000, após uma explosão de música latina no cenário mundial, a Academia decidiu expandir a entrega de prêmios para produções feitas 51% ou mais em línguas ibéricas. Com várias categorias e abrangendo gêneros brasileiros, a nova premiação gera um debate sobre inclusão ou segregação. 

Segundo Cleber, o Brasil merecia ter um Grammy próprio, considerando a diversidade musical do país. De acordo com o crítico, a extensão do prêmio americano é um desdobramento da Academia para justificar a falta de pessoas latinas nas categorias principais da cerimônia original, o que acende um embate sobre a abertura do prêmio, ao mesmo tempo que gera, também, uma redução desses artistas a categorias paralelas.

O ponto de virada

Nos últimos anos, as Academias têm tentado diversificar cada vez mais a composição de seus corpos de votantes. Após décadas de desigualdades acentuadas, cada corpo votante tem se modificado com o intuito de agregar minorias étnico-raciais. O movimento vem depois de inúmeras polêmicas na década de 2010 e anos de críticas.

A primeira Academia a ser profundamente criticada foi o Oscar. Em 2016 a hashtag #OscarsSoWhite (Oscar muito branco, em tradução livre) tomou conta das redes sociais após 2 anos em que somente atores e atrizes brancas foram indicados nas quatro categorias de atuação. Em resposta, a organização disse que iria aumentar a diversidade dos membros,e buscaria adicionar mais mulheres e pessoas negras ao sistema de votos até 2020.

Dez anos depois, o perfil da Academia realmente mudou. Agora, os estúdios têm que preencher certos requisitos de diversidade caso queiram submeter seus filmes para consideração. Esses tópicos incluem representatividade em tela, liderança de grupos minoritários na produção do filme, oportunidades para novos atores, dentre outros. Segundo dados da revista americana Variety, a maioria dos votantes ainda são homens brancos, mas a quantidade de mulheres (35%), de comunidades não representadas (22%) e de estrangeiros (21%) aumentou significativamente em comparação com 2016.

Mesmo com essas mudanças e com diversas indicações, o número de vitórias entre negros, internacionais, mulheres e LGBT’s ainda é bem menor em comparação a outros grupos não minoritários [Imagem: Divulgação/IMDB]

O Grammy teve uma história parecida, um ano depois da cerimônia polêmica do Oscar, em 2017. Para entender a situação atual da premiação, é importante rever o histórico recente da maior categoria da noite: Álbum do Ano. 

Existem diversas maneiras de levar esse prêmio, de forma objetiva, podemos observar três estilos de vitórias da maior categoria da noite, segundo análises do jornalista e criador de conteúdo musical Zachary Hourihane. A primeira maneira de ganhar o maior Grammy da noite, e a mais comum, é a vitória por unanimidade, quando o álbum ganha por ser criticamente aclamado, um sucesso comercial e por ter deixado a sua marca na indústria musical. O segundo tipo de vitória é a de carreira, o prêmio dado pelo conjunto da obra, e não por um álbum em si, mesmo que o disco possa ter sido bem recebido, a carreira ou as injustiças que o artista sofreu em sua vida podem formar uma narrativa de vitória. O terceiro modo de vencer o prêmio é lançando um projeto extremamente bem aclamado, que pode, até mesmo, ofuscar um outro que dominou a cultura comercialmente. 

Há também uma questão circunstancial para a vitória, algo que não é exatamente um jeito objetivo de ganhar e que não está no controle do artista: divisão de votos da academia. Quando vários álbuns do mesmo gênero musical competem entre si, eles costumam “se anular”. Algo nesse estilo ocorreu recentemente, em 2022, quando os votantes da área do Pop tinham diversas opções – como Planet Her (2021), Happier Than Ever (2021) e SOUR (2021) – o que levou à uma valorização de outros votos de gêneros menores (jazz, rock, R&B), o que deu a vitória a We Are (2021) de Jon Batiste.

Em 2015, Beck foi o vencedor da noite, com Morning Phase (2014). O principal concorrente na categoria foi  BEYONCÉ (2013), o álbum visual da cantora de mesmo nome que, segundo diversos críticos musicais e jornalistas, mudou o jeito como os artistas lançam música. A vitória de Beck surpreendeu os fãs da cantora, mas essa conquista não deveria ter sido tão surpreendente assim. O cantor havia lançado um álbum criticamente aclamado, com nota 81 no site de críticas Metacritic

Mas foi na cerimônia de 2017 que a hashtag #GrammysSoWhite (Grammy Muito Branco, em tradução livre), explodiu nas redes sociais e acendeu o debate sobre a falta de representatividade e de justiça na premiação. Naquele ano, Adele levou o prêmio por seu disco 25 (2016), uma vitória pelo viés comercial, visto que o álbum obteve, à época, o recorde de maior número de cópias vendidas em apenas uma semana, com  3.3 milhões de vendas. Um disco tão grande que seria impossível para a Academia ignorar. Entretanto, na questão de impacto e aclamação, havia outro disco extremamente importante naquele mesmo ano: Lemonade (2016), de Beyoncè.

Lemonade mantém, até hoje, uma nota 92/100 atribuída pela crítica especializada, comparado aos 75/100 de 25. Além disso, o disco trata das vivências da cantora como uma mulher negra nos Estados Unidos. A vitória surpreendeu Adele, que subiu ao palco e admitiu que o prêmio deveria ser da outra cantora, alegando que o jeito do qual Beyoncé fez os amigos negros de Adele se sentirem foi algo poderoso, e que o álbum era algo monumental. 

Bad Bunny no Grammy de 2026. Nessa noite, o cantor protestou contra o Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, a polícia americana que ativamente persegue imigrantes [Reprodução/Instagram]

Ao longo dos últimos anos, a Academia se comprometeu a aumentar a diversidade dos membros, e adicionou mais de 4 mil novos membros, priorizando mulheres e pessoas negras. Mesmo assim, em diversos momentos, ficou nítido para a audiência que a premiação ainda não havia chegado a um lugar de igualdade. 

Em 2021, a falta de indicações do cantor The Weeknd surpreendeu o público, pois seu álbum After Hours (2020) foi um dos maiores do ano, com mais de 16 bilhões de streams no Spotify, e a música Blinding Lights era uma forte concorrente a Gravação do Ano. Após essa edição, o comitê secreto da Academia chegou ao fim. Até então, os vinte álbuns mais bem votados pelos membros eram apurados por pessoas desse pequeno grupo, e os álbuns considerados melhores, eram indicados.

Em fevereiro de 2025, após a dissolução do comitê, Beyoncé levou o prêmio de Álbum do Ano. Seu disco, Cowboy Carter (2024) não era o mais popular comercialmente falando, pois concorria com THE TORTURED POETS DEPARTMENT (2024) de Taylor Swift, que vendeu mais de 2 milhões de cópias em sua primeira semana, e também não era o mais aclamado, pois esse era o Brat (2024), de Charli XCX, que conquistou uma avaliação de 95/100 entre os críticos. Há também uma outra questão para a vitória da artista, um tópico discutido anteriormente: a divisão de votos.

Quando muitos discos do mesmo gênero e estilo musical competem entre si, ganha aquele que conseguir “arrancar” votos de votantes distintos. Nesse caso, Beyoncé estava indicada em categorias de Rap Melódico, por SPAGHETTI (2024), Country, por 16 CARRIAGES (2024), e de Americana, por YA YA (2024), o que fez com que ela conseguisse apoio de vários núcleos da Academia.

Em 2026, o cantor Bad Bunny ganhou esse mesmo prêmio com seu disco Debí Tirar Más Fotos (2025), que se destacou em diversos âmbitos: seu álbum era o mais bem sucedido comercialmente, com mais de 10 bilhões de reproduções, o mais aclamado, com uma nota 95 atribuída pela crítica,  e houve, provavelmente, uma divisão de votos no meio pop entre Man’s Best Friend (2025) de Sabrina Carpenter e MAYHEM (2025) de Lady Gaga, eliminando concorrentes fortes e facilitou o caminho para sua vitória. 

Por fim, a Academia de Televisão passou por esse processo no ano de 2021, quando, novamente, a hashtag #SoWhite voltou para os tópicos principais, desta vez em relação ao Emmy, após todos os 12 prêmios de atuação terem sido entregues para pessoas brancas, mesmo após um ano com recordes de indicações de negros e indígenas no mesmo ano. Depois disso, a premiação aumentou o número de votantes, o que totalizou mais de 26 mil, incluindo 45% de mulheres, mesmo que quase 70% ainda sejam brancos. 

A nova era 

Após diversas décadas de entrega de estatuetas, é notável a mudança dessas Academias desde a criação delas no século passado. Diversos novos artistas ganharam prêmios que pareciam impossíveis há apenas alguns anos atrás. Em seu discurso no Grammy de 2025, a cantora Doechii expressou o seu sentimento de conquista e de esperança para futuras rappers negras: “Essa categoria [Melhor Álbum de Rap] foi criada em 1989 e três mulheres já ganharam: Lauryn Hill, Cardi B e Doechii. Eu sei que existe alguma garotinha preta por aí me assistindo e eu quero dizer para vocês que tudo é possível”.

Autumn Durald Arkapaw se tornou a primeira mulher e mulher negra a ganhar um Oscar de Fotografia em 2026, por Sinners (2025)  [Reprodução/Instagram]

Com a chegada do Brasil ao Oscar, as indicações, além de reconhecer o cinema brasileiro,  aproximaram os próprios cidadãos do cinema produzido no país. Em entrevista para a Jornalismo Júnior, jovens universitárias, que não costumam acompanhar premiações, compartilharam suas experiências nos últimos anos com o próprio cinema do país. Para Ariane Oliveira, estudante de Engenharia Metalúrgica, acompanhar o Brasil no Oscar a fez olhar com mais atenção para produções brasileiras. Segundo ela, o problema nunca foi falta de talento, porque o país sempre teve atores e diretores incríveis.

A estudante não é a única que sente isso. Por volta do território nacional, milhões de brasileiros foram ao cinema e começaram a dar mais importância para a indústria do país, e muitas pessoas buscaram, cada vez mais, conhecer a própria cultura.

“Não acompanhei fortemente toda a trajetória de premiações dos últimos dois filmes brasileiros indicados, mas estava na torcida pelo Oscar e, pela primeira vez, assisti à premiação. O sucesso estrondoso de Ainda Estou Aqui me fez olhar para outras obras cinematográficas nacionais que eu não conhecia e nunca tinha assistido.”

Laura Abranches, estudante de Psicologia

*A capa desta matéria usa imagens de divulgação editadas do @goldenglobes (1 e 2), @linikeroficial, GRAMMYs (1 e 2), @latingrammys e RS/Fotos Públicas.

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