Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

‘Copan’: uma carta de amor à curva mais conhecida de São Paulo

No centro da capital paulista, há um mundo inteiro — ou pelo menos o reflexo dele
Por Sara da Franca (saradafranca@usp.br)

Desça na República, siga reto pela Ipiranga, vire à esquerda um pouco após o Edifício Itália e lá está. Morar no edifício Copan, ou ao menos imaginar como é a vida de um dos mais de 5 mil habitantes de uma das mesquitas da Meca do brutalismo brasileiro é algo que, mesmo de forma inconsciente, passa pela cabeça de quem encara o prédio. O desejo desse observador é explorado em Copan (2025), disponível nas salas de cinema nesta quinta-feira (28) após vitória no Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’ em 2025.

Carine Wallauer, em seu primeiro longa como diretora, retrata as entranhas do edifício durante 2022 — o ano da eleição presidencial mais acirrada do Brasil e dos últimos momentos da cineasta como residente no Copan. O documentário vira, então, uma maneira de mostrar as dinâmicas internas do prédio e, através delas, refletir sobre a fragilidade da democracia do próprio país.

E isso é possível porque no número 200 da Avenida Ipiranga existe um “microorganismo vivo”, como dizem os próprios moradores. DJs, camgirls, avós e netos — todos ajudam a construir um universo singular de 32 andares, mas é no retrato dos funcionários que se descobre o cotidiano de quem mantém a curva de pé. 

Conversa-se sobre a política do prédio como quem proseia sobre o voto quando outubro chegar, se a troca do síndico de anos vai acontecer igual o presidente que finaliza o mandato. O debate na reunião de condomínio é tão acalorado quanto o da televisão. Wallauer nos posiciona como observadores disso, semelhante a quem faz uma pesquisa de campo e é intruso à vida alheia, mas nota uma casualidade no caos pré-imaginado.

O cotidiano e as singularidades dos funcionários do Copan são fatores abordados no documentário [Imagem: Divulgação/Vitrine Filmes]

A diretora gaúcha, que também assina a fotografia do filme — ramo em que já é experiente por trabalhos em O Último Dia Antes de Zanzibar (2017) e Irmã (2020) —, faz do que seria possivelmente imaginado como um ambiente brutal e cinza, fruto do estereótipo de São Paulo, um local que ainda consegue carregar o calor do que tem alma. As lâmpadas amareladas dos corredores, dos apartamentos dos moradores que são cool e a luz do sol que bate nos vidros do Café Floresta refletem o aconchego que quem mora no maior conjunto habitacional da América Latina tenta encontrar.

A mesma coloração e luz que sustentam a noção de conforto para os residentes, quando utilizadas nos enquadramentos dos locais de funcionalismo do edifício, nos levam a uma espécie de viagem no tempo. Do escritório do síndico ao estacionamento, é possível perceber um pedaço da capital que ainda lida com administração por meio de papeladas e redes para o descanso dos funcionários, que seguem falando sobre suas cidades natais e o exagero que é São Paulo. Isolado na tela, o prédio parece resistir assim pois construiu seu próprio universo.

Também o som, bem explorado no documentário, muitas vezes como os zunidos que acompanham a vida na cidade grande, é um dos destaques do filme. Contando com trilha sonora original por DJ KL JAY, DJ WILL E DJ KALFANI, a mescla do que é música e do que é ruído representa as diversidades e contradições de viver no ícone do centro da metrópole.

O síndico Affonso Celso Prazeres de Oliveira, que administrou o prédio por 32 anos em meio a diversos questionamentos, faleceu em 2025 [Imagem: Divulgação/Vitrine Filmes]

Mesmo que não tenha sido a real intenção de Niemeyer, mas um interesse econômico do Banco Bradesco, responsável financeiro pela finalização da obra, os diferentes tamanhos de apartamentos oferecidos pelo Copan trouxeram consigo a diversidade social dos moradores e, consequentemente, uma profusão de opiniões sobre a condução do prédio. Contudo, tem mais poder nas escolhas aqueles que detêm maior número de metros quadrados, e assim o filme conota seu paralelismo com o mundo fora das paredes do edifício.

O aspecto político do documentário, que entrelaça o cenário da administração do prédio à situação da então eleição presidencial de 2022, torna-se um detalhe observável mas não necessariamente aprofundado. Por ser um documentário majoritariamente visual, de poucas entrevistas, as discussões entre lulistas e bolsonaristas e a consequente celebração do vermelho em relação aos que estavam trajados com as cores da pátria, são cenas mais “contemplativas” do que críticas incisivas. 

Outros assuntos, como o crescimento de condomínios para Airbnb, são abordados com uma tomada simples na área comercial do térreo do edifício, por exemplo, sem tecer uma abordagem com detalhes sobre o fenômeno.

E é na sensação de excesso de contemplatividade que o filme deixa sua profundidade ser um aspecto relativo. As imagens que relatam o cotidiano, mesmo que particulares à vivência no Copan, são íntimas para quem convive, de alguma forma, com o prédio. Quem apenas se interessa pela sua estrutura observa, mas não tem um sentimento pessoal traduzido na tela.

O Copan conta com 1.160 apartamentos e mais de 70 estabelecimentos comerciais  [Imagem: Divulgação/Vitrine Filmes]

Longe de ser um Edifício Master (2002), onde as histórias dos moradores formam a identidade do prédio, no Copan é o brutalismo do concreto que dá identificação às pessoas que o habitam — “aqui eu me redescobri”, diz uma voz feminina no início do filme. Assim, a misteriosidade do edifício é implícita no longa: o espectador é convidado a estar dentro, mas não necessariamente por dentro do que lá acontece. Essa sensação é reservada aos que, assim como Carine Wallauer, experienciaram as ondas do condomínio.

Copan é, no final de seus 98 minutos, uma carta de amor de quem viveu anos em um microcosmo do próprio Brasil para quem devaneia sobre as dinâmicas da curva mais famosa da Paulicéia. “Uma ficção científica social realista do edifício mais icônico de São Paulo”, como sugeriu o Festival Internacional de Documentários de Copenhagen, capaz de enquadrar um prédio, uma cidade e um país, todos no mesmo espaço brutal.

Copan já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de capa: [Divulgação/Vitrine Filmes]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima