Por Daniel Mota (danielzinhomota@usp.br)
Em 2021, Titane, dirigido por Julia Ducournau, surpreendeu muita gente ao conquistar a cobiçada Palma de Ouro em Cannes. Foi ali que a francesa mostrou toda sua força como cineasta e deixou claro seu comprometimento com a arte. Nesta quinta-feira (14), chega aos cinemas brasileiros sua nova obra, Alpha (2025). Mais uma vez, a diretora expõe seu talento e aprofunda o olhar sobre as transformações do corpo, trazendo emoção e reflexões sobre questões que não são tão pautadas no meio artístico como deveriam.
O filme traz a história de Alpha (Mélissa Boros), uma garota de 13 anos que vive na França dos anos 1980 com sua mãe, Maman (Golshifteh Farahani), uma médica que sempre ajuda quem mais precisa, atendendo pacientes em casa mesmo quando eles são vistos com preconceito pela sociedade. A jovem cresce em meio ao medo de uma epidemia misteriosa, que não é contextualizada. Essa doença faz com que a pele dos afetados seja petrificada, até que pareçam estátuas, frias e afastadas do resto do mundo.

A rotina dessa família sofre uma reviravolta quando Alpha retorna para casa com uma ferida no braço com a inicial do próprio nome, feita com agulhas compartilhadas — algo especialmente arriscado e preocupante naquele contexto de medo causado pela doença viral. À medida que o machucado piora e a menina começa a apresentar outros sintomas suspeitos, seus colegas de escola passam a tratá-la com certo nojo e histeria, receosos de serem contaminados, mesmo sem a confirmação de que ela realmente estivesse doente.
Em meio a esse cenário difícil, o tio Amin (Tahar Rahim) ressurge na vida da família, ainda enfrentando as consequências de sua dependência química. O sofrimento dele, tanto físico quanto emocional, acaba revelando não só as fragilidades daquele lar, mas também a dor de muitos que são deixados à margem da sociedade.
O grande mérito de Alpha está na maneira brilhante como Ducournau transforma o body horror em uma poderosa reflexão sobre a chegada da epidemia de AIDS e o estigma das doenças transmissíveis. A pele se tornando pedra pode ser interpretada como uma metáfora dolorosa e precisa do preconceito vivido na época. O medo irracional que as pessoas tinham do toque, que fez com que outras milhares fossem afastadas e tratadas como perigo, aparece de forma impactante na história.
Os corpos transformados em “pedra”, deixam de ser vistos como pessoas e passam a ser enxergados como símbolos de perigo e julgamento moral, mostrando como a desumanização se tornou parte da experiência daqueles que sofriam com a doença. No meio desse cenário difícil, a figura de Maman, que acolhe e cuida dos doentes em segredo em sua própria casa, faz lembrar os profissionais de saúde e voluntários da vida real, que deram apoio e carinho quando o governo e as próprias famílias escolheram virar as costas.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
O filme conta com um elenco excelente que dá vida à temática política do roteiro. O grande destaque fica para Tahar Rahim, que impressiona com sua entrega física e emocional. Ele dá ao seu personagem uma tristeza profunda, mostrando alguém que enfrentou várias dificuldades: desde a perda de uma pessoa querida, passando pelo abuso de substâncias, até ser vítima da doença que assombrava aquela época. O sofrimento refletido em seu corpo magro se transforma em uma mensagem poderosa sobre o abandono social.
Ao lado dele, Mélissa Boros, em seu primeiro papel no cinema, também brilha. Com uma atuação simples e ao mesmo tempo intensa, ela consegue demonstrar demonstrar os sentimentos de alguém que está entrando na adolescência com o anseio de ter uma vida normal, como de outras pessoas de sua idade, mesmo tendo presenciado inúmeras tragédias na sua curta trajetória. A melancolia de Alpha lembra perfeitamente a icônica frase de Cecilia Lisbon em As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999): “Tá na cara, doutor, você nunca foi uma garota de 13 anos” — um lembrete doloroso de que o mundo adulto raramente compreende o peso que essas jovens podem carregar.
A narrativa em alguns cenários fica um pouco confusa e densa, misturando lembranças e até delírios dos personagens, mas isso também reforça o clima de confusão e desespero de quem vive à sombra de uma doença que ninguém entende direito.
Ducournau foge dos sustos fáceis do terror tradicional e entrega uma história que fala sobre luto, força dos laços familiares e, acima de tudo, sobre como a empatia é fundamental num mundo que, muitas vezes, prefere se fechar para a dor do outro.

Alpha já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Reprodução/IMDb]
