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Ensaio | As muitas versões de Zendaya

Entre personagens complexas e tapetes vermelhos a atriz construiu uma identidade própria dentro e fora das telas

Por Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br)

Aos 30 anos, Zendaya já construiu uma carreira que ultrapassa os limites de um único campo artístico. Sua primeira grande aparição como atriz foi em 2010, aos 14 anos, quando interpretou Rocky Blue na série No Ritmo (2010 – 2013). Desde então, construiu uma trajetória marcada pela capacidade de transitar entre diferentes áreas e públicos: é atriz, cantora, dançarina, produtora, modelo e uma grande referência na moda contemporânea.

Ao longo desses anos, a artista se posicionou diante de questões importantes e lutou por papéis que originalmente não foram escritos para mulheres negras. Paralelamente, sua presença na moda ganhou força e fez com que sua influência ultrapassasse as telas — alcança também os campos da beleza, do comportamento e da cultura. 

Aos poucos, Zendaya conseguiu crescer profissionalmente sem ficar presa à imagem de estrela adolescente que marcou o início de sua carreira. O que começou na Disney Channel ganhou novas dimensões conforme ela conquistou espaço e reconhecimento na indústria, até se tornar uma das personalidades mais marcantes de sua geração.

Era Disney

Nascida no dia 1º de setembro de 1996, em Oakland, Califórnia, Zendaya Maree Stoermer Coleman cresceu em contato com diferentes formas de expressão artística. Sua mãe, Claire Stoermer, trabalhava no California Shakespeare Theater, onde a futura atriz teve seus primeiros contatos com o teatro e começou a frequentar aulas de atuação. Antes de se tornar conhecida na televisão, além de estudar teatro, integrou o grupo de dança Future Shock Oakland e também trabalhou como modelo infantil em campanhas para marcas como Macy’s, Mervyns e Old Navy.

Captura de tela em formato horizontal emulando a interface de um reprodutor de vídeo sobre um fundo azul-turquesa com estampas abstratas em tons claros. O reprodutor possui uma moldura cinza metálica com botões Roxos na parte inferior e uma barra lateral à direita com miniaturas de outros vídeos. Na tela principal de exibição, duas garotas aparecem em um ambiente interno. À esquerda, uma garota loira de tiara preta e blusa rosa com sobreposição estampada sorri enquanto segura um objeto azul. Ao seu lado, a atriz Zendaya, com cabelos castanhos lisos na altura dos ombros, sorri segurando um microfone de brinquedo prateado e azul.
Um ano antes de estrear na Disney, Zendaya participou de um comercial da linha de brinquedos iCarly Fashion Switch Figures ao lado de Stefanie Scott [Imagem: Reprodução/Youtube/@stefaniescott]

Seu primeiro grande trabalho na televisão foi em No Ritmo, exibida pelo Disney Channel. Na série, Rocky e sua melhor amiga, CeCe Jones (Bella Thorne) que sonhavam em se tornar dançarinas profissionais, conseguiam uma vaga como dançarinas de apoio em um programa de televisão. Ao longo de três temporadas, a série abriu espaço para que ambas as atrizes explorassem a dança e o canto. Ao lado de Bella, Zendaya gravou Watch Me e Contagious Love — lançadas na trilha sonora da produção. 

Durante esse período, em 2013, ela também participou do programa de televisão Dancing With The Stars (2005 – presente), no qual competiu ao lado do dançarino Valentin Chmerkovskiy e terminou a temporada em segundo lugar. No ano, Zendaya explorou ainda mais seu lado musical e lançou um álbum homônimo pela Hollywood Records, que estreou na 51ª posição da Billboard 200 — o principal ranking de músicas dos Estados Unidos. 

Capa de álbum musical em formato quadrado com a artista Zendaya em perfil. Ela aparece do peito para cima, com a cabeça inclinada para trás e a boca aberta em um grito ou canto expressivo. Seus cabelos longos e escuros estão soltos e esvoaçantes, projetando-se para o lado esquerdo da imagem. Ela veste uma peça sem mangas de malha perfurada cinza. À direita do seu rosto, há um efeito gráfico de repetição de sua silhueta com linhas horizontais. Sobreposto ao centro da imagem, o nome "ZENDAYA" está escrito em letras maiúsculas vermelhas em fonte clássica serifada.
O álbum é um projeto de electropop com misturas de R&B, dubstep e pop urbano, cujo single principal foi a música “Replay” — que alcançou a 40ª posição na parada americana [Imagem: Reprodução/Spotify]

Dois anos depois, veio a chance de protagonizar outro sitcom na emissora: Agente K.C. (2015 – 2018) A produção, porém, não chegou às telas exatamente como havia sido apresentada inicialmente à atriz. Zendaya negociou mudanças no projeto e pediu para assumir também a função de produtora antes de aceitar o papel. 

Zendaya queria que K.C. fosse uma personagem capaz de inspirar outras meninas e mostrar que elas poderiam ocupar diferentes espaços. Estabeleceu características que fugiam do estereótipo de adolescente que o canal costumava apresentar e defendeu que a família da protagonista fosse central na história, por considerar necessário ampliar a presença de famílias negras no canal. 

“Eu queria ter certeza de que ela não tivesse inclinação artística. Queria que ela tivesse treinamento em artes marciais, que fosse capaz de fazer tudo o que um homem faz e fosse tão inteligente quanto qualquer outra pessoa.”
Zendaya, em entrevista à Vogue

O salto para Hollywood

No intervalo entre a segunda e a terceira temporada de Agente K.C.,  ela foi escalada para interpretar Michelle Jones, mais conhecida como MJ, no longa Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) e então sua sua carreira ganhou novas dimensões. A estreia nas telonas aconteceu enquanto Zendaya ainda estava vinculada à Disney e a colocou em uma das maiores franquias de Hollywood, diante de um público que ia muito além daquele que a acompanhava na televisão. O trabalho, garantiu a expansão de sua trajetória para produções de maior alcance e papéis cada vez mais diversos.

Além da participação na franquia da Marvel, ela também esteve em filmes como O Rei do Show (The Greatest Showman, 2017), no qual contracenou com Hugh Jackman e Zac Efron, e Malcolm & Marie (2021), drama dirigido por Sam Levinson e protagonizado pela atriz ao lado de John David Washington. Esses trabalhos ajudaram a afastar sua imagem de estrela teen da Disney. 

A grande virada na carreira, porém, veio em 2019, quando protagonizou uma produção voltada ao público adulto, a série Euphoria (2019 – 2026), da HBO. Como Rue Bennett, uma jovem que lida com a dependência química e conflitos pessoais, Zendaya assumiu uma personagem complexa e explorou uma faceta mais dramática de sua atuação. 

O desempenho lhe rendeu o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática em 2020, tornando-a, aos 24 anos, a pessoa mais jovem a conquistar a categoria. Dois anos depois, ela recebeu novamente o prêmio e se tornou a artista mais nova a vencer duas vezes a principal categoria de atuação da premiação. 

Paralelamente, sua presença na moda também ganhou força, especialmente a partir das aparições em grandes eventos e da parceria com o estilista Law Roach. Aos poucos, os tapetes vermelhos se tornaram parte importante da construção de sua imagem pública, espaço que ela passou a experimentar diferentes estéticas e a utilizar a moda como forma de expressão.

Camaleoa da nova Hollywood

No início da carreira, Zendaya estava longe de ocupar o espaço que ocupa hoje no universo da moda. Aos 14 anos, quando participou de sua primeira première, do filme Tinker Bell e o Resgate da Fada (Tinker Bell and the Great Fairy Rescue, 2010), ela montou o próprio visual com peças compradas na Target — rede de lojas de departamento norte-americana. 

A chegada do stylist Law Roach à sua trajetória, em 2011, coincidiu com uma fase em que as grandes grifes ainda não a enxergavam como uma aposta para os tapetes vermelhos. Segundo Roach, marcas como Chanel, Saint Laurent, Gucci, Valentino e Dior recusaram pedidos para vestir a atriz, sob o argumento de que ela ainda não estava pronta para elas. 

Diante das recusas, a dupla precisou encontrar outras alternativas. O estilista já trabalhava com peças vintage e mantinha um acervo próprio. Além disso, passou a recorrer a roupas de brechós, lojas de departamento e suas peças do arquivo do para construir os visuais de Zendaya. A dupla passou a olhar para a moda de arquivo não apenas como uma alternativa mais acessível, mas como uma forma de encontrar peças com história e criar combinações menos previsíveis — característica que perdura nas escolhas para os eventos. 

Roach é considerado um dos principais nomes da história recente do styling de celebridades. Ele abriu caminhos para profissionais negros na indústria da moda e foi o primeiro profissional da área a receber o Stylist Award do CFDA.

O estilista já descreveu o processo como uma construção conjunta com Zendaya, na qual ambos trabalham para criar uma narrativa em torno de cada aparição. Ao longo dos anos, suas ideias acompanharam as fases da atriz: dos looks mais juvenis às produções sofisticadas e conceituais que hoje marcam sua presença nos tapetes vermelhos. 

Como explica o jornalista e stylist Paulo Sanseverino, em entrevista ao portal Pepper, a evolução da atriz também alterou a maneira como celebridades podem utilizar a moda na construção de sua imagem. “A Zendaya não se veste apenas para ser fotografada; ela compreende a roupa como uma extensão tridimensional de sua própria arte. Sua evolução mostra como a moda, quando aliada a uma estratégia de imagem, tem o poder de transformar uma jovem atriz em uma potência global incontestável”, aponta.

Essa relação com a moda, no entanto, foi atravessada por casos de racismo. No Oscar de 2015, aos 18 anos, Zendaya apareceu no tapete vermelho usando um vestido branco da Vivienne Westwood e os cabelos em dreadlocks. Durante o programa Fashion Police, a apresentadora Giuliana Rancic afirmou que, por causa do cabelo, Zendaya provavelmente estaria cheirando a “patchouli” ou “maconha”. 

Fotografia em preto e branco com enquadramento duplo na vertical, apresentando uma comparação em plano médio entre uma boneca de brinquedo (à esquerda) e a atriz Zendaya (à direita). À esquerda, a boneca é vista de perfil esquerdo, usando um vestido branco ombro a ombro e brincos de gota com pérola. Seu cabelo escuro está estilizado em longos dreadlocks decorados com anéis metálicos prateados espalhados ao longo dos fios. À direita, Zendaya é fotografada em uma pose quase idêntica de perfil, olhando suavemente para a esquerda com um meio sorriso. Ela veste o mesmo modelo de vestido branco ombro a ombro e brinco de pérola pendente, exibindo longos dreadlocks escuros ornamentados com pequenos anéis metálicos prateados. O fundo de ambos os lados é claro e neutro.
Naquele ano, a Mattel criou uma Barbie inspirada no visual da atriz que, em seu Instagram, afirmou que a boneca tinha um significado especial pois, durante a infância, não encontrava bonecas que se parecessem com ela [Imagem: Reprodução/Instagram: @zendaya]

O episódio se tornou um momento importante na construção de sua relação com a própria imagem. Ao responder às declarações, Zendaya não apenas defendeu sua escolha estética, mas também questionou a forma como características associadas à negritude são frequentemente tratadas como inadequadas ou inferiores em espaços de grande visibilidade. A partir do episódio, a atriz passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante no debate sobre representação e identidade na cultura pop ao longo do seu amadurecimento na carreira e de sua presença pública.

“Isso me fez pensar: ‘Como eu poderia sempre ter um impacto duradouro sobre o que as pessoas viram e se associaram a pessoas negras?'”
Zendaya, em entrevista à revista W Magazine

Suas escolhas passaram a celebrar ainda mais a cultura negra e reafirmar sua identidade de maneira cada vez mais presente, principalmente nos diversos modos de exibir seu cabelo. Diferentes texturas, cortes e penteados ganharam ainda mais força nos tapetes vermelhos da artista. Em 2017, por exemplo, Zendaya apareceu no Grammy Awards com um cabelo black power que remeteu ao visual histórico da ativista Angela Davis e ao símbolo político de movimentos negros dos anos 1960.

Além dessa característica, ela passou a utilizar a estratégia method dressing — em tradução direta para o português, vestir o método — e transformou os tapetes vermelhos em uma extensão das campanhas de divulgação de seus projetos.

“Construímos uma pequena história para cada look, como uma extensão da minha carreira. As roupas me permitem incorporar diferentes facetas, minhas ou de possíveis alter egos, e conhecer essas diferentes mulheres por meio delas.”
Zendaya, em entrevista à revista InStyle

A lógica ficou especialmente evidente nas campanhas de Duna: Parte II (Dune: Part Two) e Rivais (Challengers), ambos de 2024. Durante a divulgação de Duna, a atriz apareceu em visuais que remetiam ao universo futurista e desértico do filme, incluindo o famoso traje robótico vintage de Thierry Mugler. Pouco depois, para Rivais, a estética mudou completamente: quadras de tênis, uniformes esportivos, raquetes e bolas passaram a aparecer nas roupas escolhidas para a divulgação.

Fotografia em plano inteiro e iluminação de evento da atriz Zendaya posando no tapete vermelho. Ela veste um vestido longo e assimétrico com estampa de borboleta monarca, em tons vibrantes de laranja, preto e amarelo, com um ombro só e uma fenda profunda que exibe sua perna esquerda. A atriz está posicionada em pé no centro da imagem, usando salto alto preto fino e com os cabelos presos de forma alinhada para trás. Ao fundo, há um painel vermelho aveludado com letras grandes em dourado e branco onde se lê parcialmente a inscrição do título do filme "THE GREATEST SHOWMAN".
O primeiro grande marco de method dressing de Zendaya ocorreu durante a turnê de divulgação de O Rei do Show quando ela usou um vestido da Moschino, grife italiana, feito para lembrar uma borboleta-monarca e simbolizar sua personagem [Imagem: Reprodução/Instagram: @zendaya]

Com isso, a atriz se tornou uma das principais representantes desse movimento e um pilar na criação das teorias que movimentavam o lado  comercial das produções. Como ocorreu durante a divulgação do filme Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, 2026) na qual ela apareceu em grande parte da turnê com composições em tons predominantemente pretos e com referências à aranhas. O uso contínuo dessa mesma paleta gerou especulações entre os fãs que supunham pistas visuais sobre o destino de sua personagem na trama.

Em 2021, Zendaya foi reconhecida na indústria da moda ao receber o prêmio Fashion Icon do Council of Fashion Designers of America (CFDA), tornando-se, aos 25 anos, a pessoa mais jovem a receber a homenagem. Considerado uma das maiores honrarias da moda, o título reconhece personalidades cujo estilo e impacto cultural contribuíram para influenciar a moda em escala global. No caso de Zendaya, a organização destacou justamente seu impacto internacional e sua colaboração com estilistas emergentes e grandes grifes.

Isso aparece também em trabalhos que antecedem sua consolidação como ícone fashion: em 2013, ela lançou a marca Daya by Zendaya, com propostas de roupas de tamanhos mais inclusivos e peças que não se enquadram apenas em um estereótipo de gênero. Em 2019, colaborou com a marca Tommy Hilfiger em uma coleção apresentada em Paris e posteriormente no Apollo Theater, em Nova York. Atualmente, a atriz mantém parcerias com grifes como Valentino e Bulgari.

Esse percurso ganhou ainda outro marco em 2025, quando Zendaya foi escolhida como uma das anfitriãs do Met Gala, ao lado de Pharrell Williams, Lewis Hamilton e A$AP Rocky, sob a presidência de Anna Wintour. O convite simbolizou o reconhecimento de sua influência no universo da moda: de uma jovem atriz que começou a experimentar sua imagem nos tapetes vermelhos a uma das personalidades convocadas para conduzir o principal evento anual da moda.

Um dos principais nomes da sua geração

Considerada uma das principais It Girls da atualidade, Zendaya conquistou um espaço que ultrapassa as telas e se estende à moda, à cultura e às discussões que mobilizam seu público.

O reconhecimento também vem de quem trabalha ao seu lado. Em uma entrevista para a Vogue, o diretor Denis Villeneuve, com quem a atriz trabalhou em Duna, afirmou que Zendaya é “uma das artistas mais profissionais” com quem já trabalhou e destacou ainda sua precisão, inteligência e generosidade.

Aos 30 anos, Zendaya reúne experiências que começaram ainda na infância e continuam a se desdobrar em diferentes frentes. O que começou com uma menina que dançava, atuava e fazia trabalhos como modelo acabou dando origem a uma artista que se tornou referência dentro e fora das telas — e que ainda parece ter muito a construir.

*A capa desta matéria usa imagens editadas de reprodução do IMDb e do Wikimedia Commons

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