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Netflix | ‘Malcom & Marie’: um filme inteligente, mas chato e arrogante

Malcom & Marie é a prova que erudição e beleza não salvam um filme sem história e repleto de pedantismos

CINÉFILOS
15 jul 2021 | Por Thiago Campolina de Sousa (thiagocampolina@usp.br)

Rodado em preto e branco, o longa Malcom & Marie (2021) do diretor americano Sam Levinson mostra uma briga entre o casal formado por Malcom (John David Washington) e Marie (Zendaya). Ele é um cineasta que acabou de escrever, dirigir e produzir um filme. Ela é uma ex-dependente química, que conseguiu mudar de vida com a ajuda de seu marido.

Tudo se passa em uma elegante casa isolada e os únicos personagens do filme são os dois. Isso já aponta para o fato de que não se pretende contar uma história universal sobre todos os casais. Ao contrário, o intuito aqui parece ser mergulhar na mente de cada personagem. Porém, como se verá, essa tarefa não é cumprida com qualidade. 

No início de Malcom & Marie, vemos o casal voltando da festa de lançamento do novo filme de Malcom. Ele está feliz e põe uma música para comemorar a aclamação que o longa parece ter recebido. Já Marie aparenta estar incomodada, algo que passa despercebido por seu marido egoísta. 

Logo em seguida, é revelado o motivo desse incômodo. No seu discurso de agradecimento, Malcom se esqueceu de agradecer Marie. A partir daí, ou seja, dos primeiros quinze minutos, acontece sempre a mesma coisa: Malcom ofende Marie. Ela dá o troco algum tempo depois. Eles se acalmam e parecem se amar. Até que a barragem se rompe, fazendo com que tudo recomece de novo.

Malcon deitado no colo de Marie. [Imagem: Divulgação/IMDb]

Malcom e Marie em um dos bons momentos do relacionamento, quando se reconciliam. [Imagem: Divulgação/IMDb]

Ainda que Marie afirme que essa é “provavelmente a pior briga que já tivemos”, fica claro que o relacionamento apresenta essa tônica de sobe e desce o tempo todo. E quando não está brigando com Marie, Malcom luta contra si mesmo. São tais lutas, aliás, representadas por intermináveis solilóquios, um dos pontos negativos. 

No aspecto do conteúdo, as reflexões de Malcom até chegam a ser interessantes. Por exemplo, suas falas sobre o cinema americano. Ou então sobre o fato de a crítica considerar os seus filmes como um manifesto político apenas por ele ser um cineasta negro.

A forma como o conteúdo é exposto é que acaba sendo cansativa. Levinson quer tanto trazer dinamismo a essas cenas, através da gritaria e dos gestos extravagantes de Washington, que obtém o efeito oposto. O filme Malcom & Marie corre devagar e de maneira tediosa, até porque também não se vê nenhuma reviravolta. Em tese isso não é necessariamente ruim, mas aqui foi, visto que poderia ter dado ao enredo um pouco mais de vida.

Além disso, a sutileza, característica que vejo como essencial nas grandes obras cinematográficas, é posta de lado. É tão explícita a opinião de Malcom, que fica claro que, na realidade, ela é a de Levinson. É por isso que o filme não consegue penetrar com profundidade na mente do casal. A arrogância dessa exposição leva-nos a crer que o diretor é tão pedante quanto seu personagem. (Talvez seja essa a razão de Malcom menosprezar os críticos: Levinson já imaginava que não seria aclamado por eles e de maneira tenta desmerecê-los.)

Malcom sentado na cama e Marie deitada.[Imagem: Divugação/IMDb]

Essa cena, por meio do uso de espelhos e portas, ilustra bem a impossibilidade de eles se unirem por completo. [Imagem: Divugação/IMDb]

Marie é menos irritante que Malcom, mas em compensação é mais apática que ele, o que é compensado pela beleza e pelo charme de Zendaya. Nesse sentido, ambos os atores não entregam performances excepcionais. Porém, creio que elas sejam condizentes com seus personagens. 

A fotografia em preto e branco constitui um dos pontos positivos de Malcom & Marie, juntamente com a trilha sonora. Composta por músicas soul e R&B, ela é por si só envolvente. Chamo a atenção para seu uso em dois momentos, quando Malcom, e depois Marie, se valem de músicas para expressar o que sentem. 

No final, podemos perceber que eles se amam, disso não há dúvida. Mas eles jamais estarão completamente juntos. Seja algo relacionado a eles próprios, seja algo do mundo externo, alguma coisa os impedirá de se fundirem um no outro.

Assim, ao fim e ao cabo, Malcom & Marie é um filme que vale a pena assistir, especialmente devido ao seu aspecto estético. Mas, a verdade é que falta uma história. Sam parece não ter visto Rain Man (1988) e Sleepers – A Vingança Adormecida (Sleepers, 1996), os principais filmes de seu pai, Barry Levinson. Pois ainda que ele não seja um gênio do cinema, ao menos sabe contar uma boa história. 

Nota do Cinéfilo: 3,5 Bom

Malcom & Marie está disponível aos assinantes da Netflix. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Divulgação/IMDb

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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