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Por trás das IAs: as contradições que sustentam os sistemas

Inteligências Artificiais crescem na atualidade, mas têm estrutura cercada por dúvidas e controvérsias
Montagem de uma aperto de mão entre um robô e um humano rodeado por perguntas sobre tecnologias
Por Nina M. Bozic (ninamilibo@usp.br)

No mês de julho deste ano, a empresa de tecnologia Meta descontinuou, poucos dias após o lançamento, sua nova ferramenta de inteligência artificial de criação de imagens, a Muse Image. O mecanismo seria inovador por permitir que conteúdos de perfis públicos do Instagram, rede social controlada pela corporação, fossem utilizados como referências para as ilustrações por ele criadas. Segundo a empresa, o recurso “não atendeu aos seus objetivos”, conforme o feedback dos usuários – marcado por uma recepção pública negativa e preocupações sobre o uso indevido de imagens pessoais. 

Esses questionamentos não estão isolados. Apesar do crescimento das inteligências artificiais, sua presença levanta muitas discussões. Não se há consenso se seus efeitos são majoritariamente positivos ou negativos nos aspectos ambiental, econômico e social. Esse debate se expandiu com o surgimento de IAs generativas, capazes de “aprender” e criar conteúdos, diferentemente de IAs tradicionais, que apenas processam e organizam informações pré-programadas. Além disso, questionamentos sobre a responsabilidade ética  das empresas e desenvolvedores por trás desses sistemas também levantam preocupações. 

Dano ou proteção ambiental?

Foto de um terreno seco e petrificado pela dessertificação.
Consumo de água por centros de processamento de IA pode gerar secas e até mesmo desertificação de arredores [Imagem: Reprodução/Pexels]

O treinamento e a operação de sistemas de IAs dependem de extensos datacenters (“centros de dados”) para o processamento de informações digitais, os quais exigem grandes quantidades de água para serem resfriados e de energia para operarem. Assim, essas tecnologias demandam muitos recursos naturais, algo potencialmente danoso e esgotante ao meio ambiente. Segundo um relatório produzido pela Universidade das Nações Unidas, até 2030 centros de processamento de dados para IAs irão consumir, anualmente, cerca de 3% de toda a energia produzida globalmente. No cenário atual de crise climática, o consumo excessivo de recursos agrava as condições extremas já enfrentadas.

Foto de máquinas de datacenters lado a lado.
Datacenters reúnem várias máquinas juntas para o processamento de dados
[Imagem: Reprodução/Pexels]

A própria localização dos datacenters também é alvo de controvérsias, já que sua construção pode provocar mudanças profundas onde ocorre. A instalação desses mecanismos pode transformar completamente uma paisagem, por ser capaz de causar secas com o alto consumo de água e aumentar a temperatura ao seu redor com a formação de ilhas de calor. Além disso, seu funcionamento emite altos ruídos, o que dificulta a permanência em seus arredores.

“As empresas instalam datacenters em comunidades rurais, prometendo emprego e melhorias na economia, mas só pioram a crise climática e as condições de vida da região”. 

Tega Brain, artista e engenheira ambiental

Um exemplo de conflitos causados por datacenters é o condado estadunidense de Box Elder, o qual é ameaçado pela instalação de um complexo de produção de energia e de datacenters de processamento de IAs. A iniciativa não prevê o uso de energia limpa, e sua implementação pode ter consequências significativas para a região. Apesar da revolta dos moradores, o projeto segue aprovado e encaminhado.

Os danos ambientais causados pela implementação dessas tecnologias, contudo, têm a possibilidade de serem “recompensados” pelo uso delas para pesquisas voltadas à conservação e ao monitoramento natural. Graças a seus sistemas de processamento, inteligências artificiais podem ser usadas para captar alterações em áreas verdes de forma mais rápida e eficaz do que a ação humana. Dessa forma, esses mecanismos potencialmente são utilizados para estudos e observação da restauração ou da destruição de ecossistemas, auxiliando aqueles engajados em sua preservação. 

Foto aérea de um terrenos asfaltado em meio a uma vegetação com vários veículos estacionados.
O projeto IA-FogoBio, parceria entre o Instituto Clima e Sociedade e a Google, pode auxiliar ambientalistas a localizar e prever incêndios e outros fenômenos de risco na Amazônia [Imagem: Reprodução/Pexels

Além disso, já existem mobilizações para a transformação dos sistemas de IAs para que operem de forma mais sustentável. O ideal de “IA verde”, por exemplo, surge como um princípio para que esses sistemas consumam menos recursos e funcionem de forma mais ecologicamente amigável e eficiente. Projetos que se propõem a seguir essas diretrizes assumem comprometimentos como o de uso de fontes de energia renováveis e de diminuição de suas bases operacionais. Esses ideais, entretanto, seguem pouco aplicados no mercado.

Economia e (des)emprego

Foto do prédio do Google
A Google recentemente anunciou que está alterando seu modelo de negócios para adequá-lo mais para o mercado de IAs [Imagem: Reprodução/Pexels

17% das empresas brasileiras adotaram IAs em 2025, revela a mais recente pesquisa TIC empresas, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Segundo o estudo, o número de corporações usuárias de IAs cresceu consideravelmente em relação a 2024, quando atingia 13%. Esse valor subiu principalmente entre grandes empresas, cujo uso passou de 38% para 50% em 2025.

A economia baseada nessas tecnologias, especialmente aquelas generativas, apresentou aumento acelerado e extensivo nos últimos anos. Segundo pesquisadores do Peterson Institute for International Economics (PIEE), do Canadá, o setor mercadológico voltado às IAs nos Estados Unidos cresceu em 2000% entre 2024 e 2025, sendo o maior avanço econômico já registrado no país. As protagonistas desses crescimentos são principalmente as Big Techs, ou “gigantes da tecnologia”, como a Alphabet (responsável pela Google), a Meta (proprietária de redes como o Instagram e o Facebook) e a OpenAI (encarregada do ChatGPT). 

Apesar dos impactos economicamente positivos dessas tecnologias, parte de seu crescimento é contestado. Tega Brain, artista, engenheira ambiental e professora da Universidade de Nova Iorque (NYU), afirma que o mercado de IAs se trata de uma “bolha econômica”, por consistir em um sistema de grande expansão e aplicação de capital, mas pouco entendimento. Para ela, trata-se de “ um modelo confuso, de pouco lucro. Apenas os mais ricos, os donos e  grandes investidores das empresas, ganham com isso”.

Sua opinião não é isolada. Jamie Dimon, o diretor executivo da organização financeira JPMorgan Chase, alertou, em entrevista para a CNN, para o risco da inflação desse setor acabar eventualmente “estourando”, caso a novidade e o otimismo com a área se decaiam, fazendo com que suas altas ações se desvalorizem. A “quebra” desse mercado prejudicaria não somente seus investidores, como também toda a economia construída ao redor dele.

Além do temor da bolha, há a ansiedade do desemprego. Uma pesquisa divulgada em junho de 2026 pelos institutos Reuters e Ipsos revelou que 53% dos estadunidenses temem perder seus empregos para IAs. Sobre esse receio, o coordenador de divulgação do Centro de Pesquisas em IA da USP (C4AI), Fernando Osório, compara o surgimento dessas tecnologias a outras na história humana: “A automação de elevadores, por exemplo, tirou o emprego do ascensorista. Hoje em dia, temos técnicos de manutenção, funcionários em fábricas para elevadores automáticos. O emprego foi deslocado”. Segundo ele, é comum que avanços tecnológicos substituam funções precárias ou de baixa qualificação, cujos funcionários seriam deslocados para posições de menor risco.

Homem cortando vegetação em meio a terreno queimado.
Osório dá o exemplo de trabalhadores rurais sendo substituídos por maquinário como um caso de avanço tecnológico afetando funções humanas [Imagem: Reprodução/ Pexels

Para o pesquisador, trabalhos de alta qualificação não são ameaçados por essas tecnologias. Ele afirma que funções que demandam conhecimentos aprofundados e o ensino de saberes permanecerão humanas, por dependerem de experiência e vivência nas áreas de atuação. Osório também defende que trabalhadores que possuam um “diferencial – seja o estudo, a capacitação, a formação ou a criação de um espaço próprio”, independentes de inteligências artificiais, não precisam se preocupar.

Sobre a produção artística, Brain e Osório concordam que a arte de qualidade depende da subjetividade humana para existir. Para ambos, a criação humana não pode ser substituída por essas tecnologias, mas deve se aproveitar delas como ferramentas para fazê-la. O professor admite que “existem profissões mais ameaçadas, sim. A IA generativa gera conteúdo, então cargos que dependem da criação de conteúdo – como designers, ilustradores, jornalistas – estão em risco”. Brain afirma que a diminuição da contratação de artistas em prol de IAs se trata de uma escolha humana, dependente da avaliação ética e das preferências administrativas dos contratantes.

Big Techs e o uso real das IAs

Foto de celular com aplicativos de IA abertos na tela.
Tanto Osório quanto Brain criticaram as condutas dos donos das empresas Grok e ChatGPT [Imagem: Reprodução/ Unsplash

Osório aponta para os riscos da concentração de poder para as empresas responsáveis por esses mecanismos. Segundo ele, muitas dessas corporações são motivadas apenas pelo lucro e não consideram questões éticas em suas atividades ou na elaboração de seus produtos. Esse aspecto é especialmente latente nos EUA – onde a maioria dessas organizações está sediada – pela política liberal do país, que o professor afirma seguir a norma de “se está dando dinheiro, ‘vale tudo’”. Sobre seus líderes, ele afirma que “são grandes nomes bilionários, donos de empresas poderosas, cujo padrão ético está muito abaixo do mínimo aceitável”.

A influência social concebida pela força mercadológica dessas corporações e de seus proprietários também é apontada por Osório como um agravante à conduta deles. Por acumularem influência, muitas dessas empresas agem de forma indiferente ou mesmo contrária às regulamentações e normas legais em seus negócios, já que sofrem pouca ou nenhuma consequência. Sobre essa perspectiva, Brain complementa que as grandes corporações constituem monopólios, cuja posição dominante no capitalismo permite que exerçam controle político e social de forma impune. 

Osório menciona a coleta e uso indevidos de informações sensíveis por parte de empresas de inteligência artificial como uma grave falha ética e de responsabilidade. Ele dá exemplos tanto do aproveitamento indevido de dados pessoais de usuários quanto de obras e produções com direitos autorais infringidos pelas IAs. Sobre dados biométricos, afirma que “eles deveriam estar disponíveis apenas para o governo, não para empresas privadas. Isso porque ninguém pode trocar a própria íris ou digital. Se uma base de dados dessa vazar, é um grande risco”.

O pesquisador também defende que grandes empresas de inteligência artificial apresentam claras tendências para a manipulação de propagandas em prol do lucro. O professor, que é especialista em veículos autônomos, dá o exemplo de propagandas com informações distorcidas da empresa Tesla, cujos carros não teriam a capacidade de autodireção por ela divulgada. Nesse caso, a integridade física de motoristas e de pedestres está em risco, sem que estes  saibam.

“Se dá lucro, eles tentam vender. Existe um abuso do poder econômico na elaboração de propagandas”

Fernando Osório, coordenador de divulgação da C4AI

Brain aponta que a manipulação da imagem dessas empresas engloba até a transparência sobre sua forma de operar. Sobre o uso ecológico de IAs, a artista afirma que “apesar das empresas dizerem trabalhar pela proteção climática, a tecnologia não está sendo usada para isso. É uma distração”. Ela participou do artigo “A Very Brief Survey of AI Companies” (Uma Pesquisa Bem Curta sobre Companhias de IA) , que faz parte do livro “Are you a Software Update?” (Você é uma Atualização de Software?), de 2025. Nele, foram investigados os negócios de aproximadamente 17 mil empresas emergentes com o rótulo de “IA”. Segundo ela, apesar do amplo discurso em defesa do meio ambiente, não havia quase nenhuma aplicação voltada à defesa ambiental. No total, apenas 20 empresas foram classificadas como “Engenharia Ambiental” pelo estudo.

Pessoas em manifestação segurando cartazes contra o uso de IAs.
Temores sobre os efeitos negativos das IAs motivam a formação a diversos grupos contrários a essas tecnologias[Imagem: Reprodução/ Unsplash

Ainda sobre as funções das IAs, tanto Brain quanto Osório realçam questões potencialmente positivas, como o monitoramento do clima e da saúde humana. O pesquisador menciona smartwatches, ou “relógios inteligentes”, como importantes avanços no cuidado médico diário. A artista, entretanto, destaca que essas aplicações são  a minoria dos usos, sendo a grande maioria voltada a mercados mais lucrativos, como o de vigilância e de geração de conteúdo. 

Ambos os entrevistados afirmam se preocupar com o uso militar dessas tecnologias. Para Osório, o uso de inteligências artificiais para guiar máquinas com potencial destrutivo e letal, como drones militares, é “inaceitável do ponto de vista acadêmico”. Sobre o assunto, ele menciona a iniciativa “Stop Killer Robots” (Pare Robôs Assassinos), uma campanha global que exige regulamentações legais mais restritivas para a automação tecnológica, em prol do controle humano sobre esses sistemas. 

O uso ético de IAs é possível?

Foto de uma tema de um celular com  uma mensagem de boas-vindas do chatgpt inscrita.
Osório critica a empresa OpenAI e sua plataforma ChatGPT por atitudes antiéticas de seu dono, Sam Altman [Imagem: Reprodução/Pexels

Sobre a existência de inteligências artificiais no geral, para Brain e Osório trata-se apenas de tecnologias como quaisquer outras, com possíveis usos positivos e negativos. Ambos também afirmam que as IAs tradicionais já são parte praticamente inevitável do mundo atual, sendo intrínsecas a sistemas automáticos digitais, e que generativas seguem o mesmo caminho. Entretanto, deixam claro que a forma como elas são aproveitadas ainda pode ser uma escolha.

“A IA tem um lado muito bom, com muitas aplicações e possibilidades positivas, e tem um lado ruim. É como a tecnologia radioativa, por exemplo – ela pode ser utilizada em tratamentos médicos ou para a destruição nuclear.”

Fernando Osório, diretor de comunicação da C4AI

Osório defende que o uso ético e seguro de inteligências artificiais é possível e depende apenas de decisões e princípios humanos. Para o professor, a utilização “positiva” desses mecanismos é baseada em regulamentações rígidas para restringir as aplicações dessas tecnologias, na transparência das empresas que as controlam e na educação dos usuários. Assim, governos, setores privados e sociedade civil se organizam para sustentar um uso correto e sem riscos do espaço digital inteligente.

Entretanto, o próprio pesquisador admite que essa ideia é um “sonho”, principalmente pelo desrespeito à legislação comumente realizado por Big Techs. “Tem gente que acredita e trabalha pela educação e transparência, mas tem muitos que lutam contra. Que sabem que é muito mais fácil agir sem regulamentação, de cometer crimes e permanecer impune”, afirma. Ainda assim, Osório revela acreditar na possibilidade de tornar realidade o uso benéfico de IAs, principalmente através da comunicação entre pesquisadores, ativistas e o público.

Brain, por sua vez, afirma que a grande oposição às IAs provém de trabalhadores, que percebem não se beneficiar dessas tecnologias. A artista afirma que a resistência total a esses mecanismos é difícil e restrita a posições privilegiadas, mas que escolhas individuais ainda podem guiar usuários para utilizá-las da melhor forma possível. As decisões de não utilizar IAs generativas em prol do trabalho humano ou de evitar apoiar empresas antiéticas, por exemplo, podem ser passos nessa direção. 

“As IAs estão em tudo na internet, são quase inevitáveis. Mas ainda há muitas regulamentações e escolhas pessoais que podem evitar o mau uso delas.”

Tega Brain, artista e engenheira ambiental

A capa desta matéria usa imagens editadas de tohamina, rawpixel.com e Flaticon [1, 2, 3, 4, 5 e 6])

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