Por Pedro Mattos (pedromattostr@usp.br)
Aquela sexta-feira parecia não ter fim. Depois da última semana do primeiro semestre da graduação, sem festa ou qualquer outro compromisso, éramos só eu e meus pensamentos, no que parecia mais uma noite de insônia. Peguei meu celular para tentar me distrair e fiquei por minutos, que mais pareciam uma eternidade, rolando o feed do Instagram.
Em meio a vídeos de memes, animais de estimação, dancinhas e curiosidades, um capturou a minha atenção: a rotina de um empreendedor milionário e casado, de apenas 18 anos. A idade do rapaz foi o que mais me impressionou — ele era um ano mais novo do que eu. Cliquei em seu perfil para entender o que ele fazia.
O influenciador era fundador e CEO de uma empresa que vendia “soluções inteligentes” para outros empresários. A empresa conta com sócios na mesma faixa etária que também produziam conteúdo mostrando como eram jovens milionários e financeiramente independentes.
Aquela espécie de nicho da rede social era recheada de discursos meritocráticos e da ideia de que não era preciso fazer uma faculdade ou trabalhar com uma carteira assinada para ter sucesso profissional.
Esses jovens empresários apareciam frequentemente em cortes de podcasts no meu feed, dizendo que “faculdade não dá futuro, o negócio agora é empreender”, e que seus “professores não têm a cabeça aberta, por isso acham que estudar é mais importante”.
O que mais me fascinou foi a afirmação em comum entre eles de que não houve ajuda externa ou berço de ouro: aqueles meninos, “nas mesmas condições que eu”, conseguiram conquistar aquela vida. Fiquei me perguntando se me esforçasse o suficiente e me destacasse, quem sabe eu poderia alcançá-los?
O caminho era difícil: largar minha graduação e meu emprego, usar o dinheiro guardado e começar um negócio, vendendo produtos ou serviços. Se eu acompanhasse mais empreendedores jovens e de sucesso, eu poderia ter inspiração para me destacar.
Naquela noite, antes de finalmente pegar no sono, fiquei remoendo meu passado e meu futuro: filho de feirantes, até os nove anos de idade, sonhava em ser jogador de futebol. A vontade foi abandonada após os sucessivos fracassos em diferentes peneiras na minha cidade natal. No Ensino Médio, surgiu a ideia de me tornar professor de Geografia, o que foi desestimulado pelos meus familiares — mas não por mal, e sim por “preocupação com meu futuro financeiro”. Mesmo assim, estudei, prestei o vestibular e me tornei o primeiro da família a ingressar em uma faculdade pública.
Era uma conquista, mas, diante da tela do celular, comecei a enxergá-la como um atraso. Quando anunciei minha aprovação, meu primo disse que “nem prestava mais tanta atenção no professor da escola, porque qualquer inteligência artificial poderia ensiná-lo o conteúdo em menos tempo”.
No dia seguinte, continuei a me questionar sobre meu futuro, e aquela decisão tão certa tomada durante a escola de repente parecia imprecisa naquele momento — seria loucura deixar tudo de lado e fazer esse investimento de alto risco?
— Acho que vou trancar.
— Como assim? — indagou meu avô, principal companheiro de reflexões durante a minha vida.
— Vi uns meninos, até mais novos que eu, com apartamento e empresa, sem precisar de faculdade. E o pior: todos vieram do zero, sem ajuda de ninguém.
— Do zero? Deixa disso, devem ser de família rica, Rodrigo. A gente tem que estudar e trabalhar; você sabe que as coisas não vêm rápido. E afinal, o que eles vendem para ganhar tanto dinheiro?
— Sei lá, vô, acho que eles vendem serviços… Eu discordo do ponto desses caras, sobre o brasileiro ser preguiçoso e não trabalhar o suficiente, mas vou procurar um emprego e vou juntar um dinheiro para empreender, que nem eles.
Na época, nem me questionei sobre a falta de informações a respeito dos produtos que aqueles tais “empresários” vendiam. Eu queria ser como eles, então só fui atrás de um emprego para juntar uma grana.
Depois de mais quatro meses trabalhando em uma padaria — com o curso trancado — uma oportunidade incrível apareceu na minha timeline: um curso daquele primeiro influenciador sobre como enriquecer do zero, de forma simples e com pouco capital de entrada.

Após gastar mais de 500 reais, o primeiro balde de água fria veio: o conteúdo do curso era sobre como usar Inteligência Artificial para criar e vender um novo curso. Ou seja, o segredo para enriquecer era, basicamente, ensinar outras pessoas a enriquecer — o perfeito esquema de pirâmide.
Depois de mais um tempo, assisti a um vídeo viral que começou a circular nas redes sociais. Ele expunha influenciadores que alugavam imóveis e carros para simular uma vida de luxo e vender cursos falsos sobre como obter sucesso financeiro — contando com a ilustre participação daquele empresário jovem de 18 anos, no esquema que me vendeu um sonho de enriquecimento fácil. Quem eu acreditava que tinha conquistado tudo sozinho e com muito esforço.
Comecei a pesquisar mais um pouco.
Descobri que o rapaz vinha de família rica — até mesmo o discurso de começar do zero era fabricado para persuadir os seguidores e vender, e funcionou comigo!
E então, engoli o sentimento amargo do arrependimento, voltei a estudar e reingressei na minha graduação em Geografia. E apesar das dúvidas, escolhi abandonar a ilusão do caminho mais curto e investir a longo prazo no meu verdadeiro sonho.
*A capa desta matéria usa imagens editadas do Wikimedia Commons, por SSoster (WMB), pela Universidade de Brasília, por Valdoria e por TogoTV

