Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Eleições 2026 | O impacto da relação entre Flávio Bolsonaro e Javier Milei nas eleições

Presidente da Argentina faz alinhamento da extrema direita na América Latina, diz especialista
Na imagem, o candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro
Por Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)*

No dia 25 de julho, Javier Milei (La Libertad Avanza) — atual presidente da Argentina — marcou presença na convenção do Partido Liberal, em São Paulo, que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência do Brasil. Mesmo sem aliança política oficial entre os dois, Milei discursou em espanhol por cerca de 30 minutos sobre suas expectativas positivas para a trajetória de Flávio dentro da República.

Durante seu discurso, Milei ofendeu o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao cantar “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”. O presidente argentino também ofendeu Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ao chamá-lo de “lixo careca”. Moraes barrou uma visita de Milei a Jair Bolsonaro (PL), ex-presidente do Brasil, em julho de 2026. Atualmente, Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, o que, para Milei, é injusto.

Para Neusa Maria Bojikian, doutora em Relações Internacionais e professora na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o ponto de convergência mais evidente entre Flávio e Milei é a forma como ambos interpretam a política: “não como espaço de disputa legítima entre projetos diferentes, mas como um confronto com um campo que se apresenta como defensor da liberdade e outro frequentemente retratado como uma ameaça à sociedade.” 

De acordo com uma pesquisa Quaest que entrevistou 2.004 cidadãos, o apoio de Milei pode ser prejudicial para Flávio. A pesquisa foi feita entre 31 de julho e 3 de agosto, durante a repercussão dos comentários ofensivos proferidos pelo presidente da Argentina ao Brasil.

A maior parte dos entrevistados (34%) afirmou que o conflito aumenta as chances de votar em Lula, enquanto 27% disseram que o conflito aumenta as chances de votar em Flávio Bolsonaro. Outros 17% acreditam que isso leva a votar em um candidato alternativo; 16% responderam que não faz diferença e 6% não sabem ou não quiseram responder.

Na imagem, uma captura de tela sobre a pesquisa sobre o apoio de Milei à Flávio
A pesquisa entrevistou pessoas com 16 anos ou mais. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95% [Imagem: Reprodução/Quaest]

As raízes da crise diplomática

As falas do presidente da Argentina provocaram uma crise diplomática que estava estabilizada há um tempo, de acordo com a professora. Para ela, Milei tornou-se um dos principais protagonistas da direita radical latino-americana e atua como uma espécie de “agente de articulação da direita radical transnacional”.

Segundo Bojikian, a história entre Brasil e Argentina teve desconfianças e rivalidades ao longo dos séculos, mas uma reconciliação foi possível antes da criação do Mercosul (Mercado Comum do Sul). “Os dois países reconheceram que diferenças ideológicas não poderiam prejudicar dois compromissos permanentes: democracia e respeito à soberania”, afirmou. Para ela, essa aproximação foi a mais importante para a política sul-americana no final do século 20.

A professora afirmou ainda que Milei quebra esse padrão, principalmente quando ataca sistematicamente governos eleitos democraticamente. Segundo ela, ao questionar sua legitimidade, o presidente argentino contribui para enfraquecer uma norma essencial para a estabilidade latina desde a redemocratização. “A projeção de Milei ultrapassa a Argentina; ele faz da política externa uma extensão da disputa ideológica travada no plano doméstico”, declarou. Ela concluiu dizendo que essa crise diplomática abre feridas antigas e vai prolongar a volta de uma confiança desenvolvida por anos. 

“A soberania não existe para proteger governos, mas para assegurar a autonomia política dos Estados.”
Neusa Maria Bojikian

Na imagem, a bandeira do Brasil e do Mercosul
O Mercosul é um bloco econômico sul-americano criado em 1991, e trata-se de um dos maiores em produto interno bruto e o maior produtor de alimentos do mundo [Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil]

Bojikian declarou que narrativas de desconfiança em relação às instituições, à imprensa, às universidades e às organizações internacionais fazem parte da relação entre Milei e Flávio. O caso mais recente foi com Flávio, que atacou as urnas eletrônicas em uma reunião que reuniu representantes de quase 50 países e organizações internacionais no final de julho.

O candidato à presidência afirmou que as urnas utilizadas nas eleições brasileiras são de uma empresa venezuelana e que a mesma foi acusada pela Agência de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) de uma suposta fraude nas eleições de 2012. O que não é verdade, pois o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirmou em nota que “Todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país”.

A nota emitida pelo TSE foi a mesma utilizada quando Jair Bolsonaro, pai de Flávio, também criticou o mesmo sistema em que foi eleito em 2018. Durante uma reunião com embaixadores em 2022, Bolsonaro instigou seu eleitorado e outros eleitores indecisos contra o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas ao longo de um discurso. Atualmente, ele está inelegível até 2030 por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Respostas institucionais do Brasil

Após os comentários ofensivos de Milei durante a convenção do PL, o Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para expressar seu descontentamento com a situação. O Ministério das Relações Exteriores, chamado popularmente de Itamaraty, decidiu rebaixar as relações entre Brasil e Argentina para um “encarregado de negócios” — diplomata que assume a chefia de uma embaixada na ausência ou no impedimento de um embaixador titular.

Também por decisão do Itamaraty, Raimondi deve sair do Brasil, mesmo que isso não represente uma expulsão formal. Por outro lado, Julio Bitelli, embaixador do Brasil em Buenos Aires, deve ficar no Brasil, e não voltará para a Argentina até que a situação conflituosa tenha chegado ao fim. 

Em resposta, o governo da Argentina declarou que não vai adotar nenhuma medida institucional e lamentou a ‘decisão unilateral’ tomada pelo Brasil. Pablo Quirno, Ministro das Relações Exteriores da Argentina, afirmou que o Brasil “continua afastando-se do resto da região por questões puramente ideológicas” (em tradução livre).

“O objetivo deixa de ser apenas governar e defender os interesses de seu país e passa a ser também influenciar processos políticos de outras democracias.”
Neusa Maria Bojikian

Na imagem, Nota publicada no perfil oficial da Chancelaria Argentina via X
Nota publicada no perfil oficial da Chancelaria Argentina via X (antigo Twitter) [Reprodução/X @Cancilleria_Ar]

Para Bojikian, se um governo aceita transferência estrangeira que o favorece, ele não terá legitimidade para condenar quando for o oposto, e a soberania apenas funciona quando é consistente, independentemente do alvo. “A normalização ou banalização desse tipo de atitude abre precedentes para que as disputas eleitorais internas sejam cada vez mais atravessadas por esse tipo de atuação”, disse.

A professora contou ainda que não parece possível afirmar de forma clara a relação apresentada entre o discurso de Milei e a alteração das intenções de voto com base nas atuais informações políticas. Ela disse que alterações de intenções de voto resultam na combinação de diversos fatores, porém declarou que “isso não diminui a gravidade; é um fato politicamente preocupante e é possível, sim, que tenha provocado uma reação de parte do eleitorado”.

[Imagem de capa: Bruno Peres/Agência Brasil]

*Esta reportagem foi produzida pela repórter Thaiza Souza sob a supervisão da diretora de redação Gabriella dos Santos.

Na imagem, a régua do especial de eleições 2026 da J.press

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima